O desafio de usar a própria consciência ao tomar decisões

(por Daniel Phileleutherus)

“Ser ou não ser, eis a questão”. Um dos epítomes mais usados para classificar a famosa peça Hamlet, de Willian Shakespeare, é “a tragédia da dúvida”. O príncipe da Dinamarca é um retrato fiel do ser humano que agoniza diante das decisões difíceis da vida.

De fato, a maioria das pessoas acha tão difícil tomar decisões que consciente ou inconscientemente acabam delegando esta tarefa a outros, até mesmo nas questões mais importantes de suas vidas. Este é um comportamento extremamente prejudicial para todos os que o adotam, mas ninguém é mais prejudicado por agir assim do que os cristãos.

Quando dedicamos nossa vida a Deus e a simbolizamos pelo batismo, nós concordamos que daquele momento em diante faríamos a vontade de Deus e não mais a nossa própria vontade. (Hebreus 10:7) Devemos a partir daí, em todas as decisões da nossa vida, nos estribar em Jeová Deus, deixar que Ele nos guie em nossas escolhas. Provérbios 3:5, 6 diz: “Confia no Senhor de todo o teu coração, e não te estribes no teu próprio entendimento. Reconhece-o em todos os teus caminhos, e ele endireitará as tuas veredas.” Por que não é sábio nos estribarmos em nossa própria compreensão do assunto ou em nossa própria experiência? Por causa do que diz Jeremias 10:23 e Provérbios 28:26.

Bem sei, ó Jeová, que não é do homem terreno o seu caminho. Não é do homem que anda o dirigir o seu passo”. Jeremias 10:23

Quem confia no seu próprio coração é estúpido, mas aquele que anda em sabedoria é o que escapará”. Provérbios 28:26

E há também aquelas decisões que envolvem outras pessoas. Nós não conseguimos olhar muito além das aparências. Somente o nosso pai celestial e seu filho conseguem enxergar o que as pessoas são no íntimo. (1 Samuel 16:7; 1 Crônicas 28:9; Salmo 7:9; Provérbios 24:12; Atos 1:24; Mateus 9:4, 12:25; Marcos 2:8) Jeová Deus é todo-sábio. Ele vê tudo, enxerga mais a fundo do que qualquer humano e conhece de antemão o desfecho das coisas. (Isaías 46:9-11; Romanos 11:33)

Quando Adão e Eva comeram do fruto da “árvore do conhecimento do que pé bom e do que é mau”, demonstraram que não queriam essa relação com Deus. Conforme a nota ao pé da página 34 da Bíblia de Jerusalém diz: “[...] É a faculdade de decidir por si mesmo o que é bem e o que é mal, e de agir conseqüentemente: reivindicação de autonomia moral pela qual o homem nega seu estado de criatura (conforme Isaías 5:20) O primeiro pecado foi um atentado à soberania de Deus, um pecado de orgulho.” (Bíblia de Jerusalém, p. 34)

Os cristãos dedicados e batizados voltaram espontaneamente a esta relação de dependência de Deus, de deixar que Ele guie os seus passos, de seguir os seus conselhos e orientações em todos os assuntos da vida.

Assim como os israelitas no passado achavam difícil ter uma relação achegada com um Deus invisível e preferiram um rei humano para governar sobre eles, muitos cristãos hoje acham penoso ter uma relação achegada com Deus mediante Cristo Jesus e serem orientados pelo Espírito Santo e por sua Palavra apenas, e escolhem ser governados espiritualmente por um governante humano (ou por um Corpo Governante), permitindo que pessoas tão ou mais imperfeitas do que elas mesmas lhes digam o que é certo ou errado, o que podem ou não podem fazer.

 

Por que um cristão faz isso?

