A
palavra “igreja”, que aparece nas edições da Bíblia em línguas
modernas, é a tradução de uma palavra grega, eclésia,
que significa “os chamados” e refere-se ao corpo de Cristo. Como
líder deste corpo, Cristo dirige e comanda o que é composto de
muitos membros com diversos dons. Cada membro está conectado diretamente
à cabeça, Cristo Jesus, e desse modo todos os membros desfrutam
da comunhão uns com os outros, por meio de seu relacionamento
com Cristo Jesus.
A eclésia, ou corpo de Cristo,
é um organismo espiritual com existência real, e é um corpo. Por
esta razão, ela nunca deve ser dividida. Assim como o corpo humano
não pode viver se for dividido em partes, o corpo de Cristo também
não pode viver da maneira que Cristo pretendia, se for fragmentado.
Por esta razão, uma igreja dividida não é uma igreja no sentido
bíblico. Entretanto, essa é a condição das igrejas cristãs de
hoje.
Lançando o seu repulsivo tentáculo nos dias de Paulo, a divisão se tornou mais e mais prevalecente depois da morte dos apóstolos. Sob a influência de Roma, o cristianismo tornou-se muito institucional. Ele também captou tendências filosóficas dos gregos e, sob essas influências, o Cristianismo se espalhou por toda parte. Infelizmente, porém, essa expansão foi acompanhada pelo institucionalismo, e este, por sua vez, alimentou o sectarismo, que tem proliferado até os nossos dias.
Felizmente
este problema tem uma solução simples. O conselho de Paulo aos
Coríntios foi que eles se concentrassem em Cristo. Era realmente
simples assim. Paulo lembrou-lhes que era Cristo quem tinha morrido
por eles. Era em seu nome que eles estavam sendo batizados. Por
que, então, deveriam eles ser induzidos a seguir alguma outra
pessoa? Além do mais, eles sabiam e acreditavam que as promessas
de Deus seriam cumpridas por meio de Cristo, o Rei do futuro Reino
de Deus. Eles haviam sido também atraídos pessoalmente a Cristo,
porque ele era amoroso e misericordioso. Por que, então, eles
estavam perdendo isso de vista?
É muito importante notar que
a autoridade, conforme exercida pela eclésia do Novo Testamento
nunca foi do tipo legal ou institucional, como vemos nas igrejas
de hoje. Assim como Cristo antes deles, quem assumia a liderança
entre os primeiros cristãos possuía apenas autoridade celestial
ou espiritual. E essa autoridade era reconhecida apenas porque
era evidente que eles falavam a verdade no poder do Espírito Santo.
Mesmo a autoridade dos apóstolos não era legal ou institucional.
O que eles falaram foi no poder do Espírito Santo de Deus e foi
cumprido apenas por meio da convicção desse mesmo Espírito no
coração dos homens.
Note que este conselho está em contraste direto com o que Jesus disse antes. Quando Pedro usou uma espada para defendê-lo por ocasião de sua prisão, Jesus repreendeu Pedro, e disse: “Guarde a espada! Pois todos os que empunham a espada, pela espada morrerão.”
Qual é a razão para esta aparente
contradição no conselho que Jesus deu nessas duas ocasiões? Aparentemente,
esta é uma declaração profética sobre o que seus seguidores fariam.
Jesus parece estar dizendo que seus seguidores iriam trocar suas
roupas exteriores (capas) por uma espada. Como assim? Bem, conforme
as Escrituras mostram, o vestuário exterior representa a identificação
de um cristão. No Apocalipse 3:18, Jesus exortou sua congregação
a adquirir roupas exteriores brancas. E em Apocalipse 19:8, Jesus explica o que isso significa.
Ele diz: “Foi-lhe dado para vestir-se [isto é, à eclésia, ou igreja]
linho fino, brilhante e puro. O linho fino são os atos justos
dos santos.”
“Quando o imperador Constantino fez do cristianismo
uma religião nacional, usando-o como um instrumento de autoridade
espiritual sobre todo o império, as perseguições sangrentas do
Império Romano finalmente cessaram. Depois disso, o cristianismo
se espalhou rapidamente em todo o território do Império Romano.
