Email de um Produtor do Programa “Globo Repórter”, da Rede Globo
No dia 9 de abril de 2004, o Programa Globo Repórter, da TV
Globo, exibiu o episódio “Ciência e
Fé”, no qual o tratamento alternativo às
transfusões de sangue das Testemunhas de Jeová recebeu um
bom destaque. Uma resenha desse programa, feita pelo repórter
daquele episódio (Rodrigo Vianna), pode ser vista aqui.
Dias antes da exibição do programa, a notícia dessa propaganda favorável se espalhou entre as Testemunhas de Jeová do Brasil. Quando soubemos dessa informação vimos uma oportunidade para expor o outro lado da questão, o qual a Torre de Vigia prefere deixar bem escondido...
Procuramos a Rede Globo a fim de buscar uma forma de contato com a equipe do Globo Repórter. Um funcionário de lá gentilmente nos forneceu o email do produtor do programa, o Sr. Jorge Ghiaroni.
Não demorou, e o Sr. Ghiaroni nos enviou o seguinte email:
Caríssimo "Carlos",
Queria, antes de mais nada, agradecer o teu e-mail. Muito obrigado mesmo pela sugestão. E me perdoe: o programa já está gravado e com o tempo estourado.
A parte sobre as Testemunhas de Jeová é bem pequena e nós não vamos assim tão fundo no assunto. Nossa intenção é mostrar a relação entre a fé e a medicina. Como uma crença pode mudar os rumos dos tratamentos médicos e quais as alternativas para a transfusão de sangue. Não é uma reportagem sobre as Testemunhas, sobre tudo o que você me escreveu, que é muito importante.
Te pergunto: Posso passar teu e-mail para outro colega ?
Muito Obrigado mais uma vez.
Jorge Ghiaroni
Em seguida, respondemos:
Caro Jorge,
Muito obrigado por ter respondido. Acredite, isso já valeu o meu esforço. De vez em quando, escrevo para jornalistas sobre esse assunto (sangue) e outros relacionados às TJs, e eles não costumam responder... O senhor, por outro lado, foi extremamente gentil, tanto no interesse como nas palavras.
É uma pena que não será possível incluir alguma das minhas sugestões. Na verdade, eu já sabia que o programa não seria sobre as TJs, e eu também imaginava que nós seríamos apenas brevemente citados. A minha esperança é que fosse possível mencionar algum daqueles pontos. De qualquer maneira, valeu a tentativa.
Quanto a passar o meu email para outra pessoa (jornalista?), pode ficar à vontade. Pode encaminhar minha carta (recomendável) e email a quem quiser.
Novamente, muito obrigado pelo interesse que o senhor demonstrou.
Atenciosamente,
"Carlos"
A seguir, o texto na íntegra, enviado no dia 5 de abril de 2004 ao produtor do Globo Repórter:
-----Mensagem
original-----
Para: Jorge Ghiaroni
Assunto: Contribuição p/ Globo Repórter
(Medicina e Fé)
Caríssimo Sr. Jorge Ghiaroni:
Gostaria de tentar contribuir para o programa Globo Repórter previsto para o próximo dia nove de abril, o qual enfocará o assunto “Medicina e Fé”. Desde a semana passada venho tentando enviar esta carta por email, no link apropriado do site da Globo, mas a comunicação retornava sem sucesso. Somente depois que conversei com o Paulo Keppler, na redação do Globo Repórter em São Paulo, é que consegui o seu email.
Soube através de uma fonte fidedigna ligada à liderança das Testemunhas de Jeová no Brasil que vocês pretendem mencionar a posição das Testemunhas em relação a transfusões de sangue. Embora eu seja continuamente Testemunha de Jeová ativa há quase vinte anos, percebo a inconsistência da doutrina anti-sangue da minha religião. Há alguns anos, creio que recusar sangue para uso medicinal (por via intravenosa) é um sério equívoco, não obstante os perigos acompanhantes em aceitá-lo – assim como há pessoas que morrem ao receber transfusões, há muitas outras que sobrevivem também.
