Buscando liberdade onde há escuridão
(por Walter Gabiatti)
“Deixai-os. São cegos e guias de cegos. Ora, se um cego conduz a outro, tombarão ambos mesma vala”. – Mateus 15:14.
O ser humano, desde o momento da concepção “almeja” a liberdade. É algo intrínseco que reflete o tipo de Deus que adoramos. O Soberano é um Deus livre, que nunca esteve sujeito ao jugo da escravidão. Com senso aguçado de liberdade nos fez à sua imagem e semelhança, o que nos garante a liberdade como seres pensantes que somos.
A Bíblia, o livro que nos ensina a ser livres, mostra-nos que fomos feitos para sermos como nossso Pai. Em Gênesis 1:27 lemos: “Deus criou o homem à sua imagem; criou-o à imagem de Deus, criou o homem e a mulher”.
Ainda assim, a liberdade que nos foi dada é relativa, já que estamos sujeitos às orientações do Criador. Porém, o fato de se tratar de um Criador que personifica o AMOR e todas as suas variantes, nos consola diante da relatividade da liberdade que temos.
Por toda a eternidade Deus desfrutou de liberdade no sentido absoluto. Sendo completo em si mesmo, nunca dependeu de nada ou de alguém para se sentir realizado. Seu poder indescritível e sabedoria ilimitada possibilita fazer tudo o que lhe apraz.
Ao usar seu poder criativo para dar origem a vida humana, Deus não intencionou escravizá-los, mas dar aos humanos a mesma sensação de viver a liberdade.
Quando focalizamos os atributos de Deus, como a sabedoria e o amor, dificilmente poderíamos concluir que suas normas tornam a nossa liberdade menos interessante. Mesmo assim, o homem abandonou seu Criador por reivindicar para si o controle pleno da própria existência. Reivindicou, convenhamos, algo sobre o qual não tinha nem tem direito; visto que somos criaturas, estaremos sempre sob a autoridade do Criador.
“Por que o Senhor é nosso juiz, o Senhor é nosso legislador; o Senhor é nosso rei que nos salvará”. (Isaías 33:22)
Embora personificando o Judiciário, Legislativo e Executivo, Deus respeitou o livre-arbítrio que dera ao ser humano e pôs em nossas mãos as rédeas da vida.
Havia o ser humano alcançado a liberdade absoluta? De modo algum! Foi a partir deste ponto que fomos subjugados a escravidão. O homem tornou-se escravo de si mesmo, escravo do seu semelhante e por fim, escravo da própria idéia de liberdade. Não há neste planeta, um ser humano independente. O desenvolvimento de filosofias e religiões só acentua o fato de que nunca fomos livres.
Precisamos de algo em que nos apegar para encontrarmos a direção certa na busca pela liberdade. No entanto, a necessidade de uma ideologia criada por um grupo no intuito de nos orientar nessa busca faz com que fiquemos escravizados àquele grupo. Diante dessa realidade, as religiões, sob o comando de homens imbuídos de um autoritarismo ilegítimo, lutam para manter as massas sob o seu jugo.
As religiões existem sob a premissa de conduzir as pessoas a um relacionamento achegado com o seu Deus. (Abordaremos aqui, em especial, as religiões “cristãs”). Mas, no percurso percorrido, parecem ter esquecido que Deus simboliza a liberdade. Toda pessoa sincera procura uma religião na esperança de obter livramento de tudo o que o mundo opressivo nos impõe como fazendo parte da vida. De fato, deveria ser este o papel das religiões: proporcionar alívio num mundo que escraviza.
“É para que sejamos homens livres que Cristo nos libertou. Ficai, portanto, firmes e não vos submetais outra vez ao jugo da escravidão”. (Gálatas 5:1)
Conforme mostrado no texto acima, Cristo nos libertou de todo jugo, para que fôssemos livres. Em nenhum momento Cristo abriu exceção para um grupo agir contrário ao sentido de libertação. As religiões não estão autorizadas a violar o princípio da liberdade que nos foi conferido pelo sacrifício de Cristo. Manter as pessoas, sob os seus cuidados, aprisionadas a um sistema de regras rígidas e desumanas, sobrecarregando a vida dos que humilde e sinceramente se sujeitam à vontade de Deus, é um sacrilégio, é como se o sacrifício de nosso Senhor Jesus Cristo não tivesse nenhum valor. A missão de Jesus, de libertar, teria sido em vão.
