Imortalidade da Alma ou Ressurreição dos Mortos?
PREFÁCIO DO AUTOR
Este trabalho
é a tradução de um estudo já publicado na Suíça, do qual um resumo apareceu
em vários jornais franceses.
Nenhuma outra
publicação minha provocou tanto entusiasmo ou uma hostilidade tão violenta.
Os editores dos periódicos em questão foram bondosos o bastante em me
enviarem algumas das cartas de protesto que receberam de seus leitores.
Numa das cartas, o escritor foi induzido pelo meu artigo a expressar a
amarga reflexão de que “ao povo francês, já morrendo por falta do Pão
da Vida, foi oferecido em vez de pão, pedras, senão serpentes”. Outro
escritor colocou-me como uma espécie de monstro que se deleita em causar
aflição espiritual. “Será que o Sr. Cullmann tem uma pedra, em vez de
um coração?”, escreveu ele. Para um terceiro, meu estudo foi “motivo de
espanto, tristeza e profunda aflição”. Amigos que acompanharam meus trabalhos
anteriores com interesse e aprovação deram-me indícios da dor que este
estudo lhes causou. Em outros, percebi um mal-estar que eles tentaram
esconder mantendo um silêncio eloqüente.
Meus críticos pertencem aos mais variados campos. O contraste, que devido
ao interesse pela verdade, eu achei necessário estabelecer entre a destemida
e alegre esperança cristã primitiva da ressurreição dos mortos e a serena
expectativa filosófica da sobrevivência da alma imortal, desagradou não
só muitos cristãos sinceros em todas as comunhões e de todas as perspectivas teológicas,
como também aqueles cujas convicções, ainda que não exteriormente alienadas
do cristianismo, são mais fortemente moldadas por considerações filosóficas.
Até agora, nenhum crítico de qualquer tipo tentou refutar-me pela exegese,
que é a base de nosso estudo.
A notável concordância
nessa oposição parece mostrar-me quão generalizado é o erro de atribuir
ao cristianismo primitivo a crença grega na imortalidade da alma. Além
disso, pessoas com tão diferentes posturas, como essas que mencionei,
estão também unidas numa incapacidade comum de ouvir
com completa objetividade o que os textos nos ensinam sobre a fé e a esperança
do cristianismo primitivo, sem misturar suas próprias opiniões e os conceitos
que lhes são tão prezados com sua interpretação dos textos. Surpreendentemente,
esta incapacidade de ouvir caracteriza também pessoas inteligentes, que
são comprometidas com os sólidos princípios da exegese científica e também
crentes que professam confiar na revelação das Escrituras Sagradas.
Os ataques provocados
pelo meu trabalho me impressionariam mais se fossem baseados em argumentos
exegéticos. Em vez disso, sou atacado com considerações muito gerais de
natureza filosófica, psicológica e, principalmente, sentimental. Tem sido
dito contra mim que, ‘eu posso aceitar a imortalidade da alma, mas não
a ressurreição do corpo’, ou ‘eu não posso crer que nossos entes queridos
simplesmente dormem por um período indeterminado, e que quando eu morrer,
simplesmente vou dormir enquanto espero a ressurreição’.
Será que é realmente necessário relembrar hoje a pessoas inteligentes, sejam
elas cristãs ou não, que há uma diferença entre reconhecer
que tal conceito foi defendido por Sócrates e aceitá-lo, ou entre reconhecer
uma esperança como sendo dos primitivos cristãos e compartilhá-la?
Primeiro devemos
ouvir o que Platão e Paulo disseram. Podemos ir além. Podemos respeitar
e até admirar ambos os conceitos. Como poderíamos deixar de fazê-lo se
sabemos que seus autores viveram e morreram por estes conceitos? Mas isso
não é motivo para negar que há uma diferença radical entre a expectativa
cristã da ressurreição dos mortos e a crença grega na imortalidade da
alma. Por mais sincera que seja nossa admiração para com ambos os conceitos,
não podemos nos permitir fingir que eles são compatíveis, indo contra
a nossa profunda convicção e contra a evidência exegética. Que é possível
descobrir certos pontos de contato, eu mostrarei neste estudo, mas isso
não anula o fato de que sua inspiração fundamental é totalmente diferente.
