"O
nome JEOVÁ deve aparecer no Novo Testamento?"
(A Sentinela, 1º de agosto de 2008)
Introdução
O acima é o título de um artigo da "Sentinela" que discorre sobre um tema que tem sido motivo de debate entre alguns cristãos, visto que a antiga superstição judaica de não mais se pronunciar o Tetragrama, por fim, causou o desuso do nome próprio de Deus e influenciou definitivamente os cristãos dos primeiros séculos.

Quando surgiu essa prática judaica de trocar "IHVH" por "Senhor"? Não se sabe a data precisa. Muitos comentaristas dizem que ela já existia no tempo de Jesus. A própria Torre de Vigia, citando o erudito C. D. Ginsburg, publicou o seguinte:
“Desde tempo imemorável, os cânones judaicos decretaram que o nome incomunicável devia ser pronunciado Adonai ”. - Apêndice 1B, da Tradução do Novo Mundo com Notas Marginais, p. 1502.
"Adonai" é "o Senhor", em hebraico. Uma conseqüência importante desse costume judaico foi que as cópias manuscritas do Novo Testamento (NT) que chegaram até nós possuem "o Senhor" ao invés de "Jeová". Por este motivo, a maioria dos leitores da Bíblia nunca se depara com o Nome Divino ao lerem o Novo Testamento, o que causa estranheza em alguns, visto que o Antigo Testamento usa abundantemente o Nome IHVH.
A bem da verdade, mesmo lendo o NT na Tradução do Novo Mundo [TNM], que "restabeleceu" o nome "Jeová" em mais de 200 versículos, percebemos que os irmãos do primeiro século não usavam o Nome Divino de forma tão frequente como fizeram os judeus do Antigo Testamento. O uso da palavra “Deus” é muito mais comum do que da palavra "Jeová". Isso em si já é uma evidência de que se referir a Deus por "Jeová" (IHVH) era uma prática em vias de extinção entre os primeiros cristãos, se é que ela realmente existiu, pois não há nenhum manuscrito do Novo Testamento que contenha o Tetragrama no texto grego. E a Torre de Vigia admite isso, tanto agora nessa “Sentinela” como em outras publicações.
Os que leram a Bíblia inteira a partir do início, numa versão que contém as formas atuais do Nome ("Javé", "Jeová" ou "Iawaeh"), são os que mais sentiram essa drástica diferença entre o Velho e o Novo Testamento. Mesmo que lhes tenha faltado o conhecimento histórico do povo judeu perceberam que algo aconteceu para desestimular o uso do Nome durante a "Era Cristã" (os primeiros cristãos eram todos judeus ou prosélitos). Por isso, muitos encaram como vantagem o fato de a TNM possuir "Jeová" em 237 versículos do Novo Testamento. Certamente, essas ocorrências agradam os olhos do leitor acostumado a ver o Nome em milhares de versículos do Velho Testamento. Nós mesmos, do Mentes Bereanas, preferimos assim, pois nos parece muito mais coerente e natural. No entanto, devemos reconhecer que o importante não são os nossos sentimentos sobre esse assunto, mas o que de fato aconteceu entre o século I AEC e o século II EC. Entre esses dois séculos repousam incólumes os "cristãos primitivos" em diversas comunidades, os quais, segundo a visão da Torre de Vigia, só conseguiram manter o "cristianismo verdadeiro" por meros 67 anos (33-100 EC), deixando que a Apostasia o solapasse no alvorecer do segundo século. Desse momento em diante ninguém pregava de casa em casa. Ninguém usava o nome "Jeová" em suas conversas cotidianas. Tampouco havia um poder central a se recorrer em busca de ajuda, pois o primitivo "corpo governante" desaparecera sem deixar rastros. Enfim, se algum “cristão verdadeiro” conseguiu atravessar o portal "mágico" do primeiro para o segundo século, ele se viu completamente perdido e desorientado, orando para que o Fim do Mundo chegasse logo e fosse arrebatado para junto do Senhor (Jesus). Mas será que tudo ocorreu dessa maneira mesmo? Não seria essa uma visão muito simplista do fenômeno religioso tão complexo chamado Cristianismo?
