"Alimento no tempo apropriado" - Uma consideração
(por Zadig)
Transcrição:“[7] Ao passo que profecias bíblicas se cumprem, nosso entendimento das Escrituras melhora. No entanto, às vezes talvez achemos que certo esclarecimento está demorando muito. Se este não for dado quando o esperamos, continuaremos dispostos a esperar? Lembre-se de que Jeová achou por bem revelar o ‘segredo sagrado do Cristo’ aos poucos e durante um período de uns 4.000 anos. (Efésios 3:3-6) Será que nós temos então motivo para ficar impacientes? Duvidamos de que um ‘escravo fiel e discreto’ foi designado para prover ao povo de Jeová ‘o seu alimento no tempo apropriado’? (Mateus 24:45) Por que devíamos privar-nos de alegria piedosa porque nem tudo é inteiramente entendido? Lembre-se de que é Jeová quem decide quando e como revelar seus ‘assuntos confidenciais’. — Amós 3:7. [10] Termos uma atitude de espera também nos ajudará a evitar a presunção. Alguns dos que se tornaram apóstatas não estavam dispostos a esperar. Talvez achassem que havia necessidade de um ajuste, quer de entendimento bíblico, quer de assuntos de organização. Mas, deixaram de reconhecer que o espírito de Jeová induz o escravo fiel e discreto a fazer ajustes no tempo devido Dele, não quando nós talvez os achemos necessários. E quaisquer ajustes têm de estar em harmonia com a vontade de Jeová, não com as nossas próprias idéias. Os apóstatas deixam que uma atitude presunçosa distorça seu modo de pensar e os faça tropeçar. Mas, se eles tivessem adotado a atitude mental de Cristo, poderiam ter conservado sua alegria e continuado entre o povo de Jeová. — Filipenses 2:5-8.”
A Sentinela, 1º de setembro de 2000, p. 13, §§ 7, 10.
O trecho acima reflete o ufanismo existente entre as Testemunhas de
Jeová; deixa claro que não é possível ter
qualquer descrença para com os que se dizem membros do
“escravo fiel e discreto”, o Corpo Governante, na
prática. Suas afirmações claras são de que
Deus os guia para o progresso espiritual “em harmonia com sua
vontade”, ou seja, quando algo muda, é Deus quem revelou
tanto a informação quanto o tempo exato para tais e tais
mudanças.
Creia como desejar, mas certas coisas nunca mudarão.
Há um
particular muito interessante no que tange ao texto de Mateus 24:34:
“Deveras, eu vos digo que esta geração de modo
algum passará até que todas estas coisas ocorram”.
– Tradução do Novo Mundo.
A Sociedade Torre de Vigia argumentou por décadas, que os que
presenciaram os acontecimentos em 1914, também seriam os que
veriam o prometido Armagedom (que simboliza a guerra entre Deus e os
governos humanos com seus associados [nações]).
Vejamos:
A Sentinela 15 de outubro de 1988, página 4, parágrafos 6 a 8 diz:
“Humano algum pode descobrir a data do fim do atual sistema iníquo de coisas. ‘Acerca daquele dia e daquela hora’, disse Jesus, ‘ninguém sabe, nem os anjos no céu, nem o Filho, senão o Pai’. – Marcos 13:32,33.
“Será, então, que o sinal poderia ocorrer durante o decurso de muitas gerações humanas? Não. O sinal deve ocorrer numa única geração específica. A mesma geração que presenciou o começo do sinal também presenciará o seu clímax numa ‘tribulação como nunca ocorreu desde o princípio da criação’. Três historiadores, Mateus, Marcos e Lucas, registraram a garantia de Jesus a respeito disso. – Marcos 13:19, 30; Mateus 24: 13, 21, 22, 34; Lucas 21 : 28, 32.
“Existe, porém, o perigo de ficar impaciente. Já se passaram 74 anos desde o irrompimento da Primeira Guerra Mundial, em 1914. Do ponto de vista humano, isto pode parecer um tempo muitíssimo longo. Mas, alguns cristãos de olhos como de águias, que viram a Primeira Guerra Mundial, ainda estão bem vivos. A geração deles ainda não passou”. – O negrito é meu.
Daí, quando o argumento passou a ser insustentável, pois tal geração estava em extinção, tiveram que mudar. Alguém teve que fazer “brilhar a luz”, então, o entendimento anterior foi substituído por:
A Sentinela 1 de novembro de 1995, página 19, parágrafo 10, diz:
“Examinemos mais de perto a declaração de Jesus em Mateus 24:34, 35: ‘Deveras, eu vos digo que esta geração de modo algum passará até que todas estas coisas ocorram. Céu e terra passarão, mas as minhas palavras de modo algum passarão’. As palavras seguintes de Jesus mostram que ‘ninguém sabe acerca daquele dia e daquela hora’. Ele mostra que é muito mais importante que evitemos os laços que nos cercam nesta geração... [12] Portanto, hoje, no cumprimento final da profecia de Jesus, ‘esta geração’ parece referir-se aos povos da terra que vêem o sinal da presença de Cristo, mas que não se corrigem. Em contraste, nós, como discípulos de Jesus, recusamos ser amoldados pelo estilo de vida “desta geração”. Embora estejamos no mundo, não devemos fazer parte dele, ‘pois o tempo designado está próximo’.”. – O negrito é meu.
