As Testemunhas de Jeová e a Comemoração
APÊNDICE 3
A Experiência de Um Ex-Ancião das Testemunhas de Jeová
O artigo contido neste apêndice
é de autoria de José Martín Pérez, de nacionalidade espanhola e ex-ancião das Testemunhas de Jeová, hoje dissidente
da organização. (Sua experiência na organização das Testemunhas
foi relatada na revista Despertai! de
8 de novembro de 1988, págs. 13-15) Através do estudo que fez
da Bíblia, ele chegou independentemente às mesmas conclusões apresentadas
neste folheto. Ele também aborda diversos pontos adicionais, que
enriquecem a discussão. Cremos que estes poderão ser de interesse
para muitos cristãos que desejam aprofundar seus conhecimentos,
tornando-se dessa maneira mais hábeis em identificar e combater
ensinos religiosos que divergem das verdades simples, apresentadas
na Palavra de Deus, com respeito a este assunto da celebração da
morte de Cristo. (Compare com 2 Coríntios
13:5 e Efésios 3:18,
19). Segue-se a matéria, traduzida
do espanhol. (O autor declara que a divulgação desta matéria é livre). |
COMEMORANDO
DIGNAMENTE
A MORTE DO
SENHOR
No
dia 10 de abril de 1996, assisti pela última vez à celebração da Ceia
do Senhor que as Testemunhas de Jeová realizam e, nesta ocasião, analisei
com atenção o procedimento, o simbolismo e o significado que acompanham
tal cerimônia, com o desejo de ser fiel às minhas convicções, e de encontrar
em tal procedimento uma correspondência bíblica, em vista das repetidas
afirmações que os líderes deste grupo fazem com respeito ao que denominam
como “única celebração que Jesus mandou seus seguidores guardar.” (Citado
de A Sentinela de 15 de março de 1994, pág. 4.)
A
cerimônia foi realizada numa luxuosa sala do Palácio de Convenções de
Granada, e a ela afluíram quatro congregações, ou seja, aproximadamente
500 pessoas, entre os próprios membros e pessoas convidadas por estes.
O estudo que minha esposa e eu vínhamos realizando desde fins de
1995 dos relatos bíblicos, tinham-nos levado a observar de forma distinta
e muito mais objetiva todo o procedimento que a Torre de Vigia implantou,
e esta foi uma ocasião propícia, onde pudemos observar como uma celebração
se reveste de um formalismo quase militar, para criar a impressão de que,
com essa cerimônia, está-se fazendo ‘algo’ místico, reverente, e ao mesmo
tempo, singelo.
Perguntei
a mim mesmo: É isto o que Jesus Cristo tinha em mente quando disse: “Persisti
em fazer isso, todas as vezes que o beberdes, em memória de mim.”? (1
Cor 11:25) É esta a maneira adequada de recordar a morte de nosso
Senhor Jesus Cristo?
Enquanto
estive entre as Testemunhas, aprendi que há apenas uma festividade que
os cristãos são obrigados a guardar, e que esta corresponde à Páscoa judaica.
A Páscoa era sempre observada em 14 de nisã
(abibe), o dia da lua cheia ou por volta desse dia, pois
no calendário judaico o primeiro dia de cada mês (lunar) era o dia da
lua nova, determinado por meio de observação visual. Por conseguinte,
o dia que corresponde a 14 de nisã, é sempre
o usado pelas Testemunhas para comemorar a libertação que Cristo trouxe
à humanidade.
Aprendi
também que essa celebração deve ter uma periodicidade anual, pois as palavras
de Jesus citadas por Lucas e Paulo, referentes à sua morte, “persisti
em fazer isso em memória de mim.” (Luc. 22:19;
1 Cor 11:24) permitem-lhes concluir que Jesus estabeleceu tal celebração
como um memorial, quer dizer, que seus seguidores deveriam celebrar a
Ceia do Senhor uma vez ao ano, e não com mais freqüência. Argumentam que,
como a Páscoa era observada para comemorar a libertação que Jeová trouxe
ao povo de Israel em

O autor deste artigo, dirigindo
a Comemoração
das Testemunhas de Jeová em 1983
Para
manter o argumento, eles mesmos passam a citar as palavras, nas quais
Paulo citou Jesus quando disse com respeito ao cálice: “Persisti em fazer
isso, todas as vezes que o beberdes, em memória de mim.”, e acrescentou:
“Pois, todas as vezes que comerdes este pão e beberdes este copo,
estais proclamando a morte do Senhor, até que ele chegue.” (1 Cor
11:25, 26) e afirmam que a expressão “todas as vezes”, pode se referir
a algo que se faz apenas uma vez ao ano, em especial quando esta ação
se repete durante muitos anos. (Heb 9:25, 26)
Nesta
última vez que compareci, pude perceber o caráter formalista que se foi
imbuindo ano após ano à celebração. A maneira de celebrar
foi convertida num verdadeiro ritual, no qual não só se convidam as pessoas
a escutar uma conferência que recorda o sacrifício maravilhoso que nosso
Senhor Jesus Cristo realizou em nosso favor – a qual por certo, as Testemunhas
vem repetindo ano após ano desde 1985, já que os oradores têm ordens de
utilizar o mesmo esboço – como também pelo cerimonial formalista no qual
fazem participar os próprios membros e pessoas de fora.
Esta
consiste em passar um prato com pedaços de pão sem fermento, que circula
de mão em mão entre os presentes. Depois se passam taças de vinho tinto
com o mesmo ritual. Os indicadores se asseguram de que estes emblemas
passem pelas mãos de todos, e que nenhum dos presentes participe deles
exceto quando se sabe de antemão que alguém é participante habitual.
Feito
isso, quando o primeiro emblema, – o pão – foi
passado pelo auditório, todos os indicadores se sentam na primeira fila,
e o próprio discursante o pega e passa por cada indicador. Quando isto
é feito, um dos indicadores volta a pegar o emblema e o passa ao discursante. O procedimento é o mesmo no caso do vinho.
E assim concluem a cerimônia.
Ou
seja, a participação como espectadores significa
para as Testemunhas de Jeová que os mencionados emblemas passem de mão
em mão entre os presentes, pois “passarem-se o pão e o vinho de um para
outro ajuda a aprofundar o apreço pelas coisas sagradas que se acabam
de considerar naquela noite. Habilita também a cada um tornar patente
qual é a sua esperança de vida: celestial ou terrestre.” (Frases citadas
de A Sentinela de 15 de fevereiro de 1985, pág. 20, onde se considera
inapropriado que a pessoa que serve os emblemas pare ao final de cada
fileira de assentos e acene aos que estão sentados na fileira para que
a pessoa que deseje participar indique isso por gestos).
A
passagem desses emblemas deve ocorrer depois do pôr-do-sol. Assim, todas
as reuniões em todo o mundo, têm de levar em conta a hora do início da
reunião para que os emblemas só comecem a ser distribuídos depois do pôr-do-sol
em sua região, pois do contrário se cometeria um grave erro.
Supõe-se
que faltar a esta reunião por motivos de trabalho ou pessoais é considerado
um pecado, pois demonstraria falta de apreço pelo que tal comemoração
representa. É por isso que a assistência sempre superou os 100% do número
de testemunhas que relatam atividade mensalmente. Até alguns “desassociados”
[excomungados], e muitos “inativos” [Testemunhas que não participam da
pregação de porta em porta há mais de 6 meses] afluem ao local de reunião
nesse dia, o que demonstra o caráter sagrado do qual
as Testemunhas de Jeová revestiram esta cerimônia!