Não são poucos os eruditos que acham que os cristãos do primeiro século nunca pronunciaram o Tetragrama no seu dia-a-dia. E que por esta razão o Tetragrama não foi usado no Novo Testamento. Já outros têm sustentado a tese de que eles usavam sim o nome IHVH ("Jeová"), ao menos nos textos que mencionam passagens do Antigo Testamento que contém o Nome. As Testemunhas de Jeová são ainda mais generosas nessa hipótese, chegando a afirmar que os primeiros cristãos não só escreviam o Nome Divino em seus manuscritos, mas o pronunciavam corriqueiramente, tal como faziam os antigos judeus. Certamente, há fatos contra e a favor de ambos os lados da questão. E não nos parece sábio dizer que qualquer um dos lados será condenado por Deus por causa dessa disputa. Afinal, foi Ele mesmo que permitiu que a pronúncia do Tetragrama que O representou desaparecesse. Se isso fosse algo fundamental para a salvação Ele certamente não teria permitido acontecer. É tanto que ao examinarmos tudo o que o Novo Testamento considera importante para a salvação em nenhum momento o Nome do "Deus de Israel" se faz presente, pelo menos não de forma clara e inequívoca.
Desde a época de Charles Taze Russell até a era Rutherford, a Torre de Vigia passou a usar cada vez mais o nome "Jeová" em suas matérias, embora na maior parte desse período seus integrantes ainda fossem como os cristãos tradicionais que costumam usar apenas o nome "o Senhor". Certamente, esse fundo histórico explica como facilmente eles absorveram essa inovação de ver o nome "Jeová" no Novo Testamento. Mas isso não pode ser usado como única justificativa para a inserção desse nome. O fato de já virem usando "Jeová" com regularidade desde que Rutherford decidiu mudar o nome dos Estudantes da Bíblia para "Testemunhas de Jeová" é totalmente irrelevante nessa questão. É preciso encontrar evidências que dêem suporte à inclusão de "Jeová" no Novo Testamento. Dizer que os cristãos do primeiro século usavam abertamente o Nome ao pregarem de casa em casa é uma coisa. Mas provar isso já é outra bem diferente. É muito difícil encontrar provas desse uso tão amplo do nome próprio de Deus pelos primitivos cristãos. Afinal, já se passaram quase dois mil anos desde então. Entretanto, no que diz respeito ao uso do Nome na escrita do Novo Testamento há realmente informações a serem consideradas. E é sobre tais evidências que a Torre de Vigia se propôs a comentar no presente artigo da "Sentinela". Vejamos então o que ela tem a dizer sobre este assunto.
Análise do artigo da Sentinela
De imediato, percebemos que por mais que se leia esse artigo não vemos em nenhum momento a categórica afirmação: “Os manuscritos usados para as versões modernas do Novo Testamento não contém o nome divino.” Quem escreveu esse artigo se esforçou para não dizer isto nesses termos. Provavelmente foi para não chocar nenhuma Testemunha de Jeová, pois a maioria delas acha que quem não segue os "manuscritos originais" neste assunto são os tradutores da Cristandade e não os da Torre de Vigia. Mas o leitor atento ou aquele que já está bem informado sobre o caso percebe que a Torre de Vigia realmente está admitindo que o Nome não aparece no texto que serve de base para as traduções modernas. Diz ela:
1 - “Muitos [eruditos] acham que [o Nome] não aparecia nos manuscritos gregos originais.”
2 - “Que problemas os tradutores da Bíblia enfrentam ao decidir se devem incluir o nome de Deus no Novo Testamento?”
3 - “Os manuscritos do Novo Testamento que temos hoje não são os originais. Os originais.... se gastaram rapidamente. Por isso, fizeram-se cópias desses manuscritos... [A maioria das cópias atuais] foi feita pelo menos dois séculos depois que os originais foram escritos. Parece que naquela época os que copiavam os manuscritos trocavam o Tetragrama por Kúrios, ou Kýrios, a palavra grega para 'Senhor' ”.
4 - “Com isso em mente, é preciso que o tradutor determine se há evidências suficientes de que o Tetragrama aparecia mesmo nos manuscritos gregos originais. Essas provas existem?”
