Como se Determinam Datas Antigas da História Bíblica?

Introdução

Ao lermos a Bíblia, é comum nos depararmos com passagens que mencionam períodos específicos de reinados. Um exemplo é Jeremias 1:1-3 e 25:3, onde encontramos:

"Veio a haver [para Jeremias] a palavra de Jeová nos dias de Josias, filho de Amom, rei de Judá, no décimo terceiro ano do seu reinado. E continuou a ocorrer nos dias de Jeoiaquim, filho de Josias, rei de Judá, até o término do décimo primeiro ano de Zedequias, filho de Josias, rei de Judá, até que Jerusalém foi ao exílio, no quinto mês."

"Desde o décimo terceiro ano de Josias, filho de Amom, rei de Judá, e até o dia de hoje, estes vinte e três anos, veio a haver para mim a palavra de Jeová, e eu falava convosco, levantando-me cedo e falando, mas vós não escutastes."

Várias datas relativas são mencionadas nos textos acima. No entanto, a quais datas do nosso calendário elas correspondem? Lendo apenas a Bíblia não é possível conhecer tal informação. O mesmo acontece com todos os outros relatos da Bíblia que mencionam datas relativas. Sendo assim, como se faz para determinar as antigas datas da história bíblica? É possível os leigos saberem como se faz isso?

Os especialistas usam vários métodos para chegarem às datas que vemos nos livros de História. Seria preciso um livro para discorrer perfeitamente sobre esses métodos. O objetivo deste artigo é explicar resumida e didaticamente uma dessas maneiras: a datação auxiliada pela Astronomia.

Felizmente alguns povos antigos eram profundos conhecedores do céu noturno, além de conhecerem matemática e geometria. Eles foram os primeiros astrônomos. Os antigos caldeus (babilônios) se destacaram nessa área. Eles eram capazes até de prever eclipses e saber com exatidão a tragetória dos planetas então conhecidos. Certo livro de matemática disse sobre eles:

“Construtores famosos e astrônomos célebres, não é de estranhar-se que os babilônios tivessem uma cultura matemática já bastante adiantada e conclui-se que, entre outras coisas, sabiam resolver problemas de multiplicação sem se utilizar de ábaco.”

Milhares de tabuinhas de argila cozida que foram desenterradas na região onde era a antiga Mesopotâmia comprovam as palavras do livro acima. A maior parte desse material trata de assuntos do cotidiano. Eram escrituras, recibos, contratos de compra e venda, transações comercias diversas, textos comemorativos etc. Embora todas estas fontes sejam necessárias para se saber com exatidão a cronologia daquele tempo, o tipo de tabuinha cuneiforme mais importante para uma datação absoluta são as tabuinhas astronômicas. Elas são registros "escritos" nas próprias estrelas, cujo cenário é imutável por milhares de anos.

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Tabuinhas cuneiformes

Os astrônomos caldeus registravam diariamente diversos eventos que viam no céu, especialmente durante a noite. Descreviam com precisão a posição relativa dos cinco planetas então conhecidos: Mercúrio, Vênus, Marte, Júpiter e Saturno. Eles fizeram essas anotações durante centenas de anos! Ao fazerem tais registros, costumavam informar o rei sob o qual estavam e qual era o dia e o ano do reinado dele.

Já que a Bíblia, em suas datações internas, menciona alguns reis babilônios daquele período, não é muito difícil sincronizar a cronologia absoluta de Babilônia com a cronologia relativa da Bíblia. Dizemos “cronologia relativa” porque, como já vimos, a Bíblia não contém datas segundo o nosso calendário. Sem as fontes seculares, como as tabuinhas cuneiformes, não há como saber nenhuma data da Bíblia. Um exemplo do ponto de contato entre essas duas cronologias é Jeremias 32:1. O texto diz: "A palavra que veio a haver para Jeremias da parte de Jeová no décimo ano de Zedequias, rei de Judá, isto é, no décimo oitavo ano de Nabucodorosor." (grifo acrescentado)

Observação: Jeremias 32:1 usa o método não-ascencional de reinados. Para mais detalhes, leia este artigo.

