Há cristãos que não são "filhos de Deus"?

(por Carlos M. Silva)

A Sociedade Torre de Vigia dos EUA é uma grande divulgadora da Bíblia no mundo inteiro. Além de citar centenas de versões em seus artigos, ela mesma tem publicado algumas edições, além da sua Tradução do Novo Mundo. É também a entidade dirigente de todas as "Testemunhas de Jeová" - cristãos com crenças peculiares e um persistente zelo pela pregação de porta em porta. Em suma, a Torre de Vigia é uma instituição religiosa muito atuante hoje em dia.

Por se apresentar ao mundo como a única representante legítima de Deus na Terra, a Torre de Vigia chama para si uma grande responsabilidade. E um dos pontos que exige seriedade de ação por parte dela é a análise conscienciosa do contexto de passagens bíblicas que venham a ter influência na vida das Testemunhas de Jeová, já que as Testemunhas seguem à risca quase tudo que é dito pela Torre.

No quesito da contextualidade bíblica, a Torre de Vigia já publicou vários artigos conclamando os leitores da Bíblia a estarem atentos ao contexto bíblico, e isso é elogiável. Ela diz que para muitas pessoas as tradições religiosas têm mais peso do que o texto sagrado. Infelizmente isso realmente tem ocorrido. Portanto, tendo em mente esse compromisso que a Sociedade Torre de Vigia assumiu publicamente, considere esse artigo que analisará, passo a passo, o capítulo 8 do livro bíblico de Romanos.

 

Versículo usado na Comemoração da Morte de Cristo e o seu contexto

No discurso da comemoração da morte de Cristo, promovida uma vez por ano pelas Testemunhas de Jeová, há um tradicional momento em que o orador pergunta quem está habilitado a tomar dos emblemas (o pão e o vinho). Qual é a passagem bíblica que ele usa para determinar isso? Mesmo que ele não a cite para os ouvintes, o esboço chama atenção para o seguinte texto de Romanos: "O próprio espírito dá testemunho com o nosso espírito de que somos filhos de Deus" (Rom. 8:16). Daí, ele diz que apenas 144.000 pessoas (em toda a história cristã) são esses "filhos de Deus", e o resto da humanidade não é (mesmo os cristãos verdadeiros). O orador também poderá se referir a esses "filhos de Deus" usando a palavra "ungidos". Quem não fizer parte desses 144.000, ou seja, não for "ungido", conseqüentemente não é filho de Deus.

Já parou para analisar o contexto dessas palavras de Romanos? Por que não tenta? Pode estar certo que não é uma daquelas passagens bíblicas difíceis de entender. Um principiante no estudo das Escrituras compreenderá facilmente o que Paulo estava dizendo.

Para se entender essa passagem, é preciso voltar ao capítulo 7, especialmente os últimos versículos, onde Paulo explica que a tendência da carne (=o ser humano) é pecar, e, por isso, através de obras da Lei não seria possível a pessoa ser purificada diante de Deus. (Para mais detalhes, leia depois este artigo). Paulo diz:

"Homem miserável que eu sou! Quem me resgatará do corpo que é submetido a esta morte? Graças a Deus, por intermédio de Jesus Cristo, nosso Senhor! Assim, pois, com a mente, eu mesmo sou escravo da lei de Deus, mas com a minha carne, escravo da lei do pecado". - Rom. 7:24, 25.

São os versículos acima que Paulo tem em mente ao começar o capítulo 8 de Romanos. Diz o início do capítulo: "Portanto, os em união com Cristo Jesus não têm nenhuma condenação. Pois a lei desse espírito que dá vida em união com Cristo Jesus libertou-te da lei do pecado e da morte. Porque, havendo incapacidade da parte da Lei, enquanto ela estava fraca por intermédio da carne, Deus, por enviar o seu próprio Filho na semelhança da carne pecaminosa e concernente ao pecado, condenou o pecado na carne, para que a exigência justa da Lei se cumprisse em nós, os que andamos, não de acordo com a carne, mas de acordo com o espírito". - Rom. 8:1-4.