Na
Sentinela de 15 de fevereiro de 1985, pág. 21, expressam com clareza
seus sentimentos quando afirmam: “A Refeição Noturna do Senhor, sem dúvida,
é a maior celebração do ano para todos os verdadeiros cristãos. Não há
outra ocasião que se iguale a ela em importância, objetivo e procedimento.”
E
uma peculiaridade singular das Testemunhas de Jeová é que nem todos participam
do pão e do vinho. Dos mais de 16 milhões de pessoas que assistiram em
2005, só um pequeno grupo, 8 mil, participaram comendo e bebendo dos emblemas.
Com sua ação mostraram que têm a esperança de ir para o céu e reinar com
Cristo. Acreditam que foram escolhidos pelo próprio Deus para formar parte
de um grupo de pessoas que ‘são compradas’ dentre a humanidade para viver
nos céus, de onde governarão o restante da humanidade. Para isso, foram
‘ungidos’ pelo espírito de Deus, tendo ‘nascido de novo’, e foram gerados
por Deus como ‘filhos’ dele, e desde esse momento, são ‘justos’ à vista
de Deus. Afirmam que apenas 144 mil pessoas têm estes privilégios. Embora
afirmem que a Ceia do Senhor é uma refeição de comunhão, assim como a
que era realizada pelo povo de Israel, só este pequeno grupo têm o direito
de participar.
Como
é que as pessoas vêm a saber se devem participar
ou simplesmente ser observadores respeitosos? Embora em diferentes ocasiões
se viram obrigados a advertir a respeito de “evidências externas”
como transes, alucinações e coisas desse gênero que ocorreram a alguns
de seus membros, a versão oficial é que Deus, por meio de seu espírito
santo, fornece provas aos ‘escolhidos’ para este privilégio, e lhes dá
segurança de que sua esperança é diferente daquela do resto da humanidade.
Este ‘testemunho’ particular é a base de seu
direito de participar dos emblemas como “herdeiros de Deus, mas co-herdeiros
de Cristo”, o que provoca muita incerteza sobre a veracidade desse testemunho.
É comum (e eles mesmos reconhecem isso) que muitos se questionem sobre
sua posição e esperança, ou questionem a de outros. (Por exemplo: muitas
Testemunhas de Jeová questionaram em sua mente a realidade da “unção”
dos cinco membros do Corpo Governante, que nasceram depois de 1.935, pois
isto rompe seu esquema doutrinal de que os 144.000 já estavam completos
por volta daquele ano).[1]
O
que há de verdade em tudo isto? É certo que Jesus Cristo, quando instituiu
esta Comemoração, pensava apenas em um grupo reduzido de seus discípulos?
É verdade que ‘comer e beber’ de seu corpo e seu sangue está
reservado a apenas 144 mil pessoas que são ‘ungidos’ pelo espírito de
Deus? Existe apoio bíblico para adotar um procedimento que permite que
haja pessoas que apenas observam e pessoas que participam dos emblemas?
Há evidências bíblicas que apresentem os cristãos primitivos celebrando
essa Ceia apenas uma vez ao ano, e da maneira que é celebrada pelas Testemunhas
de Jeová?
Quem Deve
Comer e Beber?
Para
respaldar a crença de que apenas um grupo reduzido de pessoas deve comer
e beber na cerimônia da Ceia do Senhor, as Testemunhas de Jeová afirmam
que Cristo validou dois pactos naquela noite: Um,
que denominam “novo”, celebrado entre Jeová Deus e o Israel espiritual,
e outro, celebrado entre Jesus e seus discípulos, que no final das contas
é este mesmo Israel espiritual. (Veja este raciocínio
Um
de tais pactos foi “validado pelo sangue derramado de Jesus”, e o segundo
“foi inaugurado, no que tange aos discípulos de Jesus, por serem eles
ungidos com espírito santo no dia de Pentecostes de 33 EC.”, segundo
as palavras literais deles mesmos.
Partindo
deste argumento, raciocinam que só os que estão incluídos nesse “novo
pacto” e no “pacto para um reino”, estão autorizados a comer e beber de
seu corpo e seu sangue. (Esta doutrina é desenvolvida em quase todas as
suas publicações. Como exemplo, veja A Sentinela de 15 de fevereiro
de 1985, pág. 12-13).
Selecionar
estes argumentos de Jer. 31:31-33
e Luc. 22:28-30,
colocando-os lado a lado com passagens de Revelação, capítulos 7 e 14,
para no final afirmar que só um grupo de 144 mil pessoas é autorizado
a tomar do pão e do vinho, não requer um grande esforço mental e artesanal.
Apenas um pouco de astúcia e sutileza premeditada.
Em
primeiro lugar, não há relatos bíblicos que indiquem que o ‘novo pacto’
de Jer 31:31-33, tenha como destinatário
um grupo composto de apenas 144 mil indivíduos.
Se
houve algo que tornou obsoleto e descartável o pacto que Jeová fez com
Israel (e com todo o Israel, não apenas com a tribo de sacerdotes)
foi o fato de que este pacto limitava o acesso de todas as nações aos
privilégios da salvação. Paulo ensinou: “Isto é excelente e aceitável
à vista de nosso Salvador, Deus, cuja vontade é que toda sorte de homens
sejam salvos e venham a ter um conhecimento exato da verdade”. (1 Tim
2:3, 4.)
Sim,
“porque Deus amou tanto o mundo, que deu o seu Filho unigênito, a fim
de que todo aquele que nele exercer fé não seja destruído, mas
tenha vida eterna.”. (João 3:16) “Dele é que
todos os profetas dão testemunho, de que todo aquele que deposita fé
nele recebe perdão de pecados por intermédio de seu nome.” (Atos 10:43.)
“Pois há um só Deus e um só mediador entre Deus e homens, um homem,
Cristo Jesus, o qual se entregou como resgate correspondente por todos”.
(1Tim 2:5, 6.)
Sem
necessidade de muitas explicações, podemos observar como os textos bíblicos
estabelecem uma nova perspectiva para os humanos após a vinda de Cristo.
O sangue dele limpa, perdoa, compra e dá acesso ao Pai para toda a humanidade,
não apenas para um grupo limitado. Nada há na Bíblia que limite estes
privilégios a alguns, nada há nas palavras de Jesus que impeça qualquer
pessoa de qualquer lugar, de vir a ser limpa, perdoada e comprada.
O
‘novo pacto’ era a antítese do ‘antigo pacto’. Paulo foi bastante claro
ao dar as razões do novo, quando disse: “Porque, se aquele primeiro
pacto tivesse sido sem defeito, não se teria procurado lugar para um segundo;
porque ele acha falta no povo quando diz: “‘Eis que vêm dias’, diz Jeová,
‘e eu concluirei um novo pacto com a casa de Israel e com a casa de Judá;
não segundo o pacto que fiz com os seus antepassados no dia em que os
tomei pela mão para os tirar da terra do Egito, porque não continuaram no meu
pacto, de modo que parei de me importar com eles’, diz Jeová.” ”‘Pois,
este é o pacto que celebrarei com a casa de Israel depois daqueles dias’,
diz Jeová. ‘Porei as minhas leis na sua mente e as escreverei nos seus
corações. E eu me tornarei seu Deus e eles é que se tornarão meu povo. ”‘E
de modo algum ensinará cada um ao seu concidadão e cada um ao seu irmão,
dizendo: “Conhece a Jeová!” Porque todos me conhecerão, desde [o]
menor até [o] maior deles. Porque serei misericordioso para com as suas
ações injustas e de modo algum me lembrarei mais dos seus pecados.’” Ao
dizer “um novo [pacto]”, tornou obsoleto o anterior. Ora,
aquilo que se torna obsoleto e fica velho está prestes a desaparecer.”