Do que foi dito acima, observamos que:
- Na declaração 3, a Torre de Vigia descarta de imediato a possibilidade dos escritores do Novo Testamento terem seguido o costume judaico de trocar "IHVH" por "o Senhor". Ela se encarrega logo de culpar os copistas por tal prática. Bem, primeiramente nem sequer sabemos se alguma vez o Tetragrama foi inserido nos textos gregos do Novo Testamento. Por isso é apenas uma conjectura culpar os copistas, ainda mais que estudos recentes demonstram a forte possibilidade de que o costume judaico já estava amplamente difundido no primeiro século. Segundo dizem, apenas os sacerdotes ao entrarem no Santíssimo pronunciavam o Nome.
- Na declaração 4, ela admite que existem apenas evidências que ajudam o tradutor a tomar a decisão de trocar "Senhor" por "Jeová" no Novo Testamento. Mas note que sobre tais evidências é feita a seguinte pergunta: "Essas provas existem?" O que antes foi chamado de "evidências" em um único parágrafo ganhou o status de "provas". Ora, a nosso ver, prova seria desenterrar na Palestina um manuscrito grego do Novo Testamento que contivesse o Tetragrama, mesmo que fosse apenas uma citação do Antigo Testamento. Mas até o momento essa prova não foi encontrada. Até lá é melhor que usemos o termo "evidências" mesmo... Essas evidências existem?
O argumento do artigo é: “Nos dias de Jesus e de seus discípulos, o Tetragrama aparecia em cópias do texto hebraico.... Durante séculos os eruditos pensavam que o Tetragrama não aparecia nos manuscritos da tradução Septuaginta* grega do Velho Testamento, bem como nos manuscritos do Novo Testamento. Mas, em meados do século 20.... foram descobertos alguns fragmentos bem antigos da Septuaginta grega que existia nos dias de Jesus. Esses fragmentos contêm o nome pessoal de Deus escrito em caracteres hebraicos.”
* Septuaginta: Foi a primeira tradução da Bíblia feita do hebraico para o grego (só o Antigo Testamento).
Realmente, o que foi dito acima é um fato e uma forte evidência de que o Nome ainda não tinha desaparecido nos dias de Jesus.
Mas não deixamos de notar que o escritor da Torre de Vigia aproveitou para ampliar a abrangência dessa "prova", por dizer:
“Os eruditos pensavam que o Tetragrama não aparecia nos manuscritos da tradução Septuaginta grega do Velho Testamento, bem como nos manuscritos do Novo Testamento.”
Diante da afirmação acima, o leitor poderá ficar com a impressão de que os eruditos tinham essa opinião sobre o Novo Testamento e hoje não têm mais, pois tal descoberta teria erradicado qualquer dúvida sobre se o NT continha ou não o Tetragrama no texto grego. Mas este não é o caso! Lamentavelmente, essa forma de expor os assuntos é um estilo muito comum nos escritores da Torre de Vigia. Essa "técnica" costuma doutrinar as Testemunhas de Jeová duma maneira que gera fortes convicções sem base sólida. Falamos isso porque o primeiro público leitor da Torre de Vigia, e o mais importante, são as próprias Testemunhas de Jeová.

PAPIRO NASH DO SEGUNDO SÉCULO
AEC E O FRAGMENTO P. FOUAD INV. 266
O papiro Nash contém o texto de Deuteronômio 6:4. Por ter sido escrito em hebraico possui, naturalmente, o Tetragrama. Já o fragmento P. Fouad, de Deuteronômio 18:15, 16, da Septuaginta, mesmo tendo sido escrito em grego, possui o Tetragrama preservado dentro do texto. O artigo sustenta que isso é uma "prova" a favor da reintegração do Nome ao NT. Mas será que não é justamente o contrário? Esse procedimento de inserir o Tetragrama dentro do texto grego pode ter surgido devido à reverência exagerada dos judeus à forma escrita do Nome. Ao invés deles traduzirem o nome IHVH para o grego (isso teria evitado tantos debates futuros...) eles optaram por manter a forma hebraica original. Como um leitor grego leria essa parte se ele não soubesse a pronúncia hebraica? Ou seja, provavelmente isso até contribuiu para não se pronunciar o Nome no mundo helenístico. Parece até uma peça orquestrada pelos judeus justamente com esse propósito. Isso talvez explique, em parte, porque o hábito de se pronunciar "o Senhor" ao se deparar com IHVH se espalhou tão rapidamente. Pois a obra que serviu de porta para o grego entrar na religião judaica – a Septuaginta – foi a mesma que continha o aviso: “Não me pronuncie!, IHVH.”