A “luz brilhou” para a satisfação da Sociedade Torre de Vigia, mas os que ainda restavam ou restam da geração de 1914, certamente sentiram-se decepcionados. Provavelmente não veriam mais o fim deste sistema de coisas. Algo que foi sustentado por longas datas, e que acabou como algo infundado, uma expectativa frívola, uma “velha luz”. O interessante é que quando políticos prometem e não cumprem, logo são tachados de mentirosos, corruptos – muitos o são é claro – mas o que dizer das promessas do “único canal de comunicação com Deus”? Não era o primeiro esclarecimento também uma “luz”? Não era um “alimento no tempo apropriado”? Não foi o primeiro “alimento no tempo apropriado” uma provisão de Jeová por meio do “escravo fiel e discreto”? Quando foi que durante os 4.000 anos, mencionados na Sentinela de 1º de setembro de 2000 (p. 13, §§ 7, 10), Jeová deu um entendimento que precisou ser substituído?
Há ainda um outro “equívoco” por parte da Sociedade Torre de Vigia. Na revista A Sentinela 15 de outubro de 1988, página 4, utilizam-se do texto de Marcos 13: 32, 33, que em resumo diz, “acerca daquele dia e daquela hora ninguém sabe, nem os anjos no céu, nem o Filho, senão o Pai”. Mas notem as palavras registradas em A Sentinela de 15 de fevereiro de 1969, página 116 (§ 35):
“Uma coisa é absolutamente certa, a cronologia bíblica, reforçada pela profecia bíblica cumprida, mostra que em breve, sim, dentro desta geração, acabarão seis mil anos da existência do homem! (Mat. 24: 34) Portanto, este não é o tempo para se ser indiferente e complacente. Não é o tempo para se brincar com as palavras de Jesus, de que ‘acerca daquele dia e daquela hora ninguém sabe, nem os anjos dos céus, nem o Filho, mas unicamente o Pai’...”
O fato é que qualquer um que tentasse servir-se do texto de Mateus 24: 34, por mais sincero que fosse, logo seria classificado como “apóstata” ou “crítico”, uma pessoa imprópria para qualquer contato, pois estaria desestimulando uma crença importante, ou seja, a cronologia da Sociedade Torre de Vigia. Isso foi assim até que a própria Sociedade Torre de Vigia resolvesse utilizá-lo em suas publicações.
Como comentado, há um particular interessante nas palavras de Jesus em Mateus 24: 34. Veja este trecho do livro Pensamentos, de Blaise Pascal, página 311: “Extravagâncias dos Apocalípticos, Preadamitas, Milenaristas, etc – Quem quiser fundar opiniões extravagantes sobre a Escritura partirá de pontos como este: está escrito que ‘esta geração não se passará antes que essas coisas se cumpram’. Quanto a mim [Blaise Pascal], direi que depois desta geração virá uma outra e assim por diante, sucessivamente”. - Pensamentos, de Blaise Pascal, Editora Martin Claret, 2004, Fragmento 614 (651), Seção X (capítulo).
Como é possível notar, Blaise Pascal declara que a “geração” apresentada por Jesus não se trata de uma geração fixada por dias, meses e anos, mas que passariam sucessivamente várias outras gerações. O capítulo do livro fala sobre “figuras” dentro das Escrituras Sagradas, Pascal entendia que esta passagem era uma dessas “figuras”. Esse entendimento, da não fixação de um período de dias aplicado sobre uma única geração, só foi aceito pelo Corpo Governante das Testemunhas de Jeová, mais de trezentos anos depois dos escritos de Blaise Pascal. Agora, como poderia Blaise Pascal, um filósofo-cristão católico, ter recebido tal entendimento, não sendo este um membro do Corpo Governante das Testemunhas de Jeová? A resposta a esta pergunta é inteiramente pessoal.
Receber o “alimento no tempo apropriado”, tornou-se
símbolo de algo provido pelo próprio Deus Todo-Poderoso,
mas se isso fosse assim, não haveria qualquer necessidade de
serem substituídos com o tempo. Há muitos outros assuntos
pertencentes a este tema, basta que o leitor atento e interessado
busque maiores informações. Esta é apenas uma
mancha em todo o “tecido que foi manchado”, e que muitos
ainda não se deram conta. Conforme já comentado, creia
como desejar, mas certas coisas nunca mudarão, pois, qual ser
humano poderia mudar a própria História?
* Blaise Pascal: Filósofo e escritor francês, nascido em 19 de junho de 1623, em Clermont-Ferrant, Auvergne. Sua frase mais célebre é: "O coração tem razões que a própria razão desconhece."