1914 e os "Últimos Dias"
Ricardo escreveu:
Depois de ler o artigo de vocês sobre cronologia, fiquei pensando: Se 1914 não foi marcado pela profecia bíblica, como fica a questão dos 'últimos dias'? Com tantos problemas que o mundo enfrenta, será que o século 20 não marcou realmente o início dos 'últimos dias'?
RESPOSTA:
Caro Ricardo,
O que Jesus disse é que depois de sua partida muitas coisas más aconteceriam: guerras, fomes, falta de amor, terremotos, etc. Isso é o que o mundo tem presenciado desde aquele tempo. Quando Pedro foi explicar o motivo do derramamento do espírito santo, note o que ele disse:
“Habitantes de Jerusalém, seja isso conhecido por vós e dai ouvidos às minhas declarações. Estes.... não estão embriagados, como supondes, pois é a terceira hora do dia. Ao contrário, isto é o que foi dito por intermédio do profeta Joel: ‘E nos últimos dias’, diz Deus, ‘derramarei do meu espírito sobre toda sorte de carne, e vossos filhos e vossas filhas profetizarão, e os vossos jovens terão visões....’”. – Atos 2:14-17.
O que você acha que Pedro quis dizer ao mencionar “últimos dias”? Evidentemente o espírito santo só seria derramado quando chegassem os “últimos dias”. Leia atentamente os seguintes textos, conforme várias traduções:
1 Coríntios 10:11 Tais coisas aconteceram a eles como exemplo, e foram escritas para nossa instrução, a nós que vivemos no fim dos tempos”. – Edição Pastoral.
Hebreus 1:1 “Muitas vezes e de muitos modos, Deus falou outrora aos nossos pais, pelos profetas. Nesses dias, que são os últimos, falou-nos por meio do Filho”. – CNBB.
1 João 2:18 “Criancinhas, é a última hora, e, assim como ouvistes que vem o anticristo, já está havendo agora muitos anticristos; sendo que deste fato obtemos o conhecimento de que é a última hora”. – NM.
2 Pedro 3:3, 8 “[Por alguns estarem contradizendo e escarnecendo dos ensinos apostólicos, Pedro disse:] Sabeis primeiramente isto, que nos últimos dias virão ridicularizadores com os seus escárnios, procedendo segundo os seus próprios desejos.... No entanto, não vos escape este único fato, amados, que um só dia é para Jeová como mil anos, e mil anos, como um só dia”. – NM.
1 Timóteo 1:3, 4; 4:1, 2 “Eu lhe pedi que você ficasse em Éfeso, para ordenar a alguns que parassem de ensinar doutrinas estranhas e de se apegar a fábulas e a genealogias sem fim.... [Por que Paulo deu esse conselho?] O Espírito diz expressamente que nos últimos tempos, alguns renegarão a fé para se apegarem a espíritos enganadores e doutrinas diabólicas, seduzidos por mentirosos hipócritas”. – José Raimundo Vidigal.
Judas 4, 17, 18 “De fato, infiltraram-se no meio de vocês alguns indivíduos que, desde há muito, estão inscritos para julgamento. Eles são uns ímpios.... Vocês, porém, amados, lembrem-se das coisas que foram ditas anteriormente pelos apóstolos de nosso Senhor Jesus Cristo. Eles diziam a vocês: ‘No fim dos tempos aparecerão impostores que se comportarão conforme as suas paixões’. São esses indivíduos!” – Edição Pastoral.
1 Pedro 4:7 “Mas tem-se aproximado o fim de todas as coisas, sede ajuizados, portanto”. – Novo Mundo.
Revelação 1:3 “O tempo designado está próximo”. – Novo Mundo.
O que os textos acima querem dizer? Que os primeiros cristãos entendiam que já viviam nos “últimos dias”. Praticamente todos os versículos acima foram endereçados às várias congregações espalhadas pelo Império Romano. Não eram palavras restritas apenas ao sistema judaico. Eram destinadas a cristãos espalhados pelas mais diversas regiões do mundo daquela época. Basta verificar nas citações acima a quem essas palavras foram escritas. Em Revelação (Apocalipse), por exemplo, elas foram dirigidas a todos os cristãos que viviam na Ásia Menor, e embora Jerusalém já tivesse sido destruída pelos romanos, foi dito que eles viviam nos "últimos dias", já que o "tempo designado" estava "próximo".
Todos os textos acima dão fortes indicativos de que os primeiros cristãos realmente já viviam nos “últimos dias”, os quais evidentemente se iniciaram em 30-33 EC. É tanto que cristãos posteriores (“Pais da Igreja”), do segundo século em diante, disseram:
“As guerras continuam a prevalecer.... a morte e a fome acumulam ansiedade.... a saúde é abalada por doenças violentas.... saibam que tudo isto foi predito, que os males seriam multiplicados nos últimos dias.” – Cipriano, Tratado 5, Dirigido a Demetrius (3º século EC).
“Que guerras terríveis, tanto no estrangeiro como aqui dentro! Que pestes, fomes.... e tremores de terra tem registrado a história!” – Tertuliano, Ad Nationes (197 EC).