Talvez o motivo principal seja que a maioria das pessoas gostaria que as coisas fossem pretas ou brancas, nitidamente catalogadas para elas como certas ou erradas, mas isso não se dá na Palavra de Deus. A maioria das decisões que temos de tomar envolvem o uso de nossas consciências, e tomar decisões com base na própria consciência pode ser difícil e às vezes torturante. Muitos desistem desse esforço, deixando simplesmente que alguém lhes diga o que fazer, que atue como consciência deles.

Não querer assumir a responsabilidade é a causa primária de muitos cristãos fugirem da autonomia cristã e preferirem a heteronomia, e esta fuga “consiste geralmente em submeter-se a uma fonte que assume a autoridade de tomar decisões pela pessoa, de ser sua consciência, de dirigi-la em suas opções de vida”, conclui Franz. (idem)

 

A diferença entre leis e princípios

Um princípio é uma verdade fundamental, atemporal e de múltiplas aplicações; leis são temporárias e tendem a ser específicas.

Se Deus fizesse da Bíblia um livro de leis e regras específicas, ela não seria prática para todas as pessoas que viveram em todas as épocas da história. Leis que fossem úteis para uma determinada época ou povo seriam inúteis ou impraticáveis em outras épocas e para outras culturas.

Os princípios bíblicos são imutáveis e orientam o homem do século XXI a tomar decisões sábias na sua vida diária assim como orientava o homem do século XV ou do século I.

 

Não é difícil tomar decisões com base em princípios bíblicos

Quando a Bíblia tiver uma lei, uma declaração direta e inequívoca sobre o assunto em questão devemos obedecer a essa lei, confiando na sabedoria divina.

Mas quando a Bíblia não tiver uma lei clara ou uma declaração direta sobre o assunto, apresentando apenas princípios norteadores, a questão cairá no campo da consciência pessoal, e então cabe a cada cristão interpretar e aplicar o princípio à sua situação singular e tomar uma decisão pessoal, usando a sua faculdade de raciocínio. Com a prática todos podem aprender a procurar na Palavra de Deus princípios pertinentes, situações análogas e histórias que trazem vigorosamente à atenção preceitos e lições morais vitais. Poderá tirar proveito também dos modos de vida aprovados, que foram registrados para a nossa instrução. (Romanos 15:4)

Sua decisão não poderá ser julgada ou criticada por outros na congregação, conforme orientação expressa em Romanos 14:1:

Acolhei o [homem] que tem fraquezas na [sua] fé, mas não para fazer decisões sobre questões subjetivas.(Tradução do Novo Mundo)

É nos recomendado, porém, a discrição em nossos assuntos particulares. Visto que a consciência é individual, as decisões de consciência variam de cristão para cristão. Por evitarmos divulgar nossas decisões pessoais, evitaremos fazer nosso irmão tropeçar. (1 Coríntios 8:9-13)  

A discrição é ainda mais importante para alguém que ainda está na organização das Testemunhas de Jeová (alguns motivos justificam essa decisão), mas que já se libertou mentalmente dela. Sendo discretos, podem tomar muitas decisões pessoais, usando sua consciência cristã, mesmo que essas decisões contrariem as leis organizacionais.

Mas as pessoas que as praticaram tomaram uma decisão pessoal, baseado em sua consciência e em seu relacionamento com Deus, e foram discretos, não revelando indevidamente o que fizeram a qualquer pessoa na congregação. Assim, além de não fazerem ninguém tropeçar por causa de sua decisão (1 Coríntios 8:9-13), puderam exercer sua liberdade cristã, mesmo ainda pertencendo a um grupo religioso fundamentalista e autoritário.

 

O medo de errar e ser punido por Deus – É justificável?

Errar numa decisão de consciência poderá trazer sobre nós as conseqüências desagradáveis do erro, mas nunca trará a desaprovação de nosso pai celestial. Por que não? Veja o que diz Romanos 4:15 e 5:13.

