Imortalidade da Alma ou Ressurreição dos Mortos?
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OS
QUE ESTÃO DORMINDO
O Espírito Santo e a Condição Intermediária dos Mortos
E agora chegamos à última questão. Quando é que
ocorre esta transformação do corpo? Não pode restar dúvida sobre este
ponto. O inteiro Novo Testamento responde que é no Fim, e isso
deve ser entendido literalmente, ou seja, no sentido temporal. Isso levanta
a questão da condição dos mortos ‘no ínterim’. A morte já foi realmente
conquistada de acordo com 2 Timóteo 1:10: “Cristo venceu a morte e já
trouxe a vida e a incorruptibilidade à luz.” A tensão cronológica que
eu constantemente enfatizo, refere-se precisamente a este ponto central
de que a morte foi conquistada, mas só será abolida no Fim. 1 Coríntios
15:26 diz que a morte será conquistada como o último inimigo. É
significativo que em grego usa-se o mesmo verbo para descrever a vitória
decisiva já conseguida e a ainda não consumada vitória no fim. Apocalipse
20:14 descreve a vitória no fim, a aniquilação da morte: ‘A morte será
lançada no lago de fogo’, e alguns versículos depois é dito que a morte
‘não mais existirá’.
No entanto, isso significa que a transformação
do corpo não ocorre imediatamente após cada morte individual. Aqui também,
temos de guardar-nos mais uma vez contra qualquer tipo de acomodação à
filosofia grega, se quisermos compreender a doutrina do Novo Testamento.
Há quem considere ser a interpretação do Novo Testamento que a transformação
do corpo ocorre para todos, imediatamente após a morte individual – como
se os mortos não estivessem mais no tempo. Todavia, segundo o Novo Testamento,
eles ainda estão no tempo. Caso contrário, o problema registrado
em 1 Tessalonicenses 4:13 em diante não teria sentido. Aqui, Paulo está
na verdade preocupado em mostrar que no momento do retorno de Cristo ‘aqueles
que estiverem então vivos não levarão vantagem’ sobre os que morreram
em Cristo. Desse modo, os mortos em Cristo ainda estão no tempo, eles
também estão esperando. “Até quando, ó Senhor?”, clamam os mártires
que estão dormindo debaixo do altar mencionado no Apocalipse de João (capítulo
6, versículo 11). Nem as palavras ditas na cruz, “Hoje estarás comigo
no paraíso” (Lucas 23:43), nem a parábola do homem rico, onde Lázaro é
levado diretamente para o seio de Abraão (Lucas 16:22), nem as palavras
de Paulo, “Eu desejo morrer e estar com Cristo” (Filipenses 1:23), provam,
como muitas vezes se afirmou, que a ressurreição do corpo ocorre imediatamente
após a morte individual. (As palavras muito discutidas de Lucas 23:43,
“hoje estarás comigo no Paraíso”, são pertinentes aqui. Na verdade não
é impossível compreendê-las, ainda que artificialmente. A declaração deve
ser entendida à luz de Lucas 16:23 e da concepção judaica primitiva de
“Paraíso”, como sendo o lugar dos abençoados. É certo que Lucas 16:23
não se refere à ressurreição do corpo, e a expectativa da Parusia
não é de modo algum suplantada. Existe certa disparidade aqui quanto à
teologia de Paulo, na medida em que no dia referido como “hoje” o próprio
Cristo ainda não tinha sido levantado e, portanto, a base da condição
de os mortos estarem unidos a Cristo ainda não tinha sido estabelecida.
Mas, em última análise, a ênfase aqui está no fato de que o ladrão estará
com Cristo. A resposta de Jesus deve ser entendida em relação à
súplica do ladrão. O ladrão pede que Jesus se lembre dele quando “entrar
em seu reino”, o qual, segundo a visão judaica do Messias, só pode se
referir ao momento em que o Messias vem e estabelece seu reino.
