A alimentação no Novo Pacto

(por Buscador Fiel)

Um problema que se colocou às primeiras congregações foi a tendência que os cristãos oriundos do judaísmo tinham em conservar os seus ritos e tentar impô-los aos cristãos gentios, deturpando assim o espírito do novo pacto. Contra isso reagiu Paulo fortemente, conforme expresso em várias das epístolas. Este problema ficou conhecido como a ‘questão da circuncisão’, mas envolvia outras práticas do judaísmo, como a alimentação e o casamento.

O desfecho ocorreu quando Paulo estava em Antioquia e chegaram ali concrentes judeus ensinando que não se podia ser salvo sem a circuncisão. Após infrutífera discussão, a congregação decidiu enviar Paulo e Barnabé para esclarecer este assunto junto do corpo de apóstolos e anciãos de Jerusalém. (Actos 15:1-31). Sabemos que Paulo gozava de bastante prestígio em Antioquia e não teria sido obrigado a esta diligência se os judaizantes não tivessem alegado o apoio de Tiago (irmão de Jesus), que presidia em Jerusalém (Gál 2:12).

Em Jerusalém a influência dos tradicionalistas era grande, porém Paulo e Barnabé, a quem se juntou o próprio Pedro, fizeram uma defesa empenhada da doutrina pura. Chegou-se a um acordo que, sem comprometer a verdade do evangelho de que a salvação vem pela graça e pela fé, estabeleceu concessões em relação às práticas judaicas, a fim de manter a união (Actos 15:11, 21). Tiago alegou que, embora não cristãs, tais hábitos tinham sido ensinados por muitos anos nas sinagogas, e Paulo explicou mais tarde (1 Cor 8:1-13), em relação à carne imolada, que a finalidade da regra era apenas não escandalizar os irmãos menos maduros.

O concílio decidiu por unanimidade que a circuncisão não era necessária para a salvação, no entanto prescreveu quatro abstinências: da carne imolada, do sangue, da carne estrangulada e da fornicação. As três primeiras referiam-se à alimentação, e isto era importante porque permitia as refeições conjuntas de judeus e gentios, dentro da comunidade (lembremos a crítica de que Pedro foi alvo quando deixou de comer com os irmãos gentios [Gál 2:12-15]). A parte que fala de fornicação parece aqui deslocada, mas não se nos lembrarmos de que a palavra ‘fornicação’ (grego: porneia) significa ‘qualquer tipo de relação sexual ilegítima’ e que no contexto só se pode referir a casamentos entre parentes de sangue ou afinidade, proibidos na lei judaica (Lev 18) mas que eram comuns entre os pagãos e que tendiam a entrar nas congregações (Mat 5:32; 1Cor 5:1-5) .

Para não termos dúvidas de que a atitude do decreto era de conciliação, basta notarmos que, passados apenas alguns dias, Paulo, maugrado a sua indignação contra as práticas judaizantes, vai ele próprio contra o decreto, fazendo circuncidar Timóteo ao partir para Derbe ‘por causa dos judeus daqueles lugares’ (Actos 15:2; 16:3; Gál 5:2). Vê-se assim claramente que a prescrição apostólica não era matéria de fé e sim de tolerância e não se aplica às congregações actuais, onde já não existem disputas com cristãos de origem judaica.

As regras de Actos 15 eram concessões temporárias às consciências dos judeus que ainda consideravam certas comidas como abomináveis a Jeová. Disso se encontra abundante documentação nas epístolas de Paulo (Rom 3:20; 4:14; 10:4; 13:8-10; 14:14; 1Cor 9:20; 10: 25; 2 Cor 3:6 Gál 2:16; 3:2 Efé 3:15; Col2:14, 20 Heb 8:13 Mat 12:11; 22:40, etc).

Seguir as regras de Actos 15:20 é não entender o essencial, i.e., que Jesus veio precisamente para transformar a lei de fórmulas em lei de amor.