A ferramenta necessária para se confirmar a cronologia absoluta

O conhecimento atual sobre os planetas e as estrelas não tem precedentes na história humana. Com o surgimento dos computadores e o desenvolvimento de softwares especializados em Astronomia, hoje é possível qualquer pessoa verificar se os conteúdos dos diários astronômicos da antiga Mesopotâmia estão corretos ou não.

O programa que escolhemos para exemplificar isto é o Starry Night, mas existem outros bons softwares. Este programa simula visualmente o céu em qualquer data do passado e do futuro. Isto só é possível porque o movimento relativo dos astros é como um relógio de alta precisão em pleno funcionamento. É só adiantar ou atrasar os “ponteiros” deste “relógio” para se viajar virtualmente no tempo! O programa faz isso através de cálculos matemáticos que foram alimentados com dados da mecânica dos movimentos celestes.* Mas note que o Starry Night não é um programa meteorológico por satélite. Ele apresenta apenas o que um observador veria no céu sem considerar a presença de nuvens. As versões mais recentes também mostram onde estão satélites de comunicação, a estação espacial internacional (ISS) e os novos cometas descobertos recentemente pelos astrônomos. (Para mais detalhes sobre o Starry Night, veja o artigo "O Starry Night é um Programa Confiável?" no Mentes Bereanas.)

* A margem de erro é desprezível (de apenas alguns minutos).

As demonstrações do tópico a seguir consistirão em testar a veracidade das datas apresentadas, para saber se elas são verdadeiras ou não. Para realizar esta verificação alguns passos serão necessários:

1) Saber qual é a data atribuída pelos historiadores a determinado momento do governo do rei que está sendo considerado.

2) Instalar o programa Starry Night no seu computador.

3) Ajustar o local a partir do qual a “observação” será feita. Para entrar nesse ajuste, é preciso ir em “Set Home Location”.

4) Fazer o programa voltar ao momento desejado. Ou seja, a data apresentada pelos historiadores.

5) Verificar se na data escolhida o céu está exatamente como foi dito na tabuinha cuneiforme. Se estiver, significa que a data está correta.

 

Simulando antigas observações astronômicas

Inicialmente, usaremos como exemplo para as simulações a seguir duas tabuinhas astronômicas: a B.M. 76738 (+ B.M. 76813) e a VAT 4956, que estão no Museu Britânico e no Museu de Berlim, respectivamente. Depois, como demonstração complementar, simularemos um eclipse mencionado no cilindro de Nabonido nº 18, o qual se encontra no Museu Britânico. Tecnicamente, este cilindro não é um diário astronômico, porém a informação astronômica que ele contém pode também ser testada.

a) B.M. 76738 + B.M. 76813


Tabuinha com efemérides de Saturno

Estes dois fragmentos são conhecidos como "tabuinha de Saturno". Ela foi publicada por C. B. F. Walker, no livro Astronomia Antiga e Divinação Celestial, de N. M. Swerdlow, ("Observações babilônicas de Saturno durante o reinado de Kandalanu”, em inglês - Cambridge, Massachusetts e Londres: Editora do MIT, 2000), págs. 61-76. As informações nela contidas foram escritas durante o governo do rei Kandalanu. Diz a tabuinha (aqui em azul):

Ano 8 [de Kandalanu], mês 6, dia 5, atrás do Arado (α+ Virgem), último aparecimento [de saturno].

[Ano 8], mês 7, dia 5, 'entre' o Arado (α+ Virgem) e Balança (Libra), primeiro aparecimento [de saturno].

Arado (ou sulco, do inglês “furrow”) é como eles chamavam Spica, a principal estrela da constelação de Virgem. (Vide nota). Graças ao conhecimento que os astrônomos modernos "transferiram" para dentro do Starry Night, hoje é possível qualquer pessoa simular o evento acima e conferir se a data apresentada pelos historiadores está certa ou não.

Como você pode ver, é dito que no oitavo ano de Kandalanu o planeta Saturno estava na constelação de Virgem. Mas quando exatamente isso aconteceu?

