Autoriza a Bíblia a excomunhão praticada pelas Testemunhas de Jeová? - Parte 2
(por Carlos M. Silva)
Uma
análise contextual - Parte 2
O versículo da Bíblia usado pela Sociedade
Torre de Vigia dos EUA (órgão dirigente das Testemunhas
de Jeová) para justificar seu tipo de excomunhão é
1 Coríntios 5:13 que diz: “Removei o homem iníquo
de entre vós”. O que diz o contexto desse
versículo? O que uma análise lexical revela sobre ele? Os
primeiros cristãos encaravam-no em qual perspectiva? Observe um
pouco do contexto da primeira carta aos Coríntios:
“[Somos] subordinados de Cristo e mordomos dos segredos sagrados
de Deus.... o que se procura nos mordomos é que o homem seja
achado fiel..... para mim é um assunto muito trivial o de eu
ser examinado por vós ou por um tribunal humano.... pois não
estou cônscio de nada contra mim mesmo.... quem me examina
é Jeová. Por isso, não julgueis nada antes do
tempo devido, até que venha o Senhor, que tanto trará
da escuridão para a luz as coisas secretas.... e então
cada um terá o seu louvor da parte de Deus..... aprendais a
regra: ‘NÃO VADES além das coisas que
estão escritas’..... [suplico-vos] que vos torneis
meus imitadores..... Relata-se entre vós.... fornicação tal como nem há entre as nações, que certo homem
tenha por esposa a de seu pai..... nem ao menos pranteastes, a fim de
que o homem que cometeu esta ação fosse tirado do vosso
meio?.... não sabeis que um pouco de fermento leveda a massa
toda? Retirai o velho fermento, para que sejais massa nova....
Cristo, a nossa páscoa, já tem sido sacrificado....
guardemos a festividade, [não com] o fermento de maldade e
iniqüidade, mas com os pães não fermentados da
sinceridade e da verdade..... cesseis de ter convivência com qualquer que se chame irmão, que for fornicador.... , ou
idólatra, .... , ou beberrão...., nem sequer comendo com
tal homem..... ‘Removei o homem iníquo de entre
vós.’” – 1 Coríntios 4:1-21; 5:1-13.
O contexto que culmina na frase “removei o homem iníquo de
entre vós” é bastante esclarecedor. Qual tipo de
pessoas Paulo disse que a congregação deveria excluir?
Ele começa falando de um homem da congregação que
estava tendo relações com a esposa do seu pai (incesto?),
sem que nenhuma providência tenha sido tomada. O ponto de partida
de Paulo é justamente esse fornicador. Paulo estava se referindo
à pessoas com alto grau de depravação moral e
espiritual, que não seguem os princípios de conduta do
Cristianismo. Praticamente todos os comentaristas bíblicos
têm esse entendimento. Observe dois exemplos:
“Em segundo lugar o Apóstolo recomenda que esse tipo de
pessoa não participe das ações litúrgicas,
pois a vida deles nada tem que ver com a comunidade (vers. 11b).
Afastados, talvez possam rever a própria vida e ter assim
oportunidade de converter-se. A comunidade deve evitá-los, se
eles são empedernidos no mal, mas deixar o julgamento para
Deus.” – Primeira Carta aos Coríntios,
Explicação e Atualização, Mauro
Strabeli.
[Em 1 Coríntios 5:12, observa-se que] os coríntios
não mais se consideravam sujeitos às regras
ordinárias de moralidade.” – Ética do Novo
Testamento, os Legados de Jesus e Paulo, Frank
J. Matera.
Portanto, aplicar esse versículo a uma infinidade de
situações, como faz a Torre de Vigia, é uma clara
desconsideração das palavras prévias de Paulo:
“Não vades além do que está escrito.”
(4:6) O texto se refere à pessoas iníquas mesmo,
entregues aos pecados mais repugnantes. Por isso tinham que ser
excomungadas. Mas os aplicadores da disciplina não podiam
afirmar que essa pessoa estava morta para Deus, e sem perspectiva de
vida eterna, pois Paulo disse: “Não
julgueis nada antes do tempo devido, até que venha o Senhor,
que tanto trará da escuridão para a luz as coisas
secretas, como tornará manifestos os conselhos dos
corações.” (4:5)
Não comer com a pessoa excluída talvez seja uma
referência à Refeição Noturna do Senhor
(última ceia), pois, no contexto, Paulo disse: “Retirai o
velho fermento.... Cristo, a nossa páscoa, já tem
sido sacrificado.... guardemos a festividade, não....
com o fermento de maldade e iniqüidade, mas com os pães
não fermentados da sinceridade..... cesseis de ter
convivência com qualquer que se chame irmão, que for
fornicador.... nem sequer comendo com tal homem..... ‘removei o homem iníquo de entre
vós’.” (5:7-13) É a visão desse
contexto que gerou o termo “excomunhão”, que
significa ficar fora da comunhão cristã, por
ocasião da celebração da Refeição
Noturna do Senhor. (Um manuscrito cristão do início do
século II, chamado Didaqué, sugere que a não
participação na Refeição Noturna era
realmente uma ação disciplinar – uma
excomunhão).
Claramente, as palavras de Paulo, em Coríntios, não
dão margem para o procedimento adotado entre as Testemunhas de
Jeová de não cumprimentar o excomungado, e não
falar com ele. De onde, então, surgiu tal entendimento? O
próximo artigo considerará esse pormenor.