Tinham os primeiros cristãos liberdade de pensamento? - Parte 2
(por Carlos M. Silva)
E Jesus prosseguiu assim a dizer aos judeus que acreditavam nele: ‘Se permanecerdes na minha palavra, sois realmente meus discípulos, e conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará.’ Replicaram-lhe: ‘Somos descendência de Abraão e nunca fomos escravos de ninguém. Como é que dizes: “Ficareis livres” ’?
João 8:31-32.
Como descendentes de Abraão, os judeus estavam sujeitos à Lei mosaica. Mas eram escravos do pecado por causa da incapacidade deles de cumprirem todos os requisitos da Lei, conforme disse Paulo:
“Por que, então, a Lei? Ela foi acrescentada para tornar manifestas as transgressões, até que chegasse o descendente a quem se fizera a promessa.” — Gálatas 3:19. Para mais detalhes vide este artigo.
Além disso, ainda havia uma variedade de regras “baseadas” na Lei que sacerdotes e fariseus criavam, tornando a Lei ainda mais difícil de ser cumprida. (Mateus 23:4) Tudo isso aumentava muito a carga nos ombros das pessoas. Com fim da Lei de Moisés, mediante a morte de Cristo, todas essas regras legalistas desapareceram, e a partir de então os cristãos decidiriam “leis” voluntariamente, pelas suas consciências, provando realmente que a ‘a matéria da Lei está escrita no coração’, e não num código escrito. (Romanos 2:14-16). O Cristianismo rompeu com a prática de se escrever tudo o que se deve ou não se deve fazer. Essa nova modalidade, chamada de “lei do Cristo” (Gálatas 6:2), não foi prontamente aceita por alguns judeus convertidos ao Cristianismo. Eles estavam tão habituados a serem guiados por leis escritas, e tinham um apego tão grande à Lei mosaica, que não queriam se desfazer de algumas práticas da Lei, e ainda tentavam impor esse conceito a outros cristãos. Sobre tais, Paulo escreveu:
“Não obstante, nem mesmo Tito, que estava comigo, foi compelido a ser circuncidado, embora fosse grego. Mas, por causa dos falsos irmãos, introduzidos quietamente, que entraram furtivamente para espreitar a nossa liberdade, que temos em união com Cristo Jesus, a fim de que nos escravizassem completamente — a estes não cedemos no sentido de nos submetermos, não, nem por uma hora, para que a verdade das boas novas continuasse convosco”. — Gálatas 2:3-5.
O que se pode aprender dessa passagem? Que a liberdade do cristão é um bem inestimável, e que ele deve prezar essa liberdade. Sobre esse episódio, um comentarista disse o seguinte: "Da mão de Tito e diante dos falsos irmãos entra em cena a grande oposição da carta: a liberdade cristã frente à escravidão sob a lei.... A liberdade cristã é a parte essencial de um ‘evangelho autêntico’. Tito se apresenta como prova viva da liberdade cristã, contra as exigências dos que tentam impor a circuncisão e suas conseqüências como caminho necessário para a salvação." - Nota da versão Bíblia do Peregrino sobre Gálatas 2:4, 5.
Para refletir: Qual é a “circuncisão” que líderes “judeus” impõem hoje em dia?
A lição que o livro de Gálatas ensina é que o cristão está livre do legalismo. Note o conselho de Paulo, relacionado com o caso acima:
“Cristo nos libertou para a liberdade. Ficai firmes e não vos dobreis de novo a um jugo de escravidão.” - Gálatas 5:1, Versão Alfalit.
Sobre essa passagem, a Bíblia TEB comenta:
“Libertar para a liberdade. Esta expressão é, sem dúvida, um hebraísmo destinado a dar ao verbo libertar um sentido mais intenso. Paulo quer dizer que Cristo nos libertou totalmente; não devemos nos deixar despojar deste dom (cf. 4,9), mas valorizá-lo (cf. 5, 13).” – Nota ao pé de página da Bíblia TEB.
Evidentemente, incluída na liberdade cristã está a liberdade de pensamento, e tal liberdade de modo algum era um induzimento ao pecado, como poderiam pensar alguns daqueles cristãos dogmáticos do primeiro século contra quem Paulo falava, pois cada cristão sabe de sua responsabilidade perante Deus:
“Fostes, naturalmente, chamados à liberdade, irmãos; apenas não useis esta liberdade como induzimento para a carne, mas, por intermédio do amor, trabalhai como escravos uns para os outros.... Persisti em andar por espírito, e não executareis nenhum desejo carnal.... se estais sendo conduzidos por espírito, não estais debaixo de lei.” — Gálatas 5:13-18
“Que se segue daí? Cometeremos pecado porque não estamos debaixo de lei, mas debaixo de benignidade imerecida? Que isso nunca aconteça!” – Romanos 6:15.