(Heb 8:7-13.)
Sim,
este pacto não tinha o propósito de dividir a humanidade em dois grupos
assim como o antigo tinha feito. (Efe 2:14-16.)
Este pacto não se baseava numa lei escrita que condenava novamente os
seres humanos, e sim na bondade que Deus tem para conosco, dando-nos seu
Filho para que “todo aquele” que tem fé, tenha vida eterna e receba o
perdão de seus pecados. Cristo faz a mediação entre Deus e os homens para
que este perdão seja concedido sem restrições.
Foi
exatamente por isso que Cristo disse que o ‘copo significava o ‘sangue
do pacto’, que iria ser derramado para o perdão de pecados’, porém, não
apenas de um grupo limitado de pessoas, e sim de toda a humanidade.
Nada
há nestes relatos que nos induza a pensar que quando Paulo aplicava essas
palavras aos cristãos do primeiro século, pensava em 144 mil pessoas apenas.
Pelo contrário, todos os relatos nos levam a concluir que Paulo pensava
na humanidade em geral pela qual Cristo tinha morrido, e que graças a
este novo pacto, todos os humanos tinham acesso ilimitado à misericórdia
de Deus e ao perdão de seus pecados.
Em
segundo lugar, e no que se refere ao suposto “pacto para um reino” que
Cristo fez com seus discípulos, a leitura do relato em questão, leva muitas
pessoas a um raciocínio diferente. O relato diz: “Vocês são os que têm
permanecido ao meu lado durante as minhas provações. E eu lhes designo
um Reino, assim como meu Pai o designou a mim, para que vocês possam comer
e beber à minha mesa no meu Reino e sentar-se em tronos, julgando as doze
tribos de Israel.”. (Luc 22:28-30 Nova Versão Internacional).
As
Testemunhas de Jeová, não contentes com a maneira habitual de traduzir,
vertem os versículos em questão do seguinte modo:
“No entanto, vós sois os que
ficastes comigo nas minhas provações; e eu faço convosco um pacto, assim
como meu Pai fez comigo um pacto, para um reino, a fim de que comais e
bebais à minha mesa, no meu reino, e vos senteis em tronos para julgar
as doze tribos de Israel.”
Desta maneira sutil, e orientando-se por esta segunda maneira de
traduzir, aquilo que seria uma “atribuição” ou “designação” em favor de
seus discípulos, eles preferem ver como um “pacto” de caráter legal, e
enfatizam essa ‘legalidade’ por logo em seguida relacioná-lo com o “novo
pacto” prometido em Jeremias, que segundo
ele anunciava, iria ser validado com o seu próprio sangue.
Curiosamente,
a palavra grega utilizada aqui é diatithemai
que significa: 1 fazer, dispor, arrumar, dar, ordenar. 2 fazer um pacto.
Esta palavra é sempre traduzida em português por sua primeira acepção,
pois para a segunda, existe outra palavra grega: diathéke
que a TNM verte como pacto nos 33 lugares onde essa palavra
ocorre.
Se
já não é muito apropriado traduzir diathéke
como “pacto” em todos os lugares onde essa palavra aparece, (o Dicionário
Expositivo das Palavras do Novo Testamento, de Vine,
pág. 76, sob o verbete “Concerto”, diz que seu significado primário é
“testamento que distribui a propriedade depois da morte de acordo com
os desejos do possuidor”), muito menos ainda é fazer isso com uma palavra
derivada, o que gera na TNM em espanhol expressões
tão estranhas como “pacto que Deus pactuou”, “pacto que pactuarei”, que
soam redundantes. (Veja como a TNM em espanhol traduz esta palavra
em Atos 3:25; Heb 8:10; 10:16 e compare-os
com qualquer outra tradução. As diferenças são evidentes.[2].
De
qualquer maneira, eles perseguem um objetivo muito específico e com esta
maneira de traduzir conseguem isso, embora façam ligação entre duas idéias
não confirmadas: 1ª) a existência prévia de um pacto de Deus com seu Filho,
como se tal ato tivesse um caráter regulamentado por lei, e 2ª) os que
perseveraram com ele em suas provações são os que estão comprometidos
com ele em um pacto para reinar sobre a humanidade, os quais, por sua
vez, são os mesmos que estão introduzidos no novo pacto. Este pacto
é o que dá caráter oficial à sua participação no pão (corpo) e no vinho
(sangue) da Ceia do Senhor.
Digo
duas idéias não confirmadas, pois sua maneira de traduzir obriga
à existência prévia de um “pacto” oficial entre Deus e Jesus Cristo para
um Reino, sobre o qual a Bíblia nada diz, e que resulta totalmente ilógico
se levarmos em conta de quem estamos falando. E, segundo, limita a territorialidade
do “novo pacto” a um grupo pequeno de pessoas, o que contradiz os diversos
textos bíblicos que citamos acima, que dizem justamente o contrário.
Era
possível que Cristo fizesse um pacto desta natureza com seus discípulos?
Era possível que ele fizesse um pacto de um Reino que ainda não tinha
recebido? Como pode ser assim se em Mateus 20:20-23
ele mesmo disse que ocupar um posto no Reino era assunto para seu Pai
resolver? Como é que em Lucas 12:32 ele havia
dito a seus discípulos, que não deveriam estar temerosos, pois o Pai tinha
aprovado dar-lhes o Reino?
O
problema aumenta para as Testemunhas de Jeová quando se fala de “receber”,
“entrar” ou “herdar” o Reino, pois esta é uma promessa que não está limitada
a 144 mil pessoas. Até as “ovelhas” rebaixadas pelas Testemunhas, recebem
o Reino! (Mateus 25:34) Nada limita esta oferta
maravilhosa de “participar” plenamente de seus privilégios!
Não,
nem sequer os cristãos do primeiro século tinham consciência de um número,
para eles “mágico”, como é o de 144.000, pois foi só no ano 96
D.C. – no qual se supõe que João escreveu o Apocalipse – que se revelou
esta cifra. Até aquele ano, não se encontram referências a tal ensino
no cristianismo primitivo, algo absolutamente ilógico se levarmos em conta
que este ensino é fundamental para o procedimento, a esperança e a pregação,
na perspectiva das Testemunhas de Jeová.
Logicamente,
se Lucas 22:29 vincula a participação de todas
aquelas pessoas que vão receber o reino com sua participação na Ceia do
Senhor, comendo e bebendo dos emblemas, isto significaria que TODOS os
discípulos de Jesus, incluindo as “ovelhas”, que “herdam” o Reino, devem
comer e beber do pão e do vinho como sinal de agradecimento e respeito,
e como “lembrança” do que Cristo fez por eles.
Porém
há mais envolvido. Observe que as palavras de Lucas 22:28-30,
citadas pelas Testemunhas de Jeová para dar apoio a este ensino, foram
pronunciadas por Jesus Cristo depois de ter finalizado a Ceia do
Senhor, e depois de ter ocorrido uma discussão entre os apóstolos
acerca de qual deles era o maior. Se fosse a intenção
de Jesus relacionar a participação no pão e no vinho e o “novo pacto”,
com o suposto “pacto” que estavam celebrando com ele, o mais lógico é
que tivesse feito isso no momento do ato de distribuir o pão e o vinho
para, desta maneira, não deixar a menor dúvida sobre a relação de uma
coisa com a outra, ou seja, sobre quais deveriam participar e quais não
deveriam, principalmente levando em conta que no futuro ‘outro grupo’
(segundo a doutrina das Testemunhas) unir-se-ia a eles sem poder participar.