Note a parte final do texto: "Para que a exigência justa da Lei se cumprisse em nós, os que andamos, não de acordo com a carne, mas de acordo com o espírito". O mundo, em geral, estava afastado de Deus e de Cristo, não podendo andar de acordo com o espírito. Mas quem andava naquele tempo de acordo com o espírito? O "nós" a quem Paulo se referiu foram todos os cristãos daquele tempo.

Você, leitor, anda de acordo com a carne ou de acordo com o espírito?
Se for de acordo com o espírito significa que você é um cristão autêntico!
Se for de acordo com a carne veja a seguir qual será seu destino.

A partir do versículo seguinte (v. 5), Paulo começa a fazer um contraste entre duas categorias: (1ª) os que andam de acordo com a carne e (2ª) os que andam de acordo com o espírito. Ele não menciona duas sub-categorias de cristãos, apenas uma só ("os que andam de acordo com o espírito"). Diz ele:

"Pois, os que estão de acordo com a carne fixam as suas mentes nas coisas da carne, mas os que estão de acordo com o espírito, nas coisas do espírito". (v. 5)

Lembre-se que a "carne" mencionada aqui por Paulo é a carne pecaminosa que leva ao pecado. Perceba que ele disse que o que diferencia as duas categorias é no que elas "fixam as suas mentes", e não onde elas vão viver a eternidade. De fato, os que fixam as mentes nas coisas da carne não têm a perspectiva de vida eterna, uma vez que no verso a seguir Paulo diz: "Pois a mentalidade segundo a carne significa morte, mas a mentalidade segundo o espírito significa vida e paz." (v. 6) Ele diz mais:

"De modo que os que estão em harmonia com a carne não podem agradar a Deus." (v. 8)

 

Você, leitor, quer agradar a Deus ou não?
Se desejar agradá-lo então você tem que andar de acordo com o espírito.
E se você anda de acordo com o espírito você é filho de Deus, concorda?
(Baseie a sua resposta no que Paulo escreveu).

Fazendo um contraste com os que andam de acordo com a carne, Paulo afirmou:

"No entanto, vós estais em harmonia, não com a carne, mas com o espírito, se o espírito de Deus verdadeiramente morar em vós. Mas, se alguém não tiver o espírito de Cristo, este não pertence a ele".

Logicamente, quem não tem o espírito de Cristo anda de acordo com a "carne" e escolheu a morte como caminho. Nunca se esqueça desse pormenor! Logo depois, Paulo complementa: "Porque todos os que são conduzidos pelo espírito de Deus, estes são filhos de Deus." (v. 14).

Você, leitor, é conduzido pelo espírito, ou pela carne?

Depois da citação acima, finalmente Paulo chega ao versículo mencionado no esboço do discurso da Comemoração: "O próprio espírito dá testemunho com o nosso espírito de que somos filhos de Deus". (v.16) Por quê? Porque os cristãos são conduzidos pelo espírito de Deus, e não pela carne. Quando o apóstolo escreveu essas palavras ele não tinha em mente o local onde os cristãos passariam a eternidade, nem tampouco a quantidade final desses filhos de Deus. Ele não fez nenhuma referência a esses pormenores, vaga que fosse.

Diante de tudo isso que você leu até aqui, note o que a Torre de Vigia escreveu sobre esse texto de Romanos:

"Textos bíblicos como esses tiveram aplicação somente aos que estavam destinados à recompensa celestial e ao reino." - A Sentinela, 01/04/62, p. 198, § 2.

As Testemunhas de Jeová chamam os que têm esperança celestial de "ungidos", ou "escravo fiel e discreto". Detre as quase 7 milhões de Testemunhas no mundo, apenas umas 8.000 professam ser dessa classe "ungida". Veja o que é dito sobre esses "ungidos":

"Em estrito sentido bíblico, Jesus é o 'mediador' apenas dos cristãos ungidos." - A Sentinela, 15/09/79, p. 32.