Há um detalhe interessante. Não obstante todo o ambiente legalista combatido por Paulo, e a que os primeiros cristãos estavam expostos, os judeus do primeiro século tinham liberdade de pensamento no campo doutrinal, e normalmente não havia punição para dissidentes. Diz o ensaísta inglês Paul Johnson:
“O judaísmo palestino não era uma religião unitária, mas um conjunto de seitas: é possível, mesmo a partir de fontes fragmentárias, enumerar até 24.” – História do Cristianismo, p. 25, § 1, Imago.
Isso é confirmado pela simples leitura do Novo Testamento. Por exemplo, o Sinédrio era composto de judeus fariseus, e judeus saduceus. Os saduceus não acreditavam em ressurreição, anjos, espíritos, enquanto que os fariseus acreditavam em tudo isso. Mesmo assim eles trabalhavam em relativa harmonia, e não se excomunhavam mutuamente.
Foi essa diferença de pensamentos dos judeus que possibilitou uma estratégia maestral de Paulo. Quando ele foi levado perante o Sinédrio, para ser julgado, ele falou para os seus “juízes” que estava sendo julgado por causa da ressurreição dos mortos, algo totalmente irrelevante para os saduceus. Isso acabou por dissolver aquele “tribunal”. (Conforme observado por Jonhson, ainda havia outras seitas judaicas, sendo a mais famosa delas a dos essênios, responsáveis pelos rolos do Mar Morto). – Atos 23:6-8.
Portanto, não é razoável pensar que Paulo tenha sido contra uma certa medida de liberdade de pensamento entre os primeiros cristãos, mesmo no campo doutrinal. A própria Bíblia é um forte testemunho dessa liberdade, fato também percebido por Paul Jonhson:
“Paulo é um obstáculo aos que pretendiam converter o cristianismo em um sistema fechado. Ele acreditava na liberdade de pensamento.... Associou liberdade à verdade, pela qual sentia ilimitada reverência. Em sua perseguição da verdade, estabeleceu o direito de pensar e a refletir até a conclusão final.... Instituiu o direito de pensar helenístico pleno, mostrando, destarte, que a fé cristã nada tem a temer do poder do pensamento.” – História do Cristianismo, p. 54, Imago.
É claro que havia um conjunto básico de ensinamentos cristãos que devia ser seguido e respeitado, mas ele não era um conjunto de leis contemplando inúmeros detalhes da vida de uma pessoa, tal como fora a Lei mosaica, e como é a “Lei” das Testemunhas de Jeová. O cristão teria liberdade e mobilidade para tomar suas próprias decisões. Não é difícil perceber que a Sociedade Torre de Vigia elaborou uma espécie de “lei mosaica” para os seus adeptos. Isso é muito claro, embora as Testemunhas, em geral, não percebam.
Por exemplo, todos sabem que as Testemunhas de Jeová não aceitam transfusões de sangue. Isso não é nenhuma novidade. No entanto, uma série de normas baseadas nessa “lei” foram criadas, e dizem respeito aos “componentes primários” do sangue e às frações sangüíneas. Todas as frações do sangue foram liberadas para as Testemunhas, embora já tenham sido proibidas no passado. Na mente de muitas Testemunhas de Jeová essas frações foram liberadas porque são muito pequenas, e por isso não há problema em aceitá-las. A albumina é uma delas, e representa 2,2% do sangue total. Por outro lado, as plaquetas estão proibidas, embora representem apenas 0,17% do sangue total. Os leucócitos também são proibidos pela Torre de Vigia. No entanto, o leite materno contém umas cinco vezes mais leucócitos do que o sangue. Só falta agora as Testemunhas serem proibidas de amamentar os seus filhos!
Qual é a Testemunha de Jeová que se habilita a encontrar na Bíblia textos que justifiquem esses critérios? Certamente nenhuma. De fato, nem mesmo o órgão dirigente das Testemunhas, a Sociedade Torre de Vigia, é capaz. Veja como ela justificou essa “lei”: “Portanto, em harmonia com os fatos da medicina, as Testemunhas recusam a transfusão de sangue total ou de qualquer dos seus quatro componentes primários.” [tais como os diminutos leucócitos e plaquetas] (A Sentinela, 15/06/04, p.22). Portanto, essa norma foi criada em “harmonia com os fatos da medicina”, e não com a Bíblia. Na prática, isso significa que foi criada de acordo com o entendimento dos dirigentes das Testemunhas.
Um bom exemplo de codificação da “lei das Testemunhas de Jeová” é o livro “Prestai Atenção a Vós Mesmos e a Todo o Rebanho”, publicado pela Torre de Vigia e distribuído somente aos anciãos (pastores). Tome como exemplo a seção do livro que trata do pecado de adultério. Embora o adultério seja claramente um pecado para o cristão, veja quantas “leis” a Torre conseguiu “erigir” a partir desse pecado:
“O cônjuge inocente deve ser informado de que recomeçar as relações sexuais com o cônjuge adúltero indica que houve perdão e, portanto, cancela a base bíblica para o divórcio. (w 81 1/9 pp.30-1)
“O adultério perdoado não pode ser usado mais tarde como base para o divórcio, mas casos de adultério não revelados podem ser usados, caso sejam trazidos à tona. (w 75 15/2 pp.126-7)
“O perdão do adultério envolve a disposição da parte do cônjuge inocente de reassumir as relações sexuais com o cônjuge adúltero dentro de um período razoável de tempo. (w 75 15/6 pp.383-4).” – p. 134, seção 5(c), edição de 1991.