Esta
interpretação dada pelas Testemunhas de Jeová difere substancialmente
das palavras que o próprio Jesus havia dito um ano antes. Vejamos o relato
do João 6:51-57, que é bem significativo. Diz assim:
“Eu sou o
pão vivo que desceu do céu; se alguém comer deste pão, viverá para sempre;
e, de fato, o pão que eu hei de dar é a minha carne a favor da vida do
mundo.” Portanto, os judeus começaram a contender entre si, dizendo:
“Como pode este homem dar-nos sua carne para comer?” Concordemente, Jesus
disse-lhes: “Digo-vos em toda a verdade: A menos que comais a carne do
Filho do homem e bebais o seu sangue, não tendes vida em vós mesmos. Quem
se alimenta de minha carne e bebe meu sangue tem vida eterna, e eu o hei
de ressuscitar no último dia; pois a minha carne é verdadeiro alimento,
e o meu sangue é verdadeira bebida. Quem se alimenta de minha carne e
bebe meu sangue permanece em união comigo e eu em união com ele. Assim
como o Pai vivente me enviou e eu vivo por causa do Pai, também aquele
que se alimenta de mim, sim, esse viverá por causa de mim.”.
(TNM)
Embora
o convite que Jesus faz de ‘comer e beber’ seja extensivo a todos os que
desejam vida eterna, acreditei por muitos anos que essas palavras ‘comer
e beber’ estavam limitadas a apenas um grupo reduzido de discípulos de
Jesus. Este era o ensino oficial, e assim eu o refleti nas conferências
que dirigi em diversas ocasiões para o resto dos companheiros celebrantes
desta Ceia. Eles acreditavam que estas e outras palavras se aplicavam
a um grupo reduzido de pessoas que identificam com o “rebanho pequeno”
de Lucas 12:32. (Veja esta aplicação
Foi
só em 1986, depois de fazer um ‘estudo adicional’ do capítulo 6 de João,
que eles admitiram que, pelo conteúdo, fraseologia e assistência, Jesus
Cristo estava convidando as pessoas em geral, para que ‘comessem’ e ‘bebessem’
de sua carne e de seu sangue, pois de outra maneira morreriam.
Com
este importante ‘ajuste’, tiveram de mover os ‘fios’ doutrinais para não
cair em sérias contradições. Viram-se obrigados a dar uma interpretação
distinta ao “comer e beber”, para que isso não fosse visto como literal.
Tiveram também de negar a todo custo que com suas palavras Cristo estava
assinalando uma futura celebração de sua morte, pois isto abriria o caminho
para confirmar que “todos” tinham de comer o corpo e beber o sangue de
Jesus Cristo, e que “a menos” que fizessem isso não teriam vida eterna.
Na
Sentinela citada, deixaram vários desses ‘fios’ soltos na meada,
para não romper bruscamente com seu passado, e tiveram, por exemplo, de
inventar dois tipos de uniões para explicar as palavras de Jesus, ‘quem
se alimenta de minha carne e bebe meu sangue permanece em união comigo
e eu em união com ele’; deram um novo sentido à frase ‘vida em vós mesmos’,
pois essa mesma expressão aparece em João 5:26,
e tem conotações muito diferentes das que eles lhe davam (Veja Perguntas
dos Leitores de A Sentinela de 15 de fevereiro de 1986, pág.
30) e inventaram uma forma de ‘comer e beber’ diferente da literal.
O
caso é que se as palavras de João 6, foram
dirigidas à humanidade em geral, e estão se referindo a uma esperança
terrestre e não celestial, não percebiam uma nova contradição, a saber:
sua ousada afirmação de que esta esperança terrestre foi agora,
de 1935 em diante, estendida à humanidade em geral, e não foi estendida
por Jesus Cristo durante seus três anos e meio de pregação. Eles crêem
que de 33 D.C. até 1935, Cristo esteve ocupado
em completar o grupo seleto dos ‘escolhidos’, ‘predeterminados’ e ‘selecionados’
144 mil, e que em 1935, uma vez completo o grupo, estendeu-se um convite
geral a uma grande multidão de outras ovelhas para que adorem a Jeová
na terra. Mas se isto é assim, de nada serviria Jesus ter (em João capítulo
6) convidado as pessoas a ‘comer e beber’ com perspectivas terrestres,
pois estas só começariam a surgir depois de 1935.[3]
Eles
interpretam que o momento do cumprimento das palavras de Jesus em João
10:16, não foi em 36 D.C. quando os gentios foram convidados
ao seu rebanho, e sim em 1935, quando no discurso do ‘juiz’ Rutherford,
deu-se um ‘lampejo’ de quem eram os componentes da grande multidão, as
‘ovelhas’ da parábola, e as ‘outras ovelhas’ aqui citadas, e se incentivou
os mesmos a que se batizassem como Testemunhas de Jeová. Durante três
anos os “ungidos” celebraram esta comemoração com exclusividade, e foi
em 1938, que convidaram a estas ‘outras ovelhas’ pela primeira vez a que
assistissem à Comemoração da morte de Cristo como simples observadores.
Entretanto,
afirmaram
Esta
declaração é totalmente incongruente! Jesus estava dizendo àqueles judeus o que teriam de fazer, a saber: “Digo-vos em toda
a verdade: A menos que comais a carne do Filho do homem e bebais o seu
sangue, não tendes vida em vós mesmos. Quem se alimenta de minha carne
e bebe meu sangue tem vida eterna, e eu o hei de ressuscitar no último
dia”. (João 6:53,54)
Simplesmente
isso. De duas uma: ou ele estava oferecendo naquele momento a esperança
terrestre àqueles judeus, sendo, portanto, errôneo o ensino de que este
convite só começou no ano de 1935; ou ele estava oferecendo uma esperança
celestial a ‘todo aquele’ que tivesse fé nele, da maneira que tinha enfatizado
nos versículos
Uma
vez que a doutrina das Testemunhas de Jeová, estabelecida pelo segundo
presidente da Torre de Vigia, limitou a esperança celestial a um grupo
de privilegiados, viram-se obrigados a voltar atrás, e retificar a explicação
do capítulo 6 de João que antes aplicavam a este grupo reduzido, em vista
da universalidade das promessas contidas no capítulo.
Por
outro lado, limitar a compra, o perdão e o testemunho do espírito de Deus
a um grupo de pessoas, notificando-as que elas são as escolhidas como
‘filhos de Deus’ contradiz o que o apóstolo vinha explicando, a saber,
que “todos os que são conduzidos pelo espírito de Deus, estes são
filhos de Deus.” (Rom. 8:14) Sim, os “filhos de Deus” não são apenas 144 mil pessoas,
como afirmam as Testemunhas de Jeová; são todos os que são conduzidos
pelo espírito de Deus, e ser conduzido pelo espírito santo de Deus só
não é possível para os que desejam ser conduzidos pela carne. (Rom. 8:5-9;
Gal. 5:16-18.) Ou seja, a todos os humanos que “recebem”
a Jesus, ele dá autoridade para se tornarem filhos de Deus. (João 1:12.)
Por
fim, uma das maiores inconsistências em sua maneira de raciocinar, tem
que ver com a afirmação de que “apenas os ‘ungidos’ devem participar do
‘pão e do vinho’”. Será que não se dão conta de que quando Jesus convidou
seus apóstolos a ‘comer’ e ‘beber’, estes ainda não tinham sido ‘ungidos’
com o espírito santo e que essa unção só veio posteriormente?
Comer e Beber
Indignamente?