Quando a religião se torna sufocante, ainda que isso não seja diretamente expresso por seus membros, algo muito errado está acontecendo. O distanciamento do cristianismo se manifesta sutilmente e por essa razão não choca tanto os seguidores que não conseguem discernir o que acontece com suas vidas. Quem não conhece a Deus e a Jesus, profundamente, não consegue ver na religião os erros que merecem ser questionados, e os que vêem são doutrinados a aceitar as imposições como vindas de “cima”.
Desse modo, o controle mental ganha vantagem e impede a pessoa de conhecer a verdade que liberta.
Os líderes religiosos são extremamente cuidadosos na escolha e no modo de usar as palavras, fazendo citações bíblicas fora de contexto, associadas a um modo santimonioso de proferir sermões com palavras macias e simuladas.
“Prometem-lhes a liberdade, quando eles mesmos são escravos da corrupção, pois o homem é feito escravo daquele que o venceu”. (2Pedro 2:19)
A escravidão religiosa persiste com grande força em pleno século XXI. Nunca houve abolição dessa forma sutil de escravizar o homem. O máximo que a história pode nos mostrar é o grande empenho de homens devotados, na tentativa de obterem suas “cartas de alforria”. Mas, no final, todos eles acabaram apenas mudando de “senhor”.
Quem é livre, alcançou o verdadeiro sentido da vida, alcançou a Deus.
Mas, a luta pela liberdade não tem tido muito êxito, já que a sociedade insiste em subjugar seu semelhante.
“O homem sempre se fez prisioneiro de angústias, medos, culpas, solidão, impossibilidade de agir, padrões pré determinados, doutrinas, normas, dogmas etc. Pode então libertar-se buscando o autoconhecimento e realizando-se. Tornando-se responsável por suas escolhas.
Para Sartre o homem é a sua liberdade e está condenado a ser livre. Condenado porque não criou a si mesmo, e como, no entanto é livre, uma vez que foi lançado no mundo é responsável por tudo que faz.
Segundo Jaspers, só nos momentos em que exerço minha liberdade é que sou plenamente eu mesmo. Assim será o indivíduo autêntico, autônomo, autodeterminado.
Ser e fazer implicam em liberdade. A condição primordial da ação é a liberdade. Liberdade é essencialmente capacidade de escolha. Onde não existe escolha, não há liberdade.”
Dora Lúcia Alcântara – Psicóloga e Psicoterapeuta Existencial
Certamente, as palavras acima nos direcionam para o assunto em questão, o papel do sistema religioso em querer manter as pessoas aprisionadas a um conjunto de regras criadas por seus líderes.
Por exemplo, a citação final – ‘Liberdade é essencialmente capacidade de escolha. Onde não existe escolha, não há liberdade’ – nos ajuda a ver que, de fato, as religiões não nos deixam escolha, senão a de aderir ao seu próprio sistema de leis para alcançar a salvação, pois, nada fora dali nos levará a Deus, dizem os “doutores da consciência alheia”.
Os líderes religiosos parecem querer manter as multidões envoltas num enorme véu de ignorância, só para não perderem o controle que lhes acaricia o ego. As religiões permanecem sem progredir em termos de conhecimento, e sem acompanhar os acontecimentos.
Não que as religiões devessem se secularizar, mas que permitissem aos cristãos o benefício dos avanços científicos e tecnológicos que tanto contribuem para um entendimento mais apurado da história bíblica, possibilitando a quebra dos grilhões da ignorância perpetuada por tantos séculos no campo religioso. O que ainda rege o sistema religioso, por incrível que pareça, lembra-nos a Era do Obscurantismo.
Não é à Bíblia que as religiões recorrem para desenvolver a metodologia cristã referente ao modo de tratar seus membros, mas às tradições criadas por homens, homens incapazes de enxergar a espiritualidade como componente principal duma religião, homens que buscam seus próprios interesses, sejam eles financeiros ou a ânsia pelo poder de dominar seu semelhante, ainda que ideologicamente.
Os resultados ao longo dos séculos têm sido desastrosos. O ser humano tem encontrado mais e mais motivos para abandonar sua fé, devido ao legalismo arbitrário imposto pelas religiões que se auto proclamam cristãs.
