"Casar-se somente no Senhor" - Parte 1

(por Zadig)

O texto de 1 Coríntios 7: 39 reza: “A esposa está amarrada durante todo o tempo em que seu marido estiver vivo. Mas, se o seu marido adormecer [na morte], ela está livre para se casar com quem quiser, somente no  Senhor” (Tradução do Novo Mundo [TNM]). Outra tradução verte o mesmo versículo da seguinte forma: “A mulher está ligada a seu marido enquanto ele viver. Se o marido morrer ela fica livre para se casar com quem quiser, mas somente com um cristão” (Tradução Ecumênica [TEB], 1996). Fica evidente que o apóstolo Paulo fornecia um conselho resumido: “Casem-se com um crente” ou “casem-se com um cristão”.

Qualquer Testemunha de Jeová conhece bem a interpretação dada pela Torre de Vigia ao texto supracitado. Espera-se que uma TJ nunca venha a se envolver com qualquer pessoa apartada do aprisco organizacional criado pelas Testemunhas de Jeová; não poderá realizar qualquer aliança matrimonial com “descrentes”*, sem que receba alguma punição, bem como a depreciação congregacional. Definitivamente, não haverá qualquer tipo de aprovação.

* Para a direção das Testemunhas de Jeová “descrente” é todo aquele que não está afiliado à sua organização religiosa.

A punição está definida no “manual dos anciãos”, denominado “Prestai atenção a vós mesmos e a todo o rebanho” – Publicado pela Torre de Vigia, em 1991. Na página 132 está escrito: “Casar-se com descrente é contrário aos princípios bíblicos”. Na próxima página continua dizendo: “Caso um cristão dedicado e batizado case-se com descrente, isso resultaria na sua desqualificação para todos os privilégios especiais, por ora”. Como podem ver, infringir esta regra – rapidamente denominada como regra bíblica – causa automaticamente a perda de privilégios especiais dentro da congregação (exemplo de algumas possíveis perdas: passar microfone, servir como indicador, cuidar das publicações na congregação, leitura de “A Sentinela”, orações representando a congregação e outros possíveis privilégios mecânicos que alguém possa exercer. Mas não será retirada a participação na Escola do Ministério Teocrático e nem o Serviço de Campo).

Outra justificativa para a prática citada é o precedente histórico da nação de Israel, onde os israelitas não deveriam formar qualquer laço matrimonial com outras nações tidas como pagãs – veja Deuteronômio 7: 1-4.

Podemos corretamente dizer que ocorre em ambos os casos, na aplicação de 1 Coríntios 7:39 bem como em Deuteronômio 7:1-4, uma fraca e proposital analogia. Analogia voltada para garantir o status que a “Organização de Deus”, como é chamada, perderia se admitisse os casamentos mistos. Por tentar carregar a idéia exclusivista de ser a única religião aprovada na terra e a única fonte da verdade, admitir tal ato poderia colocar em xeque muitas de suas afirmações, conforme já mencionado. Mas, por que é uma analogia fraca?

Por um momento, atente para o contexto histórico da época dos textos mencionados. Como eram as adorações das nações vizinhas a Israel? Aceitavam a existência de um Deus chamado Jeová? Certamente que não! Não havia uma semelhança na adoração. Havia nações que chegavam a oferecer sacrifícios humanos a seus deuses. Não eram simples pontos doutrinários em torno de um mesmo Deus Criador. Não; eram adorações dirigidas a deuses opostos, com ensinamentos totalmente opostos, sem qualquer ponto de acordo.

Que dizer da época do apóstolo Paulo? Naquela época, a Lei estava sendo cumprida e cedia lugar a Cristo. O Messias era o fim da Lei, o fim do código escrito, dando origem a um novo código, mas agora no coração. O Messias veio salvar a humanidade, conforme predito pelos Profetas. Mas quem confiou nele? Aqui mora a questão! Certamente seria difícil para um cristão (aquele que aceitou Jesus como o Messias) conviver com alguém que não tenha feito o mesmo, pois todo aquele que não aceita a Jesus como Messias, também não o tem como seu salvador, não podendo requerer qualquer espécie de salvação, exceto alguma que tenha criado em sua própria mente.

