Autoriza a Bíblia a excomunhão praticada pelas Testemunhas de Jeová? - Parte 1
(por Carlos M. Silva)
Introdução
- O Caminho da Verdade
Ninguém tem o direito de impor
suposições religiosas a outras pessoas, e ainda chamar
tais suposições de “verdade”, tampouco negar
que existe essa imposição, se os fatos mostram isso.
Normalmente, os que aderem à religião
não possuem o amplo conhecimento necessário para fazer um
julgamento adequado, possuem apenas um conhecimento superficial da
situação. Mas como estão encantados por algumas
informações cativantes, que podem até ser
corretas, deixam de perceber todas as implicações.
O tempo passa e a pessoa que aderiu à nova
religião é incentivada vez após vez a repudiar o
senso de pesquisa e investigação, a não ser que se
faça isso usando-se as publicações que o poder
central da religião fornece. Aos de fora, os líderes
dizem que os seus seguidores são pessoas esclarecidas e
pesquisadoras. É claro que eles não usam a palavra
“seguidores”, dizem que são apenas seus
irmãos, e que todos juntos seguem a Cristo. Em momento algum
eles revelam que têm dúvidas em alguns assuntos que eles
impõem aos seguidores. Passam aquela aura de
perfeição e infalibilidade, embora oficialmente eles
afirmem “humildemente” que são imperfeitos e falhos.
Está assim montado o cenário para proteger os interesses
dos líderes, que sabem da fragilidade de alguns de seus
ensinamentos.
Mas se algum
membro da religião resolver pesquisar
profundamente, com mente aberta e por conta própria, alguns
ensinamentos oficiais de sua denominação, facilmente
detectará alguns erros. No início, relutará em
aceitar o que vê.
Quanto melhor o nível da pesquisa e os
recursos disponíveis, maior será a surpresa do
investigador. Nesse momento, ele percebe que não pode revelar
isso a nenhum de seus irmãos, pois eles estão
enclausurados nesse sistema de proteção arquitetado pelo
poder central. Sabe também que se abrir a boca, será
expulso da religião que ele apoia por anos – será
excomungado. Tal pena consiste em nenhum de seus irmãos falar
com ele, e considerá-lo um rebelde que merece a morte eterna.
Ele sabe que tal tratamento seria injusto, pois ele não perdeu a
fé em Deus, e continua acreditando nos ensinamentos realmente
importantes de sua religião. Portanto, ele se vê numa
situação que o coloca à beira do ostracismo.
Só resta a ele esperar a justiça de Deus, e orar para que
seus irmãos um dia venham a conhecer a verdade a respeito de
onde estão.
Muitas das supostas verdades da religião
não passam de raciocínios humanos, embebidos em
arrogância, orgulho e falta de humildade, que combinados com
conceitos errôneos anteriores, perpetuados ao longo dos anos,
geram a atual situação prevalecente: a ignorância
vestida do pseudo-esclarecimento.
É bem evidente que a pesquisa, a
meditação e a oração, juntos com
sinceridade de coração e verdadeiro interesse de se
agradar a Deus, são elementos importantes para se chegar a um
conhecimento adequado e pleno das Escrituras. Mas o fato de se
alcançar certas pérolas do conhecimento bíblico,
que com certa medida de segurança podem ser chamadas de
“verdade”, não justifica que todas as teorias e
opiniões pessoais devam ser colocadas nessa mesma categoria, nem
dizer que tais coisas são a “verdade” que desce da
parte do Altíssimo, quando, de fato, não passam de
raciocínios de homens que estão convencidos de sua
posição especial perante Deus, em detrimento de seus
semelhantes. Homens que em nenhum momento admitem que não
têm certeza de certas coisas que ensinam, e que quando modificam
algum ensinamento importante, que afetou a vida das pessoas, dizem que
foi uma “nova luz” que acabou de chegar da parte de Deus, e
não assumem qualquer responsabilidade dos excessos que cometeram.
O que acontecerá se algum adepto cobrar deles uma
atitude de responsabilidade? Será vítima de uma
inquisição, e num julgamento simulado será expulso
da irmandade. O que acontecerá se alguém de fora fizer
essa mesma cobrança? Os líderes encararão isso com
completo desprezo, pois afinal de contas todos os que estão fora
de sua religião já estão condenados por Deus.
É como diz certo escritor:
“Têm consciência de ser um povo fiel,
uma minoria eleita.... Têm bem nítidos os limites que os
dividem dos outros. Os outros, a grande maioria, são
apóstatas, moralmente pervertidos, arrastados pelo mundo.
Enquanto o ‘nós’ (fundamentalistas) constitui o
resto fiel aos princípios fundamentais e
imutáveis.” – O Outro é o
Demônio, Uma Análise Sociológica do Fundamentalismo,
de Ivo Pedro Oro, Ed. Paulus (1996).
Que as palavras do escritor bíblico sejam ainda
mais magnificadas: “Seja Deus achado verdadeiro,
embora todo homem seja achado mentiroso, assim como está
escrito: ‘Que sejas mostrado justo nas tuas palavras e
venças quando estiveres sendo julgado.’” –
Romanos 3:4.