A seguir, a Torre de Vigia mostra o mesmo texto de Deuteronômio 18:15, 16 em um manuscrito mais recente da Septuaginta, o Códice Alexandrino, do 5º século EC. Conforme observamos o Tetragrama não mais aparece e em seu lugar foi colocado o nome "Senhor". Ao lado desse manuscrito está esse mesmo trecho de Deuteronômio na Tradução do Novo Mundo. Diferente do Códice Alexandrino, a TNM usa "Jeová" no lugar de "Senhor". Certamente isso reforça o caráter de "restauração" do Nome na TNM. Mas o detalhe é que, ao contrário da antiga Septuaginta P. Fouad, a Torre de Vigia não inseriu o Tetragrama no texto em inglês. Usou a pronúncia "Jeová", que todos sabem que nasceu da transferência das vogais de "Adonai" para o Tetragrama. Por isso muitos dizem que "Jeová" é uma pseudo-pronúncia, uma corruptela.

As duas "provas" apresentadas a seguir, em apoio ao uso de "Jeová" no Novo Testamento, não são muito consistentes:
- Jesus usava o Nome porque ele disse: "Vim em nome do meu Pai". (Jesus 17:6) E o nome Jesus significa "Jeová é a Salvação"...
- No Novo Testamento aparece a palavra "Aleluia", que significa "Louvai a Jah", sendo "Jah" a forma abreviada de Jeová.
Os dois pontos acima não provam muita coisa. Mas o que a Torre menciona a seguir é interessante:
“Uma coleção escrita de leis orais terminadas por volta de 300 EC, chamada Tosefta, diz o seguinte sobre os escritos cristãos que eram queimados no sábado: ‘Os livros dos evangelistas e os livros do minim [cristãos judeus] eles não salvam do fogo,... eles e suas referências ao Nome Divino.’ A mesma fonte cita o Rabino Yosé, o Galileu, que viveu no início do segundo século EC, como dizendo que em outros dias da semana ‘devem-se recortar deles [dos escritos cristãos] as referências ao Nome Divino e escondê-las, e queimar o restante’ Assim, há fortes indícios de que os judeus do segundo século EC acreditavam que os cristãos usavam o nome Jeová nos seus escritos”. - negrito acrescentado.
Afinal, esses judeus do início do segundo século acreditavam que os cristãos usavam o Nome Divino ou eles eram testemunhas oculares disso? O autor do artigo não foi muito claro sobre sua opinião a respeito desta informação. Ao que parece não há certeza de que essas "referências" ao Nome pelos cristãos realmente significam que eles usavam o Tetragrama no Novo Testamento. Esses escritos mencionados por Yosé, o Galileu, podem muito bem ser outros livros cristãos e não o Novo Testamento. Por exemplo, a Didaqué - Instrução dos Doze Apóstolos, produzida entre 70 e 110 EC, obra muito popular entre os cristãos do final do primeiro século, diz o seguinte, a respeito da morte de Cristo:
“Esse é o sacrifício do qual o Senhor disse: ‘Em todo lugar e em todo tempo, seja oferecido um sacrifício puro, porque eu sou um grande rei, diz o Senhor, e o meu Nome é admirável entre as nações’ ”. - Padres Apostólicos (1995), ed. Paulus, p. 358.
Nesta passagem, a Didaqué cita Malaquias 1:14 (a fraseologia do texto massorético é um pouco diferente):
“ ‘E maldito aquele que agir astutamente quando há na sua grei um animal macho e ele fizer um voto e sacrificar a Jeová um que é ruim. Pois eu sou um grande Rei’, disse Jeová dos exércitos, ‘e meu nome inspirará temor entre as nações’ ”.
Há 134 versículos do Antigo Testamento em que a Tradução do Novo Mundo também trocou "Senhor" por "Jeová", e este versículo de Malaquias é um desses casos. De qualquer maneira percebemos que a Didaqué faz claramente uma referência ao Nome, mas sem necessariamente citá-lo. O mesmo ocorre em diversas outras obras primitivas. Por exemplo, Justino, em seu diálogo com o judeu Trifão, menciona diversos textos das Escrituras Hebraicas que contém o Nome Divino, porém os manuscritos disponíveis de tais obras, de forma semelhante ao Novo Testamento, não possuem o Tetragrama nessas citações, ao invés disso têm "Senhor". - Estudo Perspicaz, vol. 1, p. 839; Tradução do Novo Mundo com Notas Marginais, apêndice 1B, p. 1509; Justino de Roma (1995), p. 109 em diante, ed. Paulus.
