Ciência e Fé
Globo Repórter - 09/04/2004
http://netluz.org/textos/txt/txt68.htm
Uma mudança e tanto
Por Rodrigo
Vianna
Já que o tema do programa é "Ciência e Fé",
aproveito este espaço para fazer uma confissão: quando
começamos a gravar as entrevistas para este Globo
Repórter, eu desconfiava muito da idéia de que a
Fé pudesse fazer bem para a saúde.
Isso porque eu me lembrava da "culpa" que a religião (pelo menos
nas vertentes judaico-cristã, e também na
tradição muçulmana) costuma incutir nas pessoas.
Pensava também na posição de líderes e/ou
corporações religiosas que negam a Ciência em nome
de Deus. Lembrava ainda do que já foi feito neste Planeta em
nome das religiões.
E
aí lançava para mim
algumas perguntas: quando um líder religioso diz que os
fiéis não devem usar "camisinha", e todos sabemos que
esse pode ser um instrumento decisivo contra a Aids e outras epidemias,
será que a fé está ajudando ou atrapalhando a
Saúde? Quando uma religião diz que as pessoas precisam se
punir, com chibatadas, para expirar seus pecados, será que faz
bem para a Saúde?
É claro que nada disso era objeto da nossa reportagem, mas essas
questões ficavam pairando na minha mente. Ouvindo pacientes e
médicos, aos poucos fui deixando de lado minhas idéias
pré-concebidas, e percebi que é preciso fazer uma
distinção entre Religião e Fé!
Uma coisa
são as doutrinas
religiosas, que muitas vezes podem ser perniciosas para a saúde
e até para a vida (mas aí cada um deve fazer seu
julgamento); outra coisa é a Fé.
Existem vários tipos de Fé (Fé na vida, Fé
no ser humano, Fé na ciência), mas inegavelmente a
Fé mais conhecida é a Fé religiosa. Em
vários lugares do Mundo, inclusive aqui no Brasil, cientistas
estão abandonando o preconceito e tentando entender o papel da
Fé (sobretudo a Fé religiosa) nos processos de cura.
Foi importante conhecer essas pesquisas, e saber que uma
alteração bioquímica no cérebro explica a
sensação de bem-estar provocada pelo ato de orar, rezar
ou meditar.
Mas, nem tudo se explica pela Ciência. E, nesse campo, é
bom não fazer julgamentos. Às vezes, nem os
médicos conseguem explicar direito algumas
situações.
Ao fim
das gravações, eu
havia mudado bastante minha visão sobre a Fé. Não
me "converti" a nenhuma religião. Mas compreendi que a Fé
pode, sim, ter um papel decisivo nos tratamentos de Saúde.
Não garante a cura, não é um remédio. Mas
ajuda a enfrentar com mais força situações-limite.
E dá um sentido para aqueles momentos de dor extrema, em que
ficamos cara-a-cara com nossa fragilidade.
Minha postura mudou enquanto gravávamos este programa. Mas, bem
mais importante que isso foi perceber que muitos médicos
também estão deixando o preconceito de lado, e agora
fazem da Fé uma ferramenta a mais em favor da Saúde e da
Vida. Uma mudança e tanto.
