A
Política de Mudança de uma Doutrina da Torre de Vigia e o
Seu
Reflexo no Mensário “Nosso Ministério do
Reino”
(Carlos M. Silva)
A Torre de Vigia publica um periódico mensal chamado “Nosso Ministério do Reino”, o qual é distribuído apenas às Testemunhas de Jeová ou aos “publicadores não batizados”. Nenhum simpatizante que freqüente um Salão do Reino tem direito a ele. O objetivo desta publicação é orientar as Testemunhas na tarefa de pregação e informá-las de alguns resultados desta obra. Ao longo do tempo, tal boletim recebeu vários nomes, sendo a última alteração motivada por uma interpretação doutrinária. Pouquíssimas Testemunhas estão à par desse assunto.
Este artigo tratará não apenas dos nomes que o “Ministério” recebeu ao longo das décadas, mas também de eventos importantes que ocorreram nos “bastidores” da Torre de Vigia durante esse período, acontecimentos que teriam grande impacto no ensinamento das Testemunhas de Jeová.
A história do “Ministério do Reino” durante os últimos 100 anos
O “antepassado” do Ministério do Reino era um panfleto chamado “Idéias Sugestivas Para Colportores” (Vide Proclamadores, p. 246) o qual era publicado no final do século XIX e enviado aos pregadores de tempo integral. Após a soltura de Rutherford* e seus associados da prisão, em 1919, houve um novo ímpeto proselitista e providenciou-se a publicação de uma nova revista, a Golden Age (antecessora da Despertai!). Para estimular a distribuição dessa nova revista um novo panfleto periódico foi providenciado, recebendo o nome de Boletim. Com o tempo, ele se tornou a publicação mais importante para estimular outros aspectos da pregação dos Estudantes da Bíblia, como as Testemunhas de Jeová eram conhecidas. Continha frases que eram decoradas para serem apresentadas de casa em casa, ao se dar testemunho às pessoas.
* Então presidente da Torre de Vigia.
No ano de 1935, o Boletim mudou de nome, passando a se chamar “Diretor”. Mas essa nova denominação teve vida curta e já em 1936 foi mudada para “Informante”, e assim permaneceu até o ano de 1956. No mês de fevereiro deste ano houve nova alteração e o boletim mensal passou a ser chamado de “O Ministério do Reino”. Em janeiro de 1961 houve mais uma pequena alteração, mudando para “Ministério do Reino”. Este novo nome durou até fevereiro de 1976, quando foi novamente modificado, passando a ser “Nosso Serviço do Reino”. No entanto, em maio de 1982 um outro nome foi escolhido, semelhante ao era usado antes de 1976. O mensário era agora “Nosso Ministério do Reino”, e assim permanece até hoje.
Em suma, os nomes que o “Ministério do Reino” recebeu ao longo dos anos foram:
1) Idéias Sugestivas Para Colportores (final do século XIX)
2) Boletim (de 1919 a 1935)
3) Diretor (de 1935 a 1936)
4) Informante (de 1936 a 1956)
5) O Ministério do Reino (de 1956 a 1961)
6) Ministério do Reino (de 1961 a 1976)
7) Nosso Serviço do Reino (de 1976 a 1982)
8) Nosso Ministério do Reino (de 1982 até o presente)
Destas sete modificações a mais importante de todas foi a de número 7, quando o Ministério recebeu o nome de “Nosso Serviço do Reino”. No entanto, nas únicas referências que a Torre de Vigia faz sobre a evolução histórica do “Ministério do Reino”, ela elimina as fases 5, 6 e 7. Diz o livro Proclamadores, nas páginas 246 e 272, respectivamente:
Mesmo antes de 1900, enviava-se um panfleto intitulado Suggestive Hints to Colporteurs (Idéias Sugestivas Para Colportores) aos que se alistavam neste serviço especial. A partir de 1919, o Bulletin foi publicado para fornecer estímulo no serviço de campo.
O “Bulletin” (1919-35), o “Diretor” (1935-36), o “Informante” (1936-56), e agora “Nosso Ministério do Reino”, em 100 línguas — todos têm fornecido instruções regulares para o unido ministério de campo das Testemunhas de Jeová.
Observação: a partir daqui o Ministério do Reino será chamado simplesmente de “km”. A razão dessa escolha é que a Torre de Vigia atribui a cada publicação dela um código interno baseado no nome da publicação em inglês. O código dado ao Ministério do Reino é “km”, que é a abreviação de “Kingdom’s Ministery”, ou seja, “Ministério do Reino”. Por isso, não é incomum algumas Testemunhas da dianteira referirem-se a ele simplesmente por “km”. Essa é uma prática muito comum, por exemplo, ao se mencionar o livro secreto dos anciãos, o ks. Para mais detalhes acesse este site.
Afinal, por que um período da história do km foi omitido no livro “Proclamadores”? Será que o escritor do livro desconhecia essa parte da história do km? Dificilmente. E mesmo que não soubesse, outros membros importantes e veteranos da Torre de Vigia, que trabalham na Comissão de Redação (ou não), perceberiam essa lacuna rapidamente. A razão mais provável dessa omissão é a história que vem a seguir.
Um conceito doutrinário no centro da mudança do nome nº 7
É importante lembrar-se de que o batismo não é o fim do seu progresso espiritual. Ele marca o começo de um serviço vitalício a Deus como ministro ordenado e Testemunha de Jeová. – “Conhecimento que conduz à vida eterna”, p. 178, grifo acrescentado.
Praticamente nenhuma Testemunha de Jeová sabe razão do km ter sido chamado de “Nosso Serviço do Reino” durante alguns anos. O verdadeiro motivo deste nome foi uma nova interpretação da Torre de Vigia sobre a expressão “ministro ordenado” que era dada a cada Testemunha de Jeová batizada.
Tudo começou em 1974, quando um membro do Corpo Governante sugeriu aos seus colegas do Corpo que é inapropriado dar o nome de “ministro ordenado” a cada pessoa que se batiza como Testemunha de Jeová. Ele alistou alguns motivos que justificaram a sua opinião:
1) O batismo não é uma cerimônia de ordenação e sim uma dedicação a Deus e a Cristo. É o momento em que a pessoa afirma que se arrependeu dos seus pecados e está disposta a iniciar uma nova vida (cristã).
2) O nome “ordenação” é típico de outras igrejas e envolve uma série de ritos cerimoniais A expressão “ministro ordenado”, portanto, foi importada das religiões da Cristandade, e lá, tal descrição se refere aos membros de uma classe clerical privilegiada.