Observe o que Paulo disse sobre pessoas da época em que ele vivia:
“Deus entregou-os a um estado mental reprovado, para fazerem as coisas que não são próprias, já que estavam cheios de toda a injustiça, iniquidade, cobiça, maldade, cheios de inveja, assassínio, rixa, fraude, disposição maldosa, sendo cochichadores, maldizentes, odiadores de Deus, insolentes, soberbos, pretensiosos, inventores de coisas prejudiciais, desobedientes aos pais, sem entendimento, pérfidos nos acordos, sem afeição natural, desapiedados.” – Rom. 1:28-31.
Evidentemente, pessoas desse tipo não são exclusividade da nossa época. Conforme bem atestado por dados históricos, algumas coisas até melhoraram no século 20, como por exemplo a fome. Não estamos afirmando que tudo está muito bom. É claro que a sociedade humana atual enfrenta problemas que as gerações passadas não enfrentaram, tais como a poluição ambiental, a ameaça nuclear, e talvez o declínio da moralidade, além do aumento da violência urbana em vários lugares. Mas será que há um sinal composto que marca o momento atual? Houve um crescimento efetivo de todos os males? Os que acham isso deveriam fazer um exame mais atento das páginas da História. Facilmente perceberão que no passado houve acontecimentos mais graves. Parece inacreditável, mas são fatos bem documentados que a Torre de Vigia não tem interesse em divulgar. Veja brevemente dois deles:
PESTILÊNCIAS: Já houve casos mais graves de doença, tais como a Peste Negra, que dizimou milhões de pessoas na Europa da Idade Média. Imagine isso acontecendo hoje, milhões de europeus morrendo de doença e de fome. Os historiadores relatam que foram tantos os mortos pela peste que não havia onde enterrá-los, e nem quem fizesse isso. Estamos observando algo assim na atualidade?
GUERRAS: Embora em termos absolutos o número de guerras do século 20 tenha parecido ser maior, aconteceram guerras no passado mais graves que muitas de hoje. Não é preciso um canhão para matar um homem. As guerras no passado eram mais prolongadas, por isso a mortandade tendia a ser grande. Houve uma guerra civil na China, chamada Rebelião de Taiping, que matou mais pessoas do que a Primeira Guerra Mundial (e esta foi só na Europa, por isso alguns historiadores contestam esse uso do termo “mundial”). A própria destruição de Jerusalém pelos romanos em 70 EC, que matou mais de um milhão de judeus, é algo relativamente raro no século 20. Falta espaço para relatar grandes e terríveis guerras de outros séculos.
Desde o primeiro século até agora, o homem realmente enfrenta “tempos críticos difíceis de manejar” (2 Tim. 3:1). O que está melhor hoje, pode não estar amanhã, ou vice-versa. O domínio do homem sobre a terra é instável. Somente com o governo do Messias todos os problemas serão resolvidos. Ao contrário do que a Torre de Vigia tem dito, perceber que os “últimos dias” são um período de muitos séculos, e não sabermos quão próximo está o "fim", não deve ser desculpa para não sermos cristãos fiéis e dedicados. Temos de assumir nossas responsabilidades como servos de Deus, embora não estejamos preocupados com datas, assim como Jesus alertou: “Não vos cabe obter conhecimento dos tempos ou das épocas que o Pai tem colocado sob a sua própria jurisdição.” – Atos 1:6.
Será que a Torre de Vigia já percebeu tudo isso? Será que alguém já lhe trouxe à luz os fatos acima? Como sempre, tudo indica que sim, pois ela já fez a seguinte declaração: “[Os apóstatas] afirmam que os ‘últimos dias’ tiveram início em Pentecostes e abrangem a inteira Era Cristã.” (A Sentinela, 01/09/85, p. 24, § 13) Como costumeiro, ela faz uma declaração sem mencionar todos os fatores envolvidos, com vistas a salvaguardar seu entendimento. Aproveita-se do fato de quase todos os irmãos não estarem a par das verdadeiras questões. Fazer declarações vagas e subjetivas, sem nenhum exame meticuloso do ensino dos “apóstatas”, demonstra fragilidade e temor. Essa tática é repetida vez após vez. Por exemplo, no Congresso de Distrito de 2003 foi dito o seguinte:
“Os apóstatas falam meias-verdades, e escondem detalhes com o objetivo de enganar os verdadeiros cristãos.... as informações deles não são confiáveis. ” – Discurso: “Cuidados com a Voz de Estranhos” (posteriormente o conteúdo deste discurso tornou-se um artigo da revista A Sentinela).
Nada mais longe da realidade. Se quem escreveu o esboço daquele discurso tem pleno conhecimento dos fatos, a declaração acima é irresponsável e difamatória, mas como é uma declaração extremamente genérica, sem provas e endereço específico, ela se dissipa no ar com a mesma facilidade com que foi elaborada. No entanto, atinge plenamente o objetivo da Torre de Vigia que é de manter os irmãos longe da verdade (não nos referimos à verdade da Bíblia).
Esperamos que as considerações
acima tenham esclarecido sua dúvida.
Mentes Bereanas
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