Perceba que a base utilizada para os pontos acima são as próprias publicações da Torre de Vigia. Logicamente isso é assim porque não há nada nas Escrituras que ofereça suporte a essas “leis”, o que fere o seguinte princípio bíblico: “Não vades além do que está escrito.” (1 Coríntios 4:6) Por mais lógicas e coerentes que as palavras acima possam parecer para alguns, outros certamente poderão questioná-las. Esses são detalhes que só o cristão individualmente pode decidir, e ninguém pode decidir por ele. Não pensar assim é contradizer um dos pontos principais do Cristianismo, que é o de estudar, pensar, ponderar e decidir.
Outro exemplo é a definição de idolatria dada pela Torre, que caracteriza, segundo ela, um ato de apostasia e de rebeldia contra Deus, e deve ser punida com a expulsão. Diz o livro dos anciãos:
“Idolatria inclui a posse e o uso de imagens e quadros empregados na religião falsa.” – p. 95, seção 5(a).
* Entenda-se por “religião falsa” todas as religiões, exceto as Testemunhas de Jeová.
Segundo a Torre de Vigia, para se ser idólatra nem é necessário venerar um quadro (fazendo-se “uso” dele), basta possuí-lo. É, pelo visto nenhuma Testemunha de Jeová pode ter em sua casa uma réplica de quadros renascentistas com temas religiosos, tais como o “Eis o Homem”, de Ciseri, ou a “Santa Ceia”, de da Vinci, muito embora a Torre já tenha reproduzido uma dessas obras em sua literatura. – Veja a capa da revista A Sentinela, de 1º de julho de 1993.
Os exemplos acima deveriam induzir qualquer Testemunha de Jeová a refletir se ela é um escravo de Deus, ou de homens. O livro “Pastoreai” dos anciãos (mais conhecido entre eles por “ks”), está repleto de exemplos desse legalismo a que as Testemunhas de Jeová estão submetidas. É uma situação lamentável, pois fere diversos princípios bíblicos:
“Mas, prove cada um quais são as suas próprias obras, e então terá causa para exultação, apenas com respeito a si próprio e não em comparação com outra pessoa. Pois cada um levará a sua própria carga.” - Gálatas 6:4, 5.
“A fé que tens, tem-na de acordo contigo mesmo à vista de Deus. Feliz é o homem que não se põe a si mesmo em julgamento por aquilo que ele aprova.” - Romanos 14:22.
“Qualquer inexperiente põe fé em cada palavra, mas o argucioso considera os seus passos.” - Provérbios 14:15.
Para refletir
Se você for Testemunha de Jeová, com os textos acima em mente, responda:
· Seria correto os líderes de sua religião escolher quais “cargas” você levará?
· Seria correto você se condenar por aquilo que seus líderes não aprovaram? (Releia o texto acima de Romanos).
· Você acha correto que os seus líderes ‘considerem os seus passos’ por você’?
Que suas respostas levem em consideração o seguinte conselho:
“Entretanto, tornai-vos cumpridores da palavra e não apenas ouvintes, enganando-vos com falsos raciocínios.” – Tiago 1:22.
Para refletir
A liderança mundial das Testemunhas de Jeová deu o seguinte conselho aos pastores locais das Testemunhas, espalhados em diversas congregações no mundo:
“Os anciãos terão de exercer cuidado para não deixar sua própria consciência mandar na dos outros, como se eles fossem ‘amos da fé dos outros’.” – Ministério do Reino, novembro de 1976, p. 6.
Pergunta: Está a liderança mundial das Testemunhas de Jeová seguindo o seu próprio conselho?
Ao que parece situações semelhantes aconteciam no primeiro século, pois Jesus disse o seguinte sobre as coisas certas que líderes religiosos ensinavam:
“Portanto, todas as coisas que eles vos dizem, fazei e observai, mas não façais segundo as ações deles, pois dizem, mas não realizam. Amarram cargas pesadas e as põem nos ombros dos homens, mas eles mesmos não estão dispostos nem a movê-las com o dedo.” – Mateus 23:3-5.
Ele disse também:
“Sabeis que os governantes das nações dominam sobre elas e que os grandes homens exercem autoridade sobre elas. Não é assim entre vós; mas, quem quiser tornar-se grande entre vós tem de ser o vosso ministro, e quem quiser ser o primeiro entre vós tem de ser o vosso escravo.” – Mateus 20:25-27.
Pergunta: Está a liderança mundial das Testemunhas de Jeová seguindo o conselho de Cristo?