Imortalidade da Alma ou Ressurreição dos Mortos?
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O
PRIMOGÊNITO DOS MORTOS
Entre a Ressurreição de Cristo
e a Destruição da Morte
Devemos levar em conta o que significou para os
cristãos quando eles proclamaram: Cristo levantou dos mortos! Acima de
tudo precisamos ter em mente o que a morte significava para eles. Somos
tentados a associar estas declarações bíblicas poderosas com o pensamento
grego da imortalidade da alma, e desta forma roubar-lhes seu conteúdo.
Cristo foi levantado: isso quer dizer que estamos na nova era em que a
morte foi vencida, na qual a corruptibilidade não existe mais. Pois, se
há realmente um corpo espiritual (não uma alma imortal, e sim um corpo
espiritual) que emergiu dum corpo carnal, então de fato o poder da morte
foi quebrado. Os crentes, de acordo com a convicção dos primitivos cristãos,
não deverão mais morrer: esta era certamente a expectativa deles nos dias
primitivos. Deve ter sido um problema quando eles constataram que os cristãos
continuavam a morrer. Mas, mesmo o fato de os homens continuarem a morrer
não tem mais a mesma significância depois da ressurreição de Cristo. O
fato da morte foi despojado de sua importância anterior. Morrer não é
mais uma expressão do domínio absoluto da morte, mas apenas uma das pretensões
anteriores da morte ao domínio. A morte não pode anular a grande verdade
de que existe um Corpo ressuscitado.
Devemos tentar simplesmente entender o que os
primitivos cristãos queriam dizer quando falavam de Cristo como sendo
o “primogênito dentre os mortos”. No entanto, por mais difícil que seja
fazer isso, devemos excluir a questão de saber se podemos ou não aceitar
essa crença. Logo de início, temos também de deixar de lado a questão
de saber se Sócrates está certo ou se é o Novo Testamento que está. Caso
contrário, vamos nos pegar fazendo continuamente a mistura de processos
de pensamento alheios com os do Novo Testamento. Devemos simplesmente
ouvir o que o Novo Testamento diz. Cristo é o primogênito dentre os mortos!
Seu corpo é o primeiro corpo da ressurreição, o primeiro corpo espiritual.
Onde esta convicção está presente, toda vida e todo pensamento deve ser
influenciado por ele. Todo o pensamento do Novo Testamento permanecerá
para nós um livro selado com sete selos, se não lermos por trás de cada
frase escrita nele esta outra sentença: A morte já foi conquistada (note-se,
a morte, não o corpo), já há uma nova criação (note-se, uma nova criação,
não uma imortalidade que a alma sempre possuiu) a era da ressurreição
já está inaugurada.
Admita-se que ela foi apenas inaugurada, mas ainda
assim decisivamente inaugurada. Só inaugurada: pois a morte age, e os
cristãos ainda morrem. Os discípulos experimentaram isso, já que os primitivos
membros da comunidade cristã morreram. Isto, necessariamente, apresentou-se
como um problema difícil. Em 1 Coríntios 11:30, Paulo escreve basicamente
que a morte e a doença não deverão mais ocorrer. Nós continuamos a morrer,
e a doença e o pecado ainda existem. Mas o Espírito Santo já atua efetivamente
em nosso mundo como o poder da nova criação; ele já atuou visivelmente
na comunidade primitiva, em diversas manifestações do espírito. Em meu
livro Cristo e o Tempo falei de uma tensão entre o presente e o
futuro, a tensão entre o “já cumprido” e o “ainda não consumado”. Esta
tensão pertence essencialmente ao Novo Testamento e não é apresentada
como uma solução secundária originada pelo embaraço. Esta tensão está
presente em Jesus e com ele. Ele proclama o Reino de Deus para o futuro,
mas, por outro lado ele proclama que o Reino de Deus já nasceu, uma vez
que ele próprio, juntamente com o Espírito Santo já está realmente repelindo
a morte, por curar os doentes e ressuscitar os mortos (Mateus 12:28, 11:3
em diante, Lucas 10:18), antecipando a vitória sobre a morte que ele obtém
com sua própria morte. A esperança cristã pertence à própria essência
do Novo Testamento, que pensa em categorias temporais, e esta é a razão
de a crença na ressurreição conseguida por meio de Cristo ser o ponto
de partida de toda a vida e de todo o pensamento cristão. Quando se parte
deste princípio, então a tensão cronológica entre o “já cumprido” e o
“ainda não consumado” constitui a essência da fé cristã. De modo que a
metáfora que uso no livro Cristo e o Tempo caracteriza a situação
de todo o Novo Testamento: a batalha decisiva foi travada com a morte
e a ressurreição de Cristo, só o Dia da Vitória ainda está por vir.
Basicamente, toda a discussão teológica contemporânea
gira em torno desta questão: É a Páscoa o ponto de partida da Igreja de
Cristo, de sua existência, vida e pensamento? Se assim for, estamos vivendo
num período de tempo intermediário.