Jesus não só concede o pedido, como dá ao ladrão mais do que ele pediu:
ele estará unido com Jesus, mesmo antes da vinda do reino. Entendidas
desse modo, de acordo com sua intenção, estas palavras não constituem
uma dificuldade para a posição defendida acima). Em nenhum desses textos
há qualquer palavra sobre a ressurreição do corpo. Em vez disso, essas
diferentes imagens retratam a condição daqueles que morrem em Cristo antes
do Fim – o estado intermediário em que eles, bem como os vivos, se encontram.
Todas essas imagens expressam simplesmente uma proximidade especial com
Cristo, na qual se encontram aqueles que morrem em Cristo antes do Fim.
Eles estão ‘com Cristo ou no paraíso’ ou “no seio de Abraão”, ou, segundo
o Apocalipse 6:9, “debaixo do altar”. Todas estas são simplesmente várias
imagens da proximidade especial com Deus. Mas a imagem mais comum para
Paulo é: “Eles estão dormindo.” Seria difícil contestar que o Novo Testamento
reconhece esse período intermediário para os mortos, bem como para os
vivos, apesar de faltar aqui qualquer tipo de especulação sobre a condição
dos mortos neste período intermediário.
Os mortos em Cristo compartilham da tensão do
período intermediário. (A falta de especulação sobre isso no Novo Testamento
não nos dá o direito de simplesmente suprimir o “estado intermediário”
como tal. Eu não entendo por que os teólogos protestantes têm tanto medo
da posição do Novo Testamento, quando o Novo Testamento ensina apenas,
sendo muito disto sobre o “estado intermediário”: (1) que ele existe,
(2) que já significa a união com Cristo [isso por causa do Espírito Santo]).
Mas isso não significa apenas que eles estão esperando. Significa
que, para eles também, algo decisivo aconteceu com a morte e ressurreição
de Jesus. Para eles também, a Páscoa é o grande momento decisivo (Mateus
27:52). Esta nova situação criada pela Páscoa nos leva a ver pelo menos
a possibilidade de um elo comum com Sócrates, não com o seu ensinamento,
mas com seu próprio comportamento em face da morte. A morte perdeu o seu
horror, seu “aguilhão”. Embora se mantenha como o último inimigo, a morte
já não tem qualquer significado final. Se a ressurreição de Cristo tivesse
sido para marcar o grande momento decisivo das eras só para os vivos e
não para os mortos também, então os vivos certamente teriam uma imensa
vantagem sobre os mortos. Pois, como membros da comunidade de Cristo,
os vivos realmente estão agora mesmo de posse do poder da ressurreição,
o Espírito Santo. É inconcebível que, segundo o ponto de vista dos primitivos
cristãos, nada tivesse se alterado para os mortos no período antes do
Fim. São precisamente essas imagens usadas no Novo Testamento para descrever
a condição dos mortos em Cristo, que provam que, mesmo agora, nesta condição
intermediária dos mortos, a ressurreição de Cristo – a antecipação do
Fim – já é efetiva. Eles estão “com Cristo”.
Particularmente em 2 Coríntios 5:1-10 ouvimos
porque é que os mortos, embora ainda não tenham um corpo e estejam só
“dormindo”, estão, contudo, numa proximidade especial com Cristo. Paulo
fala aqui da ansiedade natural que até ele sente antes da morte, a qual
ainda mantém sua efetividade. Ele teme a condição de “nudez”, como ele
a chama, isto é, a condição do homem interior que não tem corpo.
Este medo natural da morte, portanto, não desapareceu.
Paulo gostaria, como ele diz, de receber um corpo espiritual adicional,
enquanto ainda vivo, sem sofrer a morte. Ou seja, ele gostaria de estar
vivo no momento do retorno de Cristo. Encontramos aqui, mais uma vez,
a confirmação do que dissemos sobre o medo da morte por parte de Jesus.
