Imortalidade da Alma ou Ressurreição dos Mortos?
INTRODUÇÃO
Se perguntássemos
hoje a um cristão comum (quer um bem versado protestante ou católico,
quer não) sobre o que ele pensa ser o ensino do Novo Testamento a respeito
do destino do homem após a morte, com poucas exceções receberíamos a
resposta: ‘A imortalidade da alma.’
[1]
No
entanto, essa idéia amplamente aceita é um dos maiores equívocos do
cristianismo. Não há qualquer razão para tentar esconder esse fato, ou camuflá-lo, reinterpretando a fé cristã. Isso é algo que
deve ser discutido com toda a franqueza.
Mas, será mesmo verdade que
a fé dos primitivos cristãos na ressurreição é incompatível com o conceito
grego da imortalidade da alma? Não ensina o Novo Testamento, sobretudo
o Evangelho de João, que nós já temos a vida eterna? Será que a morte
no Novo Testamento é sempre concebida como “o último inimigo” duma maneira
diametralmente oposta à do pensamento grego, que vê na morte um amigo?
Não escreve Paulo: “Ó morte, onde está o teu aguilhão?” Veremos no final
que existe pelo menos uma analogia, mas primeiro devemos salientar
as diferenças fundamentais entre os dois conceitos.
O mal-entendido generalizado
de que o Novo Testamento ensina a imortalidade da alma foi realmente
encorajado pela forte convicção dos primeiros discípulos no período
posterior à Páscoa de que a ressurreição corporal de Cristo tinha
despojado a morte de todo o seu horror e que da Páscoa em diante, o
Espírito Santo havia despertado as almas dos fiéis para a ressurreição
de vida.
O próprio fato de precisarmos
grifar a expressão 'posterior à Páscoa' ilustra o enorme abismo
que separa o conceito cristão do conceito grego. Todo o pensamento cristão
primitivo é baseado na História da Salvação
[2]
, e tudo o que se diz sobre a morte e sobre
a vida eterna baseia-se ou cai dentro da crença numa ocorrência real,
em eventos verdadeiros que ocorreram no tempo. É nisso que está a distinção
radical do pensamento grego.
Se reconhecermos que a morte
e a vida eterna no Novo Testamento estão sempre ligadas ao evento de
Cristo, torna-se evidente que para os primitivos cristãos a alma não
é inerentemente imortal, mas só se tornou imortal por meio da ressurreição
de Jesus Cristo, e através da fé nele. Fica claro também que a morte
não é intrinsecamente uma amiga, e sim que seu “aguilhão”, seu poder,
é tirado por meio da vitória de Jesus sobre ela com sua morte. E, finalmente,
torna-se claro que a ressurreição já realizada não é o estado de cumprimento,
pois este é futuro, momento em que o corpo é também ressuscitado, o
que só ocorrerá no “último dia”.
É um erro ler no evangelho
de Lucas uma tendência primitiva ao ensino grego da imortalidade, porque
lá também a vida eterna está associada ao evento de Cristo. Obviamente,
deve-se levar em consideração a influência grega sobre a origem do cristianismo
logo desde o início, mas ao passo que as idéias gregas estão subordinadas
ao conceito total da História da Salvação, não se pode falar
de “helenização”, propriamente. A verdadeira helenização ocorre pela
primeira vez em uma data posterior.
[1]
Nota do Editor: Isto era assim na época
em que Cullmann escreveu o livro. Contudo, nas últimas décadas, esta
idéia vem sendo atacada por um crescente número de eruditos bíblicos.
Embora ainda seja verdade que o número de seguidores
de religiões organizadas que crêem na imortalidade da alma é esmagadoramente
maior do que os que não crêem nisso, essa disparidade numérica em
meio à comunidade erudita, ou entre os que realmente
estudaram o que a Bíblia diz
sobre esta questão já não é tão grande e tende a decrescer.
[2]
“História da Salvação” (alemão:
Heilsgeschichte): Escola teológica originada por pensadores
alemães do século 19 e que foi popularizado por Cullmann no século
20. O conceito central nessa linha de pensamento é a primeira vinda
de Jesus Cristo como Salvador. Toda a história e todo o tempo, segundo
Cullmann, são um drama universal e Jesus é a figura central neste
drama. Os judeus no tempo do Novo Testamento aguardavam a vinda do
Messias Salvador como o anúncio iminente do fim do mundo, o centro
da história, depois do qual viriam as glórias da era vindoura. A Bíblia
dá testemunho de que Jesus é o Messias e que ele deu início a essa
nova era.