Até a próxima,
Rodrigo Vianna
Oração e tratamento médico
Apenas fé não resolve
No caso de Vera Beber, a fé teve um papel no mínimo controverso. Ela mostra os exames: em 1998, Vera retirou um tumor da membrana que reveste o cérebro. Em 2000, o câncer reapareceu. Os médicos recomendaram remédios para prevenir convulsões e dores. Vera preferiu outro caminho. “Não tomo medicação nenhuma. Só recebo Johrei, ministro Johrei, me dedico à obra de Deus”, conta. A adesão de Vera ao Johrei é total. Trata-se de uma técnica usada pelos adeptos da Igreja Messiânica, que surgiu no Japão, há 70 anos. Eles acreditam que, pela imposição das mãos, seja possível canalizar ondas de luz que têm força curativa. Os lideres da igreja acham que Vera deveria também fazer o tratamento medico. Mas ela não se convence. “Conforme eu recebia o Johrei, as dores passaram. Eu não tive mais tontura, porque no começo, eu tinha muita dor de cabeça. O tumor não pode avançar porque eu tenho Johrei. Eu posso até fazer os exames, mas eu tenho certeza que até acabou. Com todas as minhas dedicações, esse tumor não existe mais”, revela. Infelizmente, o tumor continua lá. A equipe do Globo Repórter levou Vera para fazer um novo exame. Olhando a imagem, o médico - que cuidou dela quatro anos atrás – não tem dúvidas: o tumor está presente. “Me sinto ótima, maravilhosa. Isso está me mostrando que o Johrei funciona. Porque se não funcionasse, eu estaria – e se ele aumentou - com mais dor de cabeça, com mais tontura, e poderia estar convulsionando”, constata Vera. O médico não soube explicar o que aconteceu. “Pelo que conheço de outros casos, as convulsões normalmente reapareceriam e as dores, eu acho que voltariam. Ela precisava, precisa dos remédios. Mas o que a gente pode fazer? Não tem explicação. Tem que tomar o remédio. A gente tem que indicar, o tratamento é esse”, observa o neurocirurgião Gilberto Ferreira de Paiva. “Fé não é remédio. Quer dizer, se um estudo americano mostra que ir a igreja pode melhorar o quadro da sua saúde, você não pode prescrever para um paciente que está com pneumonia, digamos, antibiótico e ir à igreja”, adverte o oncologista Sérgio Simon. O oncologista Sérgio Simon trata todos os dias de casos graves, como o da mulher de Roberto Carlos. Nem a competência do médico, nem a fé do rei e de Maria Rita foram capazes de salvá-la. O doutor Simon é cauteloso ao falar de religião, mas reconhece um papel para ela. “Por que uma pessoa jovem, com filhos pequenos, vai ter que morrer daqui a seis meses? A religião dá um sentido. Quem não tem religião fica perdido, realmente”, declara.
O milagre de Norton Nascimento
O ator Norton Nascimento se encontrou na fé evangélica. A conversão aconteceu apenas três meses antes de o ator enfrentar o momento mais difícil na vida dele. Hoje, Norton curte a popularidade nas ruas. Por onde passa, aproveita para pregar a palavra de Deus. Mas os fãs querem é ouvir como ele sobreviveu ao transplante de coração, em situação tão adversa. No dia 15 de dezembro, Norton se internou para uma cirurgia cardíaca. O caso se complicou. Ele precisava de um transplante. O coração chegou quando a vida de Norton estava por um fio. Foi doado pela família do médico Ricardo de Oliveira, morto em um acidente de carro. “Foi um milagre, porque eu não tinha nenhuma possibilidade de vida”, acredita o ator. Milagre mesmo talvez tenha acontecido um pouco antes, quando ele passou a freqüentar os cultos evangélicos. Largou o cigarro e fez o que parecia impossível: abandonou o álcool. Tudo por insistência da mulher Kelly. Quando o ator foi parar na UTI à espera do transplante, ela permanecia ali em vigília, orando pelo marido. “O ritmo cardíaco dele aumentava muito, a pressão dele aumentava. É como se ele tentasse reagir a uma coisa que ele não podia, porque ele estava totalmente sedado. Mas, pela aparelhagem, você via que ele estava sentindo as vibrações dela como se ele tivesse acordado e sentido aquilo”, lembra a técnica de saúde Rosangela Xavier. A reação não aconteceria sem o conhecimento técnico da equipe, comandada pelo doutor José Pedro. “É difícil de acontecer, mas pode acontecer, por várias coincidências. Primeiro: achar um doador grande, do tamanho do Norton; e achar rapidamente um paciente do mesmo tipo sangüíneo. Depois, o fato de toda a cirurgia dar certo, de não ter nenhuma complicação, não ter nenhuma rejeição. Então houve vários fatores favoráveis. Isso pode acontecer, explicado apenas pela ciência”, explica o cirurgião cardíaco José Pedro da Silva. “Eu, como cristão, não acredito em coincidências. Eu não acredito que eu fui parar nesse hospital à toa, com essas pessoas à toa. Eu não acredito que o Ricardo tenha morrido em vão. Inclusive o pai do Ricardo disse, em uma entrevista, na Ana Maria Braga: ‘esse coração não é do meu filho, Norton. Esse coração é teu, porque a gente não leva nada’. Porque se fosse assim, o Ricardo teria levado o carro dele, teria levado o apartamento dele, mas não levou nada. O Ricardo salvou seis vidas”, emociona-se Norton Nascimento. Norton diz que foi milagre, mas os médicos, que foi apenas um caso em que medicina e fé trabalharam juntas. A vitória do ator virou um emblema: as doações de órgãos se multiplicaram nos últimos meses. Norton afia o discurso para se transformar em pastor. “Quando eu orei, eu falei assim: meu Pai, me dá um coração novo para eu voltar e pregar a tua palavra”, revela Norton Nascimento.
