O Corpo Governante é "Maquiavélico"?

 

Segunda comunicação do Josivan:

Caríssimo Carlos,

Obrigado pela sua resposta. Pode acreditar quando digo que li e meditei em suas palavras com a mente aberta.

Não pretendo refutar suas palavras, aliás não há como refutá-las, pois contra fatos não há argumentos, e o que você expõe em seu email são realmente fatos muito bem documentados.

Mas quando eu digo que vocês não conhecem bem nossa religião, estava me referindo a conhecê-la de cima para baixo. Poucos anciãos conseguem imaginar a difícil tarefa de ser um membro do Corpo Governante. Eu consigo imaginar. Por isso entendo por que as coisas são do jeito que são.

Carlos, imagine por um momento que você fosse membro do Corpo Governante. Suponhamos que estivesse na pauta de uma das reuniões a questão de esclarecer ou não a todos os irmãos e ao mundo em geral a questão das transfusões sangüíneas e que a posição oficial, por tanto tempo defendida pelas Testemunhas de Jeová, está completamente fora dos ensinamentos da Bíblia.

O Corpo Governante ouve conselheiros de várias áreas da organização. Estão convencidos de que a doutrina está errada, mas ao ouvirem o corpo de advogados de Blooklyn, são informados de todas as conseqüências legais que sobreviriam sobre a organização caso decidissem abrir o jogo. E as conseqüências são gravíssimas: a organização poderá quebrar financeiramente. Aí eles passam a analisar como seria se a organização quebrasse. Imagine filiais fechando em vários países, salões do reino fechando... Pense naquelas pessoas humildes, que não suportariam saber que a religião que acreditam ser a verdadeira ruiu. Analisando friamente todos os prós e os contras, o que você decidiria fazer, se estivesse na posição de decidir?

Quando nos colocamos na posição de um desses irmãos, percebemos que não é uma tarefa fácil decidir fazer o que acreditamos que é o mais correto.

Diga-me Carlos, você já leu O Príncipe, de Maquiavel? É um livro odiado por muitos. A expressão "maquiavélico" é um étimo do antropônimo Maquiavelli. Refere-se ao "indivíduo ardiloso, pérfido, possuidor de mente treinada em arquitetar friamente atos de má-fé".
Quando li o livro pela primeira vez, pensei: como pode um homem aconselhar um governante a ser uma pessoa assim? Um governante tem que amar seu povo, e se for necessário dar a vida por ele. Mas depois de ocupar uma posição de autoridade secular que em diversas ocasiões me colocava entre a "cruz e a espada", eu voltei a Maquiavel e concluí o seguinte:

Quando você governa sobre um povo (seja esse governo secular ou eclesiástico), precisa decidir: Ou agirá maquiavelicamente em alguns assuntos, ou deverá abdicar de sua posição.

Sei que esta é uma verdade que nenhuma Testemunha de Jeová diria em voz alta, MAS ESTA É A VERDADE.

Mesmo que o Corpo Governante decidisse corrigir tudo que está errado, penso que os homens abaixo do Corpo Governante não permitiriam isso e tomariam o poder em suas mãos. E mesmo que as esferas de poder abaixo do Corpo Governante fossem concordando, homens individuais assumiriam o poder, e nós teríamos uma organização de quase sete milhões de membros se transformando em milhares de pequenas organizações religiosas.

Diante de tudo isso, ainda acho que a decisão do Corpo Governante é a mais acertada. Eles estão seguindo o mesmo método da igreja Católica: Negar por décadas e até por séculos, se for necessário, que cometeram algum erro. E aí, quando o nevoeiro do tempo tiver encoberto todas as lembraças, admitir que estavam errados e serem elogiados por essa atitude, como fez o Papa João Paulo II com respeito a Inquisição.

É imoral, é anti-cristão, é errado, é horrível... Mas é politicamente o mais acertado a ser feito.

Fazer política secular não é fácil, meu caro amigo anônimo, e fazer política eclesiástica muito menos ainda. Por isso entendo por que o Raymond teve que sair. Eu também sairia, pois não tenho estômago para isso. Mas não posso condenar meus irmãos do Corpo Governante por assumirem uma tarefa que alguém teria que fazer.

É isso, meu caro. Essa é a minha opinião sobre o panorama geral que você expôs em seu email. Não vou entrar em discussões exegéticas e hermenêuticas sobre os pontos que você apontou, apenas levanto a pergunta: Dá para se corrigir tudo agora, ou é melhor fazer isso aos poucos?

Eu me atrevo a comparar vocês com o pessoal da oposição ao governo. Enquanto oposição, criticam generosamente o governo e passam a idéia de que seria muito simples resolver problemas complexos; mas quando asumem o governo, fazem igual ou até pior do que àqueles que criticavam.

Pense nisso, meu caro. Se você e a sua equipe do Mentes Bereanas fossem o Corpo Governante das Testemunhas de Jeová, será que agiriam de modo muito diferente de como eles agem? É uma pergunta de retórica. Respondam para vocês mesmos.

Josivan

PS: Eu não sou o XXXXXXX XXXX (superintendente de circuito) que você pensa que eu sou, assim como você não é o Carlos Silva (superintendente de distrito) e o Phileleutherus não é Richard Bentley (que escreveu sobre autores clássicos como Homero, Horácio e Terêncio) e nem o Miguel Servet de vocês é o reformador espanhol do século 16, (o único dissidente religioso que foi queimado vivo pelos protestantes). Obviamente estamos todos usando pseudônimos de pessoas que admiramos.

 

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