'Se for obrigado a prestar serviço'
(A Sentinela, 15 de fevereiro de 2005, pp. 23-26)

Artigo sobre o direito que os governos do mundo têm, em determinadas ocasiões, de exigirem dos seus cidadãos serviços obrigatórios não-remunerados.

A matéria começa dizendo que no primeiro século um judeu poderia prestar serviço obrigatório para um soldado romano, caso isso fosse solicitado. Um exemplo que há nas Escrituras é o caso de Simão de Cirene, que foi obrigado a carregar o madeiro de execução de Jesus Cristo. (Mt 27:32) Embora houvessem certos abusos por parte das autoridades, de um modo geral os cristãos deviam observar o seguinte conselho de Jesus, referente ao trabalho compulsório:

"Se alguém sob autoridade te obrigar a prestar serviço por mil passos, vai com ele dois mil." - Mateus 5:41.

O serviço compulsório, também chamado de corvéia, existia no Oriente Médio desde o século 18 AEC. Documentos administrativos encontrados na cidade síria de Alalakh mencionaram grupos de corvéia recrutados pelo governo para prestar serviços pessoais. Em Ugarit, na costa síria, evidências arqueológicas similares foram encontradas.

A expressão "obrigados a prestar serviço" (no 1º séc.) corresponde à palavra grega aggareúo, originalmente relacionada com a atividade dos correios ou mensageiros persas.

O artigo informa que, hoje em dia, diversas Testemunhas de Jeová "passaram muitos anos na prisão porque se recusaram a participar em atividades que não consideraram neutras". Normalmente, esses casos estão ligados a atividades de guerra ou de política, e as Testemunhas de Jeová são neutras nesses campos. Evidentemente se o cristão Testemunha de Jeová age realmente de acordo com a sua consciência e recusa certas obrigações impostas pelo Estado, ele está amparado pela liberdade que Cristo oferece para os seus seguidores. Ele não está obrigado a ferir a sua consciência. Seria ótimo que isso fosse assim em todos os casos em que as Testemunhas se confrontam com decisões de consciência. Mas infelizmente as decisões que os seguidores da Torre de Vigia tomam nem sempre são norteados pelas suas consciências.

Durante vários anos um número indeterminado de Testemunhas de Jeová, especialmente jovens rapazes, ficaram bastante tempo na prisão não por causa de suas consciências, mas porque a Torre de Vigia ensinava que se um governo oferecesse um serviço civil no lugar do serviço militar obrigatório e a Testemunha o aceitasse isso seria uma infidelidade a Deus, mesmo que fosse para trabalhar como ajudante de biblioteca, por exemplo. Se um cristão Testemunha de Jeová aceitasse uma dessas opções de serviço civil seria desassociado (excomungado) da congregação, e seus irmãos estariam proibidos de falar com ele, e ter trato com ele.

No entanto, em meados dos anos 90, a Torre de Vigia alterou esse ensino e hoje as Testemunhas de Jeová podem aceitar o serviço civil de acordo com as suas consciências, e não de acordo com um decreto emitido pelo Corpo Governante, em Brooklim. Diz o artigo da Sentinela (15/02/05):

"Alguns cristãos acham que podem de consciência limpa prestar serviços sob uma administração civil, quando envolve serviço geral, útil para a comunidade. Esses serviços podem incluir ajudar idosos ou incapacitados.... limpar praias, trabalhar em parques, florestas ou bibliotecas, e assim por diante." (p. 26, § 1)

"Naturalmente, as situações variam de um país para outro. Portanto, para decidir se deve obedecer ou não, cada cristão tem de seguir a sua consciência treinada pela Bíblia." (p. 26, § 2)

As palavras acima são corretas e equilibradas, entretanto, passam uma falsa impressão dos métodos de "orientação" da Torre de Vigia, e podem facilmente confundir observadores de fora, que não são Testemunhas de Jeová. Até mesmo as Testemunhas de Jeová não costumam se aperceber de critérios duvidosos vindos de Brooklim, e quando se apercebem imediatamente se calam e se "corrigem", pois a Torre ensina que questionar qualquer um de seus métodos e ensinos é um ato de rebeldia contra Deus. As Testemunhas ouvem algo bem semelhante ao que a Igreja Católica dizia aos seus membros na Idade Média.

Saber que muitas Testemunhas sofreram desnecessariamente por culpa da Torre de Vigia, e esta nunca admitiu, por si só já é muito grave. No entanto, saber o que acontecia nos bastidores até que a mudança chegou torna o caso muito mais sério.


Testemunha de Jeová presa por
recusar um serviço compulsório, p. 26.