Kandalanu foi o rei que governou Babilônia antes de Nabopolassar, o pai de Nabucodonosor. Segundo as tabuinhas cuneiformes, Kandalanu reinou por 22 anos. Ao consultar qualquer boa enciclopédia, vemos que Nabopolassar iniciou seu reinado em 625 AEC. Então é possível descobrir quando foi o oitavo ano de Kandalanu – o ano mencionado na tabuinha de Saturno. Basta escrever a seqüência abaixo, voltando para trás no tempo, a partir do primeiro ano de Nabopolassar (lembre-se que antes de Cristo as datas são decrescentes):

1º ano de Nabopolassar – 625 AEC

22º ano de Kandalunu – 626 AEC (último ano de Kandalanu)

21º ano de Kandalunu – 627 AEC

20º ano de Kandalunu – 628 AEC

19º ano de Kandalunu – 629 AEC

.......... E assim por diante até chegar no:

8º ano de Kandalunu – 640 AEC <-- este é o ano da tabuinha!

7º ano de Kandalunu – 641 AEC

........... E assim por diante

1º ano de Kandalunu – 647 AEC.

Pelo acima, descobrimos que o oitavo ano de Kandalanu é o ano 640 AEC.

Agora vamos ajustar o local de nossa observação. Já que Babilônia ficava onde hoje fica o Iraque, escolhemos as coordenadas de Bagdá, o que é mais ou menos o local onde os escribas da tabuinha de Saturno estavam quando fitaram os olhos naquele céu estrelado de 640 AEC. Vá em Go\Set Home Location e carregue o programa com as seguintes coordenadas:

Latitude: 33° 20' 02.0'' N
Longitude: 44° 23' 52.0'' E

Lembre-se de alterar a era, mudando de "AD" (Anno Dominni = depois de Cristo) para "BC" (Before Christ = antes de Cristo).

Vejamos como estava a noite no céu de Bagdá no ano 640 AEC. Lembre-se que a tabuinha diz que a observação se deu no quinto dia do sexto mês do ano babilônico. Ou seja, no mês de ululu, o qual equivale a partes dos nossos meses de agosto e setembro, conforme a tabela abaixo:


* Ou Tammu

Pela tabela, vemos que o mês de ululu começa aproximadamente na metade de agosto. Consideraremos aqui que ululu começa no dia 16 de agosto. Se errarmos por um dia ou dois, isso não atrapalhará a observação, pois um planeta fica mais de um dia sobre uma determinada constelação. Portanto, se 1º de ululu foi no dia 16 de agosto, o dia 5 de ululu será no dia 20 de agosto. Segundo o Starry Night, em 20 de agosto de 640 AEC, às 19:30 h, o céu estava assim:

Olhando a tela do computador, vemos que o céu está exatamente como foi descrito na tabuinha cuneiforme! (No programa, Virgem é chamada de "Virgo"). Note que a tabuinha ainda fornece outra informação. Ela diz que após um mês o planeta Saturno se movimentou e ficou entre as contelações de Libra e Virgem. Ao pedir que o programa mostre o céu um mês depois, veremos exatamente isso: que Saturno está se deslocando entre Libra e Virgem.

Vamos testar a data que a Torre de Vigia atribui ao oitavo ano de Kandalanu:

Na enciclopédia Estudo Perspicaz das Escrituras, Volume 1, pág. 295, verbete "Babilônia", a enciclopédia diz:

"O caldeu Nabopolassar fundou uma nova dinastia em Babilônia, por volta de 645 AEC. Seu filho, Nabucodonosor II, que completou a restauração e levou a cidade à sua maior glória." -

Percebe-se que 20 anos são acrescentados ao período de domínio de Nabopolassar, o pai de Nabucodonosor. Então, se fizermos aquela mesma seqüência de datas que foi feita acima, descobriremos que o oitavo ano de Kandalunu, segundo a Torre de Vigia, seria em 660 AEC. Vejamos como estava o céu em Bagdá na noite de 20 de agosto daquele ano:

A tela do programa mostra que Saturno estava sobre a constelação de Capricórnio e não em Virgem! Na verdade, nem Virgem nem Libra estavam nesse setor do céu no dia 5 do mês de ululu de 660 AEC. Temos aqui uma evidência de que a data apresentada pela Torre de Vigia tem um erro de 20 anos, conforme já tinha sido provado aqui, por meio de outras evidências. Temos total segurança em afirmar isso porque os céus são um relógio preciso, sem margem de erro. Qualquer estudante de Astronomia sabe disso. Então, a possibilidade de ter havido uma falha nessa demonstração é zero. Sem falar que os astrônomos sabem que Saturno só passa por cima de uma mesma constelação a cada 29,5 anos. Ou seja, por esse parâmetro físico, criado por Deus, não há nenhuma possibilidade de no ano 660 AEC Saturno ter passado sobre a constelação de Virgem, pois o ciclo ainda não tinha sido completado. Não aceitar este fato é querer mudar os tempos e as épocas!

b) VAT 4956


Frente e verso do "diário" cuneiforme VAT 4956.

Para a tabuinha acima, iremos acionar três recursos do Starry Night chamados "bounderies", "labels" e "auto identify". Eles dividem o céu em setores diferentes, identificam a constelação de cada setor e mostram uma representação artística da constelação. Isto torna mais fácil a identificação da parte do céu em que cada planeta se encontra.

Como referência, usaremos as datas apresentadas pelos historiadores, as quais se encontram na tabela abaixo:

Dentre outras coisas, a VAT 4956 diz:

"Ano 37 de Nabucodonosor, rei de Babilônia.... Mês 2, primeiro dia.... Saturno está em frente a Andorinha." - Sachs and Hunger (1985), p. 47, 49.

Vemos que a informação acima foi anotada no 37º ano de Nabucodonosor. Se o seu 1º ano foi em 604, o seu 37º ano foi em 568 AEC. O diário afirma que no primeiro dia do segundo mês desse ano 'Saturno estava em frente a Andorinha', nome dado à parte sudoeste da constelação de Peixes, conforme a conhecemos hoje. (As "constelações" babilônicas nem sempre correspondem exatamente às constelações dos nossos dias, sendo que a extensão exata destas só foi determinada em épocas recentes. Para uma moderna e autoritativa consideração sobre os nomes babilônicos dos planetas, estrelas e constelações, veja Ciências Astronômicas na Mesopotâmia (em inglês), de H. Hunger & D. Pingree (Leiden-Boston-Köln: Brill, 1999), págs. 19-29, 73-77, 123-139, 159, 202, e o Apêndice nas págs. 271-277 desta mesma obra. Existem ainda diversas incertezas nesta área.) Ayaru é o segundo mês, o qual começa na metade de abril. Então, podemos definir que este evento aconteceu em 16 de abril de 568 AEC. Vejamos se o Starry Night confirma esse registro (a hora escolhida foi às 03:50 da manhã):

Observamos que realmente Saturno se encontra defronte da constelação de Peixes, exatamente como foi dito na tabuinha. Agora vejamos vinte anos antes, em 588 AEC, que seria a data correta para o 37º ano de Nabucodonosor, segundo a Sociedade Torre de Vigia (dos EUA):

Vemos em Peixes apenas os planetas Vênus e Júpiter. Pedimos ao programa (na função "find") para localizar Saturno e ele nos informou que Saturno só aparecerá no céu às 10:44h do dia 16 de abril de 588 AEC, hora de Bagdá. No entanto, ele não será visível, pois isto será em plena luz do dia. De qualquer maneira, mesmo invisível aos olhos humanos, ele não estará na constelação de Peixes, e sim na constelação de Câncer.

Observação: Quem quiser saber os nomes que os babilônios davam às estrelas e constelações poderá entrar neste site, o qual possui um catálago relativamente completo, em inglês. Também poderá ser útil ver uma apresentação em Power Point sobre a história das constelações, feita pelo pessoal da Universidade de São Paulo. Para "baixar" esta apresentação clique aqui.

c) Cilindro de Nabonido nº 18


Cilindro de Nabonido descoberto em Ur

Entre os cilindros do reinado de Nabonido que foram desenterrados no Iraque, o cilindro nº 18 menciona um eclipse heliacal no 13º mês de um ano não especificado de Nabonido. Diz a inscrição:

“Por causa do desejo por uma sacerdotisa entu, no dia 13 do mês de ululu, o mês (cujo nome sumeriano significa) ‘trabalho das deusas’, a lua foi eclipsada e se pôs enquanto estava eclipsada. Sin pediu uma sacerdotisa entu. Assim (foi) seu sinal e sua decisão.” - Veja o texto completo aqui.