3) No grego original, as palavras traduzidas por “ministro” significam basicamente “servo”, denotando humildade e sujeição, um sentido bem diferente do termo usado pela Cristandade, isto é, de uma classe de elevado prestígio e influência. O cristão só é “ministro” na acepção da palavra grega original, e não de acordo com o conceito em voga no ambiente de certas igrejas.
4) A maioria das línguas para as quais as publicações da Torre de Vigia são traduzidas não possui um equivalente para o termo “ministro”. A palavra mais aproximada é “clérigo”.
A maioria dos membros do Corpo Governante (daqui por diante, CG) não parecia disposta a mudar o conceito de que o batismo era uma ordenação religiosa, e o mais ferrenho opositor a essa mudança era o próprio presidente da Torre de Vigia, Natan Knorr. No entanto, a voz mais influente naquele momento concordou plenamente com os pontos alistados por aquele membro do CG. Seu nome? Frederic Franz. Nascido no final do século XIX, era o único membro do CG que conhecera pessoalmente Charles Taze Russell, o fundador da Torre de Vigia. Por ter estudado grego e outros idiomas, era considerado o maior erudito da Torre de Vigia. Era também um prolífico escritor. Portanto, a opinião dele tinha muito peso.
Algum tempo depois da primeira discussão, decidiu-se que o conceito de “ministro ordenado” seria abolido e um novo artigo da “Sentinela” seria publicado, comunicando a mudança. Três membros do CG foram encarregados para providenciar essa matéria: (1) o próprio Frederic Franz, (2) seu sobrinho, Raymond Franz e (3) Lyman Swingle. Inicialmente um texto de 46 páginas foi escrito por Frederic Franz, mas o mesmo não agradou todo o CG, por ter sido considerado muito extenso e pouco específico. Pediu-se a Raymond Franz que reescrevesse o artigo. E assim ele fez. Depois disso, o que ele escreveu foi debatido e analisado minuciosamente, até que se chegasse a um consenso definitivo. O resultado final pode ser visto na Sentinela, de 1º de março de 1976, sob o título “O que significa ser “ministro’?”. Nas páginas 152 e 153, §§ 18-20, o artigo escrito por Raymond Franz diz:
“O significado da palavra ‘ordenar’ é, por exemplo, definido como ‘conferir ordem ministerial ou sacerdotal: investir do cargo do ministério cristão pela imposição de mãos ou por outras formas: apartar pela cerimônia da ordenação’. — Webster’s Third New International Dictionary.
Todos os que se tornam genuínos discípulos de Cristo Jesus tornam-se ‘servos’ de Deus. Segundo o antigo significado da palavra latina, todos poderiam ser chamados de “ministros”, pois a palavra latina significava originalmente a mesma coisa: ‘servos’. Conforme vimos, porém, a Bíblia mostra que alguns são ‘servos’ no sentido de o serem por designação, tendo a “designação” congregacional para servir em determinado cargo de serviço, como se dá no caso dos anciãos ou dos servos ministeriais. — Tito 1:5; 1 Tim. 3:1-13.
Estes não recebem tal designação por meio do batismo. O apóstolo Paulo não se referiu ao batismo quando escreveu a Timóteo: ‘Nunca ponhas as mãos apressadamente sobre nenhum homem’, mas ele se referiu à ação da designação de um homem para um cargo congregacional de serviço e a responsabilidade acompanhante. (1 Tim. 5:22; veja 1 Timóteo 3:1-15.) O próprio Paulo, junto com Barnabé, haviam sido ‘separados’ pelo espírito santo para determinado serviço. O corpo de anciãos em Antioquia, reconhecendo isso, assim ‘puseram as suas mãos sobre eles’. — Atos 13:1-5; veja a ação dos apóstolos na “designação” de ‘sete homens acreditados’ para cuidar de determinada tarefa de serviço, conforme registrado em Atos 6:1-6.
Assim, embora todos os verdadeiros cristãos (tanto irmãos como irmãs) sirvam (ou ‘ministrem’), apenas alguns deles são designados para determinado serviço na congregação. Mas isso não significa que os irmãos e as irmãs que não tenham tal designação sejam uma classe leiga.
Os parágrafos 23 e 25 prosseguem:
Em vista de tudo isso, o que se deve fazer quando, conforme ocorre às vezes, uma autoridade governamental quer saber a profissão ou situação dos cidadãos? A expressão “ministro ordenado” é entendida por ela [pela autoridade] como referindo-se a alguém que é guardião ou servidor nomeado de coisas espirituais numa congregação, alguém que atua como “pastor” da congregação. Os dicionários, por exemplo, fornecem a geralmente entendida definição eclesiástica dum “ministro” como sendo “alguém autorizado a dirigir ofícios religiosos”. Com o termo “ministro”, tais autoridades governamentais não descrevem, nem se referem ao serviço que cada cristão ou cristã individual pode prestar no seu empenho pessoal de transmitir as boas novas a outros. Portanto, em resposta à inquirição, pode-se responder razoavelmente em harmonia com o que os indagadores oficiais querem saber, em vez de impormos nossa própria definição a tais termos.
Naturalmente, quando alguém foi mesmo designado para determinado cargo de serviço pelos homens devidamente autorizados, poderá responder e dar como data de sua “ordenação” a data — não de seu batismo — mas do tempo em que o corpo nomeador cristão, como que, ‘impôs as mãos nele’ por dar-lhe tal designação.
De forma resumida, esse artigo da Sentinela disse que a designação “ministro ordenado” deveria referir-se somente aos que ocupam cargos de responsabilidade na congregação, e que tal expressão não deveria ser encarada como tendo o mesmo sentido comumente encontrado nas religiões da Cristandade. Um ancião poderia corretamente se apresentar a uma autoridade como “ministro ordenado”, mas alguém que fosse somente publicador não podia.
Foi pelo motivo descrito acima que mudaram o nome do “Ministério do Reino” para “Nosso Serviço do Reino”. A respeito do artigo da Sentinela sobre essa “nova luz”, os seguintes comentários foram publicados no “Nosso Serviço do Reino”, de março de 1976:
“Sem dúvida, já teve a oportunidade de ler a Sentinela de 1.° de março de 1976 e a informação que fornece sobre os termos ‘ministro’ e ‘ministério’. Que efeito terá esta apresentação bíblica sobre nosso serviço a Deus?
