"Cegados Pela Luz" (A Experiência de Uma Médica)
Quando
uma Testemunha de Jeová proíbe uma transfusão, só posso ficar revoltada
contra os mistérios da fé.
Com base neste texto, as Testemunhas de Jeová não aceitam transfusões de sangue. Devo admitir que esta proibição sempre me pareceu um tanto absurda. Em comparação com “não matarás” e “honrarás teu pai e tua mãe”, a idéia de que “não aceitarás transfusão de sangue e derivados sanguíneos” parece não ter base moral. Porém, até uma noite recente, eu nunca tinha precisado encarar frente a frente as crenças das Testemunhas de Jeová além de dizer “não, obrigada” a um pregador ocasional que se aproximasse de mim na rua.
Eu nunca tinha realmente falado com a Sra. Peyton. Na noite de nosso único encontro eu era a médica responsável pela triagem dos pacientes que estavam sendo transferidos para a unidade de terapia coronariana. Ela estava confusa e semi-inconsciente e seu coração estava morrendo, fibra por fibra, por falta de sangue. As chamadas que me pediram para avaliar a Sra. Peyton começavam todas com o mesmo pedido de desculpas: “Sinto muito por lhe passar esse problema, mas...” A história que se seguiu foi uma trágica incompatibilidade entre fé e doença.
A Sra. Peyton tinha apenas 42 anos quando veio ao seu médico, depois de perceber uma pequena quantidade de sangue em sua urina. Esta é uma queixa muito comum de mulheres que são propensas a infecções na bexiga, mas o sangramento da Sra. Peyton não melhorou com antibióticos – ele piorou. Ela foi encaminhada a um urologista para uma avaliação adicional. Uma sonda de fibra óptica introduzida pela uretra até a bexiga revelou que a Sra. Peyton tinha um tumor na bexiga.
Como é usual em casos assim, o tumor não tinha invadido a parede da bexiga, e os cirurgiões puderam removê-lo por meio da sonda. Porém, estes tumores tendem a reincidir, e disseram à Sra. Peyton que ela poderia esperar se submeter a procedimentos periódicos para removê-los, mas no padrão comum das coisas essa doença não deveria ser fatal. E assim, por vários anos ela teve episódios repetidos de sangue na urina, seguidos por procedimentos urológicos para eliminar a fonte do sangramento. Suponho que ela acabou aceitando uma urina tingida como modo de vida. Sua medula óssea, com um pouco de suplementação de ferro, podia repor as células que eram perdidas, uma por uma. Mas desta última vez ela tinha demorado muito para vir ao médico. Ela estava sangrando mais do que o habitual e estava severamente anêmica e, como resultado, constantemente fraca e cansada.
Na idade da Sra. Peyton, uma mulher normalmente tem um hematócrito – a taxa de células vermelhas do sangue – de aproximadamente 40, mas o dela estava em 17. O primeiro médico, que a havia recebido no hospital, disse a ela que seria preciso uma transfusão até que o sangramento pudesse ser interrompido. A Sra. Peyton, firme em sua fé, recusou-se. Ela queria todos os tratamentos médicos disponíveis – quimioterapia, cirurgia, reanimação cardiopulmonar – tudo, exceto transfusão.
Disseram-me que ela era uma mulher inteligente, que compreendeu totalmente
as conseqüências de sua decisão. Mas seu julgamento, segundo me pareceu,
baseou-se numa discriminação imposta pela sua fé.
Gradualmente, conforme sua contagem sangüínea diminuiu ainda mais, a Sra.
Peyton passou a ter falta de ar. Os órgãos do corpo precisam de certa quantidade
de oxigênio para funcionar. Esse oxigênio é transportado dos pulmões para
os órgãos periféricos pelas moléculas de hemoglobina nos glóbulos vermelhos.
Quando respiramos o ar ambiente, as moléculas de hemoglobina não são 100
por cento saturadas com oxigênio. A absorção de oxigênio pode ser melhorada
por meio da administração de um vapor enriquecido com oxigênio ao paciente.
A equipe médica forneceu à Sra. Peyton oxigênio suplementar por meio de
uma máscara, até que ela estava respirando praticamente oxigênio puro. As
poucas células vermelhas que ela tinha estavam completamente carregadas
– mas simplesmente não restavam veículos suficientes para transportar o
combustível de que seu corpo precisava.
Trazer esta mulher até uma unidade de tratamento coronariano não fazia
o menor sentido do ponto de vista médico; e deixar de fornecer o sangue
ao seu coração agonizante parecia contrário ao meu juramento de Hipócrates.
Incerta quanto ao que fazer, liguei para o administrador do hospital. Uma
vez que a Sra. Peyton não tinha filhos menores que dependiam dela, disseram-me
que ela tinha o direito legal de recusar transfusão. Voltei para o quarto
dela para falar com os outros membros da igreja, para me certificar de que
eles entendiam as conseqüências da decisão de sua amiga. Eu estava convencida
de que não compreendiam, e fui interceptada à porta por uma mulher usando
um vestido de seda. “Isso deve parecer loucura para vocês”, disse ela, e
com razão.
Lembrei-me de uma velha expressão que aprendi na faculdade de medicina:
Não se pode dar choques em carne de hambúrguer. “Vocês estão nos pedindo
para reanimá-la com as mãos atadas nas costas”, eu continuei dizendo. “Pode
demorar horas, mas sem uma transfusão ela vai morrer nesta noite”. Nesse
momento, as outras duas amigas da Sra. Peyton estavam à porta, e escutaram
pacientemente, estremecendo enquanto eu descrevia alguns dos aspectos mais
macabros da noite que estava por vir.
A charada continuou. Um eletrocardiograma total mostrou que seu músculo cardíaco estava morrendo ainda mais depressa agora. Nós introduzimos um tubo em sua garganta, dentro de seus pulmões, numa tentativa vã de melhorar a oferta de oxigênio. Mudamos para uma medicação mais forte para melhorar a pressão. Quinze minutos depois, seu coração estava tão fraco que já não conseguia bombear eficazmente, e a pressão arterial caiu nitidamente. Ela estava em parada cardíaca. Começamos a ressuscitação cardiopulmonar, empurrando ritmicamente fluidos através de suas veias, em vão.
O médico responsável vociferava ordens. Eu coloquei uma linha intravenosa
grande em uma veia profunda na coxa da Sra. Peyton e então substituí a enfermeira
que estivera fazendo compressão do tórax. Um mil, dois mil, três mil... minha mente contava hipnoticamente o
intervalo, conforme eu pressionava ritmicamente o tórax da Sra. Peyton.
Eu podia ouvir,
ao fundo, os ruídos do esforço de reanimação. Uma variedade de estimulantes
cardíacos foram introduzidos nas veias da Sra. Peyton e seu coração foi
estimulado com choques.
Continuei o meu discurso, acompanhado pelos bips de monitores e os sons dos ventiladores. Quando fiz uma pausa para tomar ar, notei a mesma expressão resignada nos rostos das mulheres. “Isso não faz sentido para você, eu sei”, repetiu a mulher de vestido de seda. “Sabe, nós acreditamos que...”, começou ela. Eu vi a Sentinela aparecendo na bolsa dela.
De repente, não pude mais esperar para sair; o abismo entre o mundo dela e o meu se escancarou. “Lamento, a Sra. Peyton morreu”, eu disse. “Eu gostaria que houvesse algo que pudéssemos ter feito.” E com isso eu me retirei para dentro da ala coronariana.
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