Mas agora vemos também algo novo:
neste mesmo texto, ao lado dessa ansiedade natural por causa da nudez
da alma está a grande confiança na proximidade de Cristo, mesmo
nesse estado intermediário. O que há para se temer no fato de que
essa condição intermediária ainda existe? A confiança na proximidade de
Cristo é baseada na convicção de que o nosso homem interior já está sob
o controle do Espírito Santo. Desde a época de Cristo, nós, os vivos,
temos de fato o Espírito Santo. Se ele está realmente dentro de nós, já
transformou o nosso homem interior. Mas, como ouvimos, o Espírito Santo
é o poder da vida. A morte não pode lhe fazer nenhum mal. Por isso, algo
realmente mudou para os mortos, para aqueles que realmente morrem em Cristo,
ou seja, na posse do Espírito Santo. O horrível abandono na morte, a separação
de Deus, da qual temos falado, não existe mais, justamente por causa da
realidade do Espírito Santo. Desse modo, o Novo Testamento enfatiza que
os mortos estão realmente com Cristo, e por isso não estão abandonados. Podemos compreender,
então, por que justamente em 2 Coríntios 5:1 em diante, onde ele menciona
o medo da desencarnação no período intermediário, Paulo descreve o Espírito
Santo como “penhor” (ou “garantia”).
À base do versículo 8 do mesmo capítulo, fica
evidente que os mortos estão mais próximos de Cristo. O ‘sono’ parece
levá-los ainda mais próximo: “Mas temos confiança e desejamos antes deixar
este corpo, para habitar com o Senhor.” Por esta razão, o apóstolo pôde
escrever em Filipenses 1:23 que ele deseja morrer e estar com Cristo.
Então, um homem que não tem o corpo carnal está ainda mais próximo de
Cristo do que antes, se ele tem o Espírito Santo. É a carne, ligada ao
nosso corpo terreno, que ao longo da nossa vida dificulta o pleno desenvolvimento
do Espírito Santo. A morte nos liberta deste obstáculo, embora seja um
estado imperfeito na medida em que fica faltando o corpo da ressurreição.
Nem neste trecho, nem em parte alguma se encontra qualquer informação
mais detalhada sobre este estado intermediário no qual o homem interior,
despojado realmente de seu corpo carnal, mas ainda privado do corpo espiritual,
existe com o Espírito Santo. O apóstolo se limita a garantir-nos que esta
condição, a qual antecipa o destino que é nosso já que recebemos o Espírito
Santo, aproxima-nos da ressurreição final.
Encontramos aqui o medo de uma condição imaterial
associado com a firme confiança de que, mesmo nessa condição intermediária
e transitória não ocorre qualquer separação de Cristo (entre os poderes
que não podem nos separar do amor de Deus em Cristo está a morte – Romanos
8:38). Este medo e esta confiança
estão lado a lado em 2 Coríntios 5, e isso confirma o fato de que até
mesmo os mortos compartilham da tensão do momento presente. Porém, a confiança
predomina, pois a ação foi realmente tomada. A morte está subjugada. O
homem interior, despojado do corpo, não está mais sozinho, ele não leva
a existência sombria que os judeus esperavam e que não pode ser descrita
como vida. O homem interior, despojado do corpo, já foi transformado pelo
Espírito Santo em seu período de vida, já está soerguido pela ressurreição
(Romanos 6:3 em diante; João 3:3 em diante), se como pessoa viva, ele
já tinha sido renovado pelo Espírito Santo. Embora ele ainda ‘durma’
e ainda aguarde a ressurreição do corpo, a qual, por si só, dará a ele
a vida plena, o cristão falecido tem
o Espírito Santo. Assim, mesmo nesta condição, a morte perdeu o seu horror,
embora ela ainda exista. E é dessa maneira que os que morrem no Senhor
podem realmente ser abençoados “desde agora”, conforme diz o autor do
Apocalipse (Apocalipse 14:13). O que se diz em 1 Coríntios 15:54, 55 aplica-se
também aos mortos: “A morte foi destruída pela vitória”. Onde está, ó
morte, a sua vitória? Onde está, ó morte, o seu aguilhão?”Assim, o apóstolo
escreve em Romanos 14: “Assim, quer vivamos, quer morramos, pertencemos
ao Senhor.” (versículo 8) “Por esta razão Cristo morreu e voltou a viver,
para ser Senhor de vivos e de mortos.” (versículo 9).