Recuperação na terceira idade
Um carinho especial pela vida que brota do cimento. Lúcida, aos 88 anos, a aposentada Carmen Gonçalves é uma sobrevivente. Enfrentou com energia o tumor maligno que apareceu no abdômen. “Mais ou menos seria um tumorzinho, mas aí começou a crescer e ficou grande”, conta. O caso foi parar nas mãos do doutor Ivan Sandoval. Ele tinha que tomar a difícil decisão: levar a paciente com quase 90 anos, para a mesa de cirurgia. “A dona Carmem era uma pessoa já de idade, portadora de um tumor abdominal, de origem ainda indeterminada, de um volume já considerável. Então, era um caso preocupante”, observa o cirurgião Ivan Sandoval Vasconcellos. “Quando o médico chegou e disse que era um tumor, um câncer, eu me entreguei na mão de Deus. Seja lá o que Deus quiser. Falei para a minha filha: filha, se eu morrer, todos temos que morrer. Eu não tive medo, juro”, lembra dona Carmem. “O medo, na verdade, acaba deprimindo o indivíduo, e a depressão, que é séria na vida do paciente com doenças como o câncer, que é tão grave, isso piora o quadro”, constata o médico Jorge Teixeira Quem diz isso é um médico que passou três meses entrevistando idosos durante tratamento de câncer, no Hospital do Servidor Público de São Paulo. A pesquisa, que virou tese de doutorado na USP, avaliou a importância da fé na recuperação dos pacientes. “Deus estando comigo e mais a equipe médica me ajudando e me amparando, eu consigo andar mais do que o meu vizinho, que acredita só na fé, ou acredita só no tratamento médico”, explica Jorge Teixeira. A cirurgia de dona Carmem foi um sucesso. Prevista para durar oito horas, terminou em duas. E a recuperação também foi rápida. “Para mim, foi um milagre mesmo, com a graça de Deus. Eu acho que depois de Deus, os médicos, né? Mas os médicos, eles ficaram um pouquinho impressionados”, declara dona Carmem. “Já no momento da cirurgia, a gente pôde observar que esse tumor estava livre de aderências, não comprometia nenhuma estrutura, então ele saiu com facilidade. Isso é incomum. Pelo tamanho do tumor, é incomum que ele saísse com tanta facilidade. É por isso ela diz que foi um milagre. Eu digo que foi uma situação incomum”, explica Ivan Sandoval Vasconcellos. Além de respeitar a fé da paciente, o médico usou isso como uma ferramenta a mais contra a doença. Essa parceria nem sempre acontece. “O profissional da área de saúde tende a ver, muitas vezes, a religião como um inimigo, algo que vai atrapalhar o seu próprio tratamento. É esse tipo de conflito que precisa ser sanado. Já que todos nós, na área de saúde, e os religiosos querem apenas uma coisa: o bem-estar do paciente”, garante o psiquiatra Alexander Moreira de Almeida.