Ao se expandir, o Cristianismo desenvolveu a organização que o
tornou a Igreja. E este sistema institucionalizado tornou-se cada
vez mais centralizado, até que finalmente o bispo de Roma se tornou
o pai de toda a Igreja Romana. Desse modo, a autoridade imperial,
conseguindo agora o seu poder tanto por meio da união política
como da união eclesiástica, poderia declarar todos os cidadãos
do estado como cristãos, membros dessa Igreja. Em resultado disso,
a verdadeira natureza da eclésia, como o corpo vivo de Cristo,
perdeu-se dentro dessa igreja, e ela se tornou apenas uma entidade
jurídica, regulamentada pela lei da Igreja, em vez de pelo Espírito
Santo de Deus. Da mesma maneira que as leis do Estado, a fé foi
reduzida a um credo, formulado para os membros comuns da Igreja
e a ser seguido por eles. Aqueles que não aceitassem esse credo
eram punidos, assim como ocorria com aqueles que não obedecessem
à lei.”
Ele prossegue dizendo:
“Quando o cristianismo foi transformado numa instituição
legal desse tipo, não se poderia mais esperar que a comunhão,
ou associação com Deus e Cristo fosse o centro da eclésia. O centro
da fé foi transferido. Ela foi tirada de Deus e de Cristo, uma
união espiritual com Cristo como cabeça da eclésia, e dada ao
governo legal do papa. A eclésia espiritual foi substituída pela
igreja institucional terrestre, cujo centro era o papa. Nesta
igreja, a irmandade dos cristãos não estava mais no corpo de Cristo
que dá vida a todos os que estão em união com ele, e Cristo já
não era a cabeça do corpo, sua Igreja. Com o estabelecimento da
Igreja institucionalizada, a adoração a Deus em espírito e verdade
morreu e foi substituída por rituais e adoração formal. As palavras
em 1 João 2:27 não podiam mais ser aplicadas aos cristãos, pois
João disse: “Quanto a vocês, a unção que receberam dele permanece
em vocês, e não precisam que alguém os ensine; mas, como a unção
dele recebida, que é verdadeira e não falsa, os ensina acerca
de todas as coisas, permaneçam nele como ele os ensinou.”
Esta punição severa impressionava
profundamente as massas, pois rejeitar a crença da Igreja era
considerado o pior pecado que uma pessoa poderia cometer. E assim
os homens foram levados a pensar que era seu dever cristão obedecer
a essas leis e perseguir qualquer um que discordasse.
Outros reformadores também
encontraram nas Escrituras a fonte de toda a verdade. Todavia,
gradualmente a posição das Escrituras como o testemunho inspirado
por Deus da fé pessoal dos apóstolos em Cristo mudou, e se tornou
a fonte do dogma protestante, e o critério da fé aceitável. Substituindo
o papa romano, a Bíblia se tornou o centro do cristianismo nas
igrejas protestantes. Mas, assim como o catolicismo, o protestantismo
tentou fazer uma distinção clara entre a fé ortodoxa e a herética,
e excluir os “hereges” desta nova igreja “purificada”. Aos seus
olhos, só eles tinham a verdadeira fé, e deveriam se opor a todos
os demais, que estavam errados.
Só existe um centro do Cristianismo
– um apenas – e este centro é: associação espiritual com Deus
por meio de Cristo. É apenas isso! Quando existe essa comunhão,
aí está a eclésia. Na ausência dela, não há eclésia. Pode haver
pessoas bem clericais, edifícios suntuosos, dogmas eruditos, doutrinas
e assim por diante, mas se não existir uma verdadeira associação
com Deus por meio de Cristo, não há eclésia. Por outro lado, se
existe essa comunhão com Deus por meio de Cristo, os cristãos
amarão uns aos outros, e eles serão um em Cristo, apesar de certas
diferenças doutrinárias.
Note-se que, por assim dizer, estou só definindo
o contorno. É claro que algo mais estava envolvido, mas estou
falando apenas sobre as coisas principais. Em uma palavra, então,
o cristianismo tem seu centro em nossa comunhão com Deus por meio
de Cristo.
Em
vista disso, nunca devemos fazer das doutrinas o centro de nossa
adoração, muito embora as coisas em que nós são extremamente importantes. É a vida de Cristo e nossa associação
com Deus por meio dele que deve ter sempre o papel central em
nossas vidas. Por exemplo, crer na ressurreição é uma coisa, mas
ter comunhão com o Cristo ressuscitado é outra coisa, completamente
diferente. Existem muitos cristãos que, por um motivo ou outro
não podem apoiar alguma afirmação doutrinária, mas estão firmemente
achegados a Deus, mantendo obediência leal a Ele de coração.