Diante disso, há uma grande incoerência, pois, o originador do cristianismo pregou a liberdade, de fato prometeu a todos os que o seguissem que seriam recompensados de tal modo que se sentiriam “revigorados”, não sufocados por um conjunto de regras insensatas e insensíveis.
A incoerência religiosa tem contribuído para a formação de um número crescente de pessoas anti-religiosas, que não admitem que seja atribuída a um grupo, autoridade para tomar decisões de vida e morte, quando tais decisões deveriam ser tomadas em base individual recorrendo à própria consciência treinada pela Palavra de Deus, a Bíblia.
Devemos, por alguns instantes, focalizar a questão de dirigir nossos passos tendo em vista os preceitos bíblicos. É importante refletirmos nisso, porque as religiões (incoerentes, legalistas, arbitrárias) dizem basear sua política administrativa nesse livro sagrado, a Bíblia. Será que isso deve levar-nos a crer que a Bíblia é a fonte de tal incoerência, legalismo e arbitrariedade?
De modo algum! Por ser inspirada por Deus, a Bíblia contém pensamentos e princípios cuja observância nos dá muito prazer. Esse conjunto de livros sagrados, foram elaborados visando nos propiciar consolo, esperança, alegria e a tão desejada liberdade, senso herdado do nosso Pai celestial.
Ao providenciar a escrita da Bíblia, o Soberano cuidadosamente fez com que o estilo de escrita contribuísse para que não só a entendêssemos, mas também que víssemos nesse livro o trajeto a ser percorrido para encontrarmos a liberdade prometida por Cristo. O legalismo e a arbitrariedade, peculiares ao sistema religioso como um todo, são explicitamente condenados nas páginas da Bíblia.
Quando Jesus Cristo esteve na Terra, um grupo religioso que se destacava pela rigidez como encarava as leis divinas, estabelecendo extremos em coisas simples, foi o grupo de fariseus, nome que incorpora até hoje a idéia de falsidade, hipocrisia e controle arbitrário sobre a vida das pessoas comuns. A atitude do Mestre Jesus para com esse grupo serve para avaliarmos como ele encara as religiões atuais, as remanescentes do farisaísmo.
“Pelos seus frutos os conhecereis. Colhem-se, porventura, uvas dos espinhos e figos dos abrolhos? Toda árvore boa dá bons frutos; toda árvore má dá maus frutos. Uma árvore boa não pode dar maus frutos; nem uma árvore má, bons frutos. Toda árvore que não der bons frutos será cortada e lançada ao fogo. Pelos seus frutos os conhecereis”. (Mateus 7:16-20)
O pseudo-cristianismo que perdura em nossos dias calamitosos de um modo bastante eficaz leva as pessoas a acreditarem que religião é sinônimo de cristianismo. Isto não é verdade!
Ser cristão não implica ser religioso, ainda que essa afirmação vá de encontro a tudo que é pregado em sermões e literatura de cunho religioso.
Cristão é quem se empenha além de suas forças para imitar, o mais próximo possível, os passos de Cristo. O empenho de quem adere a uma religião é voltado para seguir o que aquele sistema propaga como sendo de Deus, o que nem sempre é.
Por mais que os religiosos tentem derrubar a veracidade dessa declaração, basta que observemos a maneira como vivem.
O modo como vivem reflete o ensinamento cristão de ser “livre”? Não indica seu modo de viver que estão sujeito a um jugo pesado imposto pela religião? Demonstram medo do que seus “irmãos” pensam acerca dos seus gostos pessoais (gostos que não violam a Bíblia, que é o Regimento Cristão)? Como são os líderes? Como Cristo, razoáveis, amorosos, compassivos e justos? Ou como os fariseus, rígidos, intransigentes, desarrazoados, desamorosos e impiedosos?
Claro que para respondermos a tais perguntas, precisamos ser honestos no íntimo, e humildes para aceitar respostas que podem não ser o que gostaríamos de ver no grupo que apoiamos e confiamos.
A criação de regras para cercear a vida alheia foge completamente da contextualização do cristianismo original, instituído por Jesus Cristo.
Em muitas ocasiões, o Mestre “passou por cima” de leis bíblicas que, na ocasião, não refletiriam o lado misericordioso da Lei de Deus e, que estavam registradas friamente para efeitos de punição.