Novamente, ao passo que essa citação da Tosefta mostra uma evidência de que os cristãos ‘faziam referência’ ao Nome no início do segundo século, ela também indica que os judeus viam isso de forma desfavorável, o que vem a comprovar que a tradição de desestimular o uso do Nome já estava em voga no início do segundo século. Mas o que separa o "início do segundo século" do "final do primeiro século"? Certamente muito pouco tempo, evidenciando que essa prática judaica já era uma realidade vivenciada pelos famosos "cristãos primitivos" do primeiro século.
Com isso, os cristãos do primeiro século ficam “comprimidos” entre duas épocas:
Primeira época: final do século I AEC. Nesse tempo as pessoas possuíam uma Bíblia (Septuaginta) que era um verdadeiro desestímulo ao uso corriqueiro do Nome, pois o mesmo aparecia na Bíblia grega em caracteres hebraicos e não gregos.
Segunda época: início do século II EC. Os judeus já não usavam o Nome e ficavam contra os cristãos que 'faziam referência' a ele.
Então, ficamos a nos perguntar: que época singular foi esse primeiro século em que os cristãos usavam livremente o nome "Jeová"? Por que esse hábito sadio desapareceu tão rapidamente sem deixar vestígio?
Desse ponto em diante do artigo, a Torre de Vigia não apresenta mais "provas" da utilização do nome "Jeová" pelos primeiros cristãos. Ela passa a citar traduções recentes do Novo Testamento que também usam o nome "Jeová", inclusive uma tradução para o hebraico.
O artigo alista algumas traduções que usam o Nome de Deus no Novo Testamento:
- Die heilige Schrift des neuen Testaments (alemão), de D. von Brentano (1791)
- The Emphatic Diaglott (inglês), de Benjamim Wilson (1864)*
- O Evangelho Segundo S. Mattheus, de Padre Santanna (1909)
- The New Testament Letters (inglês), de J. W. C. Wand, bispo de Londres (1946).
- Le Evangiles (francês), de Charles Tresmontant (1991).
- Bible de Chouraqui, traduzida para o português por Leneide Duarte e Leila Duarte (1996 e 1997).
- Bíblia Peshitta em Español (espanhol), editada pelo Instituto Cultural Álef y Tau (2006).
* Os direitos autorais dessa versão foram doados pelo autor à Torre de Vigia no final do século 19.
Em seguida, o artigo cita algumas
obras de referência em apoio ao uso do Nome no NT:
“A palavra grega kurios é traduzida consistentemente ‘Senhor’ (só com a inicial maiúscula), mas é traduzida ‘SENHOR’ (em versalete) onde o texto do Novo Testamento cita de forma explícita o Velho Testamento, e o texto ali está em versalete.” – Prefácio da tradução New Living Translation (2004).
Apesar da New Living Translation usar "SENHOR" em letras garrafais ao invés de "Jeová", certamente ela pretende com isso destacar quando IHVH do Antigo Testamento é citado no NT.
“Há evidência de que o Tetragrama, o Nome Divino, Yahweh, aparecia no Novo Testamento em algumas ou em todas as citações do Velho Testamento quando os documentos do NT foram originalmente escritos.” – The Anchor Bible.
“Visto que o Tetragrama ainda era escrito nos exemplares da Bíblia grega [a Septuaginta], que compunha as Escrituras da primitiva igreja, é razoável crer que os escritores do Novo Testamento, ao citarem a Escritura, preservaram o Tetragrama dentro do texto bíblico.” – George Howard, erudito.
Se analisarmos as entrelinhas do que George Howard falou chegaremos à conclusão de que se os primeiros cristãos inseriram o Tetragrama, em hebraico, dentro do texto grego do Novo Testamento, significa que eles adotaram o costume inventado pelos judeus, o qual mantinha praticamente em segredo a maneira de se pronunciar o nome IHVH. Até que ponto os cristãos assimilaram essa idéia? Se foi uma assimilação plena é possível até que eles nunca nem tenham pronunciado o Nome no seu cotidiano, mesmo sabendo da existência dele e mesmo que tenham inserido o Tetragrama dentro do texto grego. Essa evidência apresentada pela Torre de Vigia certamente é uma "faca de dois gumes".