A resposta simples é que não cabe a nenhum de nós fazer esse tipo de julgamento. Na verdade, este é um problema que foi criado, mas que não precisa existir, já que não se pode fazer nenhum julgamento final quanto à fé de uma pessoa neste momento. Se alguém acredita nas Escrituras Sagradas como a inspirada Palavra de Deus e que Ele deu o seu Filho como resgate pela humanidade, isso é tudo o que se requer para a associação simples que podemos ter entre os cristãos, a qual Deus deseja que tenhamos. O estabelecimento de linhas demarcatórias e distinções criadas pelo homem só é importante para as organizações e instituições religiosas. No entanto, a partir do momento em que deixamos de lado esse tipo de coisa, e paramos de achar necessário o julgamento objetivo, nós ainda podemos, na prática real, embora imperfeita, dizer se alguém é um cristão verdadeiro ou não.
A base mais importante para
esse reconhecimento é, obviamente, que essa pessoa aceite Jesus
Cristo como seu Senhor, com a sinceridade de uma vida que demonstra
a liderança dele. Haverá a realidade de amar a Deus e os homens
na experiência prática. É um fato lamentável que milhares e milhares
de pessoas que pertencem a diversas igrejas têm muito pouco amor
para com outros cristãos. Este fato, por si só, põe em dúvida
a alegação delas de serem cristãs, porque as palavras de 1 João
4:8 dizem: “Quem não ama não conhece a Deus, porque Deus é amor.”
Para aqueles que estão habituados à prática
religiosa dentro do ambiente das igrejas institucionais, pode
parecer confuso e muito difícil pensar numa associação cristã
com Deus e com Cristo como algo que ocorre sem uma organização
eclesiástica estabelecida. Todavia, essa ansiedade não é necessária.
O propósito de Deus em estabelecer uma associação com Ele por
meio de Cristo é um fundamento verdadeiro e prático para sua realização.
Nosso problema reside no fato de que temos duvidado da associação
espiritual – com Ele e uns com os outros – que Deus nos deu por
meio de Cristo. Todavia, esse companheirismo provido por Ele é
a base suficiente para a comunhão cristã plena e verdadeira. Naturalmente,
alguns podem duvidar disso porque a associação livre e simples,
tem sido prejudicada e obstaculizada pelo institucionalismo. É
principalmente por esta razão que devemos deixar o poder vivificante
do Espírito Santo nos libertar deste falso eclesiasticismo. Pois
é só dessa maneira que podemos ter a esperança de efetivar a verdadeira
comunhão cristã de que Deus providenciou para nós.
Mas isso não significa que
um cristão pode acreditar em qualquer coisa que ele deseja, e
que qualquer tipo de fé é a fé cristã – em absoluto. Existem fundamentos
que não podemos ignorar. Uma fé viva em Cristo é um elemento essencial.
Reconhecermos nosso Pai Celestial como Todo-Poderoso, como Jesus
fez, é essencial. Aceitar as Escrituras como “uma lâmpada para
os nossos passos e uma luz que clareia o nosso caminho” é outro
requisito essencial. Igualmente importante é uma comunhão viva
com Deus por meio de Cristo. Além disso, nossa conduta deve ser
cristã! Isso é fundamental. Na verdade, todas essas coisas são
essenciais para a fé cristã.
Para resumir, leiamos o que Paulo escreveu aos Efésios, capítulo 4. “Há um só corpo e um só Espírito, assim como a esperança para a qual vocês foram chamados é uma só; há um só Senhor, uma só fé, um só batismo, um só Deus e Pai de todos, que é sobre todos, por meio de todos e em todos.”
Esta verdade básica é reforçada
para nós em Efésios 4:15, 16, e concluo com estas palavras. Paulo
diz: “Antes, seguindo a verdade em amor, cresçamos em tudo naquele
que é a cabeça, Cristo, do qual o corpo inteiro bem ajustado,
e ligado pelo auxílio de todas as juntas, segundo a justa operação
de cada parte, efetua o seu crescimento para edificação de si
mesmo em amor.” Quão maravilhoso isso é! Amém!
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