“Na realidade, nosso serviço a Deus continua a ser o que sempre foi. A informação nos artigos da Sentinela simplesmente nos ajuda a encarar este serviço numa luz um pouco mais clara, aumentando nosso apreço por ele. Ajuda-nos também a entender de modo mais preciso o significado de certos termos bíblicos e usá-los dum modo que ressalte mais plenamente seu sentido e ‘sabor’ original. Ajuda-nos a evitar mal-entendidos da parte das pessoas do mundo por causa de nossa maneira de falar, não usando os termos portugueses dum modo contrário ao seu sentido, geralmente aceito, no idioma moderno.” – Nosso Serviço do Reino, março de 1976, p. 3, negrito acrescentado.
Conforme visto acima, essa mudança foi considerada sim uma “nova luz”, conforme o recorrente uso por parte das Testemunhas de Jeová de Provérbios 4:18. O referido ajuste realmente foi coerente, tanto em termos de História do Cristianismo como em sentido bíblico. (Vide mais adiante o tópico “Há mesmo apoio para a mudança no conceito de ‘ministro ordenado’?”). No entanto, em 1982 a Torre de Vigia voltou para o conceito anterior e o novo foi rejeitado. O “Nosso Ministério do Reino”, de maio de 1982, disse:
“Como nos regozijamos com o artigo sobre “Ministros de Deus”, publicado na Sentinela de 15 de setembro de 1981! Conforme declarado nas páginas 18 e 19: ‘Todos os cristãos dedicados e batizados, sem consideração de sexo ou idade, podem ser proclamadores, pregadores, ministros, . . . desde que forneçam evidência disso pela sua conduta e pelo seu testemunho.’ Assim como o apóstolo Paulo, nós também desejamos “glorificar o nosso ministério”. Não é assim que se sentem? Em harmonia com a informação publicada recentemente, é bem apropriado que o título desta publicação se apresente agora como Nosso Ministério do Reino.”
Houve dois fatores que contribuíram para esse retrocesso:
1) A mudança teve conseqüências ruins para algumas Testemunhas de Jeová, e para os seguimentos de alto escalão da Torre de Vigia.
2) O membro do Corpo Governante que propôs a mudança nessa doutrina foi alvo de uma “inquisição” e, obviamente, fez-se uma tentativa de se apagar quase tudo que ele escrevera para a Torre de Vigia, até mesmo o que recebeu franco apoio do seu tio, Frederic Franz.
As conseqüências da mudança junto com um abalo interno no Corpo Governante
Sabe-se que em muitos países são oferecidas certas vantagens às pessoas que são ministros ordenados de alguma religião. As mais comuns são a isenção de impostos e a dispensa do serviço militar. Não demorou e a Torre de Vigia começou a receber cartas informando as conseqüências indesejáveis da nova mudança. Nos anos que se seguiram, havia vozes dentro do próprio Corpo Governante contra o novo conceito. Por exemplo, em 6 de fevereiro de 1980, Grant Suiter se referiu à mudança como sendo um “ataque à organização” e apresentou cartas de três advogados Testemunhas de Jeová que reportaram problemas que a nova postura doutrinal tinha trazido.
Provavelmente, o ponto mais delicado que essa “nova luz” tocou foi o financeiro. Chamar todas as Testemunhas de Jeová de ministros e buscar esse reconhecimento perante a sociedade secular pode ajudar a Torre de Vigia a economizar dinheiro, como pode ser visto no seguinte caso ocorrido no Brasil:
“Em novembro de 1990, o Instituto Nacional do Seguro Social (INSS) do Brasil notificou à congênere da Sociedade Torre de Vigia (dos EUA) que os ministros voluntários em Betel (nome dado às filiais ou congêneres das Testemunhas de Jeová) não mais seriam considerados ministros religiosos e, por isso, ficariam sujeitos às leis trabalhistas do país. As Testemunhas de Jeová apelaram da decisão. Em 7 de junho de 1996, o Consultor Jurídico da Procuradoria Geral, em Brasília, emitiu uma decisão confirmando a posição dos ministros em Betel como membros de uma ordem religiosa legítima, não como empregados”. – Anuário das Testemunhas de Jeová, 1998, pp. 21-22; negritos acrescentados.
Note como todos os conceitos abandonados em 1976 são retomados nesse único parágrafo e de maneira muito enfática. Portanto, aplicar o conceito de “ministro” a todas as Testemunhas de Jeová é algo muito importante para a Torre de Vigia. É a legitimação da sua condição de ordem religiosa com ministros ordenados. Embora isso não seja garantia de nada (vide o caso da França), sem dúvida abre o caminho para o diálogo com as autoridades seculares devidamente constituídas.
Voltando ao início de 1980, todos do Corpo Governante sabiam que a principal razão da mudança no conceito de “ministro ordenado” aconteceu por causa da decidida posição de Frederic Franz**, ao apoiar o que foi apresentado pelo próprio sobrinho, Raymond Franz. Mas algo aconteceu que acabou por mudar radicalmente o rumo dos acontecimentos na sede mundial. Por achar que estava sendo cúmplice de ensinamentos antibíblicos, Raymond Franz pediu uma licença de trabalho para aliviar sua carga emocional. (Obviamente, ele não disse suas razões).
** Que já era presidente da Sociedade, pois Knorr havia falecido.
Ao retornar de sua licença percebeu que desconfianças recaíam sobre ele e um processo de investigação foi iniciado. A suspeita que havia é que ele tinha incutido em certas pessoas importantes da sede alguns conceitos que contradiziam ensinos oficiais da Torre de Vigia. De fato, pouco depois da volta de Raymond Franz à sede, várias pessoas foram desassociadas por conta de tais “heresias”. Dentre tais pessoas estava o casal de origem hispânica que havia trabalhado na Tradução do Novo Mundo para o espanhol, e o irmão que escrevera o livro “Comentário à Carta de Tiago”, Edward Dunlap. Nenhuma prova conclusiva contra Ray Franz foi encontrada. Mas ele foi convidado a deixar a sede e a escrever uma carta renunciando ao posto de membro do Corpo Governante, o que foi feito em maio de 1980.