No entanto, por estar atento às circunstâncias atenuantes, Jesus viu a necessidade de enxergar além do óbvio, usou de razoabilidade por não exigir o cumprimento ao pé da letra, visto que para ele misericórdia sempre teve mais importância que as tecnicidades encontradas nas inúmeras regras criadas, não por seu Pai, mas por homens que vêem na razoabilidade uma ameaça à sua posição de autoridade sobre o rebanho.
Não fazer concessões quando há regras definidas indica insegurança e incapacidade para liderar. Jesus Cristo exemplificou a empatia nos seus tratos com aqueles que gemiam e suspiravam, cansados de tantas regras, às quais eram submetidos pelo órgão que se dizia responsável e autorizado por Deus para conduzi-los à liberdade: a RELIGIÃO.
O termo empatia define a capacidade de se pôr no lugar de seu semelhante, em outras palavras, empatia é “a sua dor sentida no meu coração”.
Tendo Jesus descido da montanha, uma grande multidão o seguiu. Eis que um leproso aproximou-se e prostrou-se diante dele, dizendo: “Senhor, se queres, podes curar-me.” Jesus estendeu a mão , tocou-o e disse: “Eu quero, sê curado”. (Mateus 8:1-3)
Por dizer “EU QUERO”, Jesus demonstrou que entendia o que aquele homem estava passando; muito embora a dor não fosse física, o constrangimento de ter que se identificar como IMPURO para que as pessoas se mantivessem distantes, cobrava um tributo psico-emocional muito grande. O Mestre, com misericórdia e muita compreensão, sentiu no próprio coração a dor daquele homem. A empatia moveu Jesus a agir prontamente em prol do restabelecimento do leproso.
Com isso, não podemos jamais apontar a Bíblia como sendo o manual das religiões “cristãs”; na verdade, elas criam suas próprias “bíblias”, seu conjunto de regras, para dirigir cada passo dado por seus membros que vivem, muitos sem se dar conta, sob um jugo opressivo, o jugo da escravidão religiosa.
“...Com efeito, por que razão seria regulada a minha liberdade pela consciência alheia?” (1Coríntios 10:29)
O versículo acima, com muita propriedade, mostra como o apóstolo Paulo, o maior propagador do cristianismo do 1º século da Era Cristã, encarava a questão da liberdade de consciência, diante da experiência pessoal que tivera como fariseu antes de se converter para seguir os passos de Jesus Cristo.
Notamos nas palavras do apóstolo inspirado que, permitir que a nossa liberdade seja regulada pelos ditames da consciência de uma outra pessoa, é algo questionável, inadmissível. O questionamento do apóstolo, visto por um outro ângulo, é: ‘Por que razão eu deveria permitir que os outros decidam como devo viver a minha liberdade?’
Refletir nisso nos faz ver a veracidade das palavras registradas pelo profeta inspirado Jeremias, que disse:
“Bem sei, Senhor, que não é o homem dono de seu destino, e que ao caminhante não lhe assiste o poder de dirigir seus passos”. (Jeremias 10:23)
Se Deus fez questão de registrar um princípio orientador que nos fizesse ter a consciência de nossas limitações, sem dúvida Sua intenção era inculcar em nós o respeito pela liberdade dos nossos semelhantes. O fato de não termos poder para dirigir nossos próprios passos é um forte indicativo de que não deveríamos, presunçosamente, nos achar no direito de determinar como os outros devem caminhar.
Tentar dirigir os passos das pessoas quando não conseguimos dirigir os nossos próprios, não pode produzir resultados positivos. É como estar num terreno pedregoso com os olhos vendados e tentando ajudar outros, também com vendas nos olhos, a fazer o trajeto sem nenhum acidente. Consegue visualizar isso? Acha que seria possível ter êxito no caminho da vida, nessas circunstâncias?
A Bíblia cristã é uma só; o Autor da Bíblia, Deus, é um só; como podem existir tantas religiões que professam servir ao mesmo Deus, quando suas crenças “baseadas” na mesma Bíblia, são conflitantes? Seria o caso de Deus ser contraditório? Estaria Deus afirmando algo e, em seguida, negando-o? Afinal, se Deus é um só, por que os “cristãos” não são como Jesus desejou?