Tecnologia a serviço da religião
Um caso clássico é o das Testemunhas de Jeová. Todo mundo sabe que eles não aceitam cirurgia com transfusão de sangue, por uma interpretação do que está na Bíblia. A equipe do Globo Repórter pretendia mostrar isso no programa, como um exemplo de fé que atrapalha o tratamento de saúde... Mas será que é simples assim? Nos Estados Unidos - e também no Brasil - muitos médicos têm uma visão diferente: aceitam os limites impostos pela religião e vão buscar técnicas alternativas para evitar transfusões. Essa visão nova permitiu à Gabriela reconquistar a energia, que agora ela esbanja nas brincadeiras. “Era uma criança de lábios e unhas bem roxinhos. Uma aparência sempre bem abatida”, conta Ruth, mãe de Gabriela. A menina nasceu com um problema sério no coração e precisava de, pelo menos, duas cirurgias - uma delas antes de completar um ano. O problema: a mãe é Testemunha de Jeová. “Não faria transfusão de sangue de jeito nenhum. Primeiro porque eu ajo de encontro com os meus princípios. Em segundo lugar, existem riscos de outras doenças com a transfusão. Eu tinha certeza que eu encontraria uma equipe disposta a operar a Gabriela”, afirma a dona de casa Ruth de Camargo. E ela encontrou! Na cirurgia de Gabriela foi usada uma máquina que permite reaproveitar o sangue do próprio paciente. “É o aparelho que faz a função do coração e dos pulmões durante a cirurgia cardíaca”, explica o cirurgião cardíaco Walter Gomes. É um recurso a mais, que pode ser posto a serviço das Testemunhas de Jeová. O doutor Walter é professor da Universidade Federal de São Paulo e há três anos utiliza outras técnicas que possibilitam cirurgias delicadas, sem transfusão de sangue. Ele começou a fazer isso a pedido dos religiosos. “O tratamento dos pacientes Testemunhas de Jeová ajudava a beneficiar outros pacientes, porque, com essa experiência, nós estamos evitando a transfusão sangüínea em outros pacientes, e, conseqüentemente minimizando riscos”, declara Walter Gomes. O primeiro passo é acabar com os sangramentos desnecessários. Isso é possível com o bisturi elétrico, que cauteriza, ao mesmo tempo em que corta. Outra técnica é dar para o paciente, antes da cirurgia, um hormônio que estimula a produção de glóbulos vermelhos. É uma forma de combater anemias. “Mesmo se ele tiver uma perda durante a cirurgia, ele já está preparado para recuperar. O paciente vai para a cirurgia com uma quantidade maior de sangue, fabricado por ele mesmo”, observa o cirurgião Walter Gomes. Gabriela foi operada por uma outra equipe, comandada pela doutora Luciana da Fonseca - que segue a mesma linha. “É uma satisfação muito grande, porque, na verdade, eu cumpri o meu objetivo, que foi agradar e respeitar um direito do paciente”, constata a cirurgia cardíaca. Quando se encontra o equilíbrio entre medicina e fé, quem ganha é o paciente. “Agora estou correndo, brincando, pulando...”, diz Gabriela. “Se houver algum acontecimento catastrófico em que o paciente realmente precise de transfusão de sangue vai ser um dilema de consciência. O paciente religioso pede para não tomar a transfusão e eu espero nunca ter que passar por essa decisão”, comenta Walter Gomes.
Fé parceira da saúde
Enfrentar as ladeiras, sob o sol quente do Ceará, não assusta essa mulher. Dona Augusta vem de uma longa caminhada. Em Maranguape, ela é figura respeitada pelos adultos e adorada pelas crianças. Quase todas já passaram pelas mãos dessa viúva de 72 anos, que aprendeu há mais de meio século com a mãe o ofício de rezadeira. “Eu sinto emoção quando estou rezando. Ontem foi um dos dias. A criança chegou bem doente. Aí disse: ‘minha filha sabe o que é? É gripe. Começou agora, a garganta dela tá inflamada e tá com dor de ouvido’. Porque eu pressinto na oração. Antes, eu não sabia, mas quando eu começo a oração, eu sinto. Não preciso nem examinar”, explica a rezadeira Augusta de Lima. A placa na parede é uma espécie de selo de qualidade. Como em tantas partes do Brasil, em Maranguape, as rezadeiras são uma instituição. Existe uma rezadeira para cada 108 crianças com menos de 10 anos. “Não tenho idéia de quantas crianças já passaram aqui. Tem dia que o meu braço só falta de não arribar de cansada de rezar. É muita gente”, constata a rezadeira Dona Paizinha. Será que funciona? Será que não seria melhor levar a criança para o médico? Em Maranguape, fizeram diferente: levaram as rezadeiras para o posto de saúde. Dona Paizinha tem uma sala só para ela. Não ganha nada para dar expediente dentro do posto. A saúde é que ganhou a fé como parceira. Muitas mães passaram a visitar o posto para ver a rezadeira e depois passam também pelo medico. “Eu trago para