Mas,
não é verdade que o apóstolo Paulo limitou a participação geral na Ceia
do Senhor, no que se refere ao ‘comer e beber’? – perguntam muitas Testemunhas
de Jeová. O trecho bíblico em questão diz:
“Conseqüentemente,
quem comer o pão ou beber o copo do Senhor indignamente, será culpado
com respeito ao corpo e ao sangue do Senhor. Primeiro, aprove-se o homem
depois de escrutínio, e deste modo coma do pão e beba do copo. Pois, quem
come e bebe, come e bebe julgamento contra si mesmo, se não discernir
o corpo.”. (1 Cor 11:27-29)
Curiosamente,
não são apenas as Testemunhas que utilizam esta passagem para limitar
a participação das pessoas na celebração, mas também alguns grupos evangélicos
e a própria Igreja Católica, adverte seriamente sobre “comer indignamente”,
o “escrutínio” a que devem se submeter os cristãos antes de comer e a
necessidade de “discernir” o Corpo.
Vozes
recentes, por exemplo, advertiram: “Nossa participação na Mesa do Senhor
deve ser a “união-comum” única de Seu Corpo único, sem divisão alguma
em práticas, em crenças fundamentais,
Outros
estabelecem uma lista de requisitos extraídos de diferentes passagens
bíblicas, dizendo que se alguém não cumprir, ou não crer, ou não contemplá-los
em sua vida espiritual, pode ser impróprio que ele coma ou beba. A Igreja
Batista, por exemplo, diz que ‘para participar da Ceia do Senhor corretamente,
terá de ser salvo, ser membro da igreja local, terá de prestar contas
da vida e confessar os pecados’.
Alguns
dissertam longamente sobre conceitos doutrinais que, embora válidos, não
deveriam ser misturados aqui. Acreditam que o “corpo” que se deve “discernir”
não se refere ao corpo e ao sangue literal de Jesus. Afirmam que esse
“corpo” é a Igreja ou congregação de Cristo, e que a participação nesta
Ceia, é a “comunhão” com tal Corpo.
É
verdade que quem assume a vida cristã, passa da morte para a vida, é uma
nova criação, nasce de novo. Seu próprio espírito lhe diz que é ‘filho
de Deus’. Na prática, é um sentimento agradável e sereno de sentir-se
filho de Deus e chamar a Deus de Pai quando ora
Um
católico possivelmente aplicará a expressão “indignamente” ao caso de
alguém não ter confessado seus pecados a um sacerdote antes de comungar,
(antigamente se condenava a pessoa que não
jejuava antes de comungar), ou então não acreditar na transubstanciação.
Uma
Testemunha de Jeová aplicará a mesma expressão à questão de o participante
ser ou não dos “ungidos”, etc.
A
seriedade na participação é evidente, e não podemos desconsiderá-la. Qualquer
um pode comer o pão ou beber o copo do Senhor, e fazê-lo indignamente.
A Ceia do Senhor não é uma refeição comum, não é uma reunião puramente
social. A pessoa deve comparecer a ela em ótimo estado. Terá de ‘discernir’
o que está fazendo, o significado e a repercussão que tem para cada um
de nós a participação em tais emblemas.
À
base do contexto, na congregação de Corinto alguns não mostravam um comportamento
digno dessa celebração e foi por isso que Paulo os repreendeu. Muitos
simplesmente se reuniam para comer e beber por ocasião da celebração da
Ceia do Senhor, sem distinguir que esse ato é uma coisa muito diferente.
Além disso, não tinham consideração uns para com os outros.
Muitas
pessoas que lêem com simplicidade este trecho, e sem tentar achar significados
que não estão lá, acreditam que não há razão para
estar acrescentando e fazendo uma lista de requisitos e doutrinas a se
levar em conta na hora de comparecer a essa celebração com o espírito
adequado à circunstância, que “discernir o corpo” refere-se exclusivamente
ao que representam o pão e o vinho, não entrando o trecho no mérito de
que na cerimônia da celebração o fato importante e fundamental é que
todos os cristãos formam parte do corpo de Cristo, membros uns dos outros,
etc.
É
certo que pode existir (e existe mesmo) diferença de entendimento no que
se refere às doutrinas de cada pessoa. Infelizmente os cristãos nominais
(e todos somos) estão divididos. As doutrinas nos dividiram. Isso será
julgado por Deus. Possivelmente sem levar em conta a organização a que
pertencemos, e sim individualmente. A esta altura, isso parece óbvio.
Para
ilustrar isso: Um católico poderia me dizer que eu não celebro apropriadamente
essa Ceia, porque não compareço a uma cerimônia em que há um sacerdote
‘ordenado’ para poder, mediante suas palavras, levar a
efeito a conversão do pão na carne literal de Jesus Cristo e do
vinho em seu sangue. Pela mesma razão, eu poderia dizer a ele que isso
é algo incompreensível, que as palavras de Jesus tinham um sentido simbólico,
em representação de uma realidade, sua entrega por nós e, portanto, ele
teria de tomar cuidado em como celebra esse ato para não ser réu da morte
do Senhor e estar comendo para sua própria condenação.
Deus
julgará a cada um segundo seu conhecimento e segundo seu coração. Nisto
há coisas que não chego a compreender, devido, como dizia,
à divisão absurda entre as confissões cristãs. Mas é assim que as coisas
são.
Por
isso, a pessoa deve escrutinar-se de maneira equilibrada e, se depois
do auto-exame, encontra algo que perturba sua consciência, pode optar
por não participar dessa ocasião até outra ocasião mais conveniente, já
que ‘quem come e bebe, come e bebe julgamento contra si mesmo se não discernir
o corpo’.
Tudo
considerado, podemos concluir que nenhum ser
humano tem autoridade para limitar o número de participantes do ‘pão e
vinho’ sem cair num grave perigo de legislar sobre outros acerca de algo
tão crucial como o sacrifício de Cristo. Não podemos imaginar Cristo convidando
as pessoas em geral a comer e beber de seu corpo e de seu sangue e, por
outro lado, alguns de seus apóstolos estabelecendo requisitos e o número
dos que podiam ter acesso a esse privilégio.
Temos
também de respeitar a quem, depois de um ‘escrutínio’, opta por não participar
em uma ou várias ocasiões. Na realidade, não somos ninguém para ‘canalizar’
a vida que Cristo trouxe à humanidade. Tampouco temos o direito de forçar
a vontade de alguém para que participe. É um ato absolutamente livre e
pessoal de cada ser humano.
Comer e Beber – Quantas Vezes?
Muitas
igrejas sustentam que celebram esta festividade juntamente com todas as
demais, de acordo com o que foi ordenado por Cristo. As Testemunhas de
Jeová destacam que “talvez a mais notável diferença [entre eles e outros]
seja a freqüência da celebração.” (Veja A Sentinela de 15
de março de 1994, pág. 4).
São
dois os principais argumentos utilizados pelas Testemunhas para dar base
a uma celebração anual: 1º) assemelhar essa celebração a um aniversário,
e 2º) assemelhar tal celebração à Páscoa judaica que era celebrada anualmente,
numa data e hora específica.
Com
relação ao primeiro argumento, as Testemunhas de Jeová sempre se inclinaram
a relacionar a celebração da morte do Senhor com um aniversário, deduzindo,
portanto, que essa celebração deve ser realizada uma vez ao ano.
Isto
é confirmado pela Sentinela já mencionada, na qual, depois de citar
1 Cor 11:24, 25, segundo a Nova Bíblia Inglesa, que diz:
““Fazei isto em comemoração de mim.”, perguntam: “Quantas vezes se celebra
uma comemoração ou um aniversário?” Sem hesitar
respondem: “Usualmente, apenas uma vez por ano.”