Sendo assim, segundo A Sentinela, somente umas oito mil Testemunhas de Jeová são "conduzidas pelo espírito", e têm Jesus Cristo como mediador. E as outras? Se o ensino da organização fosse esquecido por um instante, e se levasse em consideração apenas o texto de Romanos, não haveria alternativa senão a de que as demais Testemunhas são 'conduzidas pela carne', e não têm esperança de vida eterna. Esperam apenas a morte permanente como destino. Nem ao nome de Jesus poderiam recorrer em busca de resgate, já que Jesus não é mediador delas.

Evidentemente, a Torre tenta contornar essa conclusão lógica à base de Romanos, e explica que o entendimento não é bem esse. As outras Testemunhas têm, afinal, esperança! Ela diz:

"Antes de adotá-los como seus filhos por meio de Jesus Cristo, Jeová sujeitará todos esses humanos aperfeiçoados a uma última prova cabal." - Livro Unidos na Adoração do Único Deus Verdadeiro, p. 191, § 16.

Na prática, o que acontece entre as Testemunhas de Jeová é que Jesus é mediador dos "ungidos", e os "ungidos" são mediadores das "outras ovelhas", pois atuam como "embaixadores, substituindo a Cristo", segundo acham. É por isso que toda Testemunha de Jeová acredita que qualquer ensinamento proveniente da Torre de Vigia é incontestavelmente vindo do próprio Deus. Ou seja, como se não bastasse o conflito com o texto de Romanos, que não especifica duas classes de cristãos, ainda acham que existem outros livros fora da Bíblia que revelam uma nova "vontade de Deus", diferente daquela escrita por Paulo em Romanos. É como se por meio da Torre de Vigia Deus estivesse dizendo o seguinte: "Olhem, aquele texto não deve ser mais entendido daquela forma! Pois ele não foi escrito para vocês. Ele se dirige apenas aos 'ungidos'!". Por causa dessa nova "revelação divina" a Sentinela diz às "outras ovelhas":

"É também aos cristãos ungidos pelo espírito, que governarão naquele reino, que se dirige a maior parte das Escrituras Gregas Cristãs, inclusive as promessas de vida eterna." - A Sentinela, 15/12/74, p. 752.

Bem... Não se trata aqui de rebeldia ou iniqüidade, mas responda de maneira sincera, e seja honesto consigo mesmo à vista de Deus, lembrando do que leu passo a passo em Romanos: O ensino de que os cristãos não são mais filhos de Deus está realmente de acordo com as Escrituras?

A resposta é óbvia: "NÃO!" O que aconteceu, então, com aquele compromisso que a Torre de Vigia assumiu de considerar o contexto dos versículos bíblicos de forma honesta e precisa? É claro que ela já percebeu que deu outra conotação para o capítulo 8 de Romanos. Não se trata daqueles casos em que ela precisa de uma "nova luz" para ajustar o entendimento. Ela faz isso de forma intencional mesmo. Com que certeza se faz essa afirmação? Por dois motivos básicos:

(1) A simplicidade do texto em apreço. Ele é desprovido de fórmulas complicadas, de símbolos, ou alegorias. Não é nenhum Apocalipse de João! Isso permite que qualquer bom leitor do ensino fundamental perceba rapidamente o que Paulo quis dizer quando escreveu sobre quem é "filho de Deus" (ou quem não é). Compreende-se com extrema facilidade que alguém só não é filho de Deus se for conduzido pela carne, e, neste caso, significa morte para ele e não vida eterna. Esse é o ponto de vista da carta de Paulo, mesmo que outros conceitos sobre a expressão "filhos de Deus" possam ser elaborados por mentes criativas. Portanto, diante de um texto assim tão simples a "erudita" Torre de Vigia não teria nenhuma dificuldade de entendê-lo, uma vez que outros assuntos mais complexos ela facilmente entende de forma correta.

(2) Os avisos que já foram dados à Torre de Vigia. Embora as Testemunhas de Jeová não saibam, porque são proibidas de lerem matérias de conteúdo dissidente, já faz algumas décadas que pessoas escrevem para a Torre abordando esse assunto. De fato, por causa desse tipo de informação que ela vem recebendo, no início da década de 1980 várias pessoas importantes do Departamento de Redação e de Ensino da Torre de Vigia foram desassociadas (excomungadas) porque aderiram ao contexto óbvio da carta de Romanos. Um exemplo foi o escritor do livro Comentário à Carta de Tiago, Edward Dulump. Nesse livro ele deu sinais do entendimento correto de Romanos, e isso gerou perguntas por parte dos leitores. A Torre de Vigia comentou sobre esses questionamentos na Sentinela de 15 de julho de 1981, p. 31.