Nessa ocasião, Nabonido dedicou sua filha En-nigaldi-Nana (ou Bel-salti-Nanar) ao deus-lua Sin, para que ela fosse sacerdotisa no templo de Egipar, em Ur. Ao fazer isto, ele estava seguindo a lista de presságios astrológicos chamada Enuma Anu Enlil, que dizia especificamente que quando um eclipse ocorria na “alvorada da manhã” do dia 13 de ululu era sinal de que o deus-lua Sin estava pedindo uma sacerdotisa. - “O Antecedente Babilônico da Lenda de Kay Kâûs”, Archiv Orientální, Vol. XVII, H. Lewy (ed. por B. Hrozny, Praga, 1949), págs. 50, 51.

Mesmo não sendo este cilindro um documento astronômico, com a informação astronômica que ele contém é possível saber qual foi o ano desse eclipse, mediante uma verificação dos eclipses que ocorreram naquele período, ou seja, aos dezessete anos do reinado de Nabonido (de 555 a 539 AEC). Combinando a informação deste cilindro com outro achado arqueológico conhecido como Crônica Real, é possível determinar em que ano do reinado de Nabonido este eclipse aconteceu, uma vez que a Crônica Real diz que a dedicação de En-nigaldi-Nana aconteceu no segundo ano de Nabonido.

Como foi visto acima, o texto diz que o eclipse aconteceu em 13 de ululu (ou elil). Os meses lunares babilônicos começavam na primeira visibilidade da lua, na noite seguinte à da conjunção. Para encontrar uma data juliana mais exata para 13 de ululu, é melhor começar com a noite da primeira visibilidade como dia um e contar até o dia 13. Para o período neobabilônico e depois disso, a maneira mais fácil é usar as tabelas de cronologia babilônica de Parker & Dubberstein. Para o dia 13 de ululu de 554 AC, elas mostram que o dia 1 de ululu foi o dia 14 de setembro no calendário juliano. Mas as tabelas deles só mostram o número do dia de meia-noite a meia-noite (Parker & Dubberstein, pág. 26), por isso, para obtermos o primerio dia do mês babilônico, temos de contá-lo da noite anterior até a noite seguinte. Sendo assim, 13 de ululu corresponde a 25/26 de setembro no calendário juliano. Como um mês intercalar de ululu ou adaru moveria os meses seguintes um mês para frente, é importante saber os meses intercalares também. E nas tabelas de Parker & Dubberstein, incluem-se todos os meses intercalares do período neobabilônico. Assim, as tabelas deles para este período podem ser usadas com segurança.

Se o mês babilônico de ululu corresponde a partes de agosto e setembro de nosso calendário (e, às vezes, a partes de setembro e outubro), não é preciso localizar todos os eclipses que ocorreram no reinado de Nabonido. Basta procurar os que aconteceram entre agosto e outubro, de todos os 17 anos de seu reinado.

Outra informação importante que o cilindro fornece é que o eclipse ainda estava em andamento quando a lua se pôs e nesse exato momento o sol estava nascendo (pois era a “vigília da alvorada”). Ou seja, o fim do eclipse não foi visto por ninguém que estava em Babilônia. Por causa dessas peculiaridades, este raro eclipse é chamado de heliacal, pois a lua se põe eclipsada enquanto o sol nasce.

Para fazer uma simulação deste eclipse no Starry Night será preciso fornecer as coordenadas exatas de onde ficava Babilônia, cujas ruínas estão nas cercanias da cidade de Al Hillah, a uma distância de uns 25 quilômetros. Para isto, entre com os seguintes números em “Set Home Location”:

1) Latitude: 32° 33' N
2) Longitude: 44° 25' E

A inscrição cuneiforme diz que o eclipse se deu no segundo ano de Nabonido, e os historiadores dizem que este ano foi 554 AEC. Sendo assim, teremos de verificar o mês de ululu do ano 554 AEC. Houve um eclipse heliacal nesse ano? Sim, houve. Se formos no Starry Night até o dia 26 de setembro de 554 AEC, veremos que a lua estava cheia e brilhante no céu. Entretanto, à 01:40 h da manhã uma fase penumbral começou a ocorrer. Isso prenunciava o início de um eclipse, o qual começaria às 3 horas da manhã. O auge foi por volta de 04:26 h, mas a lua não chegou a ficar totalmente coberta pela sombra da Terra e uma beirada da lua penunbral ficou ainda visível.