Há três questões que se fossem mencionadas no programa, ainda que brevemente, ajudariam em muito várias Testemunhas do nosso país a refletir sobre este assunto. Não pode fazer idéia de quão veraz é essa minha assertiva! Antes de mencionar os três pontos, vale ressaltar que o motivo das Testemunhas de Jeová serem “orientadas” a recusar transfusões é porque somos ensinados que transfundir sangue é o mesmo que comê-lo, e a Bíblia tem alguns versículos dizendo que é expressamente proibido comer sangue. Eis os pontos:
(1) Segundo a nossa liderança em Nova Iorque, receber leucócitos numa transfusão (não sangue total) é pecado, e por isso proibido. No entanto, uma porção do leite materno, especialmente o colostro que se manifesta nos primeiros dias de aleitamento, contém mais leucócitos do que uma quantidade equivalente de sangue. Se receber leucócitos na veia é proibido, por que comê-lo não é? E em grande quantidade?
(2) Se receber transfusão de sangue é o mesmo que comer sangue, por que uma pessoa que está inconsciente num hospital, se ficar recebendo apenas sangue na veia morrerá de fome?
(3) A “orientação” do poder central das Testemunhas de Jeová também ensina que é proibido receber plaquetas na veia, as quais representam 0,17% do sangue total. No entanto, é permitido às Testemunhas aceitar um medicamento sintético, a eritropoietina (EPO), que normalmente contém albumina humana, uma substância sangüínea que representa 2,2% do sangue total. Por que é proibido 0,17% e permitido 2,2%?
Ainda poderiam ser citados como um quarto e um quinto problema o fato de que nossa liderança nos E.U.A. (chamada de Corpo Governante) já ter sido informada desses pontos mencionados acima, e não ter tomado nenhuma atitude, e de ter demonstrado insegurança a respeito de certos detalhes proibitivos da sua doutrina anti-sangue, pois hoje em dia frações de sangue que são permitidas às Testemunhas de Jeová, no passado já foram proibidas. Para o senhor ter uma idéia, antigamente foi proibido às Testemunhas receberem vacinas feitas com o uso de sangue, tais como a imunoglobulina da Raiva [RIG] (usada para tratar e prevenir raiva). Quantas pessoas devem ter sido prejudicadas por tal ensino! Como o senhor acha que Deus poderia aprovar esse emaranhado de conceitos conflitantes e perigosos? Como acha que pessoas como eu, que são Testemunhas de Jeová por motivos vários, se sentem em saber de tais coisas e não poderem fazer nada?
Na verdade, já existe uma associação de Testemunhas de Jeová anônimas, chamada “Associação das Testemunhas de Jeová para Reforma na Questão do Sangue”, que luta para que essa doutrina acabe e passe a ser questão de consciência aceitar ou não transfusões sangüíneas. Além disso, existem evidências que o Corpo Governante já não mudou sua doutrina a respeito do sangue em virtude de temer uma grande quantidade de processos judiciais, advindos de pessoas que perderam entes queridos por causa da restrição imposta pela nossa religião. Aliás, por eles pensarem exatamente no lado jurídico nós somos orientados a dizer que não é nossa religião que nos proíbe receber sangue, mas sim “nossas consciências”. Um mero jogo de palavras! Se eu, por exemplo, numa eventual situação de necessidade resolvesse aceitar sangue, ou simplesmente doá-lo, seria duramente punido com a expulsão da comunidade, e todos os meus anteriores irmãos espirituais estariam proibidos de falar comigo. No entanto, nos registros oficiais que essa organização religiosa mantém de todos os adeptos e ex-adeptos, constaria que eu me desliguei voluntariamente, sendo que esse não seria realmente o caso.
Quando abordo assuntos tais como esse que eu lhe escrevo com outras pessoas, uso sempre um nick name, mesmo quando me comunico com outras Testemunhas que pensam de maneira semelhante a mim. Preciso me esconder atrás de um pseudônimo para não ser expulso da organização das Testemunhas de Jeová, cuja liderança se recusa terminantemente receber sugestões ou críticas de seus adeptos, e os que ousam questioná-la abertamente sofrem um processo de calúnia e difamação, sendo sumariamente expulsos da organização. E como acontece no caso do sangue, mencionado acima, os que ficam nela são proibidos de falar com o “errante”, nem mesmo podendo cumprimentá-lo. Até mesmo os familiares estão proibidos de ter tratos com o desassociado, a não ser que morem na mesma casa, e mesmo assim devem falar com ele o mínimo possível. Pode mensurar o trauma a que muitos são submetidos quando pertencem a famílias em que todos são Testemunhas de Jeová? Pode imaginar como se sente um desassociado que, na verdade, não cometeu nenhum pecado passível de excomunhão?