Naqueles momentos angustiantes vividos por Raymond Franz apenas um membro do Corpo Governante, Lyman Swingle, deu a ele o devido apoio (numa conversa particular) e chegou a chorar por causa do que estava para ser feito com Ray Franz. Swingle era um membro do CG que havia demonstrado mente aberta em situações importantes de conflitos doutrinários. Em uma ocasião anterior, numa das reuniões periódicas do Corpo Governante, Swingle admitiu a possibilidade de alguns ensinos importantes da organização estarem todos errados, tal como a data de 1914. Tais episódios são relevantes porque Swingle foi um dos três responsáveis pelo texto que oficializava a mudança no conceito de “ministro ordenado”, e também por ser ele o chefe do Departamento de Redação, de onde saíam todas as matérias a serem publicadas pela Torre de Vigia. Ter Swingle tais atitudes e ao mesmo tempo tantas responsabilidades poderia fazê-lo um alvo em potencial de comentários suspeitosos.
Após a saída do Corpo Governante, Raymond Franz foi servir em uma congregação do Alabama, na cidade de Gadsden. Depois de um tempo ele chegou até a ser recomendado ancião pela comissão local, mas isso foi negado pela Torre de Vigia. Enquanto isso, algo inusitado aconteceu. O tio de Raymond, Frederic Franz, que outrora defendera tenazmente o novo conceito de “ministro ordenado”, em setembro de 1980, ao fazer o discurso de formatura da 68ª turma de Gileade (uma escola para missionários), disse que todo homem, mulher e criança batizados tinham o direito de serem considerados “ministros ordenados”. E disse mais: “Vocês, formados em Gileade, têm o direito de se chamarem ministros e de pedirem todas as isenções dadas aos clérigos da cristandade”. – A Sentinela, 01/03/81, p. 29.
Sem dúvida, estava pavimentado o retorno ao conceito anterior. E os motivos da iminente mudança são bem evidentes no discurso de Frederic Franz em Gileade. Após esse discurso, preparou-se um artigo sobre o retorno à “velha luz”. Ele saiu na Sentinela de 15 de setembro de 1981. Em parte, ele contém o seguinte:
Há vários anos, levantaram-se diversas objeções à aplicação do termo ‘ministro’ a todos os cristãos dedicados e batizados. Estas objeções baseavam-se em diferenças de idioma, na maneira em que outros grupos religiosos e autoridades talvez encarassem a sua afirmação de serem ministros, e assim por diante. Todavia, tais objeções não parecem ser suficientemente fortes para invalidar a posição adotada pelo povo de Jeová durante a maior parte dos últimos 100 anos. – p. 29.
Note como a postura da Torre de Vigia é totalmente evasiva, dando a impressão de que ela não queria a mudança de 1976, e que esta só aconteceu por conta de influências indesejadas. Opiniões de “terceiros”...
Uma vez feita a alteração na doutrina, faltava apenas um detalhe para extinguir todo o vestígio da anterior “nova luz”: eliminar aquele que propôs a mudança de 1976. Embora isso não fosse necessário se fazia premente, em virtude de vários outros assuntos, os quais serão brevemente abordados a seguir.
Conclusão do caso com “chave de ouro”
Quando Raymond Franz deixou a sede mundial das Testemunhas de Jeová, ele era um homem de sessenta e poucos anos que nunca tinha trabalhado para ninguém além da Torre de Vigia. Mesmo sendo poliglota e um bom escritor, o que ele faria de imediato para sobreviver, ele e a esposa? Um irmão abastado, chamado Peter Gregerson, ofereceu a Franz um emprego num de seus supermercados, além de um trailer para ele morar junto com a esposa. Gregerson empregava muitas Testemunhas de Jeová em seu negócio. Com o tempo, ele se tornou amigo de Franz e não apenas patrão.
Em certo dia, Gregerson confessou a alguns parentes que tinha dúvida sobre a validade de um certo ensinamento da Torre de Vigia (dizia respeito ao uso do termo grego da palavra “templo”. Ou seja, nada tão crucial para o Cristianismo). No entanto, tal informação vazou para outras pessoas, e alguns irmãos ficaram sabendo do assunto. Gregerson sentiu que estava para ser alvo de uma comissão judicativa para ser desassociado (excomungado). Naquele tempo, a Torre de Vigia permitia que uma pessoa que se desligasse voluntariamente da organização (que se dissociasse) continuasse falando com quem ficou. Por isso Gregerson decidiu que pediria dissociação para não ser privado do contato com muitos parentes e amigos que eram Testemunhas de Jeová. E assim ele fez.
Não muito tempo depois, saiu uma “nova luz” na revista A Sentinela (coincidência?) informando que um dissociado agora deveria receber o mesmo tratamento dispensado a um desassociado (excomungado). Ou seja, não seria mais permitido às Testemunhas falar com um dissociado, nem sequer cumprimentá-lo. Para mais detalhes sobre a excomunhão “tejotiana”, leia depois este artigo.
Um detalhe paradoxal do caso Gregerson é que pouco tempo depois a Torre de Vigia lançou um artigo, validando o que Gregerson havia ensinado, obviamente sem fazer nenhuma referência a ele. Gregerson, entretanto, nunca foi chamado de volta à organização. Ou seja, foi punido por algo que estava certo!
É muito provável que essa situação com a qual Franz se confrontou, relativa a Peter Gregerson, foi um estratagema para eliminar Raymond Franz de vez do cenário TJ. E realmente isso aconteceu. (Registre-se que Raymond Franz não é favorável a esta idéia, apesar dela ser muito factível).
Ao contrário do que muitas Testemunhas de Jeová pensam, Raymond Franz não foi desassociado por apostasia. O verdadeiro motivo é que ele era um homem que sabia demais e precisava ser eliminado. Para quem pesquisa com imparcialidade a história da organização da Torre de Vigia sabe que nem todos os ensinamentos dela têm realmente base nas Escrituras, e são frutos de meras especulações humanas. Como exemplo, há o caso da primeira destruição de Jerusalém. Ela diz que tal acontecimento foi em 607 AEC e não há um único texto da Bíblia que diga isso. Por outro lado, TODOS os livros de História dizem que isso aconteceu em 587/6 AEC. (Para mais detalhes leia este artigo).
A saída de Raymond Franz da organização se deu da seguinte forma:
Num certo dia Franz foi visto comendo uma refeição com seu patrão, Peter Gregerson, que estava então dissociado da organização, pela razão acima explicada. Rapidamente uma comissão judicativa foi formada para julgá-lo e expulsá-lo. Como era de se esperar, isso realmente aconteceu, apesar de várias tentativas de Franz em arrazoar o assunto com seus inquisidores (aliás, todos eles eram jovens, e confessaram que estavam apenas seguindo ordens da Torre de Vigia). No dia 31 de dezembro de 1981 Raymond Franz foi desassociado, mesmo tendo devotado mais de 40 anos de sua vida ao serviço de tempo integral da Torre de Vigia e não ter cometido nenhum pecado passível da desaprovação eterna de Deus.