Veja a seguir as imagens fornecidas pelo programa em cada momento mencionado:


Às 02:00 h da madrugada a lua cheia está sendo coberta por uma penumbra



Às 02:48 h a lua já está totalmente na penumbra



Às 03:00 h da madrugada começa o início do eclipse com a lua já totalmente na penumbra



Às 03:16 h, o eclipse continua avançando



Às 04:13 h, o eclipse chega ao ponto máximo e o céu já apresenta sinais de que vai amanhecer



Às 05:14 h, a lua está prestes a se pôr, entretanto o eclipse ainda não acabou

Às 05:39 h, o eclipse ainda não tinha terminado e a lua começou a se pôr no oeste. Ao mesmo tempo, no leste, o sol começava a nascer. Portanto, sem sombra de dúvida, este é o eclipse mencionado no cilindro de Nabonido, o qual, segundo o Starry Night, ocorreu exatamente como foi descrito naquele texto cuneiforme!


Às 05:39 h, no lado oeste, ainda eclipsada a lua começa a se pôr, enquanto que no leste o sol começa a nascer



Às 05:39 h o sol começa a nascer


Às 06:07 h, o sol já nasceu e a lua não está mais visível, pois já se pôs no oeste

Ao verificarmos todo o reinado de Nabonido, descobrimos que em outros anos houve mais três eclipses lunares no mês de ululu. No entanto, em nenhum deles a lua se pôs heliacamente. A data em que houve outro eclipse lunar deste tipo foi cinqüenta e quatro anos antes, no dia 24 de agosto de 608 A.E.C.** Isto prova que a inscrição real Nabon. nº 18 marca sem nenhuma dúvida o segundo ano de Nabonido em 554 AEC. Mas qual a importância deste evento em nossa consideração? Falando sobre a famosa crônica de Nabonido, a Torre de Vigia declarou:

"Pode-se notar que a frase ‘décimo sétimo ano’ não consta na tabuinha, estando danificada esta parte do texto. Esta frase é inserida pelos tradutores, porque eles acreditam que o 17.° ano de reinado de Nabonido foi seu último. Assim, presumem que a queda da cidade de Babilônia se deu naquele ano do seu reinado e que, se a tabuinha não estivesse danificada, essas palavras apareceriam no espaço agora danificado. Mesmo que o reinado de Nabonido tenha durado mais do que em geral se supõe, isto não mudaria a data aceita de 539 AEC como ano da queda de Babilônia, porque há outras fontes que indicam este ano. Este fator, porém, diminui até certo ponto o valor da Crônica de Nabonido." – Estudo Perspicaz das Escrituras, volume 3, p. 52, verbete “Nabonido”, ênfases acrescentadas.

** Mesmo sendo um eclipse heliacal, 608 AEC não poderia ser o segundo ano de Nabonido, nem para a cronologia da Torre de Vigia (segundo a qual o rei em 608 seria Nabucodonosor), nem para a cronologia historicamente estabelecida (que diz que em 608 o rei era Nabopolassar).

Nota-se que a Torre de Vigia, no "Estudo Perspicaz", considera a possibilidade do reinado de Nabonido ter durado mais de 17 anos. Sem dúvida, isto poderia ajudá-la a reparar a brecha de 20 anos que existe em sua cronologia, conforme vemos nas tabelas abaixo:

Período neobabilônico segundo os historiadores:

Período neobabilônico segundo a Torre de Vigia:

Não há como consertar essa brecha de 20 anos da cronologia da Torre de Vigia, pois não existem achados arqueológicos que permitam esticar o período de governo de cada rei, e nem tampouco incluir novos reis, pois diversas evidências prosopográficas independentes fornecem não apenas a duração do período neobabilônico, mas também os elos entre os reinados que transcorreram durante toda essa dinastia iniciada por Nabopolassar. E o cilindro de Nabonido confirma de forma inequívoca que Nabonido de fato só reinou 17 anos, e que 554 AEC foi seu segundo ano de reinado. Além disso, o texto Nabon. nº 18 confirma a consistência da Lista de Reis de Beroso e o Cânon de Ptolomeu, os quais são vistos de forma desfavorável pela Torre de Vigia, por serem cópias e não documentos originais da época neobabilônica. Mas lembre-se que as inscrições reais, tal como cilindro de Nabonido, e as milhares de tabuinhas comerciais desenterradas no Iraque são documentos originais daquela época, e todos eles juntos confirmam a cronologia apresentada por Ptolomeu e Beroso, a qual consta corretamente em todos os livros de História Antiga da atualidade.

------------------------------------------ fim das simulações ------------------------------------------

 

Demonstrações como as que foram feitas acima proporcionam um levantamento completo do quadro cronológico daquele período babilônico. Juntando todas as outras fontes de informação com as que foram explicadas aqui, descobrem-se períodos de reinados tais como o indicado na tabela abaixo:


Observação: Para calcular a duração de um reinado, aplique a fórmula: ano maior – ano menor + 1

Dentre as milhares de descobertas arqueológicas que possibilitam a construção desta tabela, não há um único registro que autorize a redução ou o acréscimo de anos aos períodos acima estabelecidos. Além disso, existem elos que ligam o fim de um reinado ao início do reinado seguinte, tornando impossível a inclusão de mais governantes ou o acréscimo de mais tempo aos reinados. No futuro, tentaremos comentar estas evidências adicionais.

Por fim, se alguém alegar que o Starry Night pode ter alguma margem de erro significativa que altera a verdadeira data, desconhece completamente a natureza deste programa, que foi feito por especialistas que entendem profundamente do assunto. E mesmo que houvesse tal erro grotesco, por que ele apoiaria justamente a data defendida pelos historiadores? A margem de erro do Starry Night é de apenas alguns minutos e não de 29,5 anos! Para mais detalhes sobre a precisão do Starry Night, leia este artigo.

 

O verdadeiro motivo da Torre de Vigia acrescentar 20 anos ao período neo-babilônico

Um fato importante a se destacar é que, no final das contas, a tabuinha de Saturno, a VAT 4956 e todas as outras fontes daquele tempo provam que foi em 587 AEC que Jerusalém foi destruída pelos babilônios. No entanto, esta data não serve para as especulações proféticas da Torre de Vigia. A data de 1914*** só dá certo se Jerusalém tiver sido destruída 20 anos antes, em 607 AEC. Por isso a Torre de Vigia prefere contradizer as evidências astronômicas e causar uma ruptura de 20 anos no período histórico estabelecido, tentando mudar a História por um decreto eclesiástico...

*** Segundo a Torre de Vigia, no ano de 1914 começou o período dos "últimos dias" marcados pela profecia bíblica. 1914 seria o momento final de um período predito de 2.520 anos, o qual começou no ano em que Jerusalém foi destruída pelos babilônios.

Vamos considerar a remota possibilidade da tabuinha de Saturno e da VAT 4956 estarem erradas. Se este fosse o caso, por que elas erraram justamente para provar que a data 587 é a correta?**** E o que dizer dos outros diários astronômicos daquele tempo? Estariam todos eles errados? Para um exame completo teríamos de analisar as outras tabuinhas astronômicas e ir testando o conteúdo delas um a um, nos mesmos moldes das demonstrações feitas nesta página. Nós, do Mentes Bereanas, não testamos ainda todas as tabuinhas astronômicas disponíveis. Verificamos apenas algumas que foram publicadas e traduzidas por especialistas tais como o Dr. Abraham Sachs, um dos maiores assiriologistas do século 20. Até agora ocorreu o que já era esperado: as datas dos historiadores são confirmadas e as datas da Torre de Vigia para aquele período são rechaçadas.

**** Lembre-se que o mesmo acontece com todos os outros registros cuneiformes daquele tempo, escritos em um intervalo de centenas de anos. Todos apontam para 587 AEC.

