Mudanças no Ensino da "Geração de 1914" e Reflexões

Prezados Senhores:

Sou uma Testemunha de Jeová e sou do tipo curioso. 

Cresci na organização, meu pai sempre fora ancião exemplar, e eu mesmo já fui ancião, e tinha diversos privilégios de destaque na organização. Eu era um ancião com carreira promissora dentro da religião.

Acontece que uma dúvida sempre pairou em minha mente, embora sejamos ensinados a não dar margem a dúvidas e não questionarmos. Sempre respeitei tal ensino.

O que me intriga é sobre a geração de 1914. Antes de 1995, várias publicações falavam sobre a dita geração, que não passaria até o fim chegar. Eu quantas vezes nos discursos públicos lembrava aos irmãos que "a geração de 1914 está com oitenta e poucos anos...olhe...não afrouxe." E assim se foi. Em 1995, entre outubro e novembro, dois assuntos bombásticos. Primeiro, segundo o assunto da Sentinela, a geração de 1914 não é aquela que achávamos que era, e o assunto diz que as Testemunhas de Jeová especularam sobre tal geração, livrando o Escravo da responsabilidade, ou seja, como se eu escrevesse tal assunto e fosse eu o responsável. Que decepção...Segundo, a identificação das ovelhas e dos cabritos.......não era como pensávamos.....Bem, só sei que a partir daí, surtiu nos irmãos a seguinte expectativa: O fim não está tão próximo e a nossa obra não é tão importante, visto que é Jesus quem separará as pessoas, no devido tempo, quais ovelhas e cabritos. Pensei, "ora seu tonto, você está por fora".

Mas, como sou curioso, a partir daí comecei a reparar na obra mundial anunciada em janeiro na Sentinela (agora é em fevereiro) e no nosso Anuário. E o que percebi? A obra mundial começou a ter decréscimo em vários países. Até no México, a pérola da obra dos anos oitenta deu uma recuada. E o que determina tal fenômeno? Não sei, aliás se alguém souber, me responda... De lá para cá, entreguei meu cargo, voltei a estudar, me formei e hoje não sou um membro tão "teocrático" como era antes. Freqüento as reuniões, vou uma ou duas vezes no serviço de campo e coisas assim. Não sei até onde tal situação vai me levar. Tenho outras pessoas assim na mesma situação e brincando, nós falamos que para nós, há necessidade de sangue novo.

Então é isso, não sei se me responderão, nem sei se são realmente Testemunhas, mas não importa, estou lhes escrevendo o que acontece com muitos entre nós, sem citar os que passam por doenças, crises financeiras e outras e o como os atuais anciãos estão perdidos em ajudar os irmãos com tamanha bagagem de problemas, só por Deus.

No ínterim, agradeço a atenção. Se por acaso forem postar meu comentário, fiquem à vontade, mas reservem meu email. Iguais a vocês, quero viver anônimo.

Abraços,

Joaquim

RESPOSTA

Caro Joaquim:

O que você descreveu é a mais absoluta realidade. Muitas Testemunhas nutriram exatamente esse sentimento que você nutriu. Sua impressão foi correta. No final das contas, aquele artigo de 1995 que anunciava a mudança no ensinamento da "geração de 1914" não passou de um simulacro, uma fuga da responsabilidade. Em vários outros assuntos a Torre usa o nome "Testemunhas de Jeová" como bode expiatório para os seus erros. Só assume a própria identidade quando é para reforçar ou impor a sua autoridade...

Saiba que já na década de 1970 o Corpo Governante discutiu a validade desse ensinamento (geração de 1914), e até o presidente na época, Nathan Knorr, disse que não tinha certeza se o ensinamento dos "7 tempos dos gentios" era correto. Mesmo estando com muitas dúvidas sobre esse e outros assuntos, os membros do Corpo tinham um "pacto" para não demonstrar isso para os irmãos, ao saírem de suas reuniões secretas. Deixavam as coisas como estavam, pois, afinal, a obra ia bem, e ainda havia um bom tempo para protelar.

O exemplo acima mostra como seria proveitoso para você pesquisar melhor o que realmente ocorre na organização. É por isso que não podemos nos calar diante dessa situação. Guardadas as devidas proporções, vivemos uma "reprise" do que aconteceu com Miguel Servet, William Tyndale e tantos outros perseguidos pelo outrora "representante de Deus" na Terra, a Igreja Católica na época do obscurantismo.

Um dos motivos porque o ensinamento da geração de 1914 falhou é que o ensino dos "7 tempos" não passa de uma especulação, originalmente formulada por segundo-adventistas. A Sociedade tomou esse ensinamento emprestado deles. Russell previu o "fim do mundo" para 1914, e não a primeira guerra mundial.

Tendo por base 1914, a Torre de Vigia diz que em 1918/19 Jesus a escolheu como seu representante na Terra e rejeitou todos os outros "professos cristãos" do mundo. Já desconfiou, alguma vez, que esse ensino é simplista e dogmático em demasia? Sem falar que é um atentado à inteligência de qualquer servo de Deus que está familiarizado com os avisos divinos de não nos sujeitarmos "a qualquer vento de ensino". Mas é justamente esse ensino (1914) que tem conferido a autoridade "divina" da Torre de Vigia sobre os seus seguidores. O detalhe, porém, é que o ponto de partida de 1914 (a data 607) está errada, pois não existe uma evidência sequer na História de que ela esteja correta. Além disso contradiz a própria Bíblia. Incentivamos que você leia os artigos do Mentes Bereanas que tratam desse assunto.

Aproveitamos para parabenizá-lo por ter procurado buscar o tempo perdido e ter investido em uma educação formal. Fazer isso não significa necessariamente que você é materialista e sem espiritualidade, como a liderança da organização insinua.

Agradecemos pelo contato.

Seus amigos e irmãos do,