E o periódico “Nosso Serviço do Reino”? Por que manter esse nome se todo vestígio da “nova luz” sobre “ministros ordenados” fora apagada? É, realmente só faltava corrigir esse “erro”. E assim foi feito. Em maio de 1982, alguns meses depois da expulsão de Franz, o km passou a se chamar “Nosso Ministério do Reino”. Agora que todas as Testemunhas de Jeová eram consideradas “ministros ordenados”, o “ministério” era de todas. Lembrando que isto equivaleria no Catolicismo a todos os católicos serem chamados de clérigos (apenas estes são ordenados). Isto porque a origem da palavra “clérigo” é a mesma da palavra “ministro”, usada pelas Testemunhas de Jeová.
O detalhe final que faltava: em 1983, Lyman Swingle foi retirado do Departamento de Redação e transferido para a tesouraria da Torre de Vigia. Isto o afastou de qualquer contato com o Departamento de Redação.

Raymond Franz
Há mesmo apoio para a mudança no conceito de “ministro ordenado”?
Os pontos levantados por Raymond Franz e apoiados inicialmente por Frederic Franz podem ser confirmados numa rápida verificação em obras de referência. Note a seguir:
1) Batismo
a) “1. Sacramento.... no qual a ablução, a imersão ou a simples aspersão com água significa um renascer espiritual, com purificação de todas as culpas e pecados. 2. Administração desse sacramento. 3. Iniciação religiosa. 4. Admissão solene a uma seita religiosa.” – Dicionário Aurélio, 1999.
b) Nas 29 referências que a Bíblia faz da palavra “batismo”, em nenhuma delas esse termo é vinculado ao termo “ordenação” ou a alguma cerimônia que tenha esse sentido. Veja alguns exemplos:
“Pelo batismo fomos sepultados com ele na morte, para que, assim como Cristo foi ressuscitado dos mortos por meio da glória do Pai, assim também nós possamos caminhar uma vida nova.” – Romanos 6:4, Edição Pastoral.
“Apareceu João, o batizador, no ermo, pregando [o] batismo [em símbolo] de arrependimento para o perdão de pecados.” – Marcos 1:4.
“O que corresponde a isso salva-vos também agora, a saber, o batismo, (não a eliminação da sujeira da carne, mas a solicitação de uma boa consciência, feita a Deus,) pela ressurreição de Jesus Cristo”. – 1 Pedro 3:21.
2) “Ministro” com sentido religioso
Diz A Sentinela, de 1º de março de 1976, pp. 151-152:
É digno de nota que muitos idiomas, de fato, a maioria, não têm termo correspondente à palavra portuguesa ‘ministro’, no sentido religioso. As línguas de origem latina, tais como o italiano, o francês, o espanhol e o português, possuem tal termo. Mas idiomas tais como o alemão, o holandês ou as línguas escandinavas (o norueguês, o sueco e o dinamarquês), e os idiomas eslavos (polonês, russo e outros), bem como línguas da Ásia e de outras partes do mundo, não têm termo que corresponda à palavra ‘ministro’. Na Alemanha, o clérigo ordenado é chamado de ‘servo religioso’.
Para ilustrar isso, na edição inglesa do livro As Testemunhas de Jeová no Propósito Divino, página 223, faz-se referência à afirmação de que ‘todas as testemunhas de Jeová que regular e costumeiramente ensinam e pregam o evangelho são ministros’. Na edição alemã, a última parte desta declaração diz que são ‘pregadores, isto é, clérigos’, e insere-se a palavra inglesa ‘ministers’ entre colchetes (Prediger bzw. Geistliche [ministers]). Na mesma página, citando uma comunicação do Sistema de Serviço Seletivo (recrutamento militar) dos Estados Unidos, na qual se usa o termo ‘ministros de religião’, a edição alemã deste livro novamente usa a palavra alemã para ‘pregadores’ e a acompanha com a palavra alemã para ‘clérigos’ entre colchetes (‘Prediger [Geistliche]’).
O mesmo se dá em outros casos; quando a Tradução do Novo Mundo da Bíblia foi traduzida em idiomas tais como o dinamarquês, o alemão, o holandês e o japonês, em todos os casos onde em português encontramos as palavras ‘ministro’, ‘ministério’ e as formas verbais de ‘ministrar’, foi necessário traduzi-las por termos que significam ‘servo’, ‘serviço’ ou formas de ‘servir’, naqueles idiomas.
“Por exemplo, em japonês usa-se uma palavra composta, hoshi-sha (‘alguém que serve humildemente’), para traduzir diákonos. A expressão ‘servos ministeriais’, encontrada na edição portuguesa da Tradução do Novo Mundo, é traduzida em dinamarquês por uma palavra que significa ‘servos congregacionais’; em sueco usa-se a expressão ‘servo ajudante’; ao passo que em alemão aparece o termo Dienstamtgehilfe, significando literalmente ‘ajudante de cargo de serviço’.
Sob o verbete “ordenação”, na edição de 2005, a Enciclopédia Britânica diz o seguinte:
Nas igrejas que retiveram o episcopado histórico, o ministro que ordena é sempre um bispo. Nas igrejas presbiterianas, a ordenação é concedida pelos ministros do presbitério. Na tradição da Reforma Protestante, pessoas leigas são ordenadas pelo ministro em associação com outros ordenados de maneira semelhante, para serem anciãos dirigentes e diáconos. Na igreja Congregacional, a ordenação é conduzida por pessoas escolhidas pela congregação local.” – Publicado em inglês.
Porque as Testemunhas de Jeová não sabem nada dessa história
Em 1993, a Torre de Vigia lançou um livro chamado “Testemunhas de Jeová – Proclamadores do Reino de Deus”. Essa obra foi apresentada como uma versão oficial da história das Testemunhas de Jeová. Sobre esse livro, a Sentinela disse: “Muitos dos que observam o que está ocorrendo têm perguntas a respeito das Testemunhas — não só sobre as suas crenças, mas também sobre a sua origem, sua história, sua organização e seus objetivos. Outros têm escrito algo a respeito delas, embora nem sempre de forma imparcial. Todavia, ninguém conhece melhor a história moderna das Testemunhas de Jeová do que elas mesmas.” – A Sentinela, 1/05/1994, p. 16.
