Tinham os primeiros cristãos liberdade de pensamento? - Parte 1
(por Carlos M. Silva)
Assim é que, devido a sociedade do Novo Mundo aplicar os referidos mandamentos, exemplos, normas e princípios bíblicos às questões e problemas da vida, um grande conjunto de leis teocráticas vem sendo erigido [pela Torre de Vigia]. - A Sentinela, 1/12/63, página 716, parágrafo 25, colchetes acrescentados.
Quem conhece bem a religião das Testemunhas de Jeová sabe que elas não têm liberdade para decidirem por si próprias, à luz da Bíblia, o que é pecado, e estão submetidas a uma série de leis, normas e regulamentos, nem sempre especificados nas Escrituras. Conforme evidenciado na citação acima, muitos de tais “mandamentos” foram ‘erigidos’, ou elaborados, pelos que estão na dianteira mundial das Testemunhas de Jeová, e ao longo de vários anos.
Podem-se citar como exemplos das “leis tejotianas” o seguinte: (1) os homens não devem deixar a barba crescer. É proibido: (2) fumar, (3) cheirar rapé, (4) trabalhar em fábricas de cigarro, (5) comemorar aniversários de nascimento, (6) jogar na loteria, (7) praticar sexo oral, (8) se divorciar por motivo de incompatibilidade, (9) participar de competições esportivas, (10) brindar taças de champanhe, (11) dizer “saúde!” quando alguém espirra (12) entrar em qualquer templo religioso (mesmo por motivação cultural), (13) praticar arte marcial, (14) votar em candidatos políticos, (15) trabalhar em cargos de governo, (16) servir nas forças armadas, (17) trabalhar para alguma denominação religiosa, (18) discordar de qualquer ensino da Sociedade Torre de Vigia dos E.U.A., e assim por diante. Qualquer um desses “pecados” é passível de punições, sendo a maior delas a excomunhão, chamada pelas Testemunhas de "desassociação". Essa medida disciplinar consiste em nenhum dos membros da religião falar com o “errante”, considerando-o como morto.
Dentre as “leis” observadas pelas Testemunhas de Jeová, há as que são claramente ensinadas na Bíblia, outras, porém, possuem apenas vagas referências no texto sagrado. Além disso, há também aquelas que inexistem completamente nas Escrituras, e são elaboradas pelo Corpo Governante das Testemunhas, sediado em Brooklin, Nova Iorque. Os membros desse Corpo estão convencidos que são autorizados por Deus a exercerem sobre as Testemunhas todas as funções que caracterizam o pleno poder, ou seja, governar, legislar, e julgar. Por causa do amplo alcance das “leis tejotianas”, muitos têm chegado corretamente à conclusão que o poder do Corpo Governante sobre as Testemunhas de Jeová é tão grande que nem mesmo o Papa da Igreja Católica tem esse nível de autoridade sobre os membros de sua igreja.
Ao se analisar as “leis teocráticas” das Testemunhas de Jeová, muitas questões podem ser levantadas, e essas questões deveriam interessar especialmente às próprias Testemunhas, pois elas são ensinadas que estão sob um sistema de autoridade semelhante ao que havia no primeiro século. Mas esse sistema era realmente o modelo adotado pelos primeiros cristãos? Ou eles tinham alguma liberdade de pensamento?
O homem espiritual examina deveras todas as coisas, mas ele mesmo não é examinado por homem algum.... Por que haveria de ser julgada a minha liberdade pela consciência de outra pessoa?
--- 1 Coríntios 2:15; 10:30 ---
No segundo capítulo da primeira carta de Paulo aos coríntios, o apóstolo explica que “o espírito de homem” sabe somente os assuntos de homem, ao passo que os assuntos de Deus somente “o espírito de Deus” conhece. (1 Cor. 2:11). De modo, que não é pela sabedoria de homens que se sabe qual é a vontade de Deus para “os que o amam”, mas pela sabedoria de Deus.
