Textos Primitivos que Mencionam a Celebração da Morte de Cristo

Além do Novo Testamento, os cristãos primitivos escreveram muitos outros textos, os quais, mesmo não sendo inspirados por Deus, podem servir de ótima referência para se estudar o desenvolvimento do Cristianismo, em especial o ramo que é comumente chamado de "Ortodoxo". O estudo dessa vasta literatura é chamado de "Patrística".

O objetivo desta página é destacar apenas o que foi escrito sobre a Comemoração da Morte de Cristo e comentar o que for pertinente. Com o tempo, poderemos incluir mais textos além dos que estão abaixo.

 

DIDAQUÉ - A DOUTRINA DOS 12 APÓSTOLOS

Este documento foi descoberto em 1873 pelo Monsenhor Filoteo Bryennios de Nicomédia, ao vasculhar o acervo do mosteiro do Santo Sepulcro, em Constantinopla. É um manuscrito datado de 1056. Mas sabe-se que o texto original remonta ao final do primeiro século, por causa de suas informações internas e das diversas referências a ele em outros manuscritos mais antigos, sendo que alguns deles o citam textualmente. - Padres Apostólicos (1995), ed. Paulus, p. 335.

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Celebrem a Eucaristia deste modo:

Digam primeiro sobre o cálice: "nós te agradecemos, Pai nosso, por causa da santa vinha do teu servo Davi, que nos revelaste por meio do teu servo Jesus. A ti a glória para sempre".

Depois digam sobre o pão partido: "nós te agradecemos, Pai nosso, por causa da vida e do conhecimento que nos revelaste por meio do teu servo Jesus. A ti a glória para sempre".

Do mesmo modo como este pão partido tinha sido semeado sobre as colinas, e depois recolhido para se tornar um, assim também a tua Igreja seja reunida desde os confins da terra no teu reino, porque tua é a glória e o poder, por meio de Jesus Cristo, para sempre".

Ninguém coma nem beba da Eucaristia, se não tiver sido batizado em nome do Senhor, porque sobre isso o Senhor disse: "Não dêem as coisas santas aos cães".

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Depois de saciados, agradeçam deste modo:

Nós te agradecemos, Pai santo, por teu santo Nome, que fizeste habitar em nossos corações, e pelo conhecimento, pela fé e imortalidade que nos revelaste por meio do teu servo Jesus. A ti a glória para sempre.

Tu, Senhor Todo-poderoso, criaste todas as coisas por causa do teu Nome, e deste aos homens o prazer do alimento e da bebida, para que te agradeçam. A nós, porém, deste uma comida e uma bebida espirituais, e uma vida eterna por meio do teu servo.

Antes de tudo, nós te agradecemos porque és poderoso. A ti a glória para sempre.

Lembra-te, Senhor, da tua Igreja, livrando-a de todo mal e aperfeiçoando-a no teu amor. Reúna dos quatro ventos esta Igreja santificada para o teu reino que lhe preparaste, porque teu é o poder e a glória para sempre.

Que a tua graça venha, e este mundo passe. Hosana ao Deus de Davi. Quem é fiel, venha; quem não é fiel, converta-se. "Maran atá". Amém.

Notas:

1 - "Eucaristia", do grego eucharistía, é resultado da combinação do advérbio grego eu (bom, bem) com o substantivo Charis (gratidão, agradecimento), significando então uma "ação de agradecimentos" ou "ação de graças". A forma verbal desta palavra se encontra em 1 Coríntios 11: 23-25, que diz: "O Senhor Jesus, na noite em que ia ser entregue, tomou um pão, e, depois de ter dado graças [eucharisteo], partiu-o e disse: 'Isto significa meu corpo em vosso benefício. Persisti em fazer isso em memória de mim.' ". É por esta razão que, com o tempo, a Celebração passou a ser conhecida pelos cristãos antigos pelo nome de Eucaristia. - Dicionário Expositivo de Palavras do Velho e do Novo Testamento, de W. E. Vine, Thomas Nelson Publishers; Dicionário do Grego do Novo Testamento, de Carlos Rusconi, ed. Paulus.