Ao mesmo tempo em que afirma que outras fontes não são confiáveis, ela diz que somente as Testemunhas de Jeová conhecem bem a história de sua religião. Em princípio, isto parece lógico. No entanto, não é verdade! Se você não for Testemunha de Jeová, faça um teste. Pergunte a qualquer Testemunha se ela sabe o que foi abordado aqui. Pergunte qual a razão do “Ministério do Reino” ter sido chamado durante um tempo de “Serviço do Reino”. Pergunte também se ela sabe o que ocorreu nos “bastidores” dessa mudança. Dificilmente você encontrará alguma Testemunha de Jeová que saiba desses fatos, além de outros não comentados neste artigo (Vide o último tópico – “Cronologia dos assuntos aqui abordados e outros relacionados”).
Numa visão bem otimista, 99,99 % das Testemunhas de Jeová não têm acesso aos registros antigos da sua religião e nunca leram os escritos de Charles Taze Russell e J. F. Rutherford. Mesmo os que trabalham na sede mundial nunca assistiram as reuniões secretas do Corpo Governante e nunca viram como os assuntos transcorrem, e como as decisões são tomadas. Então, como milhões de Testemunhas de Jeová espalhadas pelo mundo (a maioria das quais não fala inglês) poderiam conhecer a história de sua religião melhor do que qualquer outro?
Muitos que escrevem sobre a história da Torre de Vigia foram Testemunhas de Jeová por décadas e saíram das entranhas da organização. Como o relato de tais pessoas poderia ser questionado por alguém que nunca teve tal experiência, como é o caso da vasta maioria das Testemunhas de Jeová? É verdade que alguns membros muito antigos da organização poderiam fornecer um relato confiável de eventos que estão esquecidos no passado, mas normalmente essas pessoas não se arriscam a macular a imagem de “homens guiados por Deus” que é atribuída aos membros do Corpo Governante. Quaisquer casos que possam destruir esta imagem são automaticamente relegados ao esquecimento e se faz um grande esforço para que outras pessoas não tomem conhecimento deles. Apenas os “apóstatas” gostam de revirar o “baú” da Torre de Vigia e isso tem prejudicado em muito a imagem de sua religião diante das pessoas sérias e honestas.
Por exemplo, durante muito tempo circulou nos meios “apóstatas” a informação de que a Torre de Vigia havia construído uma casa chamada “Bete-Sarim” para abrigar Abraão, Isaque e Jacó quando estes fossem ressuscitados nos Estados Unidos (!). Os “apóstatas” também diziam que Charles Russell era um estudioso das pirâmides do Egito e achava que elas confirmavam profecias da Bíblia. Por serem histórias obscuras, a maior parte das Testemunhas de Jeová quando ouviam falar nelas diziam que era tudo mentira e coisa de “apóstatas”. (É claro que algumas Testemunhas muito antigas e ainda “ativas” na organização poderiam confirmar esses relatos, mas geralmente isso não acontecia). Mas quando o livro “Proclamadores” foi lançado, essas informações foram confirmadas pela própria Torre de Vigia, porém, de modo muito sutil, para não chocar ninguém. Enfim não eram histórias apenas de “apóstatas”! Mas, pergunte a alguma Testemunha de Jeová sobre a casa que a Torre de Vigia construiu para refugiar os seus líderes durante o Armagedom. Nenhuma delas saberá do que se trata, e dirá que isso é mentira dos “apóstatas”. Como a Torre nunca publicou nada a respeito, nenhuma Testemunha de Jeová saberá que um dia houve um abrigo “anti-atômico” chamado Bete-Sham.
Os exemplos acima mostram que só é possível saber uma informação de maneira completa se várias fontes independentes entre si forem pesquisadas e se os protagonistas dos eventos fornecerem informações exclusivas. Por exemplo, o que levou Frederic Franz a mudar de idéia no caso do conceito de “ministros ordenados”? A única maneira de saber é perguntando a quem conversou com ele sobre isso. Não é possível encontrar tal informação na Sentinela ou na Despertai!. No caso das deliberações do Corpo Governante, a única maneira de saber como elas acontecem é se um dos membros do CG contar. É óbvio que eles não farão isso, pois têm um pacto de silêncio entre si. No entanto, o ex-membro do Corpo Governante, Raymond Franz, rompeu o silêncio e contou toda a sua experiência no CG em um livro autobiográfico chamado “Crise de Consciência”. Embora seja uma leitura mais que obrigatória para todas as Testemunhas de Jeová, a Torre de Vigia proíbe terminantemente que elas o leiam. Qualquer uma que possui este livro é secretamente, como é o caso das TJs que participam do Mentes Bereanas. Então, como alguém pode, de sã consciência, dizer que as Testemunhas de Jeová têm um conhecimento extraordinário da própria religião, mais do que qualquer outra pessoa, se nenhuma delas pode fazer uma pesquisa completa de sua própria história?
É bom que se esclareça um ponto. Se alguém de fora perguntar à Torre de Vigia se ela proíbe seus membros de ler o que bem entendem, sorrindo, ela dirá que não! No entanto, se qualquer Testemunha de Jeová for flagrada lendo o livro de Raymond Franz e continuar a fazê-lo ela será expulsa da religião com direito a nomes tal como “seguidor de Satanás”, “apóstata”, “rebelde” etc. Nestas circunstâncias, diria você que realmente não há proibição?
Como já dito em outra parte deste site, a Torre de Vigia é uma religião que daria uma excelente tese de doutorado. Por um lado ela é uma religião mecanicamente eficiente, elegante e com aparência cristã. Enfim, uma religião do bem. Por outro, é uma religião fundamentalista, manipuladora, insegura e intelectualmente desonesta, e muitos de seus principais integrantes nem se apercebem disso! Nessa “moeda”, a face benigna só é vista nas publicações oficiais (e atuais) da religião. O outro lado só se vê nas fontes que a Torre de Vigia acusa de “apóstatas”. Em artigos de estudo, vez após vez o medo é incutido na mente das Testemunhas de Jeová, para que nunca acessem tais fontes. E por conta dessa intensa programação mental e ignorância generalizada, qualquer Testemunha de Jeová que escute falar de alguma falha de sua religião sai “correndo” feito uma criança assustada. Portanto, é por isso que nenhuma Testemunha de Jeová (ou quase nenhuma) sabe da história que acabou de ser contada neste artigo, pois ela não foi publicada pela Torre de Vigia, e sim por um ex-membro importante dela, que fazia parte do Corpo Governante – uma pessoa que detém um conhecimento dos fatos que nenhuma Testemunha de Jeová mediana no mundo possui.
