Sistemas de Contagem de Períodos de Reinados
“Método de calcular o tempo de governo dos reis. Nos registros históricos era costume, em Babilônia, calcular os anos de governo ou reinado dum rei como anos completos, a partir de 1.° de nisã. Os meses durante os quais o rei talvez tivesse realmente começado a governar antes de 1.° de nisã eram considerados como constituindo seu ano de ascensão, mas eram historicamente creditados ou contados como anos completos de governo do rei que o precedera.” – Estudo Perspicaz das Escrituras, Vol. 1, p. 144.
A Torre de Vigia acredita que a contagem do tempo dos reinados em Judá era feita pelo mesmo método utilizado em Babilônia – o método de ano de ascensão – pois isso facilita suas interpretações cronológicas. Existem evidências, porém, que apontam para outro sistema: o método não-ascensional. O que significam tais métodos? Analisados individualmente, eles oferecem alguma dificuldade para o cálculo de cronologia do passado? É possível detectar quais os métodos apresentados nos vários relatos bíblicos?
Antes de prosseguir, é bom lembrar que os antigos calendários semíticos eram lunares ou lunissolares. O “janeiro” deles ficava próximo de nosso “abril”. De modo, que quando se menciona o primeiro ano de algum governante, por exemplo, tal menção se refere ao calendário deles, lá do passado.
Sistema de ano de ascensão
Na antiga Mesopotâmia o método de contagem dos reinados era o sistema de ano de ascensão (usado por Babilônia, Média e Pérsia). Por esse sistema, os meses entre a morte de um rei e o próximo mês de nisã formavam o período de ascensão do rei sucessor, e não eram computados para o novo rei, mesmo que ele já estivesse no poder. Esses meses intermediários eram somados ao tempo de governo do rei anterior.

Sistema não-ascensional
Era o método usado no antigo Egito. Por ele não havia o ano transicional de ascensão, atribuído ao rei predecessor. Quando o novo governante assumia o trono, o ano da posse já era considerado como parte de seu período de reinado.
Analisando os métodos e sua influência na cronologia antiga
Como as ascensões ocorriam em meses variados, de acordo com a data de morte dos soberanos, os métodos de contagem visavam simplificar o cômputo dos anos, arredondando as frações, quer para o rei que assumia, quer para o seu predecessor. No entanto, o período total numa dinastia não era alterado, uma vez definido o método de contagem, conforme pode-se visualizar no exemplo abaixo.
Considere três reis de uma dinastia (rei 1, rei 2 e rei 3) num dado período hipotético.
a) O rei 1 assumiu em novembro do
ano 400 e reinou até o ano 420.
b) O rei 2 assumiu em janeiro de 420 com a morte do rei 1, reinando até
o ano 435, vindo a falecer em junho.
c) O rei 3 ascendeu ao trono em 435 e reinou até fevereiro de 453.
Do ano 400 até o ano 453 temos um período total de 53 anos. Observe agora como fica o período total dessa dinastia de acordo com os dois métodos (não-ascensional e ascencional). Convencionou-se o mês de abril como sendo o mês semítico de nisã, e desprezou-se as frações dos meses de ascensão, resultantes dos dias específicos, dentro de um mês, nos quais os soberanos assumiam o poder.
Sistema de ano de ascensão
Tempo de transição atribuído
ao rei que governou antes do Rei 1 (abril/400 a abril/401) = 1 ano
Tempo de reinado do Rei 1 (abril/401 a abril/420) = 19 anos
Tempo de reinado do Rei 2 (abril/420 a abril/436) = 16 anos
Tempo de reinado do Rei 3 (abril/436 a abril/454) = 17 anos
Tempo total da dinastia = 53 anos
Sistema não-ascensional
Tempo de reinado do Rei 1 (abril/400 a abril/420)
= 20 anos
Tempo de reinado do Rei 2 (abril/420 a abril/435) = 15 anos
Tempo de reinado do Rei 3 (abril/435 a abril/453) = 18 anos
Tempo total da dinastia = 53 anos
Pelo exposto acima, observa-se que independentemente do método utilizado o período total é sempre o mesmo. A grande dificuldade com a qual os modernos cronologistas se confrontam é sincronizar com a Bíblia as dinastias de diferentes nações, que nem sempre utilizavam um mesmo sistema de contagem, além de, às vezes, apresentarem problemas internos que dificultam a análise.
Sistema de contagem usado em Judá
Os registros bíblicos quando comparados com outros registros históricos fornecem elementos para se determinar qual sistema de contagem de reinados era usado em Judá.