 

A atitude demonstrada diante da evidência: o uso da autoridade religiosa

É realmente lamentável que o Corpo Governante das Testemunhas de Jeová tenha ignorado as evidências que surgiram de todas as direções, quais sejam: (1) da Bíblia, (2) de colaboradores seus, (3) do público leitor, e (4) de Deus. Sim, de Deus! Pois além das Escrituras Sagradas serem o verdadeiro canal de orientação de Jeová, é bíblico supor que Ele pode usar as pessoas mais improváveis para corrigir os que se dizem Seus servos. Considere o exemplo a seguir. Ele é muito interessante.

Certa vez, o bom rei Josias (aquele que baniu a idolatria de Judá) quis se interpor no caminho de Neco, Faraó do Egito, quando este se dirigia para um confronto com o futuro rei de Babilônia, Nabucodonossor. Faráo não queria nenhum conflito com Josias, e com a casa de Judá. (Na verdade, Neco fazia parte de um conjunto de eventos envolvendo profecias. Veja o tópico "História Bíblica" na seção "Artigos"). Mesmo assim, Josias reuniu seu exército e partiu ao encontro do rei do Egito. Note como a Bíblia relata esse episódio:

"Após tudo isso, quando Josias tinha preparado a casa, subiu Neco, rei do Egito, para lutar em Carquemis, junto ao Eufrates. Josias saiu então ao encontro dele. Em vista disso, [Neco] enviou-lhe mensageiros, dizendo: 'Que tenho eu que ver contigo, ó rei de Judá? Não venho hoje contra ti, mas a minha luta é contra outra casa e o próprio Deus disse que devo causar perturbação. Refreia-te para o teu próprio bem por causa de Deus, que está comigo, e não deixes que te arruíne.' E Josias não virou sua face dele, mas disfarçou-se para lutar contra ele e não escutou as palavras de Neco provenientes da boca de Deus." - 2 Crônicas 35:20-22.

Pode imaginar um pagão idólatra ser portador de uma verdade "proveniente da boca de Deus"? E essa verdade ser dirigida para um servo genuíno de Jeová? Josias era verdadeiramente o ungido de Jeová, ele não se auto-proclamou assim. Dirigia a inteira casa de Deus, mas em determinado momento agiu de uma maneira que não estava de acordo com o que Jeová queria. Qual foi o resultado da sua falta de sensibilidade? Morreu naquele mesmo dia em Megido, às mãos do rei do Egito.

O que dizer de hoje, no assunto tratado aqui? As evidências a favor do entendimento natural de Romanos 8 falam por si mesmas, e são irrefutáveis. O Corpo Governante apenas decidiu que Romanos deve ter hoje outro entendimento, diferente do original. Mas a Bíblia não autoriza essa mudança. Além disso, as pessoas que vem chamando a atenção da Torre de Vigia para esse erro não são idólatras. São cristãos sinceros que, através da sua leitura, percebem o que Deus diz na Bíblia. Ora, muitos deles são pessoas que saíram da própria organização da Torre de Vigia! Uns foram rechaçados porque expressaram a sua opinião. Outros se desligaram porque suas consciências não permitiam permanecer numa religião que tem erros propositais. Incrivelmente, o Corpo Governante ainda endossa as seguintes palavras:

"Temos muitos motivos para confiar plenamente na classe do escravo fiel e discreto.... Outra maneira de mostrar que confiamos na classe do escravo atual é por acatar suas decisões. Embora talvez não entendamos plenamente as razões por trás de certas decisões, sabemos que acatá-las será para o nosso bem-estar duradouro.... Em resultado disso, Jeová nos abençoa por causa de nossa obediência à sua Palavra e à classe do escravo." - Livro Organizados Para Fazer a Vontade de Jeová (2005), pp. 18, 20.