2 - "Igreja" é a tradução da palavra grega eclésia, que também pode ser vertida por "congregação".

3 - "Hosana" vem do grego hosanna e do hebraico hoshi'ah-nna, que podem também ser traduzidos por "salva, rogamos!" ou "salve-nos, por favor!" - Dicionário Aurélio Século XXI ; Mateus 21:9, Tradução do Novo Mundo com Notas Marginais [TNMmg], nota do versículo.

4 - Maran atá é uma expressão aramaica que significa "Nosso Senhor está vindo" ou "Vem, nosso Senhor!" (dependendo de como é transliterado). Ela também foi utilizada pelo apóstolo Paulo em 1 Coríntios 16:22, quando disse: "Se alguém não tiver afeição pelo Senhor, seja amaldiçoado. Vem, nosso Senhor! [Maran atá]". - TNMmg, nota.

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Reúnam-se no dia do Senhor para partir o pão e agradecer, depois de ter confessado os pecados, para que o sacrifício de vocês seja puro.

Aquele que está de briga com seu companheiro não poderá juntar-se a vocês antes de ser reconciliado, para que o sacrifício que vocês oferecem não seja profanado.

Esse é o sacrifício do qual o Senhor disse: "Em todo lugar e em todo tempo, seja oferecido um sacrifício puro, porque eu sou um grande rei, diz o Senhor, e o meu Nome é admirável entre as nações".

Ib., pp 357, 358

Conforme pode ser observado no texto acima, não participar da Comunhão poderia ser uma medida disciplinar para aquele cristão que estive "de briga com seu companheiro", o que pode ser entendido como sendo aquele cristão que não estava levando a vida de acordo com os princípios do Senhor, causando atritos desnecessários na congregação. A ele era dada a seguinte recomendação: "Confesse as suas faltas na reunião dos fiéis, e não comece a sua oração com má consciência." (Item 4 da Didaqué). Este entendimento é confirmado por outros escritos cristãos antigos. Foi daí que surgiu o termo "excomunhão". Aos pecadores deliberados e recorrentes não era permitida a participação na Ceia do Senhor.

Referente à Celebração da morte de Cristo, os compiladores desta edição da Didaqué disseram o seguinte:

"A Eucaristia aqui mencionada diverge bastante do rito eucarístico que hoje conhecemos. Talvez não existisse uma fórmula fixa de celebração. O texto deixa claro que a Eucaristia era celebrada dentro de uma refeição comum, que podia ser participada unicamente dos batizados, isto é, por aqueles que, após instrução, se haviam comprometido com o projeto de Jesus."- Padres Apostólicos (1995), ed. Paulus, p. 353.

Portanto, não é necessário sermos contra o nome Eucaristia pois, conforme admitido no livro acima, o ritual que hoje a Igreja Católica também chama de "Eucaristia" é bem diferente daquele executado nas primeiras comunidades cristãs, o qual era bem parecido com o que fizeram os apóstolos na última ceia com Cristo, durante a Páscoa judaica.

 

APOLOGIA I, DE JUSTINO DE ROMA

Justino foi um homem que nasceu por volta do ano 100 EC e que se converteu ao Cristianismo aproximadamente em 132. Por causa de certas referências históricas que ele menciona em sua obra com certeza ela foi escrita entre 147 e 161 EC. - Justino de Roma (1995), ed. Paulus, pp. 9, 13.