O fato de que
mais tarde o cristianismo fez uma conexão entre as duas crenças e que
hoje o cristão comum simplesmente as confunde, não me convenceu a ficar
em silêncio sobre o que eu, assim como muitos exegetas, consideramos como
verdadeiro; assim como tudo o mais, já que a ligação estabelecida entre
a expectativa da “ressurreição dos mortos” e a crença na “imortalidade
da alma” não é realmente uma conexão pura e simples, e sim a renúncia
a uma das crenças em favor da outra. O conteúdo de 1 Coríntios 15 foi
sacrificado em favor do Fédon. Não serve a qualquer bom propósito esconder esse fato, como muitas vezes
se faz hoje, quando coisas que são realmente incompatíveis são combinadas
em nome do seguinte tipo de raciocínio extremamente simplista: que qualquer
coisa no ensino cristão primitivo que nos pareça incompatível com a imortalidade
da alma, ou seja, a ressurreição do corpo, não é uma afirmação essencial para os primitivos cristãos,
e sim apenas uma acomodação às expressões mitológicas do pensamento da
época deles, e que o centro da questão é a imortalidade da alma. Pelo
contrário, devemos reconhecer lealmente que essas coisas, que são as que
precisamente distinguem o ensino cristão da crença grega estão no âmago
do cristianismo primitivo. Ainda que o intérprete não possa aceitá-las
como fundamentais, ele não tem qualquer direito de concluir que elas não
eram fundamentais para os autores que ele estuda.
Tendo em vista
as reações negativas e a “aflição” provocada pela publicação de minha
tese em vários periódicos, será que eu deveria então ter cessado o debate
em prol do amor cristão, em vez de publicar este folheto? Minha decisão
foi determinada pela convicção de que “pedras de tropeço” são às vezes
salutares, tanto do ponto de vista erudito como do ponto de vista cristão.
Peço apenas aos meus leitores que tenham a bondade de se dar ao trabalho
de lê-lo até o fim.
A questão é levantada aqui em seu aspecto exegético, e nos voltamos para
o aspecto cristão. Aventuro-me a lembrar meus críticos que quando eles
a colocam na linha da frente, fazendo isso duma maneira que evidencia
que eles desejam a sobrevivência para si mesmos
e para seus entes queridos, involuntariamente estão dando razão aos opositores
do cristianismo, os quais repetem constantemente que a fé dos cristãos
nada mais é que a projeção de seus desejos.
Na realidade,
será que não enaltece nossa fé cristã, assim como fiz o meu melhor para
expô-la, que evitemos partir de nossos desejos pessoais, e sim coloquemos
nossa ressurreição no âmbito de uma redenção cósmica e de uma nova criação
do universo? Não subestimo de modo algum a dificuldade que existe em compartilhar
esta fé, e admito francamente a dificuldade de falar sobre este assunto
de forma desapaixonada. Um túmulo aberto lembra-nos imediatamente que
não estamos preocupados apenas com uma questão de cunho acadêmico. Não
haverá, então, todas as razões adicionais para buscarmos a verdade e a
clareza neste ponto? A melhor maneira de fazer isso não é começando com
o que é ambíguo, e sim explicando de maneira simples e tão fielmente quanto
possível, com todos os meios à nossa disposição, a esperança dos autores
do Novo Testamento, mostrando assim a verdadeira essência desta esperança
e – por mais difícil que possa parecer para nós – apresentando o que é
que a distingue de outras crenças que nos são tão preciosas. Se, em primeiro lugar, examinarmos objetivamente a esperança dos primitivos
cristãos naqueles aspectos que parecem chocantes para nossos conceitos
comumente aceitos, não teremos senão uma oportunidade de, não só entender
melhor essa expectativa, como também verificar que não é tão impossível
assim aceitá-la como imaginamos.