Observe
a maneira intencional de conduzir o leitor a conclusões manipuladas. Primeiro,
partindo da palavra comemoração, usada na Nova Bíblia Inglesa,
associam essa palavra com o termo aniversário. Embora tais palavras
possam transmitir idéias diferentes, eles as associam, para que o leitor
creia que uma é sinônima da outra, e que Cristo, quando falou em “recordar”
sua morte, falava de “comemorar” como se essa recordação fosse um aniversário.
Depois, tiram conclusões que, como podemos observar, nem sequer são definitivas,
uma vez que respondem com a frase: “Usualmente...”, dando-se conta
de que algumas comemorações ou aniversários podem ser celebradas mais
de uma vez ao ano. Todavia, desconsideram isso e apóiam toda a sua argumentação
em que tal ato deve ser celebrado uma vez por ano.
Independentemente
de todo esse malabarismo para que as Escrituras digam o que um grupo deseja
que digam, o importante para nós seria procurar
e encontrar argumentos bíblicos para justificar que a Ceia do Senhor possa
ser classificada como ato ou acontecimento comemorativo de periodicidade
anual, ou aniversário.
Como
não existe um mandado específico de Jesus quanto a realizar esta Ceia
anualmente, e não existem relatos bíblicos que apresentem os cristãos
do primeiro século celebrando tal acontecimento de forma anual, temos
de nos remeter às próprias palavras utilizadas por Jesus, para ver se
nelas se encontra algum indício dessa intenção.
Jesus
disse literalmente a seus discípulos: “Persisti em fazer isto em memória
de mim”, (Luc 22:19) utilizando a palavra
grega anamnesis (ana,
‘para cima ou de novo’, mneme, ‘memória’,)
a qual segundo o Dicionário Expositivo das Palavras do Novo Testamento,
de Vine, pág. 746, significa, “não ‘em memória de’, mas
trazendo afetuosamente Sua Pessoa à mente, [...] não é simplesmente um
trazer exterior à ‘lembrança’, mas um despertar da mente”.
Efetivamente,
a ação de recordar Jesus, o ato de recordar, é diferente do que
transmite a expressão grega mnemósumon
que se traduz como ‘memorial’, lembrete, o objeto da recordação,
pois a expressão de Jesus nos dá a entender que a Ceia do Senhor, como
ordenança e meio de graça, não exerce sua virtualidade pelo pão ou vinho
em si, e sim pela fé do crente, suscitada pelos símbolos representativos
do que Cristo fez por nós
Como
se sabe, é costume dos humanos erguer monumentos
ou placas ‘em memória de’ alguém, ou dedicar um dia do ano para recordar
algum acontecimento. Não parece que Jesus Cristo estivesse se referindo
a este costume, pois, como acrescenta Vine
na pág. 746, “o termo anamnesis indica uma ‘lembrança’ sem auxílio” o que
realça ainda mais a desconexão de tal ‘memória’ com uma data específica,
um dia determinado, como no caso duma celebração de aniversário.
Conscientes disto, as Testemunhas de Jeová deixaram de utilizar o termo
‘Memorial’, substituindo-o por ‘Comemoração’, pois se aproxima mais da
definição bíblica.
Apesar
disso, permanece o fato de que a palavra ‘memória’ utilizada pelos evangelistas
não tem nada que ver com celebração, aniversário ou comemoração anual
de um fato, e sim com lembrança, trazendo à memória um fato concreto,
sem necessidade de um objeto externo que induza tal lembrança.
Os seguidores de Cristo devem “recordar” a morte de Jesus, fazendo o que
ele fez, não uma vez ao ano, conforme determinado por um calendário, e
sim todas as vezes que desejarem, conforme determinar seu coração cheio
de gratidão. Por isso algumas traduções vertem a frase como: “façam isto
em memória de mim” (Nova Versão Internacional; Almeida Revista e Atualizada).
Isto
concorda com o tempo verbal da palavra grega que Jesus Cristo utilizou,
quando disse: ‘Fazei’, que está no imperativo afirmativo e sugere que
a participação freqüente na Ceia do Senhor é um mandado divino (Atos 20:7),
ou com a expressão “todas as vezes” (grego
hosakis) a qual segundo o Dicionário
Expositivo das Palavras do Novo Testamento, de Vine, pág. 806, é um “advérbio relativo”, e dá a entender
“sempre, todas as vezes que”, e se traduz por “todas as vezes”.
Esta
é diferente da palavra pollakis, utilizada
em Hebreus 9:26, que tem o significado de “algumas
vezes” e que a TNM verte em inglês da mesma forma que em 1 Cor
11:26, ou seja com o termo “often”.
(Em português é traduzida pela frase “muitas vezes”).
Sim,
Paulo dá a entender que esta prática deveria ser feita com freqüência,
repetidamente porque “quantas vezes” ou “todas as
vezes” que esse ato for realizado, proclama-se a morte do Senhor.
Já
que a palavra ‘memória’ não tem nada que ver com o número de vezes que
se deve recordar a morte do Senhor, por que limitar nossa ‘proclamação’
da morte do Senhor a apenas uma vez ao ano? Por que limitar esse ato a
um dia específico do ano? Talvez seja muito apropriado celebrar
a Ceia do Senhor na noite da Páscoa, mas não há base para limitá-la
a este evento anual. Não há sentido em uma ação tão transcendente estar
limitada a uma celebração anual, como se fosse um aniversário.
Quanto
a assemelhar a Ceia do Senhor à Páscoa judaica, devemos ser criteriosos
nesta afirmação. Não podemos ir de um lado para o outro da questão simplesmente
porque em certo momento tal paralelo nos interessa e em outros, não.
Efetivamente,
as publicações das Testemunhas de Jeová raciocinam: “A Páscoa era uma
celebração anual. Logicamente, pois, o mesmo se dá com a Comemoração.”.
(Veja A Sentinela de 15 de março de 1994, pág. 4). Ou, “Deve a
morte de Cristo ser celebrada diária ou talvez semanalmente? Ora, Jesus
instituiu a Refeição Noturna do Senhor e foi morto na Páscoa, que comemorava
a libertação de Israel da servidão egípcia... A Páscoa era celebrada apenas
uma vez por ano, em 14 de nisã. (Êxodo 12:6, 14; Levítico
23:5) Isto sugere que a morte de Jesus deve ser celebrada apenas com a
mesma freqüência que se celebrava a Páscoa — anualmente, não diária ou
semanalmente.” (A Sentinela de 15 de março de 1993, pág. 5).
No
entanto, em outro lugar afirmam: “Esta ceia não era uma continuação da
Páscoa judaica. Era algo novo que passou a ser chamada de Refeição Noturna
do Senhor.” (A Sentinela de 15 de março de 1993, pág. 3).
Já
É
por isso que dizemos que é preciso seriedade na hora de se fazer afirmações
deste tipo. Não podemos utilizar um paralelo bíblico em sentido literal
para defender nossa interpretação de certas passagens, e esquecer
detalhes desse mesmo paralelo, - ou interpretar em ‘sentido figurado’
- quando não está de acordo com a mesma interpretação. E evidentemente,
o que a liderança das Testemunhas de Jeová faz aqui é apoiar-se nas Escrituras
para justificar os interesses de poder e controle que os ‘ungidos’ exercem
sobre a ‘grande multidão’, procurando os ‘aspectos’ que coincidem com
sua interpretação prévia, visando a dar apoio à sua versão.
Se
a liderança das Testemunhas de Jeová afirma que a Ceia do Senhor corresponde
à Páscoa judaica, deveriam ser consistentes com essa afirmação, pois durante
a Páscoa judaica, TODOS os judeus e até os estrangeiros, participavam,
não como meros espectadores e sim ativamente.