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De nossa parte, depois que assim foi lavado aquele que creu e aderiu a nós, nós o levamos aos que se chamam irmãos, no lugar em que estão reunidos, a fim de elevar fervorosamente orações em comum por nós mesmos, por aquele que acaba de ser iluminado e por todos os outros espalhados pelo mundo inteiro, suplicando que se nos conceda, já que conhecemos a verdade, ser encontrados por nossas obras como homens de boa conduta e observantes do que nos mandaram, e assim consigamos a salvação eterna. Terminadas as orações, nos damos mutuamente o ósculo da paz. Depois àquele que preside aos irmãos é oferecido pão e uma vasilha com água e vinho; pegando-os, ele louva e glorifica ao Pai do universo através do nome de seu Filho e do Espírito Santo, e pronuncia uma longa ação de graças, por ter-nos concedido esses dons que dele provêm. Quando o presidente termina as orações e a ação de graças, todo povo presente aclama, dizendo: "Amém". Amém, em hebraico, significa "assim seja". Depois que o presidente deu ação de graças e todo povo aclamou, os que entre nós se chamam ministros ou diáconos ["servos ministeriais", TNM] dão a cada um dos presentes parte do pão, do vinho e da água sobre os quais se pronunciou a ação de graças e os levam aos ausentes.

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Este alimento se chama entre nós Eucaristia, da qual ninguém pode participar, a não ser que creia serem verdadeiros nossos ensinamentos e se lavou no banho que traz a remissão dos pecados e a regeneração e vive conforme o Cristo nos ensinou. De fato, não tomamos essas coisas como pão comum ou bebida ordinária, mas da maneira como Jesus Cristo, nosso Salvador, feito carne por força do Verbo de Deus, teve carne e sangue por nossa salvação, assim nos ensinou que, por virtude da oração ao Verbo que procede de Deus, o alimento sobre o qual foi dita a ação de graças - alimento com o qual, por transformação, se nutrem nosso sangue e nossa carne - é a carne e o sangue daquele mesmo Jesus encarnado. Foi isso que os Apóstolos nas Memórias por eles escritas, que se chamam Evangelhos, nos transmitiram que assim foi mandado a eles, quando Jesus, tomando o pão e dando graças, disse: 'fazei isto em memória de mim, este é o meu corpo". E igualmente, tomando o cálice e dando graças, disse: "Este é o meu sangue", e só participou isso a eles. É certo que isso também, por arremedo, foi ensinado pelos demônios perversos para ser feito nos mistérios de Mitra; com efeito, nos ritos de um novo iniciado, apresenta-se pão e uma vasilha de água com certas orações, como sabeis ou podeis informar-vos.

Ib., pp. 81, 82, colchetes acrescentados.

Os organizadores dessa edição da Apologia dizem sobre este comentário final (e aparentemente desnecessário) de Justino:

"[Mitra:] deus do antigo Irã. Seu nome significa 'contrato'. Mestre dos rebanhos bovinos. É um deus solar e salvador escatológico. Seu culto se difundiu pelo mundo helenístico e romano. Para participar de seu culto 'de mistérios', passava-se por uma iniciação de sete graus. Sua festa era celebrada aos 25 de dezembro e está na origem do Natal cristão." - Ib., p. 82.

De maneira semelhante ao que é dito na Didaqué, somente podem participar da Eucaristia aqueles que "vivem conforme o Cristo nos ensinou". Sendo assim, as antigas comunidades cristãs podiam usar essa norma como sanção disciplinar para aqueles que persistentemente praticavam o pecado e não respeitavam a lei do Cristo. Ser deixado fora da Comunhão foi o que gerou o termo "excomunhão". Mas este conceito já estava implícito em 1 Coríntios 5:9-11, quando o apóstolo Paulo disse:

"Eu vos escrevi na minha carta que cesseis de manter convivência com fornicadores, não querendo dizer inteiramente com os fornicadores deste mundo, ou com os gananciosos e os extorsores, ou com os idólatras. Senão teríeis realmente de sair do mundo. Mas, eu vos escrevo agora para que cesseis de ter convivência com qualquer que se chame irmão, que for fornicador, ou ganancioso, ou idólatra, ou injuriador, ou beberrão, ou extorsor, nem sequer comendo com tal homem."

