Testemunha Sob Acusação

 


Artigo original em inglês, 155 Kb, jpeg

 

Artigo da revista “Time” publicado em 22 de fevereiro de 1982, p. 66 (ou p. 52, na edição para a América Latina)

 

Uma seita secreta e apocalíptica evita um ex-líder

 

Por 40 anos, Raymond Franz devotou-se por inteiro às Testemunhas de Jeová. A religião respondeu elevando-o ao topo, como membro do seu Corpo Governante mundial. Mas esse foi um período difícil para a liderança. Em 1975, a seita enfrentou um abalo: o mundo atual não desapareceu, como as publicações das Testemunhas haviam praticamente garantido. Numa fé em que a dúvida não é tolerada, surgem inevitavelmente questões nas mentes de alguns fiéis. Gradualmente, Franz começou a questionar outros ensinos, e agora, numa queda tão dramática como uma excomunhão dentro do Colégio de Cardeais, ele foi ostracizado, ou como as Testemunhas dizem, “desassociado”. O resultado é que o ex-líder está sendo evitado por quase todas as pessoas com quem ele já trabalhou, cortado dos contatos com todos os parentes exceto sua esposa, e sendo-lhe negada qualquer esperança de vida eterna.

 

Representantes oficiais da Sociedade Torre de Vigia, como a organização religiosa de 2.257.000 seguidores é formalmente conhecida, recusaram-se a fazer qualquer comentário sobre este caso sem precedentes. Mas Franz, de 59 anos, concordou relutantemente em romper seu silêncio e explicar à TIME as acusações lançadas contra ele. Ao fazer isto, ele permite-nos ter um raro vislumbre do interior da misteriosa sede desta fé bem organizada.

 

Franz é uma Testemunha de terceira geração. Seu tio, Frederick W. Franz, de 88 anos, tem sido o principal ideólogo da religião durante décadas e, desde 1977, seu chefe. Raymond Franz começou a trabalhar por tempo integral para a seita logo depois de ter concluído o ensino secundário. Ele sofreu penúria durante 20 anos como missionário no Caribe, tornou-se um escritor de confiança de publicações oficiais, e juntou-se ao Corpo Governante de 17 membros em 1971.

 

Conhecidas pelas pessoas de fora devido ao seu persistente proselitismo de porta em porta, as Testemunhas de Jeová vivem dentro daquilo que Franz chama de uma comunidade “hermeticamente fechada”; toda vacilação doutrinal ou vestígio de pecado é vigiado de perto. Em parte alguma isto é mais evidente do que em Betel, a sede da seita em Brooklyn. Segundo o relato de Franz, ler ou estudar a Bíblia é considerado “mau”, exceto se isto for feito em discussões autorizadas, seguindo os guias doutrinais da Torre de Vigia, para que os membros da sede não se desviem para o erro.

 

Devido ao seu próprio trabalho como autor de um volume oficial sobre a Bíblia [Ajuda ao Entendimento da Bíblia] e um sentimento crescente de que a disciplina da Torre de Vigia era muito severa, Franz concluiu em seu íntimo que a religião enfatizava a organização humana em vez de os ensinos bíblicos. Ele diz: “Ao mesmo tempo em que produziram pessoas que exteriormente são morais, eles subverteram as qualidades essenciais da humildade, compaixão e misericórdia.”

 

Franz nunca mencionou suas incertezas ao fazer discursos em 50 países durante a década de 1970. Mas para acalmar sua tensão interna, ele tirou uma licença dos seus deveres de Betel no início de 1980. Entretanto, o Corpo Governante tinha começado uma investigação secreta de rumores de heresia, e usou táticas de interrogatórios a portas fechadas. Inicialmente não houve confrontos diretos. Em vez disso, os membros do pessoal foram alegadamente ameaçados com a desassociação para obter seu testemunho acerca de discussões doutrinais com outros. A 21 de maio, Franz foi convocado a Brooklyn para um cerrado interrogatório pelos seus colegas do Corpo Governante. Duvidava ele que Jeová tinha apenas uma organização escolhida? Questionava ele a cronologia oficial do tempo do fim? Franz procurou evitar a confrontação, mas “só pôde curvar-se até onde foi possível”. Não foi suficiente. Os oponentes não conseguiram obter uma maioria de dois terços para o desassociarem ali mesmo, mas ele foi forçado a demitir-se de Betel. Ao todo, cerca de uma dúzia de funcionários foram expurgados, quase certamente a pior crise doutrinal que a sede da Torre de Vigia já enfrentou.