Alguém poderia perguntar: Não fomos, desta maneira,
levados de volta, em última análise, à doutrina grega da imortalidade,
se o Novo Testamento presume, para o período pós-Páscoa, uma continuidade
do “homem interior” das pessoas convertidas antes e depois da morte, de
maneira que aqui também a morte é apresentada para todos os efeitos práticos
apenas como um ‘transição’ natural? Há um sentido no qual uma espécie
de aproximação com o ensino grego realmente ocorre, na medida em que o
homem interior, que já foi transformado pelo Espírito (Romanos 6:3 em
diante), e foi, conseqüentemente renovado, continua a viver com Cristo
neste estado transformado, na condição do sono. Esta continuidade é fortemente
enfatizada, principalmente no Evangelho de João (3:36, 4:14, 6:54 e com
freqüência). Observamos aqui pelo menos alguma analogia com a “imortalidade
da alma”, todavia a distinção permanece radical. Além disso, a condição
dos mortos em Cristo é ainda imperfeita, um estado de “nudez”, conforme
diz Paulo, de “sono”, de espera pela ressurreição do corpo por parte de
toda a criação. Por outro lado, a morte no Novo Testamento continua a
ser o inimigo, se bem que um inimigo derrotado, que ainda deve ser destruído.
O fato de que mesmo nesta condição os mortos já estão vivendo com Cristo
não corresponde à essência natural da alma. Em vez disso, é o resultado de uma intervenção divina a partir do exterior,
por meio do Espírito Santo, que já teria despertado o homem interior na
vida terrena por seu poder milagroso.
Assim, continua sendo verdade que a ressurreição
do corpo é esperada, mesmo no Evangelho de João – naturalmente já com
a certeza da vitória, porque o Espírito Santo já habita no homem interior.
Conseqüentemente, não há qualquer dúvida: uma vez que o Espírito já habita
no homem interior, ele certamente transformará o corpo. Pois o Espírito
Santo, esse poder vivificante, penetra em tudo e não conhece barreira.
Se ele está realmente dentro de um homem, então ele despertará o homem
inteiro. Por isso Paulo escreve em Romanos 8:11: “E se o Espírito daquele que
ressuscitou Jesus dentre os mortos habita em vocês, aquele que ressuscitou
a Cristo dentre os mortos também dará vida a seus corpos mortais, por meio do seu Espírito, que habita em vocês.”
Em Filipenses 3:21: “Pelo poder que o capacita a colocar todas as coisas
debaixo do seu domínio, ele transformará os nossos corpos humilhados,
para serem semelhantes ao seu corpo glorioso.” Nada se diz no Novo Testamento
sobre os detalhes da condição intermediária. Ouvimos apenas isto: estamos
mais perto de Deus.
Nós aguardamos e os mortos aguardam. Naturalmente o ritmo do tempo para eles pode ser
diferente do que é para os vivos, e desta forma o período intermediário
pode ser encurtado para eles. Realmente isto não significa ir além dos
textos do Novo Testamento e sua exegese, porque esta expressão “dormir”,
que é a designação comum no Novo Testamento para o “estado intermediário”,
leva-nos ao conceito de que para os mortos existe outro tipo de consciência
do tempo, a dos “que estão dormindo”. Mas isso não quer dizer que os mortos
não estão parados no tempo. Vemos mais uma vez, portanto, que a esperança
da ressurreição do Novo Testamento é diferente da crença grega na imortalidade.