o médico e para a rezadeira, porque sempre que eu venho para o médico, eu passo na rezadeira, e depois eu vou para o médico. Só o médico não resolve tudo, porque questão assim de mau olhado, por exemplo, o médico não resolve. Aí, sendo a reza, eu acho que resolve.”, conta Raquel Alves. Se tira o mau olhado, não se sabe. Mas que acalma, isso está na cara do pequeno Jefferson! Depois do treinamento recebido da Secretaria de Saúde, as rezadeiras agora aproveitam a autoridade com as mães para ensinar a receita do soro caseiro. “É reza, mas também precisa do remédio, precisa da médica também. Do médico, se for preciso. Porque não é só a reza que cura, não”, garante Dona Paizinha. A idéia de fazer da cultura popular uma aliada nos programas de saúde partiu dessa professora da Universidade de Harvard, nos Estados Unidos. Ela mora no Ceará há 15 anos e foi lá que fez a pesquisa, mostrando que as rezadeiras podem formar a linha de frente em favor da vida. “O soro, quando vem desse jeito, é melhor do que quando ele vem só pela mão do médico. Não tenho dúvida disso. Quando ela pega aquele sal, água e açúcar - que é o soro caseiro - abençoado pela rezadeira, ele vira água benta. Aí vem o poder da cura, a fé. É alguém em quem ela acredita”, observa Marilyn Nations. “Eu tenho 28 anos de médica. A melhor experiência para recuperar as crianças desidratadas é essa: a rezadeira dentro do posto de saúde”, diz a médica do posto de saúde, Antônia Sampaio. Em Maranguape, foram cadastradas 188 rezadeiras. A mortalidade infantil, que era de 30 para cada mil crianças nascidas vivas, em 1999, caiu para 13 no ano passado. “Na nossa área aqui - eu falo com muita segurança - nós não temos nenhuma morte por desidratação. Em 2003, nenhuma. Em 2000, 2001, 2003, nenhuma, zero. É o melhor zero que você pode receber”, garante Antônia.
Fome, a mãe de todas as doenças
Em muitas regiões do Brasil, o grande inimigo da saúde ainda é a fome. Em Eunápolis, no sul da Bahia, a fome é a mãe de todas as doenças. Medicina e fé juntas estão ajudando a salvar crianças desnutridas. Uma freira reuniu conhecimento científico e terapias alternativas e está conseguindo resultados surpreendentes. Tão surpreendentes que, às vezes, os pais nem reconhecem quando os filhos voltam para casa completamente recuperados. “Meu filho Mateus estava bastante magrinho. Eu pensava em perdê-lo. Agora está bem, está recuperado, graças a Deus”, conta a dona de casa Maria da Silva. Graças também a um trabalho bem feito. Em um bairro de ruas de terra, onde há pouco emprego e muita fome, a casa comandada por Irmã Therezinha é um refugio. Além de oferecer comida, era preciso vencer outros problemas. “O Mateus era uma criança muito nervosa. Não tinha sossego, não dormia direito, acordava mais de dez vezes durante a noite. Ele melhorou bastante. Começou a andar, começou a desenvolver a fala e dorme a noite toda”, revela a coordenadora da casa de nutrição, Irmã Therezinha. Todos os meses chegam outros. São impressionantes as conseqüências visíveis da miséria. A equipe da Irmã Therezinha oferece o carinho que alimenta, e a comida - que também enche os olhos. A vida volta a ter o sabor que toda criança merece. Os que agora se lambuzam na mesa, também chegaram desnutridos alguns meses atrás. “Dar comida só não adiante. Tem que ter o amor, a dedicação, a fé no que se está fazendo. Eu, como médico, acredito que a fé é fundamental para a gente cuidar de tudo na vida. Se eu não tivesse fé que ia curar uma criança dessas, ou a irmã não tivesse fé que ia recuperar, não teria nem sentido ela estar fazendo isso”, observa o pediatra Rivamar Marques. A fé sem preconceitos de Irmã Therezinha foi buscar outros alimentos. A freira católica trouxe um terapeuta holístico para dentro da casa. Alem de massagem, Carlos Cruz usa técnicas como a radiestesia e o reiki para dar energia às crianças. “A gente nunca deixa suspender o tratamento médico, mas é preciso a reposição energética, ou então a vibração palmar, que é o reiki, como a gente está fazendo”, constata o terapeuta holístico Carlos Cruz. “No começo a gente fica um pouco chocada, mas agora a gente está se acostumando. Eu acho que uma coisa complementa a outra”, declara Irmã Therezinha. Foi assim que Matheus ganhou peso e recuperou o ânimo. A equipe do Globo Repórter acompanhou os dois últimos dias dele sob os cuidados da Irmã Therezinha. Ele fica bonito para o esperado reencontro com a mãe. Para quem pesava quatro, agora são nove quilos. A despedida de Matheus é a despedida de um pequeno brasileiro que passou fome e não teria chance nenhuma se não fosse a fé. Pode ser em Deus, na ciência... Mas é, antes de tudo, fé na vida!