Neste caso, a fé na ressurreição apresentada no
Novo Testamento torna-se o ponto cardeal de toda a crença cristã. Assim,
a novidade de que há um corpo da ressurreição – o corpo de Cristo – define
toda a interpretação dos primitivos cristãos sobre o tempo. Se Cristo
é o “primogênito dentre os mortos”, então isso significa que o tempo do
Fim já está presente. Mas isso também significa que um intervalo de tempo
separa o Primogênito de todos os outros homens que ainda não ‘nasceram
dentre os mortos’. Isto significa então que vivemos numa época intercalar,
entre a ressurreição de Jesus, que já aconteceu, e a nossa, que só ocorrerá
no Fim. Significa também que o poder energizante, o Espírito Santo, já
está em operação entre nós. Dessa forma, Paulo designa o Espírito Santo,
pelo mesmo termo – primícias (Romanos 8:23) que ele usa em relação ao
próprio Jesus (1 Coríntios 15:23). Já há, então, um prenúncio da ressurreição.
E realmente de uma maneira dupla: o nosso homem interior já está sendo
renovado a cada dia pelo Espírito Santo (2 Coríntios 4:16, Efésios 3:16),
o corpo também já está sendo soerguido pelo Espírito, embora a carne ainda
tenha a sua cidadela dentro dele. Sempre que o Espírito Santo entra em
cena, o poder da morte é rechaçado, mesmo no corpo. Assim, os milagres
de cura ocorreram exatamente em nosso corpo ainda mortal. Ante o clamor
desesperado em Romanos 7:24, “Quem me livrará do corpo desta morte?” todo
o Novo Testamento responde: O Espírito Santo!
O prenúncio do fim, visualizado por meio do Espírito
Santo, torna-se mais claramente visível na celebração cristã de partir
o pão. Milagres visíveis do Espírito ocorrem nesse momento. Ali o Espírito
procura ultrapassar os limites da linguagem humana imperfeita no falar
em línguas. E ali a comunidade é colocada em conexão direta com o Ressuscitado,
não só com sua alma, mas também com seu Corpo Ressuscitado. É por isso
que lemos em 1 Coríntios 10:18: “O pão que partimos não é uma comunhão
com o corpo de Cristo?” Aqui em comunhão com os irmãos, chegamos mais
perto do Corpo da ressurreição de Cristo, e por isso Paulo escreve no
capítulo seguinte, o capítulo 11 (uma passagem que tem recebido muito
pouca atenção) que se esta Ceia do Senhor era comida por todos os membros
da comunidade de uma forma completamente digna, então a união com o corpo
da ressurreição de Jesus seria tão eficaz em nossos próprios corpos que,
mesmo agora não haveria mais doença ou morte (1 Coríntios 11:28-30) uma
afirmação singularmente forte. Portanto, a comunidade é descrita como
sendo o corpo de Cristo, porque aqui o corpo espiritual de Cristo está
presente, porque aqui chegamos mais próximo a ele; aqui na refeição comum
os primeiros discípulos na Páscoa viram o corpo da ressurreição de Jesus,
seu corpo espiritual.
No entanto, apesar do fato de o Espírito Santo
já estar agindo tão poderosamente, os homens continuam a morrer; mesmo
após a Páscoa e o Pentecostes os homens continuam morrendo como antes.
Nosso corpo continua mortal e sujeito à doença. Sua transformação no corpo
espiritual só ocorrerá quando a criação inteira for feita nova por Deus,
só então, pela primeira vez, não haverá nada além do Espírito, nada além
do poder da vida, pois daí a morte será destruída por completo. Haverá
então uma nova substância para todas as coisas visíveis. Em lugar da matéria
carnal, aparecerá a espiritual. Ou seja, em vez de matéria corruptível
aparecerá o incorruptível. O visível e o invisível serão espírito. Mas
não nos enganemos: este não é certamente o sentido grego do Ideal imaterial!
Um novo céu e uma nova terra. Essa é a esperança cristã. E, então, nossos
corpos também ressuscitarão dentre os mortos. Mas não como corpos carnais,
e sim como corpos espirituais.
Alguns procuram explicar a expressão “ressurreição
da carne”, tanto do ponto de vista da teologia bíblica como da história
do dogma. Paulo não poderia ter dito isso. Carne e sangue não podem herdar
o Reino. Paulo acredita na ressurreição do corpo,
não da carne. A carne é o poder
da morte, que deve ser destruído. Este erro no credo grego se introduziu
num momento em que a terminologia bíblica tinha sido mal-interpretada
no sentido da antropologia grega. Ademais, nosso corpo (e não apenas a
nossa alma), será levantado no Fim, quando o poder vivificante do Espírito
faz novas todas as coisas, sem exceção.
Um corpo incorrutível! Como iremos conceber isto?
Ou melhor, que conceito os primitivos cristãos tinham disso? Paulo diz
em Filipenses 3:21 que no Fim, Cristo vai transformar nosso corpo rebaixado
para ser conforme o corpo glorioso dele, exatamente como se diz em 2 Coríntios
3:18: “Todos nós... somos transformados de glória em glória na mesma imagem,
como pelo Espírito do Senhor.” Esta glória foi concebida pelos primitivos
cristãos como uma espécie de substância luminosa, mas esta é apenas uma
comparação imperfeita. A nossa linguagem não tem palavras para caracterizar
isso. Mais uma vez, faço referência ao quadro da Ressurreição, de Grünewald.
Ele pode estar bem próximo daquilo que Paulo entendia como o corpo espiritual.

Mathias Grünewald - A Ressurreição de Cristo