A Bíblia relata que a batalha de Carquemis, na qual o faraó Neco foi derrotado por Nabucodonosor, ocorreu “no quarto ano de Jeoiaquim” (Jeremias 46:2) Diz também que o quarto ano de Jeoiaquim “foi o primeiro ano de Nabucodonosor.” (Jeremias 25:1). A crônica babilônica B.M. 21946 mostra que a batalha de Carquemis ocorreu no ano de ascensão de Nabucodonosor, não no seu primeiro ano. Portanto, ao chamar o ano de ascensão de Nabucodonosor de “primeiro ano”, Jeremias indica que o método judaico era o não-ascensional.
Um fato comentado por vários especialistas é que no último capítulo de Jeremias há uma discrepância cronológica em relação a outras partes de Jeremias e ao livro dos Reis. A razão de tal discrepância se encontra no final do capítulo 51 de Jeremias, onde há a seguinte afirmação: “Até aqui são as palavras de Jeremias”. Isso é uma evidência de que desse ponto em diante (i.e., capítulo 52) outra pessoa concluiu o livro de Jeremias, conforme outras evidências indicarão. Note que Jeremias 52 é quase uma citação palavra por palavra de 2 Reis 24:18 a 25:30, com exceção de Jeremias 52:28-30, cujo motivo será explicado em seguida. Quem fez esse adendo utilizou, portanto, outras passagens das Escrituras como fonte de informação.
Em 2 Reis 24:12, 25:8 e Jeremias 52:12 é dito que a deportação de Joaquim e a destruição de Jerusalém ocorreram no 8º ano e no 19º ano de Nabucodonosor, respectivamente, sendo que em cada um desses eventos houve deportação de vários judeus para Babilônia. No entanto, Jeremias 52:28-30, ao falar de duas deportações (nas quais estão implícitas a deportação de Joaquim e a destruição de Jerusalém), diz que a deportação mencionada em 2 Reis aconteceu no 7º ano de Nabucodonosor, e a mencionada em Jeremias 52:12 aconteceu no seu 18º ano.
A primeira deportação foi a que incluiu Joaquim. A segunda deportação foi quando Jerusalém foi destruída. A diferença entre os relatos é de um ano para cada evento mencionado. Em vez de dizer que a primeira deportação mencionada foi no 8º ano é dito que foi no 7º. Em vez de dizer que a segunda deportação mencionada foi 19º ano é dito que foi no 18º. Por que essa diferença?
O
motivo é simples: Jeremias 52:28-30 foi escrito por alguém
que estava em Babilônia e que tinha acesso aos registros oficiais
da nação, alguém que seguiu o sistema utilizado lá,
o de ano de ascensão. É tanto que a citação
acima, de Jeremias 52:28-30, concorda totalmente com a crônica babilônica
BM 21946, na qual consta que em seu sétimo ano Nabucodonosor deportou
Joaquim (e outros judeus). Originalmente, Jeremias não escreveu as
palavras contidas em Jeremias 52:28-30. Tal entendimento é tão
plausível que na primeira tradução do Antigo Testamento
da História (a Septuaginta Grega), não há Jeremias
52:28-30. Os seus tradutores provavelmente lançaram mão de
um manuscrito de Jeremias preservado no Egito, local onde foi feita a tradução.
Comparando os dois sistemas é possível discernir quando o escritor registrava o evento sob o ponto de vista de Babilônia (ano de ascensão), ou sob o ponto de vista de Judá (não-ascensional). De posse do gráfico acima, é só pegar os relatos bíblicos e verificar sob qual ponto de vista o escritor narrava os eventos:
| 2 Reis 25:8; Jer. 52:12 —> | Jerusalém
destruída no 19ºano —> |
Escritor
em Judá. |
| Jer. 52:28-30 —> | Destruição
de Jerusalém no 18º ano —> |
Escritor
em Babilônia. |
| 2 Reis 24:12 —> | Deportação
de Joaquim no 8º ano —> |
Escritor
em Judá. |
| Jer. 52:28-30 —> | Deportação
de Joaquim no 7º ano —> |
Escritor
em Babilônia. |
Conclusão
Há muitos outros relatos bíblicos que poderiam ser objeto de sincronização com os registros oficiais da cronologia neobabilônica. Mas o que foi aqui exposto é suficiente para se dar uma noção desse processo. A despeito das muitas dificuldades existentes nessa tarefa de conciliação, os exemplos aqui apresentados servem para mostrar que uma análise meticulosa dos relatos bíblicos e outros registros históricos permitem um entendimento razoável da cronologia dos tempos bíblicos, especialmente a do período neobabilônico. Percebe-se também que os métodos de contagem de reinados não oferecem grandes dificuldades de entendimento.
(Artigo original de Carlos M. Silva. Revisado)