* "Escravo fiel e discreto" na prática significa os "ungidos" que estão no comando da Torre de Vigia, mais especificamente os membros do Corpo Governante.

Note que na declaração acima a "classe do escravo" é colocada no mesmo nível de autoridade das Escrituras. Se os membros do Corpo Governante se auto-proclamam essa classe, a conseqüência óbvia dessa posição é que não há maneira de ninguém arrazoar com os membros do Corpo Governante a respeito de assuntos que precisam de séria revisão, já que eles se apresentam como pessoas acima de todas as suspeitas e com o poder de mudar o que está nas Escrituras, em virtudes de suas várias interpretações. E não importa se dúvidas pairem sobre as cabeças de seus adeptos, e que haja evidências palpáveis que favoreçam qualquer mudança. O procedimento "cristão", segundo eles, é que as pessoas reprimam as suas consciências, e ignorem o que encontram na Palavra de Deus.

A Testemunha de Jeová que não fizer o que "orienta" o livro Organizados não terá um 'bem-estar duradouro', ou seja, perderá a vida eterna, porque contestou o "canal oficial de Deus". É assim que as Testemunhas de Jeová acreditam. Elas são induzidas a crer que repudiar algum ensinamento do Corpo Governante é cometer "apostasia", o pior dos pecados, e esta leva à destruição eterna. O interessante é que a Torre de Vigia já escreveu inúmeras matérias elogiando a atitude de pessoas que se apegaram à Bíblia e desafiaram o poder inquisitorial de autoridades religiosas do passado, especialmente da Idade Média e na época da Reforma. (Veja esses exemplos: história 1, história 2). Mas se uma Testemunha de Jeová fizer o mesmo que aqueles heróis do cristianismo fizeram, rapidamente a máquina da inquisição é acionada, desta vez não a máquina da Igreja Católica, mas da própria Torre de Vigia. E é totalmente irrelevante se as evidências bíblicas estão do lado do "errante", como é o caso do assunto deste artigo ("filhos de Deus").

Note bem, caríssimo leitor, as páginas tenebrosas da história da religião mostram que apenas sistemas obscurantistas e opressivos recorrem à intimidação e à autoridade para impor seus conceitos torpes. Isso é assim porque à base do raciocínio e da argumentação poucas pessoas eles poderiam conquistar. Apesar de criticar as autoridades religiosas que fizeram isso no passado, a Torre de Vigia caiu nessa mesma armadilha. Quando ela era apenas um punhado de pessoas conduzindo cartazes tipo "sanduíche" que diziam: "Religião é laço e extorsão!", ela já estava convencida de sua condição especial à vista de Deus. Hoje em dia, depois de crescer financeiramente e em número de adeptos, além de ter desenvolvido a maior rede de gráficas do mundo, ela nem pode mais se conter dentro de si mesma, tamanha a sua "importância". Mas assim como os discípulos de Jesus não deviam ter se impressionado com a grandiosidade do templo em Jerusalém, as Testemunhas de Jeová não deviam se impressionar com as riquezas materiais de sua religião, pois se ela for "além do que está escrito" tais bens têm pouco valor diante de Deus.

É uma pena, uma pena mesmo, que pessoas maduras e experientes dentro da organização das Testemunhas de Jeová se intimidem diante dessa forma recorrente de coação intelectual, e, através de atitudes infantis, abram mão de sua liberdade cristã para se sujeitarem a um ensino que está claramente errado. Quando indagados da razão de "sua" crença, usam revistas e opúsculos para se justificarem. Para elas a única coisa importante é lembrar o que determina a autoridade organizacional, e ignoram o que a Bíblia verdadeiramente diz. Em outras palavras, abrem mão da capacidade de raciocínio, à base das Escrituras. Isso faz lembrar as palavras de Leonardo da Vinci:

"Quem quer que dirija um argumento apelando para a autoridade, não está usando a inteligência, está utilizando apenas a memória." - The Literary Works of Leonardo da Vinci, J. P. Richter (org.), 2ª edição, Oxford University, 1979 (em 2 volumes), vol. II, p. 241, nº 1159.

Se você for Testemunha de Jeová, o que prefere? Usar a memória? Ou usar a inteligência?