“Não rogo somente por eles, mas também por aqueles que por sua palavra hão de crer em mim. Para que todos sejam um, assim como tu, Pai, estás em mim e eu em ti, para que também eles estejam em nós e o mundo creia que tu me enviaste”. (João 17:20, 21)
O desejo de Jesus Cristo é, e sempre foi, ‘que todos sejam um’ no sentido de estarem unidos no objetivo de servir a Deus. Sem dúvida, para que haja união, é imprescindível que os cristãos não se deparem com uma infinidade de conceitos discordantes dentro de um mesmo contexto.
As religiões não seguem o padrão de Cristo, pois, vivem se digladiando para tentar fazer prevalecer sua doutrina aos seus membros, segregando a sociedade que vive como peças num tabuleiro de xadrez, aguardando as jogadas dos “donos da verdade”. O vai-e-vem de conceitos cristãos – assim chamados errôneamente – só serve a um objetivo, gerar preconceito e transformar as pessoas em marionetes nas mãos de quem vive do aprisionamento da consciência alheia, e que se escondem atrás dum véu de religiosidade no intuito de mascarar seus verdadeiros intentos.
Voltemos novamente à questão da ânsia de exercer controle sobre a vida dos outros. Todas as religiões têm suas próprias interpretações do texto sagrado; geralmente tais interpretações foram concebidas por seus “fundadores”, aqueles que, como Satanás, desejaram muito ser colocados num pedestal para serem venerados, respeitados e terem suas idéias propagadas e aplicadas no cotidiano de cada seguidor.
É evidente que cada ser humano enxerga uma mesma situação por um prisma diferente. Isso ocorre também, e ainda de modo mais acentuado, com a Bíblia. Dada a interpretação, o próximo passo é divulgar essa nova idéia na tentativa de encontrar simpatizantes; a partir daí surge lentamente um grupo que com o tempo alcançará o status de religião, ou seita, seja lá o que for o objetivo será sempre o mesmo, manter as pessoas naquele círculo, considerando-se parte do único grupo detentor da “verdade” que conduz à salvação. É possível notar em cada versículo bíblico, a imensurável quantidade de interpretações particulares que fomentam a segregação religiosa.
Vejam alguns exemplos:
Apocalipse 21:1 – “Vi, então, um novo céu e uma nova terra, pois o primeiro céu e a primeira terra desapareceram e o mar já não existia”.
Pessoalmente, já ouvi uma infinidade de comentários acerca do significa deste versículo enigmático. Com base na interpretação que cada um se acha no direito de fazer, surgem as discrepâncias.
Certa vez, conversando com alguém de certa denominação evangélica, fui surpreendido com a declaração de que o referido texto enfatiza que o planeta Terra ficará desabitado. Outro disse ainda, que para o cristão não é correto ir à praia, pois Deus havia prometido, conforme “as Escrituras”, destruir o mar. Mas, as interpretações não param por aí! Confrontaram-me, também, com a idéia de destruição total do planeta e a criação de uma “nova terra”. Outra denominação procura mostrar que o versículo em questão está envolto numa simbologia que não permite que seja entendido literalmente.
João 14:8, 9 – “Disse-lhe Filipe: “Senhor, mostra-nos o Pai e isso nos basta.” Respondeu Jesus: “Há tanto tempo que estou convosco e não me conheceste, Filipe! Aquele que me viu, viu também o Pai. Como, pois, dizes: Mostra-nos o Pai...”.
Este versículo, então, está repleto de interpretações que tentam de todos os modos corroborar o dogma da trindade. Para os trinitaristas, o versículo em questão parece muito convincente em mostrar que Jesus era o Soberano (YHWH) encarnado.
Outros buscam, no contexto, explicar que Jesus apenas queria indicar o fator “união” entre ele e o Pai. (Não vamos aqui entrar no mérito da correta interpretação, mas, apenas mostrar a grande diversidade de pontos de vista que permeiam a consciência “cristã”.) Interessante que o uso isolado deste, bem como de qualquer outro versículo, apóia doutrinas milenares, ainda que estas não existam no contexto bíblico.
Interpretar as Escrituras como melhor lhe convenha ou aceitar o modo de interpretar de outrem é, em última análise, um insulto à inteligência de Deus. Seria Deus incapaz de se fazer entender por meio da Bíblia? Precisaria Deus, que humanos limitados dessem o verdadeiro sentido daquilo que Ele inspirou?
Visto que a Bíblia é inteiramente harmônica, cada versículo deve respeitar o contexto, bem como outras partes relacionadas. A linha de raciocínio seguida pelas Escrituras é a mesma de Gênesis a Apocalipse, o que contribui para um melhor entendimento da vontade de Deus.