Na verdade, nem é preciso testar todos os diários astronômicos caldeus, pois à base da literatura especializada já sabemos que nenhuma fonte apóia a data 607 AEC. Se houvesse alguma tabuinha que apoiasse a data 607 certamente a Torre de Vigia já teria mencionado tal evidência. De qualquer maneira, temos a intenção de, com o tempo, publicar outras demonstrações astronômicas do período neo-babilônico usando o programa Starry Night ou outros bons softwares. É claro que sabemos que mesmo a melhor informação deste tipo jamais convencerá certas pessoas, mas certamente fará com que as Testemunhas de Jeová razoáveis, que permitem a si mesmas o direito de ouvir a evidência de maneira imparcial, revejam a sua opinião sobre este assunto.


"Diários Astronômicos de Babilônia e Textos Relacionados"
De A. J. Sachs & H. Hunger, Vol. I
(Viena: Verlag derÖsterreichischen Akademie der Wissenschaften, 1988)

Logicamente é razoável esperar que haja alguns erros nos registros dos babilônios. E realmente alguns já foram detectados. Mas qual seria a probabilidade de MILHARES de registros cuneiformes que abrangem um intervalo de centenas de anos estarem TODOS errados e, por uma incrível coincidência, TODOS indicarem que a data 587 AEC é que é a correta?

A pessoa que acreditar nesta extraordinária coincidência deveria também acreditar na teoria da evolução das espécies, pois deve ser mais provável o homem ter evoluído de uma "ameba" criada por uma centelha primitiva do que tal possibilidade absurda ser verdade! Em outras palavras, para que todas as tabuinhas estivessem erradas seria preciso que todos os escribas babilônicos, ao longo de centenas de anos tivessem, de alguma forma, combinado entre si para entrar numa conspiração internacional cujo único intuito seria desacreditar uma religião do século 20 que se AUTO afirmaria a única e legítima representante de Deus na Terra, detentora do melhor e mais preciso conhecimento que existe!

E para os que afirmam que a Torre de Vigia baseia sua cronologia na Bíblia em vez de em fontes seculares, recomendamos este artigo. Na verdade, a Bíblia não contradiz de maneira alguma a cronologia neobabilônica. Pelo contrário, ela a confirma! De qualquer maneira, isso é até irrelevante, pois, como já afirmamos aqui, sem as fontes seculares não é possível saber as datas da Bíblia em termos de nosso calendário. Portanto, não existe como apoiar nossas datas na "cronologia bíblica", pois ela é relativa e não absoluta. Isto é uma clara evidência de que datas não são necessárias para o povo de Deus. - Compare com Atos 1:6, 7.

 

 

Nota:

Spica significa “espiga”. Se voltarmos um pouco à mitologia relacionada a esse nome, veremos que essa constelação era representada por uma mulher com algo na mão, muito semelhante à representação atual da Virgem.

Ao que tudo indica, essa mulher representava Istar, deusa da fertilidade. Dizem duas referências na internet:

"A constelação da Virgem era tida na Babilónia e no antigo Egipto como simbolizando a 'Grande Mãe'. A sua representação exibia na mão uma espiga, símbolo da abundância, fecundidade. A estrela principal da constelação da Virgem é precisamente a Spica (Espiga)."Link

"This alpha star in Virgo represents the harvest of barley. The Babylonians saw Spica in Virgo as a representation of harvested barley stalks held in one hand with her other hand holding barley roots directed upward."Link.

Ao contrário da representação atual, onde a mulher segura uma planta na mão direita, na versão dos babilônios a mulher segura um feixe de espigas de cevada na mão esquerda e na outra empunha a lâmina de arado que corta a terra. Em uma das extremidades da espiga há uma estrela. É por essa razão que o nome dado a ela é Spica, ou seja, "espiga".

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Spica é a estrela mais brilhante de Virgem, por isso é chamada de "alfa". Esse termo se refere sempre à estrela mais brilhante de qualquer constelação. Por exemplo, a estrela mais brilhante da constelação de Escorpião é Antares, então ela é a "alfa" Escorpião; a estrela mais brilhante da constelação do Cão Maior é Sírius, então ela é a "alfa" Cão Maior, e assim por diante. Portanto, a descrição "α+ Virgem" significa que ela é a estrela mais brilhante de Virgem.

(Artigo original de Carlos M. Silva. Revisado.)

 

 

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