Reações cerebrais
Velas acesas para Buda, o som puro do metal. É assim que Sophie entra no mundo da meditação. Ela sofre de esclerose múltipla há 20 anos e estava condenada a viver em uma cadeira de rodas. Mas, com a ajuda da meditação budista, leva uma vida normal. "Quando eu medito, consigo aliviar os sintomas da doença", diz. O que será que acontece no cérebro de quem medita? Será apenas uma fantasia, uma ilusão? Os budistas descrevem um estado de êxtase, a que chamam nirvana - muito semelhante à união mística com Deus, descrita por freiras e monges cristãos. Na Universidade da Pensilvânia, o cientista Andrew Newberg colocou monges budistas e freiras católicas em uma máquina e fez uma tomografia do cérebro deles. Descobriu que no momento mais profundo da meditação, ou da oração, os cérebros de budistas e de católicos têm a mesma atividade elétrica, característica da experiência espiritual. “O cérebro humano tem a capacidade inata de experimentar a presença de Deus ou de algo que pode ser descrito como puro espírito”, afirma o cientista. Quando a pessoa se concentra para meditar ou rezar, a parte da frente do cérebro – que fica atrás da testa – se torna muito ativa. É a área da consciência, da atenção. Dali saem impulsos que ativam o centro do cérebro, que comandam as reações involuntárias, inconscientes. Em seguida, são ativadas as áreas responsáveis pela visão. E é desativada a região posterior do cérebro que responde pela orientação espacial. A pessoa tem a visão de um mundo sobrenatural e a sensação de perda de limites. O “eu” se confunde com o universo. É a experiência de uma realidade espiritual superior, descrita pelos místicos. Ao mesmo tempo, sinais são enviados para o corpo para acalmar todo o sistema nervoso e criar uma sensação intensa de prazer. Tudo isso acontece nos dois lados do cérebro. Andrew Newberg é um dos pioneiros da neuroteologia - a ciência que estuda como o cérebro experimenta Deus. Essa nova ciência prova o poder da mente sobre o corpo e explica porquê a fé pode curar, ou pelo menos ajudar a medicina. O médico Harold Koening é o autor de dezenas de pesquisas sobre fé e medicina, financiadas pelo governo americano. Todas mostram que as pessoas religiosas são mais saudáveis e vivem mais do que as outras. Segundo o médico, nos Estados Unidos, uma pessoa branca que assiste a pelo menos um serviço religioso por semana, vive sete anos mais do que quem não é religioso. Se for negro, vive mais 14 anos. Uma das razões da longevidade é o apoio da comunidade religiosa. Outra: pessoas que têm fé levam uma vida mais regrada e saudável. “As pesquisas também mostram que a fé reforça o sistema imunológico e a resistência às doenças”, observa Harold Koening. Está crescendo o número de escolas de medicina que aderem à pregação do doutor Koening. Uma delas é a Johns Hopkins, ligada ao hospital do mesmo nome, onde os alunos são treinados para usar a fé no tratamento médico. O hospital é considerado o melhor dos Estados Unidos e é um dos centros médicos mais avançados do mundo. Mas para muitos pacientes e médicos o coração do hospital fica em uma imagem de Cristo colocada, há mais de 100 anos, na entrada do hospital. Muitos passam para rezar, pedir, agradecer e meditar. Até quem não é cristão se diz reconfortado. O capelão do hospital, o pastor Steven Mann, guarda os livros onde as pessoas deixam mensagens. São mais de três mil páginas por mês, na maioria agradecendo pelo conforto que a fé traz aos doentes. Há dez anos, o hospital foi o primeiro nos Estados Unidos a incluir a espiritualidade no ensino da medicina. Segundo a medica Jeanne Mccauley, o uso da fé no tratamento é uma exigência dos próprios pacientes. Ela já dirigiu dois vídeos para treinar médicos, mostrando como eles podem ajudar os doentes a procurar apoio na religião. Em um deles, aparece a história de Joni, uma tetraplégica que entrou no hospital de maca e viu a imagem de Cristo na entrada. "Senti então que Deus me ama. A partir daí, passei a aceitar a invalidez, e hoje sou uma pessoa inteira", conta. A fé pode não vencer a doença. Mas, segundo a budista Sophie, é preciso acreditar em uma força superior, seja Deus, Buda, ou o que for, mas algo que está dentro da gente. O poder da fé está em você!