A maneira de usar as Escrituras, pelas religiões, demonstra que o verdadeiro interesse não é libertar, mas aprisionar a consciência do semelhante para mantê-lo nas fileiras da escuridão.
Tal como correr atrás do vento, assim tem sido a corrida da humanidade em busca de liberdade; um esforço milenar em vão, cujo empenho sempre é revertido em aprisionamento ideológico.
As chamadas “fontes” de liberdade não passam de cisternas rotas que implantam na mente e no coração do ser humano ingênuo um conceito utópico, no que tange a ser livre do ponto de vista cristão.
A verdade de Deus, esta sim a verdade que liberta, não pode ser encontrada em tais cisternas rotas, pois, as religiões não tornaram o ser humano um ser cônscio de suas limitações e ainda assim livre, mas fizeram exatamente o oposto, transformaram a humanidade em dependentes limitados.
Nesse sentido, a religião desenvolve a função de um narcótico poderosíssimo, que age no consciente e subconsciente do indivíduo que terá, com o “vício”, sua mente sob o controle de seus “senhores”.
As religiões têm ensinado que o abandono do sistema no qual os membros são moldados, fará com que a felicidade não mais habite o coração de quem é, estando fora, um ser amaldiçoado. Tudo se assemelha à síndrome de abstinência, no caso dos dependentes químicos. Abandonar as drogas parece o fim de tudo para os dependentes.
O único progresso obtido pelo sistema religioso, desde a Inquisição, foi o aprimoramento dos meios de tortura para manter as pessoas debaixo do jugo opressor dos que detêm a autoridade “divina” para controlá-las. Naquele período macabro da nossa história, o foco era a dor física infligida sadicamente para “purificar a alma”; achavam as igrejas que desse modo estariam purificando o rebanho e evitando que as ovelhas fossem desgarradas pelo pecado.
A idéia por trás da Inquisição prevalece em nossos dias com uma roupagem nova. Deveras, as religiões aderiram a uma espécie de ‘Inquisição Moderna’. Torturar ainda é o elemento principal dessa releitura do abuso religioso, com variações significativas, é claro!
Na Inquisição Moderna não são usados objetos para infligir dor física, estes foram substituídos pela TORTURA PSICOLÓGICA, que tem produzido resultados bem “melhores” que no método antigo. O controle mental é bem mais eficiente para o processo de escravização, pois, ao contrário da tortura física, não causa trauma, não instiga à rebeldia, mas leva a pessoa a “querer” estar sob o jugo.
Nisso, o império religioso conseguiu um feito inigualável no campo do controle da consciência individual humana. Ainda que o aprimoramento seja notório, os interesses continuam os mesmos, infelizmente interesses escusos, distantes dos interesses de Cristo.
A salvação, na visão das religiões “cristãs”, parece mais algo para massagear o ego, e não o meio pelo qual Deus redime o ser humano dos seus pecados e o conduz à glória eterna. Ao que parece, a única glória que importa para os líderes religiosos é a própria.
Jesus, no texto temático deste artigo, enfatizou a escuridão que havia no sistema farisaico ao chamá-los de CEGOS que se empenhavam em guiar outros cegos, os quais, obviamente haviam permitido que tais líderes da escuridão regulasse suas consciências.
Poderiam, talvez, por sinceridade e “fé” alcançarem a liberdade cristã?
A resposta do nosso Mestre não deixa nenhuma dúvida:
“Ora, se um cego conduz a outro, tombarão ambos na mesma vala”.
Não, a liberdade cristã não pode ser alcançada por fatores como a sinceridade e a fé. Possuir tais qualidades primorosas, mas estar sujeito a um jugo opressor humano, não produz liberdade; como Jesus disse, levará apenas à vala como resultado de se estar cativo à consciência de outrem.
Quer dizer, então, que estamos condenados à escravidão? Jamais seremos livres, como Cristo prometeu?