Poucas Testemunhas de Jeová sabem, mas uma das coisas que levou o ex-membro do Corpo Governante, Raymond Franz, a deixar a sede mundial em Brooklim, e se mudar para uma pequena congregação nos EUA, foi exatamente esse ensino errado do serviço civil alternativo. Diversas vezes ele apresentou evidências bíblicas e históricas que favoreciam uma mudança nessa doutrina, mas por causa de uma regra estabelecida de que qualquer mudança tinha ser aprovada por uma maioria de dois terços, a mudança não era feita, embora em todas as vezes que Franz colocou esse assunto na pauta de discussão mais de 50% dos membros do Corpo Governante concordaram com ele, mas como a maioria de 2/3 não era atingida a doutrina permanecia inalterada.

Enquanto isso muitas Testemunhas de Jeová ao redor do mundo eram presas porque não podiam aceitar um serviço civil alternativo. Mal sabiam elas o motivo porque sofriam. Não imaginavam que os seus líderes em Brooklim já sabiam que esse critério estava errado, mas não o mudavam por um mero detalhe burogrático nas reuniões secretas do Corpo Governante. Raymond Franz ficou com uma crise de consciência e resolveu não mais fazer parte dessa cúpula de homens que decidem a vida de outros. Todo esse caso e outros são contados por Raymond Franz no seu livro "Crise de Consciência", o qual as Testemunhas de Jeová estão proibidas de ler. Quem desobedesse é excomungado...

Mesmo com o serviço alternativo liberado para as Testemunhas de Jeová, ainda existe uma névoa de preconceito e controle sobre os jovens que devem decidir ou não por ele. O mensário distribuído apenas para as Testemunhas de Jeová, chamado Ministério do Reino, disse o seguinte para os jovens que devem se alistar neste ano de 2005:

"Perguntas sobre as responsabilidades do jovem cristão nesse assunto, inclusive sobre o Serviço Alternativo civil, podem ser respondidas pelos anciãos. Caso o alistando se decida pela recusa da prestação do Serviço Alternativo civil (se já estiver instituído), deve manifestar essa vontade já no ato do alistamento militar." - Ministério do Reino, Janeiro de 2005, p. 7.

Perceba que o enfoque que se dá nessa orientação é a possibilidade de se recusar o serviço civil, e não de se aceitá-lo. Essa escolha nas palavras feita pela Torre de Vigia já dá o que pensar. Além disso, os jovens estão à mercê de anciãos (=pastores) muitas vezes despreparados e preconceituosos. Mesmo sendo o serviço civil hoje liberado há muitas Testemunhas de Jeová "maduras" que dizem que ele é errado e estimulam outros a pensar do mesmo jeito. Como a religião TJ é uma religião predominantemente controladora não raro os jovens temem serem mal vistos pelos anciãos locais e decidem recusar o serviço civil. No Brasil, a consequência disso é que os direitos políticos do jovem serão cassados e ele não poderá mais prestar concursos públicos.

Um outro fator é que a maioria dos anciãos não sabem das orientações específicas que a Torre fornece sobre esse assunto, e muitas vezes um jovem que procura um ancião encontra uma pessoa que sabe tanto do serviço civil quanto ele. Certos tipos de informações a Torre de Vigia só fornece mediante cartas enviadas aos corpos de anciãos, e não mediante as publicações correntes. Isso freqüentemente gera desinformação entre os anciãos que não lêem essas cartas. No Brasil, por exemplo, o governo emitiu uma portaria sobre o serviço alternativo e provavelmente a maioria dos anciãos brasileiros nem fazem idéia do teor dela. Como, então, os jovens podem buscar orientações dessas pessoas? Note o leitor que esse caso está sendo relatado com conhecimento de causa, pois alguns dos membros e colaboradores do Mentes Bereanas são ativos na religião TJ, sendo dois deles anciãos.

Infelizmente, até hoje a Torre de Vigia não contou para as Testemunhas de Jeová o que foi relatado aqui. Nunca admitiu ou lamentou o prejuízo que causou na vida de centenas de varões. Esses lacônicos artigos sobre o serviço civil, tal como o da Sentinela deste mês, é uma evidência de que a Torre não pretende admitir os seus erros. Pelo visto ela vai precisar de alguns séculos para fazer isso, tal como aconteceu com a Igreja Católica que só hoje admitiu os seus erros aberrantes cometidos na Idade Média, e um pouco além. A pergunta é: A Torre terá todo esse tempo?

Complemento

Todos os anos, no mês de janeiro ou fevereiro, a Torre de Vigia publica aquela nota para os jovens no Ministério do Reino, referente ao alistamento militar. Para efeito de comparação, veja como era a nota antes da inclusão do serviço civil alternativo:

"Perguntas sobre as responsabilidades do jovem cristão neste assunto podem ser respondidas pelos anciãos, incluindoas relacionadas com o requerimento de recusa do Serviço Militar e do Serviço Alternativo por motivo de convicção religiosa, que deverá ser esntregue imediatamente após a obtenção do Certificado de Alistamento Militar." - Ministério do Reino, janeiro de 1996, p. 7.

 

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