 

"Não vades além das coisas que estão escritas"

O motivo real porque os líderes das Testemunhas de Jeová ignoram o contexto de Romanos (vários deles têm consciência disso, outros não), é que a tradição fala mais alto do que a Palavra de Deus, o que invalida a crítica que a Torre faz a outras religiões, porque elas não se apegam fielmente às Escrituras. A Torre de Vigia não tem as credenciais necessárias para se achar no direito de criticar os outros, porque ela tem feito exatamente o que diz ser contra, de uma maneira sutil e eloqüente. Mas tudo não passa de um labirinto de palavras e interpretações, pelo qual os próprios formuladores já se perderam, e ninguém sabe mais de quem é a culpa por essa tragédia intelectual.

As Testemunhas de Jeová são ensinadas que apenas 144.000 pessoas em toda a História foram adotadas como filhos de Deus. Agora se pergunte, leitor, onde o capítulo 8 de Romanos explica como se faz para saber quem é dos "144.000"? Ele não menciona nada disso. Se alguém disser, com base em Romanos, que não é filho de Deus, automaticamente está admitindo que anda de acordo com a carne, que "significa morte", e não de acordo com o espírito, que "significa vida e paz". Está admitindo que não agrada a Deus. Além do mais, Romanos não pode ser usado como referência para determinar quem participa ou não dos emblemas na Comemoração da Morte de Cristo, já que Paulo não tratou desse assunto nessa carta. Isso também é muito claro. - Romanos 8:8.

Seria, então, o leitor comum tão obtuso para não entender o capítulo 8 de Romanos? Existe como entender essa passagem de uma forma diferente da que foi descrita aqui? Se é assim tão fácil de compreender, por que tantos irmãos passam por tais versículos e não percebem o real significado deles? A resposta, caro leitor, tem haver com o poder que a religião exerce sobre a mente das pessoas. Como disse o historiador Arnold Toynbee, em matéria de religião qualquer um pode ser facilmente enganado, mesmo pessoas inteligentes.

Dizer que Romanos se aplica somente a 144.000 cristãos é uma interpretação forçada das palavras divinas. Quando Paulo escreveu essa carta demoraria décadas para que João recebesse a Revelação de Jesus e ouvisse sobre os "144.000". Além do mais, há evidências sólidas de que o número de cristãos já tinha ultrapassado essa cifra quando chegou a vez de Apocalipse ser escrito. (Leia depois este artigo). Dizer aos irmãos que seguem a Torre de Vigia que as Escrituras Gregas não são dirigidas à "grande multidão", é simplesmente uma "válvula de escape" para fugir do entendimento óbvio do texto. Mas tal estratégia lança sobre as costas dos seus idealizadores o espírito das seguintes passagens:

"Invalidastes a palavra de Deus por causa da vossa tradição." - Mateus 15:5

"Não vades além das coisas que estão escritas" - 1 Coríntios 4:6.

 

Por que essas palavras deveriam valer somente para outras religiões, e para a Torre de Vigia não?

 

Um ensino que põe a vida eterna em risco

O ensinamento da Torre de Vigia de que os cristãos não são mais filhos de Deus gera um sério problema para as Testemunhas de Jeová. Como já foi visto, analisando a situação sob o ponto de vista da carta aos Romanos, quem não é filho de Deus é alguém que tem a mentalidade segundo a carne, que significa morte. A lógica desse ensinamento combinada com o ensino do Corpo Governante acaba por reforçar que quem não for filho de Deus não terá vida eterna. Como assim? Embora a humanidade que não conhece a Cristo ainda tenha esperança, de acordo com as profecias, o cristão já tem sua condição como filho de Deus reconhecida antecipadamente, por causa do resgate de Cristo e porque anda de acordo com o espírito. Em virtude dessa condição aprovada, desde a primitiva congregação esses cristãos celebram a morte de Cristo, comendo o pão e bebendo o vinho nessa ocasião especial, pois eles simbolizam o corpo e o sangue de Jesus dados em sacrifício, conforme o próprio Cristo ensinou:

"Jesus tomou um pão.... partiu-o, e, dando-o aos discípulos, disse: 'Tomai, comei. Isto significa meu corpo.' Tomou também um copo, e, tendo dado graças, deu-lho, dizendo: 'Bebei dele, todos vós; pois isto significa meu "sangue do pacto", que há de ser derramado em benefício de muitos, para o perdão de pecados' ". - Mateus 26:26-28.