 

Ex-Testemunha de Jeová Raymond Franz.

 

Perdendo o céu por causa de uma refeição num restaurante

 

Mas a perseguição a Franz não tinha terminado. Como exilado de Betel e do trabalho de sua vida, ele encontrava-se com poucas habilitações profissionais, um acordo de 10.000 dólares concedido pela sede e 600 dólares em poupanças pessoais.

 

Ele recorreu a um velho amigo da fé, Peter Gregerson, de Gadsden, Alabama, que dirige uma cadeia regional de supermercados. Gregerson alugou a Franz e à sua esposa um trailer para morarem e deu-lhe emprego como ajudante geral. Por volta de 1981, Gregerson também tinha começado a questionar o dogma da Torre de Vigia e resignou da fé.

 

Seis meses depois, o jornal oficial “Sentinela” anunciou que a política de evitar Testemunhas desassociadas incluía evitar aqueles que, como Gregerson, estavam “dissociados”. Pouco tempo depois, Franz foi visto num restaurante comendo uma refeição com o seu benfeitor Gregerson. Essa simples observação forneceu a infração técnica pela qual Franz foi finalmente desassociado pelos líderes de Gadsden, dois meses atrás. “De um só golpe, eles eliminaram todos os meus anos de serviço”, diz Franz. “Sinceramente, não acredito que exista outra organização que seja mais insistente em 100% de conformidade.”

 

Do ponto de vista dos líderes, todavia, era obviamente imperativo golpear Franz e os outros. A ênfase dos dissidentes, como a de Lutero, “somente nas Escrituras” em vez de na interpretação oficial, era apenas uma das ameaças aos fundamentos da religião. Muitas outras doutrinas centrais da Torre de Vigia também estavam em jogo.

 

Por exemplo, as Testemunhas acreditam que apenas 144.000 dos fiéis (número tirado de Revelação 14:1-3) vão “nascer de novo” e irão para o céu. Os governantes dos fiéis, entre os quais Raymond Franz já esteve, vêm desta elite. Para as “outras ovelhas” que são leais à Torre de Vigia promete-se um paraíso terrestre. Jeová aniquilará em breve o resto da raça humana. Os dissidentes rejeitam este sistema de classes. Eles defendem que o número de 144.000 é simbólico e que todos os crentes desde o tempo de Cristo irão para o céu.

 

As Testemunhas também ensinam que a Segunda Vinda ocorreu secretamente em 1914, data à qual chegam por racionalizações históricas e bíblicas complexas; o fim do sistema mundial tem de ocorrer durante a geração atual (uma interpretação de Lucas 21:32: “Esta geração não passará sem que tudo ocorra”). Os dissidentes passaram a acreditar que o reino de Cristo e os “últimos dias” começaram por volta de 33 A.D. e que a Segunda Vinda de Cristo é um evento futuro.

 

Em outras palavras, os dissidentes deslocaram-se em direção ao cristianismo convencional, exceto por continuarem a rejeitar a divindade de Cristo. De sua parte, Franz não se tornou um opositor amargo da Torre de Vigia. “Não há vida fora da organização”* é tudo o que ele diz acerca da dor da desassociação. Mas outras ex-Testemunhas lançaram uma onda de protestos, publicações e processos judiciais. Estes dissidentes afirmam que cerca de um milhão de pessoas saíram das fileiras da Torre de Vigia ao longo da última década. As Testemunhas relatam que ainda estão aumentando em número, graças ao recrutamento incessante. Ainda assim, esse sucesso pode não continuar por muito tempo. Eles tiveram de abandonar a data 1975, mas o Fim tem de ocorrer durante o período de vida das pessoas que ainda se lembram dos acontecimentos mundiais de 1914. Com a rápida diminuição das fileiras desses idosos, as Testemunhas se confrontam com um prazo final absoluto, que impuseram a si mesmas e que é cada vez mais problemático. – Richard N. Ostling.

 

Relatado por Anna Constable/Atlanta.

 

* A atribuição desta frase “não há vida fora da organização” transmitiu um impressão errônea do pensamento de Franz. O que ele disse, na verdade, é que as Testemunhas geralmente têm esse conceito. Em uma edição posterior da "Time" foi dado um pequeno espaço para Franz fazer essa correção. Para mais informações acerca dela, veja o livro “Em Busca da Liberdade Cristã”, capítulo 4, nota de rodapé 40, bem como o Apêndice referido lá.

 

 

 

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