Bem, esses são os motivos básicos porque eu achei uma grande oportunidade lhe escrever, e espero sinceramente que possa ponderar o que eu aqui falei. No final, indico alguns links na Internet que podem lhe servir de fontes de matéria, ampliando os meus comentários. Tudo o que eu mencionei em termos médicos pertinente ao sangue, o senhor pode confirmar junto a profissionais qualificados da área de saúde.
Se não for conveniente incluir alguma das minhas sugestões no próximo programa do Globo Repórter, mas o senhor julgar que esse assunto pode ser explorado de alguma maneira pela Rede Globo, eu ficaria muito satisfeito caso o senhor repassasse essa minha comunicação para quem possa se interessar por ela. Lembre-se que vidas estão sendo colocadas em risco de morte simplesmente por causa dos caprichos de homens que estão convencidos que têm uma posição especial diante de Deus, a ponto de acharem que podem manipular a vida de milhões de pessoas. Sim, milhões de pessoas. Embora as Testemunhas de Jeová sejam uma religião insignificante em comparação a outras, isso é assim apenas em termos relativos, pois atualmente há quase sete milhões de Testemunhas no mundo, além de uns oito milhões de interessados que podem se converter em Testemunhas de Jeová ao longo de poucos anos. Eu me vejo na obrigação moral de fazer minha parte para ajudar tais pessoas, nem que seja ao menos uma pequena fração do número total de adeptos.
Sendo possível, favor confirmar o recebimento desta comunicação e a ação intencionada pelo senhor referente a ela.
Muito grato pela atenção,
Carlos M. Silva
P.S.: Se o senhor perguntar à Torre de Vigia (entidade dirigente das Testemunhas) a respeito do que eu mencionei sobre a desassociação, ela falará que não é bem assim como eu descrevi. No entanto, é assim mesmo. Ela dirá que essa metodologia intimidatória é um sinal de amor para com os que erram (do ponto de vista do Corpo Governante). Tais métodos de dissimulação junto ao público externo, porém, são uma característica recorrente da Torre de Vigia. Já houve até um membro do Corpo Governante das Testemunhas de Jeová que foi expulso da religião por repudiar tais métodos perigosos usados por ele. Seu nome? Raymond Franz. Ele publicou dois livros que são leitura altamente recomendada para as Testemunhas de Jeová, chamados “Crise de Consciência” e “Em Busca da Liberdade Cristã”, livros que, evidentemente, as Testemunhas de Jeová estão proibidas de ler, se não quiserem o ostracismo por parte de sua irmandade. (Eu os li secretamente).
Gostaria de dizer que eu tenho autorização dos tradutores da obra de Raymond Franz, para lhe passar um capítulo do segundo livro dele que trata da questão do sangue e as Testemunhas de Jeová. Por eu ser confidencialmente amigo deles consegui a liberação do capítulo. Este segundo livro de Franz ainda está por ser lançado no Brasil. Se desejar aprofundar a pesquisa sobre a posição das Testemunhas de Jeová a respeito do sangue e como os seus líderes a determinam, o capítulo desse livro é muito indicado, pois foi escrito por quem participava da liderança mundial das Testemunhas. Fique à vontade em solicitar essa fonte adicional, caso tenha interesse por ela. Eu a tenho em formato eletrônico (PDF).
LINKS:
http://www.ajwrb.org/foreign/abstain-port.shtml
http://direito.unaerp.br/publicacoes.asp?idpublicacao=642
http://www.acta-diurna.com.br/biblioteca/doutrina/d36.htm
http://www.observandoomundo.org/artigo.php?cod=61
http://www.testemunha.com.br/conteudo.asp?cod=4
http://www.testemunha.com.br/conteudo.asp?cod=3