Quão sério é não seguir as palavras acima? Que o Grande Instrutor responda:

"Jesus disse-lhes: 'Eu sou o pão vivo que desceu do céu; se alguém comer deste pão, viverá para sempre.... Digo-vos em toda a verdade: A menos que comais a carne do Filho do homem e bebais o seu sangue, não tendes vida em vós mesmos. Quem se alimenta de minha carne e bebe meu sangue tem vida eterna, e eu o hei de ressuscitar no último dia'." - João 6:51, 53, 54. (Quem não 'comer desse pão viverá para sempre'? É algo a refletir.)

As palavras de Jesus foram muito claras. Ele disse:

"A menos que comais a carne do Filho do homem e bebais o seu sangue, não tendes vida em vós mesmos."

Muitos se chocaram quando ouviram essas palavras, e por isso deixaram de seguir a Cristo. Somente quando Jesus instituisse a celebração de sua morte é que os discípulos entenderiam o que ele tinha em mente ao dizer que era preciso "comer a carne" e "beber o sangue" do Filho de Deus.

Já que as Testemunhas de Jeová não são consideradas filhos de Deus pela Torre de Vigia, elas são "orientadas" a não comer do pão e e nem beber do vinho, pois isso só cabe aos "ungidos". Conseqüentemente elas não seguem o que Cristo ordenou; e ele disse claramente que era preciso se alimentar de sua "carne" e do seu "sangue" para se ter vida eterna. Qual é a maneira de fazer isso? Participando dos emblemas! Estes representam a carne e o sangue de Cristo.

A frase que a Torre de Vigia costuma usar para divulgar a Comemoração da Morte de Cristo é: “Persisti em fazer isso em memória de mim.” Mas exatamente o que o cristão deveria ‘persistir em fazer’? A Bíblia diz:

"Jesus tomou um pão, e.... disse: ‘Tomai, comei. Isto significa meu corpo.’ Tomou também um copo, e, tendo dado graças, deu-lho, dizendo: ‘Bebei dele, todos vós.... Persisti em fazer isso, todas as vezes que o beberdes em memória de mim.’.... todas as vezes que comerdes este pão e beberdes este copo, estais proclamando a morte do Senhor, até que ele chegue.”– Mateus 26:26, 27; 1 Coríntios 11:25, 26.

"Todas as vezes que comerdes este pão e beberdes este copo, estais proclamando a morte do Senhor, até que ele chegue."

Portanto, quem não come o pão e não bebe o vinho não está proclamando a morte do Senhor. Por não fazerem o que foi especificado acima, os adeptos da Torre de Vigia arriscam desnecessariamente as próprias perspectivas de vida eterna a favor de uma interpretação que se mostrou claramente errada.

Há bem pouco tempo, a Torre de Vigia ensinava que esse 'comer a carne' e 'beber o sangue' realmente se dava por se participar dos emblemas. Ela disse:

"Indica João 6:53, 54 que apenas os que participam realmente é que ganharão a vida eterna? ".... 'Quem se alimenta de minha carne e bebe meu sangue tem vida eterna, e eu o hei de ressuscitar no último dia.’ (Este comer e beber seria obviamente em sentido simbólico, como na Refeição Noturna do Senhor; do contrário, aquele que assim fizesse estaria violando a lei de Deus que proíbe comer sangue. Veja Gênesis 9:4; Atos 15:28, 29.)". - Livro "Raciocínios à Base das Escrituras" (edição de 1985), pp. 88-89.