Na
Páscoa não existia a figura do ‘espectador’. Todos comiam do Cordeiro
Pascoal como sinal de apreço pelo livramento da matança dos primogênitos
e do povo egípcio, que Jeová lhes tinha concedido. Essa celebração era
em nível familiar, e realizada nos lares de cada israelita, não em grandes
salões como fazem as Testemunhas na atualidade.
Porém,
além de tudo isto, a Páscoa judaica mantém um paralelo evidente com a
Ceia do Senhor. O apóstolo Paulo chamou Jesus de ‘Cristo, a nossa páscoa’
e disse com clareza: “A vossa [razão para] jactância não é excelente.
Não sabeis que um pouco de fermento leveda a massa toda? Retirai o velho
fermento, para que sejais massa nova, conforme estiverdes livres do levedo.
Pois, deveras, Cristo, a nossa páscoa, já tem sido sacrificado. Conseqüentemente,
guardemos a festividade, não com o velho fermento, nem com o fermento
de maldade e iniqüidade, mas com os pães não fermentados da sinceridade
e da verdade.” (1 Cor 5:6-8.)
O
que quis dizer Paulo com estas palavras? O que era o ‘velho fermento’
com o qual se podia guardar a festividade, mas que Paulo aconselhou a
não se fazer?
Basicamente,
o enfoque diferente que se deveria dar à ‘festividade’
que o cristão tinha de guardar, em contraste com o da Páscoa judaica,
tem que ver com a Lei que regia a primeira, e a benignidade imerecida
que rege a segunda.
Paulo
desenvolveu este tema na carta que enviou a Colossos
e a Éfeso, onde enfatizou como a Lei “que
consistia em decretos e que estava em oposição” aos humanos, foi tirada
do caminho e pregada na estaca de tortura (Col
2:14.) com o objetivo de libertar o homem.
E
raciocinou: “Portanto, nenhum homem vos julgue pelo comer ou pelo beber,
ou com respeito a uma festividade ou à observância da lua nova ou dum
sábado; pois estas coisas são sombra das coisas vindouras, mas a realidade pertence
ao Cristo.” (Col 2:16, 17.)
Assim,
ninguém está autorizado a utilizar a Páscoa como ‘força de Lei’ que regulamente
um ritual ou um proceder transferido para a Ceia do Senhor. Aquela era
uma “sombra” e, como disse Paulo, uma sombra não pode ser utilizada para
‘julgar’ o proceder dos humanos. Não é válido dizer que a Páscoa mantém
correspondência com a Ceia em ‘algumas’ coisas (aquelas que coincidem
com crenças e práticas das Testemunhas de Jeová,) e em outras não (nas
que não coincidem com tais crenças), como dão a entender. Temos de nos
ater à realidade, que é Cristo, e analisar com objetividade suas palavras
e o proceder que seus discípulos determinaram com base nestas, para delimitar
um modo de proceder que se aproxime do previsto pelo próprio Jesus.
‘Partindo’ o pão.
Curiosamente,
costuma-se esquecer alguns trechos bíblicos que podem nos ajudar a ter
uma perspectiva mais apropriada do tema em questão. É interessante observar
como nos Atos dos Apóstolos diversos relatos mencionam as ocasiões em
que os discípulos se reuniam para “partir o pão”, (grego, klásis)
expressão que ocorre em mais de uma ocasião.
Embora algumas obras de referência alertem contra aplicar a frase
automaticamente à celebração da Ceia do Senhor, a tradução bíblica
utilizada pelas Testemunhas de Jeová toma novamente certa liberdade com
os textos relacionados com esta expressão grega, de maneira tal que sua
forma de traduzir (“tomar uma refeição”) dá a entender que sempre que
os primitivos cristãos se reuniam para ‘partir o pão’, faziam-no para
tomar uma refeição como irmandade.
Não
se dão conta e, se este é o caso, desconsideram que se esse fosse o significado
exclusivo de tal termo, os relatos evangélicos desta celebração ficariam
sem sentido, pois se as ocasiões em que o livro de Atos menciona ‘partir’
o pão, não têm nada que ver com a Ceia do Senhor, e sim com ‘refeições’
que os cristãos primitivos organizavam, então
‘a maior celebração do ano para todos os verdadeiros cristãos’ não é mencionada
em parte alguma como um acontecimento que fora celebrado por tais cristãos,
algo absolutamente assombroso, considerando-se o que afirmam as Testemunhas.
Esta
é a dedução que tiramos se lermos única e exclusivamente a Tradução
do Novo Mundo, pois as expressões, ‘partir o pão’ são traduzidas por
“tomar uma refeição”, como se os discípulos tivessem o costume de comer
juntos com bastante freqüência, ou todo primeiro dia da semana, e esse
foi o motivo do registro na Bíblia. Apenas em sua versão com referências
os líderes das Testemunhas reconhecem que literalmente os primitivos cristãos
se reuniam “para partir o pão” (veja a notas desta versão sobre Atos 20:7
e 11), sem insistir muito no significado dessa expressão.
A
realidade é que muitos lexicógrafos da língua grega reconhecem que a expressão
era geralmente utilizada para referir-se a refeições normais, onde se
partia o pão na refeição doméstica. A obra Quadros Verbais no Novo
Testamento cita um erudito (Hackett) como
segue: “Não há margem para dúvida de que neste período, a Eucaristia era
precedida por uma refeição normal, assim como foi o caso quando se instituiu
o regulamento”. Outro erudito do idioma grego (Page)
diz: “Explicar tei klasei tou artou [em 1 Cor 11:20] simplesmente como “A Santa Comunhão” constitui uma
perversão do significado simples das palavras e desfigurar o quadro de
vida familiar, o qual o texto coloca diante de nós como o ideal para os
crentes primitivos”. Assim, parece que esta ação tem de ser examinada
à luz de seu contexto, para discernir o que estava sendo feito em cada
momento específico.
E
não há dúvida de que em algumas passagens tais como Luc
24:30 e Atos 27:35, (quando Jesus comeu pão na viagem com
os dois discípulos, ou quando Paulo incentivou os marinheiros e outros
viajantes a que comessem algo para se alimentar) o objetivo não era celebrar
a Ceia do Senhor.
Por
outro lado, há certos relatos em que parece evidente que se reuniam para
celebrar esse acontecimento. Por exemplo, segundo Atos 2:42,
os primeiros discípulos “perseveravam na doutrina dos apóstolos e na comunhão,
no partir (grego klásei) do pão e nas
orações.” (Almeida Revista e Atualizada)
A
princípio, faziam isto de maneira regular, quase diária. Isto é confirmado
pelo versículo 46 que diz: “E, perseverando unânimes todos os dias no
templo, e partindo (grego, klôntés)
o pão em casa” (Almeida Revista e Atualizada). Provavelmente faziam
assim motivados pelas circunstâncias dos primeiros momentos do cristianismo,
quando compartilhavam seus lares, seus bens e propriedades. O relato afirma:
“Todos os que criam estavam unidos e tinham tudo
Observe
que o relato menciona quatro coisas nas quais os discípulos perseveravam:
1) a doutrina ou ensino dos apóstolos, 2) a comunhão dos bens, 3) partir
o pão e 4) as orações. Que sentido teria assinalar ‘partir’ o pão, como
algo destacado se isto significava que cada dia ‘comiam’ juntos
as refeições normais? Será que “tomar uma refeição” com outros cristãos
está no mesmo nível de orar, ouvir uma doutrina ou compartilhar bens com
outros?