Mais fé, menos estresse
Equipes para comandar. Números, metas a cumprir. Mulheres apaixonadas pelo trabalho, mas atormentadas por tanta responsabilidade. “É imprevisível você imaginar o que vai ser o seu dia amanhã. O máximo que você consegue é colocar na sua agenda o que você precisa fazer”, constata a executiva Samia Hannouche. “É muita pressão por resultado. Você é cobrado diariamente, então, você não pode perder tempo”, observa a executiva Isabel Araújo. Samia, que é solteira e sem filhos, consegue administrar o tempo para que duas noites por semana fiquem livres. É quando atravessa a cidade para participar das sessões espíritas, que, segundo ela, ajudam a aliviar o estresse. “Dá um equilíbrio, porque eu acredito que nós não estamos aqui nesta terra, ou nesta vida, só para produzir bens materiais ou riquezas para o mundo”, diz. Casada, uma filha, às 6h, Isabel gerencia o dia da família. Católica de formação, namora várias religiões, mas não pratica nenhuma. Quando parte para a jornada de 14 horas, deixa de lado uma parte da vida, que, para ela, faz falta. “A gente corre atrás do material o tempo todo, do profissional, só que na hora do desespero, você sente falta desse espiritual, que você abandonou em algum momento da tua vida”, revela. Elas ainda são minoria no mundo dos negócios. E, quando chegam lá, costumam ser mais estressadas do que eles. Uma pesquisa com 1,5 mil executivos mostrou que aqueles que praticam uma religião - e aí tanto faz homem ou mulher - lidam melhor com o estresse. “Ambos têm níveis de estresse alto, porém faz uma grande diferença se a pessoa tem uma religião e a pratica, ou não - exatamente por causa do efeito que a fé, o ritual religioso exerce sobre a mente, sobre o estado emocional, sobre o estado psicológico do indivíduo. E, em conseqüência, também sobre o estado orgânico”, explica o psicólogo Esdras de Vasconcelos. Parece que ele é um líder religioso. Mas o doutor Esdras fala com a autoridade de quem reuniu os números da pesquisa em um livro ainda inédito. As entrevistas foram conduzidas por um grupo de psicólogas. “As pessoas estão se vinculando a uma religião para fazer um enfrentamento do seu estresse. Tanto é que as religiões estão crescendo, mundialmente cada vez surgem mais religiões”, declara a psicóloga e pesquisadora Samia Simurro. Para Isabel, a falta de uma religião acabou virando uma fonte a mais de estresse. Ela se sente culpada. “Na hora do desespero, você fala: ‘pôxa, como é que eu vou pedir ajuda agora a Deus? Não estou dando nada em troca’. Então tem isso também de você só pedir, pedir, nunca agradecer. Realmente cria um conflito”, comenta. “Ter fé é vital. A religiosa é aquela que nós mais conhecemos, portanto, aquela que mais se pratica. Mas é importante que nós tenhamos fé em nós próprios também, e fé no outro. Enfim, nós precisamos ter sempre fé”, conclui Esdras de Vasconcelos.
Reportagem:
Rodrigo Vianna
Jorge Pontual
Produção:
Jorge Ghiaroni
Áudio:
Adauto Vieira
Eduardo De Souza
Imagens:
Aloísio Araújo
Sherman Costa
Edição
de Imagens:
Arnaldo Spetic
Susy Altman
Paulo Vinhas
Técnicos:
Antonio Carlos
José Custódio