Mas a velha "válvula de escape" era sempre utilizada. Ela dizia que a maioria dos textos do Novo Testamento se aplica somente aos "ungidos". Então, as Testemunhas de Jeová não deviam se preocupar com a afirmação de Cristo de que quem não participasse dos emblemas não teria vida eterna. No entanto, o texto é muito claro para permitir uma interpretação tão perigosa assim. Talvez para não deixar nenhuma Testemunha de Jeová pensativa ao ler o "Raciocínios", a Torre de Vigia lançou uma nova edição desse livro, alterando as palavras originalmente escritas. Diz a nova edição:

"Indica João 6:53, 54 que apenas os que participam realmente é que ganharão a vida eterna? ".... 'Quem se alimenta de minha carne e bebe meu sangue tem vida eterna, e eu o hei de ressuscitar no último dia.’ Este comer e beber teria obviamente de ser feito em sentido figurativo; do contrário, aquele que assim fizesse estaria violando a lei de Deus. (Gênesis 9:4; Atos 15:28, 29.) Mas, deve-se notar que a declaração de Jesus em João 6:53, 54 não foi feita com relação à inauguração da Refeição Noturna do Senhor.". - Livro "Raciocínios à Base das Escrituras" (edição de 1989), pp. 88-89.

Ao se comparar as duas edições do livro "Raciocínios", percebe-se que a Torre de Vigia já ensinou que o "comer a carne" e "beber o sangue" se relaciona à Refeição Noturna do Senhor. Só depois ela alterou esse entendimento.

Muitas Testemunhas se aperceberam do risco da doutrina de não participação nos emblemas. Umas ficaram em silêncio, tamanha a sua confiança no "escravo fiel e discreto" (= os líderes sediados em Brooklin). Outras se manifestaram e foram desassociadas, ou advertidas. Mas como a força desse texto incomodava a cúpula da Torre de Vigia, ela fez uma mudança radical no entendimento. Ou seja, chegou mais uma das famosas "novas luzes". Essas diziam: qualquer Testemunha de Jeová que exerce fé no sacrifício resgatador de Jesus Cristo já está, simbolicamente, "comendo" a carne e "bebendo" o sangue de Cristo! Acreditem se quiser, mas essa foi a solução encontrada pelo Corpo Governante para equacionar esse problema, e satisfazer o "ego ferido" de seus seguidores.

Na verdade, só as Testemunhas de Jeová mais perspicazes e estudiosas é que poderiam sentir essa mudança, e tentarem se satisfazer com ela. O fato é que a maioria das Testemunhas de Jeová nunca percebeu essa mudança, e são pessoas completamente alheias a esse assunto. As Testemunhas de Jeová se acham as pessoas mais espiritualizadas e conhecedoras da Bíblia que há no mundo. Mas esse conceito é um mito. Elas têm erros e acertos como todas as pessoas. A despreocupação delas com respeito a Romanos 8 é uma evidência que elas não são tão espiritualizadas assim. Se você não for Testemunha de Jeová, faça uma experiência! Pergunte a uma Testemunha se ela segue as palavras de Jesus em João 6:51? Dificilmente ela responderá o que a Torre de Vigia gostaria que ela respondesse. E não pense que são só aquelas senhoras idosas que irão envergonhar a Torre. Escolha uma que é reconhecida pela congregação como uma pessoa madura e espiritual, e veja o que acontece...

 

Conclusão

Para recapitular tudo o que você viu neste artigo, releia calmamente os capítulos 7 e 8 de Romanos. Se você acha que o entendimento não é o que foi explicado aqui, escreva para o Mentes Bereanas! Corrija o autor do artigo e ajude os colaboradores desse site! Demonstre o seu amor cristão! Não esqueça que os que fazem parte do Mentes Bereanas ainda são Testemunhas de Jeová.

Por outro lado, se você já percebeu que existe uma falha grave na maneira que você entendia a expressão "filho de Deus", seja humilde! Admita que estava no erro, e não feche a sua mente para novas descobertas. Todo conhecimento implica em responsabilidade, e agora que você adquiriu essa informação, talvez Deus não lhe julgue mais do mesmo modo, pois agora você já conhece a verdade sobre a "verdade". Além disso, não se intimide diante da autoridade organizacional. Os que estão na dianteira da congregação cristã deveriam ser apenas colaboradores da fé, e não amos dela. - 2 Coríntios 1:24; Tiago 4:17.