A seguir, os dois últimos subtópicos do artigo, transcritos na íntegra, com nossos comentários intercalados em azul:
Início da citação com os comentários intercalados
Duas razões convincentes
Então, fica claro que a Tradução do Novo Mundo não foi a primeira Bíblia a incluir o nome divino no Novo Testamento. Como um juiz é convocado para julgar um caso quando não há testemunhas oculares vivas, a Comissão da Tradução do Novo Mundo da Bíblia analisou com cuidado toda evidência relevante. Com base nos fatos, a comissão decidiu incluir o nome de Jeová em sua tradução das Escrituras Gregas Cristãs. Veja duas razões convincentes para essa decisão:
(1) Os tradutores acreditavam que, visto que as Escrituras Gregas Cristãs eram uma adição inspirada às sagradas Escrituras Hebraicas, o desaparecimento repentino do nome de Jeová do texto parecia incoerente.
Observe que a Torre de Vigia usou o verbo no passado: "Os tradutores acreditavam..." Isso mostra que eles já morreram. De fato, segundo Raymond Franz, ex-membro do Corpo Governante, essa "comissão" era formada por certos membros do Corpo Governante das Testemunhas de Jeová os quais já estão todos falecidos.
Por que essa conclusão é razoável? Em meados do primeiro século EC, o discípulo Tiago disse aos anciãos em Jerusalém: “Simeão tem relatado cabalmente como Deus, pela primeira vez, voltou a sua atenção para as nações, a fim de tirar delas um povo para o seu nome.” (Atos 15:14) Será que essa declaração de Tiago faria sentido se nenhuma pessoa do primeiro século conhecesse ou usasse o nome de Deus?
Nem é preciso discorrer muito sobre o uso que podemos fazer da palavra "nome". Considere, por exemplo, duas pessoas que se chamam "André". Um deles é ladrão e assassino e o outro é um homem bom, íntegro e temente a Deus. Qual deles tem um "bom nome" perante a sociedade? Certamente o segundo. No entanto, ele é xará de um facínora impiedoso. De modo que, ao usar esse termo, nem sempre um escritor está fazendo uma referência direta ao nome próprio de uma pessoa, mas sim ao que ela representa.
Um outro exemplo é que a Torre de Vigia costuma dizer que as Testemunhas de Jeová são perseguidas porque Jesus disse: “Sereis pessoas odiadas por causa do meu nome.” (Mateus 10:22) Mas normalmente não é por chegarem falando do nome de Jesus que essas perseguições acontecem. Apesar de um tanto anacrônica, essa comparação serve para mostrar que nem sempre textos que têm a palavra "nome" se referem ao uso específico de um nome próprio, mesmo que tenha relação com tal. - A Sentinela, 01/02/05, p. 5, § 7.
(2) Quando foram descobertas cópias da Septuaginta que usavam o nome divino em vez de Kýrios (Senhor), ficou evidente para os tradutores que nos dias de Jesus as cópias anteriores das Escrituras em grego – e naturalmente as cópias em hebraico – continham o nome divino.
É, mas essas "Escrituras" são do Antigo Testamento, e não do Novo. No dia que encontrarem fragmentos do Novo Testamento que contenham o Tetragrama aí será outra história...
A tradição de remover o nome divino dos manuscritos gregos desonra a Deus e, pelo visto, surgiu só mais tarde. O que você acha? Será que Jesus e seus apóstolos apoiariam essa tradição?
Pelo visto surgiu só mais tarde? É, pelo visto temos aqui uma incerteza. Então, ainda não é possível dar um veredito nesse "julgamento"...