Sendo a celebração da morte de Jesus Cristo uma refeição em comum, na qual participavam os irmãos, os pecadores descritos por Paulo não podiam fazer parte dela, mesmo ainda sendo considerados membros da comunidade cristã. Sim, eles não eram ostracizados pela congregação, como se faz na desassociação praticada pelas Testemunhas de Jeová. Foi por isso que Paulo disse que tais indivíduos ainda eram 'chamados de irmãos' e 'estavam dentro' da congregação passíveis de julgamento, o que não podia suceder com os que 'estavam fora', ou seja, aqueles que não eram cristãos. Esta conclusão está em harmonia com o que Paulo disse em outra ocasião:

"Mas, se alguém não for obediente à nossa palavra por intermédio desta carta, tomai nota de tal, parai de associar-vos com ele, para que fique envergonhado. Contudo, não o considereis como inimigo, mas continuai a admoestá-lo como irmão." - 2 Tessalonicenses 3:14, 15.

Por serem pecadores inveterados esses irmãos fracos na fé eram privados de uma associação regular com os outros irmãos e estavam terminantemente proibidos de comparecer à Refeição da Noturna do Senhor - estavam, por assim dizer, excomungados. No entanto, o errante podia retroceder de seu caminho mau e voltar a compartilhar da celebração eucarística. E se algum irmão se sentisse qualificado para ajudá-lo, ele podia fazer isso, conforme Tiago 5:19 nos mostra:

"Meus irmãos, se alguém entre vós se desencaminhar da verdade e outro o fizer voltar, sabei que aquele que fizer um pecador voltar do erro do seu caminho salvará a sua alma da morte e cobrirá uma multidão de pecados."

 

Paulo se refere ao mesmo tipo de pessoas em 1 Coríntios 5:9-11 e 2 Tessalonicenses 3:14, 15?

As expressões "cesseis de ter convivência" (1 Cor. 5:9-11) e "parai de associar-vos" (2 Tes. 3:14, 15) são exatamente as mesmas no grego original (me sy·na·na·mí·gny·sthai). Portanto, o apóstolo Paulo está falando do mesmo assunto nessas duas cartas. Suspeitamos que essas duas passagens estão traduzidas de forma diferente na Tradução do Novo Mundo com o intuito de induzir o leitor a pensar que Paulo se refere a duas situações diferentes. Tal procedimento, além de lamentável em si mesmo, contradiz o que os tradutores da TNM disseram certa vez:

"Sendo [a Tradução do Novo Mundo] literal, demonstra-se também fidelidade no que diz respeito à tradução. Isso exige uma correspondência quase palavra por palavra entre a forma de traduzir para o inglês e os textos hebraico e grego.... Houve desvios ocasionais do texto literal com o fim de transmitir, em termos inteligíveis, as difíceis expressões idiomáticas do hebraico ou do grego." - Toda Escritura é Inspirada por Deus e Proveitosa, p. 326.

Realmente temos observado que a TNM costuma traduzir determinada palavra do grego sempre pela mesma palavra em inglês (ou português), diferente de outras versões que traduzem uma mesma palavra em grego por diversas palavras (sinônimas) em português. A proposta da TNM é, em princípio, mais lógica, pois se o escritor original quisesse usar diversos termos sinônimos ele teria feito isto, porém sempre usou a mesma palavra. Mas o que gostaríamos de destacar é que os tradutores da TNM deixaram bem claro que se eles não seguissem este princípio e causassem um "desvio ocasional" é porque estavam interpretando o versículo e reescrevendo-o de outra maneira, a fim de que ele se tornasse "inteligível" para o leitor. Mas note que eles disseram que fariam isso apenas em casos absolutamente necessários referentes à "difíceis expressões idiomáticas do hebraico ou do grego." Mas este nem de longe é o caso de 1 Coríntios 5:9-11 e 2 Tessalonicenses 3:14, 15. Certamente a intenção dos autores da TNM foi forçar uma distinção (que não existe) entre esses dois textos, pois perceberam que eles contradizem o tipo de excomunhão que a Torre de Vigia inventou, chamada de "desassociação".