Uma
análise
contextual - Parte 1
Durante um grande período da Idade Média,
pessoas foram perseguidas, condenadas e queimadas na estaca como
hereges, por causa do único “pecado” de discordar de
certos ensinos da Igreja Católica. A promoção de
ensinos contrários à direção papal era
punida com toda a severidade. A mera divulgação das
Escrituras Sagradas, a Bíblia, podia ser punida com a morte.
Não importava aos inquisidores se o julgamento era justo ou
não, contanto que os seus interesses fossem preservados.
Qualquer justificativa que fosse usada para explicar tais julgamentos
pungentes não passava de figura de retórica.
Além das execuções físicas,
outra “execução” era infligida às
almas “rebeldes” e “pecadoras”. Tratava-se da
excomunhão. A Igreja Católica não só se
achava no direito de privar as pessoas de viverem pacificamente, mas
também achava que tinha as prerrogativas de excluí-las da
vida eterna. As aspirações cristãs da pessoa que
caísse em tal julgamento estariam ameaçadas. O
opróbrio e a desaprovação de Deus seria o destino
da infame alma. A visão de tal fim era tão aterradora que
intimidava reis e autoridades. A excomunhão era uma arma
espiritual de grande importância, já que os dirigentes
religiosos dificilmente conseguiriam por as mãos em pessoas de
nobre estirpe, para levá-las à fogueira.
“Mas isso é coisa do passado”,
alguém poderá dizer, “a Igreja Católica e as
demais religiões cristãs não praticam mais esses
excessos”. Embora seja verdade que a Igreja Católica,
através de João Paulo II, tenha pedido perdão (mea culpa) por alguns julgamentos inquisitoriais do
passado, oficialmente o Código de Direito Canônico do
Vaticano, ainda mantém a excomunhão como expediente de
punição. Esse código prevê, por exemplo, que
os que abandonam a Igreja em prol de outra fé, já
estão automaticamente excomungados. Quanto às diversas
igrejas protestantes, não se têm notícias de que
elas praticam a excomunhão. Mas existe uma religião que
“aprimorou” a excomunhão, dando a ela uma
conotação de execução sumária do
“errante”.
Imagine que você é um cristão
dedicado, ama a Deus e é cooperativo na sua igreja, a
única que conhece desde a infância. Ao completar dezoito
anos, você é convocado pelo Estado a prestar um
serviço militar compulsório durante um ano. Então,
você explica que não pode se dedicar a essa atividade por
causa de sua consciência cristã, que não pode se
sujeitar ao adestramento militar. O Estado lhe oferece como alternativa
trabalhar algumas horas por dia num serviço civil, talvez numa
creche ou num hospital. Se você não aceitar essa
opção será separado de sua família e
ficará por tempo indeterminado na prisão, sofrendo todo o
tipo de pressão psicológica. Você pensa e resolve
aceitar essa obrigação em lugar do serviço
militar.
Ao retornar à sua igreja você comunica aos
líderes a sua decisão. Em virtude disso, você
é convocado para um julgamento secreto com eles. É um
julgamento só no nome, pois o que eles querem mesmo é
comunicar que você foi desassociado (excomungado), por
desobedecer a ordem do comando central da igreja, que diz que é
pecado entrar no citado serviço civil alternativo. A partir de
então, você será considerado uma pessoa
iníqua. Todos os seus únicos amigos estão
proibidos de falar com você, e de lhe cumprimentar. Na mente dos
seus queridos irmãos da igreja, se Deus fosse destruir os maus
hoje, no esperado “fim do mundo”, você provavelmente
seria um dos executados sem nenhuma perspectiva de vida eterna no
paraíso. Para eles você já está morto. A
partir de agora você é um infiel a Deus, aguardando apenas
a execução literal.
Como você se sentiria na situação
descrita acima? Ela pode parecer inverossímil para quem nunca se
deparou com algo assim, mas é uma realidade hoje em dia para
milhões de pessoas. É assim a excomunhão praticada
pela religião conhecida como Testemunhas de Jeová, que
já ultrapassa a cifra de seis milhões de adeptos no mundo
inteiro. A citada proibição, do serviço
alternativo, foi abolida em 1995, e não é mais pecado. Na
verdade, nunca foi. (Mas até aquele ano, em vários
países, milhares de jovens Testemunhas de Jeová ficaram
muitos anos em prisões por obedecerem a ordem que emanava do
poder central conhecido como Corpo Governante). Ainda resta,
porém, uma elaborada e infindável lista de pecados e
delitos que as Testemunhas devem evitar, se não quiserem ser
punidas com a desassociação.
Alguns desses pecados
são claramente especificados na Bíblia, outros
não.ndo
em foco o que foi relatado aqui, resta perguntar: O padrão de
excomunhão das Testemunhas de Jeová encontra verdadeiro
apoio das Escrituras? Autoridades religiosas estão realmente
autorizadas por Deus a decidirem o futuro eterno das pessoas? O
próximo artigo examinará esses pontos.