É certo que a vasta maioria dos cristãos no mundo não possuem exemplares do Novo Testamento que contenham o Nome. A lista apresentada na "Sentinela" de outras Bíblias que também inseriram "Jeová" no NT são exceção, e não a regra. São obras pouco difundidas ou mesmo itens de colecionador. Portanto, por uma conclusão lógica, embora o autor tenha se referido aos copistas cristãos, por extensão foi dito que praticamente todas as edições do Novo Testamento que existem endossaram a prática que desonra a Deus, a não ser, é claro, a Tradução do Novo Mundo, pois é a única Bíblia com ampla distribuição mundial que contém o nome "Jeová" no Novo Testamento. Achamos essa declaração muito arriscada e ofensiva, ainda mais levando em consideração que esse procedimento "desonroso" vem sendo feito há pelo menos 1.800 anos, sem que Deus tome nenhuma providência.
É claro que no dia que uma prova arqueológica definitiva em favor do uso do Nome no NT for descoberta os tradutores terão oportunidade de corrigir esse provável erro. Mas até lá não é muito coerente fazer esse tipo de crítica ou condenação. Especialmente porque o autor desse artigo da "Sentinela" demonstrou que ainda não está seguro de suas conclusões ("pelo visto"...). E o mesmo vale para os que criticam a inclusão do Nome no NT. Apesar de não haver prova incontestável, existe realmente alguma evidência de que os primeiros cristãos escreviam o Nome em seus escritos. Por isso, a TNM e outras não devem ser duramente criticadas por inserir o Nome no NT, mesmo sendo uma tarefa arriscada determinar onde essas inclusões devem ser feitas.
Invoque “o nome de Jeová”
Na verdade, as próprias Escrituras agem como "testemunha ocular" definitiva, mostrando que os primeiros cristãos de fato usavam o nome Jeová nos seus escritos, em especial quando citavam trechos do Velho Testamento que contêm esse nome. Sem dúvida, a Tradução do Novo Mundo tem razões sólidas para colocar de volta o nome divino, Jeová, nas Escrituras Gregas Cristãs.
Sim. Ao menos nas citações do Antigo Testamento é altamente possível que o Tetragrama tenha sido escrito no texto grego, ao invés de Kýrios. Isso só não é garantia de que os cristãos usavam o Nome de forma muito abrangente, pois parece que o costume judaico de não usar o Nome na vida cotidiana já tinha se consolidado.
Como essas informações afetam você? Citando as Escrituras Hebraicas, o apóstolo Paulo lembrou os cristãos em Roma: “Todo aquele que invocar o nome de Jeová será salvo.” Depois ele perguntou: “Como invocarão aquele em quem não depositaram fé? Por sua vez, como depositarão fé naquele de quem não ouviram falar?” (Romanos 10:13, 14; Joel 2:32). As traduções da Bíblia que, quando apropriado, usam o nome divino ajudam você a se chegar a Deus. (Tiago 4:8). De fato, é um privilégio Deus nos permitir conhecer e invocar seu nome pessoal, Jeová.
Esse texto de Romanos parece ser uma das passagens em que a inserção de "Jeová" é indevida, pois se analisarmos o contexto Paulo estava falando de Jesus, aquele deveria ser pregado para as nações a fim delas o conhecerem. Só assim elas poderiam invocar o nome dele para serem salvas. Com as comunidades judaicas espalhadas pelo Império Romano e a Septuaginta à disposição dos gentios, Jeová, o Deus de Israel, já era um velho conhecido daquelas pessoas. Certamente as nações daquele tempo já tinham ouvido falar de Jeová. A novidade era Jesus Cristo. Era preciso que aquele jovem mártir galileu saísse do anonimato e ganhasse notoriedade entre os povos pagãos!
A "comissão" da TNM resolveu colocar "Jeová" porque a fraseologia usada por Paulo é uma citação do texto de Joel, o qual, originalmente, se refere a Jeová e não a Cristo. Mas isso não é motivo suficientemente forte para contradizer o claro contexto dessa passagem em apreço. Por exemplo, o texto de Hebreus 1:10 descreve Jesus Cristo da seguinte maneira:
“E: ‘Tu, ó Senhor, lançaste no princípio os alicerces da própria terra, e os céus são obras das tuas mãos.’”
Esse texto é uma citação direta de Salmo 102:24, 25, que diz:
“Passei a dizer: ‘Ó meu Deus.... Teus anos são por todas as gerações. Há muito lançaste os alicerces da própria terra e os céus são o trabalho das tuas mãos’.”