Tenho impressão
de que alguns dos meus leitores não se preocuparam em ler minha exposição
na íntegra. A comparação da morte de Sócrates com a de Jesus parece tê-los
escandalizado e irritado tanto, que eles não prosseguiram na leitura e
não viram o que eu disse sobre a fé do Novo Testamento na vitória de Cristo
sobre a morte.
Para muitos dos
que me atacaram, a causa da ‘tristeza e aflição’ não foi só a distinção
que estabelecemos entre a ressurreição dos mortos e a imortalidade da
alma, mas acima de tudo o lugar que eu, assim como todos no cristianismo
primitivo, creio que deveria ser dado ao estado intermediário daqueles
que estão mortos e morrem em Cristo antes do último dia, o estado que
os escritores do primeiro século descreveram com a palavra ‘sono’. A idéia
de um estado temporário de espera é, de todas, a mais repulsiva para os
que gostariam de informações mais completas sobre esse “sono” dos mortos,
os quais, apesar de despojados de seus corpos carnais, são ainda privados
de seus corpos ressurretos embora na posse do Espírito Santo. Essas pessoas
são incapazes de observar a discrição dos autores do Novo Testamento neste
assunto, incluindo Paulo, ou de ficarem satisfeitas com a alegre garantia
do apóstolo, quando ele diz que doravante a morte não pode mais separar
de Cristo aquele que tem o Espírito Santo. ‘Quer vivamos, quer morramos,
pertencemos a Cristo.’
Há alguns que
acham esta ideia de ‘dormir’ totalmente inaceitável. Sou tentado a deixar
de lado por um momento os métodos exegéticos deste estudo e perguntar
a tais se eles nunca tiveram um sonho que os deixou mais felizes do que
qualquer outra experiência, muito embora eles estivessem só dormindo.
Não poderia ser esta uma ilustração, ainda que imperfeita, do estado de
antecipação no qual, segundo Paulo, os mortos em Cristo se encontram durante
seu ‘sono’ à espera da ressurreição do corpo?
De qualquer modo,
não pretendo evitar a “pedra de tropeço” por minimizar o que eu disse
sobre o caráter provisório e ainda imperfeito desta condição. O fato é
que, de acordo com os primitivos cristãos, a vida plena e genuína da ressurreição
é inconcebível à parte do novo corpo, o “corpo espiritual”, com o qual
os mortos serão dotados quando o céu e a terra forem recriados.
Neste estudo eu
farei referência mais de uma vez à obra de Grünewald, pintor alemão renascentista,
no altar do Convento de Isenheim. Foi a ressurreição do corpo que ele
retratou, não a alma imortal. Da mesma forma, outro artista, Johann Sebastian
Bach, possibilitou que ouçamos, no Credo da Missa em B Menor, a interpretação
musical das palavras deste antigo credo, que reproduz fielmente a fé do
Novo Testamento na ressurreição de Cristo e na nossa própria. A alegre
canção deste grande compositor destina-se a expressar, não a imortalidade
da alma, e sim o evento da ressurreição do corpo: Et resurrexit tertia die... Expecto resurrectionem mortuorum
et vitam venturi saeculi.* E Handel, na última parte do Messias, dá-nos alguma indicação do que Paulo entendia pelo sono daqueles
que descansam em Cristo, e também, no cântico de vitória, da esperança
que Paulo tinha na ressurreição final, quando ‘a última trombeta soará
e nós seremos transformados’.
Quer compartilhemos
dessa esperança, quer não, pelo menos temos de admitir que neste caso
os artistas têm mostrado ser os melhores expositores da Bíblia.
Chamonix,
15 de setembro de 1956
* “Ao terceiro dia, ele ressuscitou... Espero a ressurreição dos mortos e a vida do mundo que há de vir.”