Se você for uma Testemunha de Jeová e quiser entrar nas reuniões secretas do Corpo Governante para saber como a sua religião de fato funciona, leia o livro “Crise de Consciência”! Está previsto para dezembro de 2007 o lançamento em português do segundo livro de Raymond Franz - “Em Busca da Liberdade Cristã”. Quando ele for publicado, adquira-o também! Não deixe de fazer isso só porque alguém disse que é errado. Decida por si próprio. Ao seguir este conselho, você não estará fazendo nada de errado e nem tampouco prejudicando alguém. Estará simplesmente fazendo uso da liberdade que Jesus deu aos cristãos.
“Por que haveria de ser julgada a minha liberdade pela consciência de outra pessoa?”- 1 Coríntios 10:29.
Conclusão
O que foi aqui apresentado pode até ser contestado por algumas Testemunhas de Jeová (somente pelas que nunca leram o livro de Raymond Franz). Mas as evidências falam por si mesmas. A mudança do nome do km em si não é importante. Isso foi apenas um “termômetro” de algo que acontecia nos bastidores da Torre de Vigia, que dizia respeito a assuntos mais abrangentes e interesses nunca assumidos. É um caso que deveria fazer muitos irmãos refletirem. Mas, infelizmente, eles não podem, porque estão proibidos a terem acesso a essas informações.
Ao se percorrer os olhos na seqüência descrita no tópico a seguir (“Cronologia dos assuntos aqui abordados”), percebe-se que eventos aparentemente desvinculados entre si estão, de fato, conectados. Os acontecimentos ocorrem de forma cadenciada e as datas demonstram isso. É uma trama que quando seguida passo a passo revela motivações que chocam qualquer pessoa comprometida com a verdade e que teme o julgamento de Deus, no que tange à falta de honestidade e seriedade.
Um outro ponto muito importante é o que diz respeito às “novas luzes” publicadas pela Torre de Vigia. Ao se “assistir” as reuniões do Corpo Governante e suas longas discussões, ninguém fica com a impressão que ali são homens sendo guiados por Deus. O que se percebe é que tudo não passa de opiniões de seres humanos normais, estando algumas delas certas e outras não. Esta é a verdadeira “luz” irradiada para as Testemunhas de Jeová, “luz” que saiu das deliberações de homens reunidos numa sala e não de Jeová. O caso da doutrina dos “ministros ordenados” ilustra bem isso. Embora seja realmente possível Jeová guiar servos seus (de maneira individual), os fatos comprovam que o que acontece na Torre de Vigia não é bem o que ela diz.
Como dito freqüentemente em muitos lugares, conhecimento implica em responsabilidade. Se você, leitor, for uma Testemunha de Jeová e leu com atenção este artigo, saiba que nada do que aconteceu entre 1970 e 1982 no Corpo Governante desqualifica a Palavra de Deus ou serve de desculpa para não termos uma vida segundo os princípios cristãos. Não são os conceitos verdadeiramente divinos que foram aqui expostos e questionados. Por mais que a Torre de Vigia diga que tudo que ex-membros escrevem sobre ela não passa de “apostasia”, a verdade é que se ela um dia liberasse os seus adeptos para lerem tais matérias, em pouco tempo a decepção se alastraria e a religião das Testemunhas de Jeová correria o risco de acabar ou sofrer um revés sem precedentes.
Mas a pergunta que não quer calar é:
Até quando a censura medieval da Torre de Vigia conterá entre as Testemunhas de Jeová o desejo natural do ser humano de se informar cabalmente?
A Internet tem demonstrado que proibir o acesso à informação é uma tarefa cada vez mais difícil. Seria bem melhor que a Torre de Vigia mudasse sua postura, admitisse francamente seus erros (assumindo as conseqüências), pedisse perdão e recomeçasse tudo do “zero”. Que se inspirasse na mitologia da Fênix que renasce das cinzas. Embora tal mudança seja realmente uma utopia, É O CAMINHO CERTO A SE SEGUIR!
Cronologia dos assuntos aqui abordados e outros relacionados
Final do século XIX: Charles Taze Russell providencia um panfleto periódico chamado Idéias Sugestivas Para Colportores, para ajudar os pregadores de tempo integral.
1914: Frederic Franz conhece Charles Taze Russell. Pouco depois se batiza e larga a faculdade, para trabalhar como pregador de tempo integral.
1919: J. F. Rutherford providencia um novo periódico mensal para ajudar na pregação dos Estudantes da Bíblia, cujo nome era Boletim.
1935: O Boletim passa a se chamar Diretor.
1936: Há nova mudança e o Diretor recebe o nome de Informante.
1939: Raymond Franz se batiza, e começa a pregar por tempo integral.
1956: É dado um novo nome ao Informante, passando a ser O Ministério do Reino.
1961: Ocorre uma pequena alteração no nome: agora é Ministério do Reino.
1965: Raymond Franz é convidado para trabalhar no Departamento de Redação, e deixa o serviço missionário no Caribe. Sua primeira tarefa é preparar uma enciclopédia bíblica. Depois de formada a equipe, inicia os trabalhos.
1968: Ao iniciar as pesquisas para o verbete “cronologia”, Franz encarrega seu secretário Charles Ploeger de procurar nas bibliotecas de Nova Iorque alguma evidência arqueológica que apóie a data 607 para a destruição de Jerusalém. Como ele não encontra nada, ambos viajam para a Universidade Brown, em Rhode Island, para entrevistar o especialista em tabuinhas cuneiformes, Abraham Sachs, o qual acaba com toda esperança de se encontrar na Arqueologia um apoio para 607 e, por conseqüência, 1914. Mesmo assim, Franz escreve no verbete “cronologia” uma defesa da data 607, que se foca na tentativa de desacreditar as evidências arqueológicas.
1971: A enciclopédia bíblica é finalmente concluída e lançada com o nome de “Ajuda ao Entendimento da Bíblia”. Natan Knorr congratula Raymond Franz pelo excelente trabalho no “Ajuda” e o convida para fazer parte do Corpo Governante.
1974: Raymond Franz propõe que o batismo não significa a ordenação de um ministro cristão. Frederic Franz, seu tio, apóia a idéia. O presidente Natan Knorr a repele. Posteriormente, porém, todo o Corpo Governante concorda em mudar o conceito vigente.