Claramente o texto se aplica a Jeová e não a Cristo. Por que um texto que se referia originalmente a Deus foi aplicado a Jesus? Sobre essa questão, a Torre de Vigia explicou, no livro Raciocínios à Base das Escrituras, p. 406 :
Por que Hebreus 1:10-12 cita o Salmo 102:25-27 e o aplica ao Filho, quando o salmo diz ser este dirigido a Deus? Porque o Filho é aquele por meio de quem Deus executou suas obras de criação descritas aqui pelo salmista. (Veja Colossenses 1:15, 16; Provérbios 8:22, 27-30.) Seja notado que em Hebreus 1:5b se cita de 2 Samuel 7:14, e isto é aplicado ao Filho de Deus. Embora esse texto tenha a sua primeira aplicação a Salomão, a aplicação posterior dele a Jesus Cristo não significa que Salomão e Jesus sejam a mesma pessoa. Jesus é “maior do que Salomão” e executa uma obra prefigurada por Salomão. — Luc. 11:31.
Um argumento semelhante poderia ser aplicado a Romanos 10:13, 14. Aliás, é justamente esse texto que está numa foto da página 20 do artigo, que mostra um Novo Testamento em hebraico. Ao lado aparecem mais duas traduções que fazem o mesmo que a TNM. No caso dessas outras traduções não há muito o que criticar porque os seus tradutores devem ser trinitaristas e assimilam naturalmente essa contradição, pois para eles Jesus é mesmo o Deus de Israel. Mas no caso da TNM a inclusão do nome “Jeová” em Romanos 10:13 gera, além da contradição, um conflito com a teologia da Torre de Vigia.

A Bíblia de
Hutter em hebraico, grego, latim e alemão (Rom. 10:13)
Ao lado 3 traduções de Romanos 10:13 que têm "Jeová",
inclusive a TNM
E só para constar, temos uma edição da Emphatic Diaglott (publicada em 1864) que a "Sentinela" citou em apoio ao uso do Nome no Novo Testamento. De posse desse exemplar, resolvemos conferir como Benjamim Wilson, o autor da obra, traduziu Romanos 10:13:

Como se vê, ele não usou "Jeová", mas deixou exatamente como está no "original". Ou seja, "Senhor". A seguir uma passagem do NT em que Wilson usou "Jeová":

"Jeová disse ao meu Senhor: 'Senta-te
à minha destra...' "- Atos 2:34
Atualmente, esse Novo Testamento de Benjamin Wilson é publicado pela Torre de Vigia e pode ser adquirido em qualquer Salão do Reino das Testemunhas de Jeová. Bastando que se faça um pedido no balcão de literatura.
Uma recomendação: Se você é Testemunha de Jeová e vai tentar pedir essa Bíblia no Salão, considere a possibilidade dos anciãos "tomarem nota" de você, pois além da Torre de Vigia desestimular as Testemunhas de Jeová a estudarem o grego bíblico, alguns anciãos de congregação são bem radicais e estão sempre atentos a "apóstatas" em potencial. E se você está aqui lendo o nosso site, você é um destes! Infelizmente, essa é a "liberdade verdadeira" da religião da Torre de Vigia... - A Sentinela, 01/12/08, p. 14.
E outra coisa. É possível que o encarregado da literatura nem saiba que essa Bíblia está disponível. Se ele for um irmão que não lê muito as publicações da Torre de Vigia, pode ser que ele nunca nem tenha ouvido falar dela.
Fim da citação e dos nosos comentários intercalados
Logo após esse artigo, na página 23, há outro artigo intitulado “Um tradutor que respeitou o nome de Deus”. Trata do missionário da Cristandade, Hiram Bingham II, que chegou às ilhas Gilbert (hoje Kiribati) em 1857. Naquela época não existia a forma escrita do idioma gilbertês. Bingham resolveu aprender essa língua nativa e inventou a forma escrita dela. Após isso escreveu um dicionário e empreendeu uma tradução da Bíblia para o gilbertês. Em 1890, depois de 17 anos de trabalho, concluiu a Bíblia inteira. Em sua obra, o nome "Jeová" foi usado milhares de vezes no Antigo Testamento e mais de 50 vezes no Novo Testamento. Nada comparado às 273 vezes da TNM, mas foi um começo... :-) Até hoje a versão de Bingham é utilizada em Kiribati.

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