Sim, o ser humano possui o dom natural de pesquisar e entender as coisas humanas, mas a sabedoria divina também permite que se entenda algo mais: aquilo que vem de Deus. Ele dá essa aptidão adicional aos seus servos, conforme disse Paulo: “Recebemos..... o espírito que é de Deus, para que soubéssemos as coisas que nos foram dadas bondosamente por Deus. Destas coisas também falamos.”
Juntamente com essa capacidade de raciocínio espiritual dada por Deus, existe a liberdade de pensamento e de ação, pois Paulo disse que o ‘homem espiritual examina todas as coisas’ que ele quer, mas “ele mesmo não é examinado por homem algum”, tendo, portanto, liberdade de consciência, liberdade de pensamento. Admite isso exceção? A exceção que existe é baseada somente na lei universal do amor.
No capítulo dez da mesma carta, Paulo exorta alguns cristãos a não se apegarem aos seus pensamentos e fazerem o que outros cristãos queriam no que tange à alimentação de carne. Naquele tempo, alguns cristãos chegaram à conclusão que não era certo comer carne de animais que poderiam ter sido mortos em sacrifícios a deuses pagãos. Outros, porém, não se preocupavam com isso. Qual foi o conselho de Paulo? Ele disse: “Se o alimento fizer o meu irmão tropeçar, nunca mais comerei carne alguma, para que eu não faça meu irmão tropeçar.... Será que não temos autoridade para comer e beber?.... embora eu esteja livre de todos, fiz-me escravo de todos, para ganhar o máximo número deles.” - 1 Coríntios 8:12; 9:1-7, 18-23.
Sendo assim, era o amor e o interesse por co-irmãos que devia estimular essa atitude. Não era porque alguém disse que tinha de ser dessa maneira. A pessoa voluntariamente abria mão de seus pensamentos e conclusões em prol de seu irmão, a quem queria ajudar. É bem diferente do que acontece com as Testemunhas de Jeová, elas abrem mão da própria liberdade e seguem o que dita a consciência dos seus líderes nos Estados Unidos, somente por causa da autoridade deles, e também por temerem punições. No primeiro século não era assim. Não havia uma autoridade legalista para impor todo tipo de regras à vida alheia, pois o próprio Paulo afirmou posteriormente:
“Não é que sejamos os amos de vossa fé, mas somos colaboradores para a vossa alegria, porque é pela vossa fé que estais em pé.” – 2 Coríntios 1:24.
Existe uma sensível diferença em se ser “colaborador” e se ser “amo”, não acha? No lugar de "amo", leia-se "dono". Pense, por exemplo, nos departamentos de um grande jornal. Dentro deles existem inúmeros colaboradores, dentre os quais escritores, secretários, estagiários, telefonistas etc. No entanto, pode qualquer um desses colaboradores estipular as regras de todos os setores do jornal? Ele pode restringir, ao seu bel prazer, a liberdade de ação dos seus colegas? Ele pode passar por cima da autoridade do presidente, ou do dono do jornal?
Paulo, que ocupava uma posição de autoridade na congregação do primeiro século, não se achava amo da fé dos irmãos, mas um colaborador dessa fé. Por conhecerem essa passagem os líderes da Torre de Vigia ensinam que eles não são líderes, apenas ocupam uma função de “dianteira”, e são apenas “colaboradores” das Testemunhas de Jeová. É por isso que nenhuma Testemunha de Jeová gosta que alguém diga que ela tem líderes, ou segue a homens. A resposta padrão das Testemunhas de Jeová, ensinadas pelos da “dianteira”, é que o único líder delas é Jesus Cristo. – Ministério do Reino, dezembro de 1995, p. 5.
O ponto de vista moderado, defendido por Paulo, pode ser um reflexo do ambiente no qual os cristãos do primeiro século viviam, primeiramente o ambiente judaico com a Lei mosaica e as tradições estabelecidas, e também o ambiente greco-romano, com sua relativa liberdade de pensamento. Analisar o ambiente dos cristãos primitivos contribuirá imensamente para se entender como era a liberdade de pensamento entre eles. Se não era irrestrita, certamente não era legalista. Para um estudo mais completo, também é importante estudar como era a vida dos cristãos até o segundo século, e como eles encaravam a liberdade de pensamento. Esses pontos serão analisados nessa série de artigos.