“Na realidade, a Lei produz furor, mas onde não há lei, tampouco há transgressão.” – Romanos 4:15 (Tradução do Novo Mundo)

“Pois, até à Lei havia pecado no mundo, mas o pecado não é imputado a ninguém quando não há lei” – Romanos 5:13 (idem)

Aquilo que não foi especificado para ser feito não poderá ser cobrado nem poderá haver punição para o filho que não trabalhou como o pai esperava, embora o pai possa dar-lhe algumas orientações quanto a designações futuras.

Vejamos dois exemplos que ilustram isso.

Por exemplo, José, enquanto escravo no Egito era constantemente assediado pela esposa de seu amo Potifar. Certo dia ela até mesmo tentou leva-lo para sua cama à força. José negou-se a ceder aos desejos de sua patroa e por causa disso, ela armou-lhe uma cilada e acabou colocando-o na prisão. (Gênesis 39:1-20)

Agora veja o caso de Judá. O relato de Gênesis 38:12-19 diz:

“Passaram-se assim muitos dias, e morreu a [...] esposa de Judá; e Judá guardou o período de luto. Depois subiu até os tosquiadores de suas ovelhas [...] e foi comunicado a Tamar [sua nora]: “Eis que o teu sogro está subindo a Timná para tosquiar as suas ovelhas.” Em vista disso, removeu de si as roupas de sua viuvez e cobriu-se com um xale, e velou-se, e assentou-se à entrada de Enaim [...] Quando Judá a avistou, teve-a imediatamente por meretriz, porque encobrira a sua face. Desviou-se assim para ela à beira da estrada e disse: “Permite-me, por favor, ter relações contigo.” Pois não sabia que era sua nora. No entanto, ela disse: “O que me darás para ter relações comigo?” A isso ele disse: “Eu mesmo enviarei um cabritinho do rebanho.” Mas ela disse: “Dar-me-ás uma garantia até o enviares?” E ele continuou: “Que garantia te darei?” ao que ela disse: “Teu anel de chancela, e teu cordão, e a vara que tens na mão.” Entregou-lhos então e teve relações com ela, de modo que ela ficou grávida por ele. Depois ela se levantou e foi embora, e removeu de si o xale e vestiu-se das roupas de sua viuvez.” (Tradução do Novo Mundo)

Muitos leitores da Bíblia acham difícil entender porque não encontramos neste relato nenhuma palavra de desaprovação ou mesmo uma punição da parte de Deus para Judá. Mas a explicação está em Romanos 4:15 e 5:13. Se não havia lei, não houve pecado por parte de Judá.

Jesus Cristo também lançou luz sobre este assunto, e confirmou o que estes dois relatos bíblicos demonstram, que quando a pessoa faz algo errado em ignorância, por não haver leis específicas sobre o assunto ou por desconhecê-las, não pode ser-lhe imputada culpa. Veja o que ele disse:

Jesus disse-lhes: Se fôsseis cegos, não teríeis pecado. Mas agora dizeis: ‘Nós vemos.’ Vosso pecado permanece. (João 9:41)

Se eu não tivesse vindo e falado com eles, não teriam pecado; mas agora não têm desculpa para o seu pecado. Quem me odeia, odeia também o meu Pai. Se eu não tivesse feito entre eles as obras que ninguém mais fez, não teriam pecado; mas agora eles têm visto e têm odiado tanto a mim como a meu Pai. (João 15:22-24)

“Quem se alimenta de leite ainda é criança, e não tem experiência no ensino da justiça. Mas o alimento sólido é para os adultos, os quais, pelo exercício constante, tornaram-se aptos para discernir tanto o bem quanto o mal.“ (Nova Versão Internacional

 

Exercitando constantemente nossa consciência

 O próprio arranjo congregacional (com anciãos, instrutores, pastores etc) foi deixado por Jesus com objetivo de ajudar os novos a crescerem espiritualmente e alcançarem a plenitude cristã. Depois de alcançarem a plenitude do Cristo, eles por sua vez passariam a auxiliar outros novos com o mesmo objetivo, num processo dinâmico de formar cristãos maduros para exercerem sua liberdade cristã plenamente, sujeitos apenas a Cristo e ao seu pai. Veja como a Bíblia deixa claro este processo em Efésios 4:11-16:

E ele deu alguns como apóstolos, alguns como profetas, alguns como evangelizadores, alguns como pastores e instrutores, visando o reajustamento dos santos para a obra ministerial, para a edificação do corpo do Cristo, até que todos alcancemos a unidade na fé e no conhecimento exato do Filho de Deus, como homem plenamente desenvolvido, à medida da estatura que pertence à plenitude do Cristo, a fim de que não sejamos mais pequeninos, jogados como que por ondas e levados para cá e para lá por todo vento de ensino, pela velhacaria de homens, pela astúcia em maquinar o erro. Mas, falando a verdade, cresçamos pelo amor em todas as coisas naquele que é a cabeça, Cristo. Da parte dele, todo o corpo, por ser harmoniosamente conjuntado e feito cooperar por toda junta que dá o necessário, segundo o funcionamento de cada membro respectivo, na devida medida, produz o desenvolvimento do corpo para a edificação de si mesmo em amor. (Tradução do Novo Mundo - O sublinhado é meu)

Na Palavra de Deus vemos, passo a passo, como Deus encontra morada entre nações e famílias de todo estágio de desenvolvimento social e como reconhece seus adoradores fiéis, embora estes passem despercebidos até mesmo dos profetas. A Bíblia nos mostra em seu registro perdurável, toda a condição e o poder do homem quando este é abençoado pelo Espírito Divino. Ela nos tira do círculo das influências diárias e nos apresenta a profetas e reis, a pensadores profundos e pregadores da justiça, trabalhando em suas respectivas esferas de várias maneiras, mas guiados pela mesma força e pelo mesmo objetivo.

Devemos também fazer da meditação e da oração um hábito regular em nossas vidas. Ao refletirmos sobre preceitos bíblicos, consideramos como esses poderiam se aplicar a situações específicas, e aos enfrentarmos questões difíceis, oramos a Deus pedindo ajuda para encontrar a orientação necessária. O Espirito Santo nos ajudará a lembrar úteis princípios bíblicos que já lemos na Bíblia. (Salmo 25:4, 5)

 

Enfrentar as incertezas faz parte do processo de tomar decisões

 

Há muitos que, em virtude de passividade, dependência, medo e preguiça, buscam quem lhes mostre cada polegada do caminho e quem lhes prove que cada passo será seguro e proveitoso. Isto é impossível, pois a jornada do crescimento espiritual exige coragem, iniciativa e independência de pensamento e ações. (OPUS CITATUM, FRANZ, 2002, p. 640)

Não duvidou da promessa de Deus, por incredulidade; mas, pela fé, se fortaleceu, dando glória a Deus, estando plenamente convicto de que ele era poderoso para cumprir o que prometera. (Romanos 4:20-21)

 

Conclusão

Então, procure usar suas faculdades mentais e tomar decisões em harmonia com a Palavra de Deus hoje. Assim, nos dias que virão, você colherá os frutos positivos das escolhas sábias que fez.  

 

 REFERÊNCIAS:

A Bíblia – Tradução Ecumênica. Edições Loyola e Paulinas: São Paulo, 1995.

Tradução do Novo Mundo das Escrituras Sagradas. Associação Torre de Vigia. Tatuí-SP, 1986. Todas as citações bíblicas que não especificam a tradução são da TNM.

A Bíblia Viva. Segunda edição. São Paulo: Mundo Cristão, 2002.

Bíblia de Jerusalém. Edições Paulinas: São Paulo, 1973.

FRANZ, Raymond V. In search of Christian Freedom. Commentary Press: Atlanta, EUA, 2002.

Bíblia Sagrada. Nova Versão Internacional. São Paulo: Editora Vida, 2000.

Revista A SENTINELA, 15.10.97, p. 28. Associação Torre de Vigia de Bíblias e Tratados. Tatuí-SP.