1976: Em março é publicado um artigo na Sentinela, escrito por Raymond Franz, comunicando a nova posição a respeito do assunto. O mensário Ministério do Reino muda de nome e passa a se chamar Nosso Serviço do Reino.
1977: Carl Olof Jonsson, uma Testemunha de Jeová culta da Suécia, envia para o Corpo Governante uma apostila de sua autoria contendo uma pesquisa detalhada sobre a data 607 e a cronologia dos “Sete Tempos dos Gentios”, um ensinamento oriundo, na verdade, do movimento adventista do século XIX. Sugere que o ano de 1914 não é bíblico, mas apenas uma especulação. O CG demonstra pouco interesse em analisar o material e apenas Raymond Franz o faz.
1978: Em uma reunião do Corpo Governante, Lyman Swingle diz que ensinamentos importantes, como a cronologia de 1914, podem estar realmente errados. Natan Knorr confessa que ele mesmo não está convicto dessa doutrina.
1980: Grant Suiter, membro do Corpo Governante, diz que a mudança sobre “ministros ordenados” foi um “ataque à organização” e apresenta problemas que ela gerou. Raymond Franz entrega sua renúncia como membro do Corpo Governante. Vai servir em uma congregação do Alabama. Peter Gregerson o acolhe e lhe dá um emprego. Alguns meses depois, Frederic Franz surpreende e muda de opinião. Faz um discurso no qual diz que o batismo é o mesmo que ordenação. Carl Olof Jonsson cobra do Corpo Governante uma resposta para a sua pesquisa, que até então não tinha recebido.
1981: Descobre-se que Peter Gregerson contestava um ensino da Torre de Vigia. Sai um artigo na Sentinela, confirmando o retorno ao ensino de que todo cristão batizado é “ministro ordenado”. Peter Gregerson pede dissociação, pois acha essa situação mais benigna (até esse momento permitia-se contato com dissociados). Pouco depois é publicada na Sentinela uma matéria anulando o benefício da dissociação, igualando-a à desassociação. Raymond Franz é visto comendo uma refeição com Gregerson e é desassociado por causa desse motivo. A Torre de Vigia publica uma matéria confirmando que Gregerson estava certo no ponto que havia contestado (sem mencionar o nome dele, obviamente). No entanto, ela não retrata-se e nem o chama de volta à organização.
1982: Em março, o Nosso Serviço do Reino passa a ser “Nosso Ministério do Reino”, harmonizando-se com o conceito recém recuperado. Em julho, Carl Olof Jonsson é desassociado na Suécia, sem nunca ter recebido uma refutação de sua pesquisa. A Despertai! passa a exibir em seu prefácio uma frase dizendo que o ano de 1914 é uma “promessa do Criador” e que se deve confiar nisso. (Seria essa uma maneira que o Corpo Governante encontrou para enfatizar a crença nessa data e tentar convencer a si mesmo de sua validade? Ao se analisar a seqüência dos acontecimentos, percebe-se que a inclusão deste ousado prefácio não foi coincidência).
1983: Lyman Swingle é retirado da chefia do departamento de Redação e locado como responsável pela tesouraria da Torre de Vigia. Raymond Franz lança o livro “Crise de Consciência”, onde relata, detalhadamente e com provas documentais, toda a sua experiência como membro do Corpo Governante. Franz diz que o motivo de Carl Olof nunca ter recebido uma refutação do material dele é que ninguém na Torre de Vigia era capaz de fazer isso. Da publicação do “Crise” em diante, Raymond Franz é considerado um apóstata pela cúpula da Torre de Vigia e boatos difamatórios sobre ele circulam no mundo inteiro, entre as Testemunhas de Jeová. A partir deste ano, retiram-se dos índices de publicações da Torre de Vigia todas as referências a Raymond Franz.
1988: Uma nova enciclopédia, chamada “Estudo Perspicaz das Escrituras” é lançada no lugar do “Ajuda ao Entendimento da Bíblia”, porém muito do texto do “Ajuda” é reaproveitado, exceto os verbetes que foram escritos por Raymond Franz, tal como o verbete “Cronologia”. (Antes mesmo disso, edições posteriores do “Ajuda” já haviam retirado o texto de Franz, no verbete “cronologia”).
1990: A Torre de Vigia no Brasil entra na Justiça contra o INSS e ganha, alegando que por ser uma ordem religiosa com ministros ordenados deve estar isenta do pagamento de impostos.
1995: Na edição de 8 de novembro da DespertaI!, retira-se a afirmação de que ‘o Criador prometeu que Novo Mundo chegaria antes que desaparecesse a geração que viu os acontecimentos de 1914.’ Sem dúvida, o motivo da mudança foi a idade avançada dessa geração e o iminente não cumprimento dessa “promessa do Criador”. Mas a Torre de Vigia não admite isso. Diz apenas que foi uma “nova luz”...
2001: Lyman Swingle morre aos 90 anos. Com ele desaparece toda a esperança de que o Corpo Governante retome o assunto de 1914.
Presente: Dificilmente os membros mais jovens e recém admitidos do Corpo Governante saberão algum dia dos eventos marcantes que começaram a ocorrer na década de 70 e que terminaram em 1983. O que vierem a saber com certeza será uma versão parcial. E assim tudo permanece como sempre esteve na Torre de Vigia.
“ ‘Como saberemos qual a palavra que Jeová não falou?’ Quando o profeta falar em nome de Jeová e a palavra não suceder nem se cumprir, esta é a palavra que Jeová não falou. O profeta proferiu-a presunçosamente. Não deves ficar amedrontado por causa dele.” – Deuteronômio 18:21-22.
“[Disse Jesus:] Não vos cabe obter conhecimento dos tempos ou das épocas que o Pai tem colocado sob a sua própria jurisdição.” – Atos 1:7.
“Vinde agora, vós os que dizeis: ‘Hoje ou amanhã viajaremos para esta cidade e passaremos ali um ano, e negociaremos e teremos lucros’, ao passo que nem sabeis qual será a vossa vida amanhã. Porque sois uma bruma que aparece por um pouco de tempo e depois desaparece. Devíeis dizer, em vez disso: ‘Se Jeová quiser, havemos de viver e também de fazer isso ou aquilo.’ Mas agora vos orgulhais de vossas fanfarrices pretensiosas. Todo esse orgulho é iníquo. Portanto, se alguém souber fazer o que é direito e ainda assim não o faz, é pecado para ele.” – Tiago 4:13-17.
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