Em ambos os casos acontecem o que escreveu o salmista: “O insensato disse no seu coração. Não há Jeová. Agiram ruinosamente, agiram de modo detestável na [sua] ação. Não há quem faça o bem”. Notou o extremo a que muitos chegaram? (Salmos 14:1, TNM). Podemos também citar as palavras do apóstolo Paulo em 1 Coríntios 15: 17: “Outrossim, se Cristo não foi levantado, a vossa fé é inútil; ainda estais em vossos pecados”. Aqui, como no resto das Escrituras Sagradas, há o direcionamento para um fato – aceitar Jesus como salvador –, pois naquela época havia poucos dispostos a tal proceder na vida, levando a serem classificados como não-cristãos, o que é completamente diferente em nossos dias. A palavra sobre Cristo espalhou-se em toda a terra habitada, muitos o reconheceram como tal, mesmo que não pratiquem totalmente seus mandamentos.

Porém, a questão não termina aqui. Há um problema ligado ao ato de punir TJs que, contrariando a regra, namoram ou mesmo casam-se com “descrentes”.

O fato é o seguinte:

“Um determinado irmão começa a namorar uma mulher descrente, perde em conseqüência todos os seus privilégios especiais, conforme manda o manual dos anciãos, mas o tempo passa e o namoro progride até o casamento. Depois de um tempo, talvez um ou dois anos, este mesmo irmão cristão recebe todos os seus anteriores privilégios especiais de volta. O caso é que a perda foi resultado de um namoro não autorizado, e o casamento é a confirmação da primeira atitude, o namoro. Sendo assim, como poderia um cristão, estando neste grau de decisão, receber novamente todos os seus privilégios especiais? Será que se arrependeu? Abomina seu próprio casamento? Deu meia volta? A Bíblia diz que Jeová odeia o divórcio, mas então que tipo de casamento ele aprova? Se uma testemunha de Jeová não deve se casar com um descrente (não TJ), não seria a separação o retorno a uma condição aprovada por Jeová, um reconhecimento do erro, conforme Esdras 10: 10-14?”.

Devem saber que a Associação das Testemunhas Cristãs de Jeová ou seu Corpo Governante não estão dispostos a discutir o assunto, nem possuem qualquer resposta à questão acima. Numa carta enviada a Associação no Brasil, retornou uma resposta completamente distante da verdadeira questão proposta. Inicialmente suas palavras foram: “Embora não trate diretamente da questão que nos propôs, acreditamos que as ponderações feitas na A Sentinela, 15 de setembro de 1983, página 29, poderão ajudar-lhe a entender o assunto que nos apresentou” - Veja a carta completa aqui. Não estando eu satisfeito com a resposta, tive a grande oportunidade de escrever aos membros do Corpo Governante, mas, depois de dois meses de espera recebi uma convocação dos anciãos de minha congregação, a qual ainda pertenço, para considerarmos minhas dúvidas. Achei mesmo que uma resposta me seria dada, mas recebi apenas broncas, acusações e ameaças, expressões como “não queremos perder o irmão” e questionamentos como “você não confia no escravo fiel de discreto?”. Lamentável.

Deuteronômio 21:10, 11 fala de uma exceção à regra estabelecida em Deuteronômio 7: 1-4. O texto diz:

   “Caso saias à batalha contra os teus inimigos e Jeová, teu Deus, os tenha entregado na tua mão e tu os tenhas levado cativos, e tenhas visto entre os cativos uma mulher de figura bela, e te tenhas afeiçoado a ela e a tenhas tomado por tua esposa, então tens de trazê-la para o meio da tua casa. Ela tem de rapar então sua cabeça e cuidar das suas unhas, e tem de remover de si o manto do seu cativeiro e morar na tua casa, e tem de chorar seu pai e sua mãe por todo um mês lunar; e depois deves ter relações com ela, e tens de tomar posse dela como tua noiva, e ela tem de tornar-se tua esposa”.

A direção das Testemunhas de Jeová responde, em parte: “Visto que os soldados israelitas teriam destruído as imagens dos deuses dela, seus objetos de adoração não existiriam mais. O mês de lamentação também servia como período de purificação, durante o qual a cativa se livraria de todos os vestígios da sua anterior devoção religiosa” (“A Sentinela” 15/09/2004, pág. 28). Será que isto quer dizer que se determinada pessoa não exercer má influencia em sua vida cristã e por ter se apaixonado por ela um casamento poderá sim ser celebrado? Ao passo que examinamos mais a fundo esta questão, a posição da Direção das Testemunhas de Jeová, em punir os supostos infratores, fica cada vez mais difícil de compreender.

 

Considerações Finais:

Muitas outras considerações devem ser feitas para a escolha de um cônjuge. Embora este artigo não tenha a pretensão de se tornar um guia absoluto para decisões desta alçada, outras considerações estarão disponíveis para os leitores desejosos de obterem mais informações, assim que o tempo nos permitir.

 

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