Não é esta a idéia que pretendo passar a você, caro leitor. Cristo prometeu-nos a liberdade, e a teremos se buscarmos no lugar certo. O problema da humanidade tem sido buscar a liberdade onde há escuridão. Observe o convite feito por Jesus Cristo, o fundador do cristianismo:
“Vinde a mim, vós todos que estais aflitos sob o fardo, e eu vos aliviarei. Tomai meu jugo sobre vós e recebei minha doutrina, porque eu sou manso e humilde de coração e achareis o repouso para as vossas almas. Porque meu jugo é suave e meu peso é leve.” (Mateus 11:28-30)
Notamos, nestas palavras reconfortantes, o verdadeiro objetivo do cristianismo, a saber, proporcionar alívio (sensação de liberdade) aos que penam sob o autoritarismo religioso com suas regras rígidas e insensíveis. O Mestre, aqui, convida a “todos que est[ão] aflitos sob o fardo” a receber sua (a de Jesus) doutrina; tal doutrina comparada, figurativamente, a um jugo, diz Jesus, “...é SUAVE”!
É inconcebível que uma doutrina “suave” cause depressão, síndrome do pânico e até tentativas de suicídio, como pessoalmente conheço diversos casos reais envolvendo pessoas devotadas à Religião.
A doutrina SUAVE que Jesus nos convida a receber resulta, segundo ele, em “repouso para as [n]ossas almas”.
Toda doutrina que não conceda tal alívio não pode ser considerada cristã, a menos que Jesus Cristo tenha aderido à tática político-partidária de prometer e não cumprir.
Qualquer religião que impeça seus membros de serem livres como cristãos e ponha sobre eles um fardo insuportável, não pode carregar o cartaz de com os dizeres: RELIGIÃO CRISTÃ.
Quando nosso senhor Jesus Cristo deixou como legado seus ensinos, ou seja, sua “doutrina”, preocupou-se em tornar a carga cristã algo suportável, suave e leve. Este é o comportamento de quem quer ver seus seguidores felizes. Isto chama-se CONFIANÇA!
Nosso Mestre nunca questionou a lealdade das pessoas; nunca achou necessário impor sua doutrina por meio de indizíveis regras que ‘invalidam a palavra de Deus’.
A grande contradição reside no fato de que as religiões “possuem” o facho de luz, ou a lâmpada que nos guia em meio a escuridão que prevalece neste mundo cada vez mais incrédulo, no entanto, “possuem” mas, NÃO USAM da forma como o Criador e Autor da Bíblia intencionou que fosse usada. É como a pessoa que se debate na escuridão, sem saber que direção tomar, tendo em mãos a lâmpada que pode tornar mais fácil o trajeto rumo à liberdade. Tais pessoas acham mais conveniente confiar nas “vozes” que tentam indicar a direção certa, o que resulta em mantê-las ainda mais na escuridão espiritual, visto que tais vozes são de pessoas que também estão no escuro.
Respondendo à pergunta feita à pouco – “Jamais seremos livres, como Cristo prometeu?” – podemos estar certos de que é possível sim alcançarmos a liberdade e usufruí-la, desde que encaremos a Bíblia, a Palavra de Deus, como encarava o salmista que foi inspirado a escrever:
“Vossa palavra é um facho que ilumina meus passos, uma luz em meu caminho”. (Salmo 119:105)
Somente onde Deus age com o Seu espírito, pode-se encontrar liberdade como prometido por Cristo. Não resta dúvida de que a Bíblia, nada mais, é produto direto da ação do espírito de Deus.
Assim, busquemos nas páginas desse livro sagrado o que o Criador realmente quer que façamos para viver a vida com prazer.
“A liberdade não é alguma coisa que é dada, mas resulta de um projeto de ação. É uma árdua tarefa cujos desafios nem sempre são suportados pelo homem, daí resultando os riscos de perda de liberdade pelo homem que se acomoda não lutando para obtê-la.”
(Dora Lúcia Alcântara – Psicóloga e Psicoterapeuta Existencial.)
Que tenhamos “um projeto de ação” que possibilite a conquista da tão almejada liberdade! Sim, a tarefa é árdua, mas recompensadora; o que não devemos, porém, é nos acomodar, deixar de lutar diante dos desafios que o mundo impõe a todos nós.
Não suportar tais desafios, em prol da LIBERDADE, é expor a própria incapacidade de ser livre.
Portanto, que todos nós continuemos em busca da liberdade cristã, deixando que a Palavra de Deus ilumine nossos passos para que não sejamos vítimas do engodo religioso que, por meio de homens insanos, tenta nos manter escravos da ignorância.
“Ora, o Senhor é Espírito, e onde está o Espírito do Senhor, ali há liberdade”. (2Coríntios 3:17)