Posteriormente,
esta prática habitual está refletida em Atos 20:7, onde se afirma: “No
primeiro dia da semana, tendo-nos reunido a fim de partir (grego, klásai)
o pão...” (Almeida Revista e Atualizada) Ao que parece o ato de
Jesus de “partir” o pão, durante a última Ceia, tinha chegado a ser peculiar
nela, de tal modo que era identificado pela maneira de fazê-lo (Luc
24:30-31, 35), e chegou a converter-se num
aspecto característico dessa Ceia.
Nota-se,
pois, que em algumas ocasiões que se reuniam, eles “partiam” o pão, com
o único propósito de celebrar ou recordar a morte de Jesus, assim como
Paulo deu a entender aos coríntios, quando
repreendeu as divisões que esta igreja tinha. Paulo lhes diz: “Na orientação
que agora vou dar a vocês, eu não os elogio. Porque as suas reuniões na
igreja fazem mais mal do que bem. Em primeiro lugar me contaram que há
grupos de pessoas que estão brigando nas reuniões da igreja. Eu acredito
que em parte isso é verdade. Não há dúvida de que é preciso haver divisões
entre vocês para que apareçam os que estão certos. Quando vocês se reúnem,
não é a ceia do Senhor que vocês comem.” (1 Cor 11:17-20;
Bíblia na Linguagem de Hoje.)
O
conselho que o apóstolo Paulo deu aos coríntios
é bem significativo. Primeiro, mostra que os coríntios
se reuniam com certa regularidade, seguindo o precedente de outras cidades
nas quais o cristianismo fora estabelecido. O próprio Paulo,
na casa do Tício, o Justo, cuja casa era contígua
à sinagoga, (Atos 18:7) estava acostumado a ensinar que Jesus era o Cristo,
o que levou muitos a tornarem-se crentes.
Paulo
estava falando de reuniões habituais, não de uma reunião extraordinária
que se celebrava uma vez por ano; reuniões nas quais eles tinham o costume
de “partir” o pão, e em que haviam surgido certas divisões. Não parece
provável que desde o ano 52 D.C., quando Paulo deixou Corinto, (depois de fundar esta
congregação e passar um ano e meio com eles) até perto do 55 D.C., quando
ele escreveu a primeira carta, em apenas duas ou três comemorações que
celebraram sem a direção de Paulo (isso na hipótese de uma celebração
anual), eles tenham corrompido a tal ponto a prática da mesma, a não ser
que a Ceia do Senhor fosse celebrada de maneira habitual e repetida.
Quando
Paulo introduz a expressão ‘igreja’ pode ser que alguns sejam levados
a pensar em algo eclesiástico, solene e em ofícios “de igreja” que só
passaram a existir séculos depois, quando alguns líderes religiosos começaram
a formalizar o cristianismo, substituindo a simplicidade da irmandade
que existia originalmente. (Mateus 23:8) Para Paulo, ‘reunir-se como igreja’,
e tomar uma refeição como irmandade era a mesma coisa, pois imperava um
quadro de vida familiar que Cristo tinha incentivado seus discípulos a
ter.
Nestas
primeiras reuniões, o espírito familiar que Cristo incentivara entre seus
discípulos sem dúvida era bem expresso em reunir-se para refeições fraternais
e, nessas ocasiões, acompanhá-las com a expressão de sua fé em comum por
meio da participação no pão e no vinho, como memorial da morte de seu
Senhor. A Ceia do Senhor era uma prática precedida por uma refeição normal,
assim como foi o caso quando Cristo instituiu esta celebração. Nessa reunião
o pão e o vinho eram distribuídos com um novo significado. Estes itens
da alimentação eram repartidos para ‘proclamar’ a morte do Senhor. Porém,
como disse Paulo, quando os coríntios se ‘congregavam’,
ou se ‘reuniam como igreja’, tais reuniões faziam mais mal do que bem.
Eles
estavam pervertendo o verdadeiro significado da Ceia do Senhor, pois aproveitavam
tal acontecimento ou o usavam como justificativa para grandes banquetes
onde imperava o comer e beber (de fato, o apóstolo Paulo disse que “muitos
estavam fracos e doentios, e não poucos estavam dormindo na morte”), e
isto os levava a não entender bem a Ceia do Senhor e seu significado
e não respeitar o caráter sagrado da ocasião. Como sua mente estava sonolenta
ou concentrada em outras coisas, não se achavam em condições de participar
dos emblemas com discernimento. Despercebiam
por completo sua seriedade: que os emblemas representavam o corpo e o
sangue do Senhor e a Ceia era uma recordação da morte dele. Por isso Paulo
sublinhou o grave perigo que corriam os que participavam sem discernir estes
fatos. (1 Cor 11:20-34.)
Aceitar
a Ceia do Senhor como uma celebração da morte do Senhor de maneira anual,
seria como aceitar a prática católica de estabelecer um ‘dia’ das mães,
um ‘dia’ dos pais, um ‘dia’ dos namorados, etc., os quais as Testemunhas
criticam e condenam, como se o respeito e o amor devessem ser expressos
apenas nesse ‘dia’ e não em outro.
Estabelecer
‘um dia’ por ano para proclamar a morte de Jesus, deixaria essa data carente
do verdadeiro significado da morte de Jesus. Limitaria nossa recordação
a um dia por ano.
Por outro lado, é duvidoso que a celebração de uma festividade como
a morte de Jesus trivialize esse acontecimento
pelo fato de fazê-lo mais de uma vez ao ano, assim como é duvidoso que
o fato de um namorado enviar flores de vez em quando e de forma inesperada
à amada, ou um filho presentear seus pais, ou simplesmente dizer que ‘os
ama’, trivialize estas motivações ou atos. Pelo contrário, pois estas
ações não dependerão de uma data específica, e sim de um desejo do coração
que não está regulamentado pelo calendário.
Realmente,
no que se refere às formas e maneiras de celebrar este ato, temos de nos
remeter novamente às palavras de Jesus, quando disse: “Persisti em fazer
isso em memória de mim” (Luc 22:21)
e nos perguntar: O que era “isso”? Uma data? Uma hora? Emblemas específicos?
Ou era a ação em si de reunir-se e realizar o mesmo ato que Jesus realizou
para trazer à memória a transcendência de sua morte? Qual deve ser nossa
preocupação principal em tudo isto? Que o dia em que celebramos esta Ceia
coincida exatamente com o do calendário judaico? Que os pedaços de pão
sejam feitos com farinha de trigo, ou que o vinho tinto não tenha nenhum
tipo de aditivo?
Quando
as pessoas sobrepõem as palavras aos atos, costumam cometer o erro de
revestir as mesmas com ornamentos tais, que muitas vezes as próprias palavras
se apagam, ficando ocultas de seu verdadeiro significado.
Creio
que são pertinentes aqui as palavras que Cristo dirigiu aos fariseus quando
disse: “Guias cegos, que coais o mosquito, mas engolis o camelo!” (Mat.
23:24) E o fato é que neste tema há muita “cegueira”,
e onde há cegueira desta espécie, pode ocorrer que um grupo grande de
pessoas simples e sinceras cuja única motivação é servir a Deus, de algum
modo acabe engolindo grandes “camelos”, sem perceber.
Resumo
As
Testemunhas de Jeová criaram com tudo isto um ritual vazio de conteúdo
e carente do verdadeiro significado que tem a morte de Jesus. Seus líderes
sabem, e tentam combater isto em quase todas as revistas que consideram
este tema, com declarações enfáticas.
Na
Sentinela de 1º de março de 1992, pág. 19, raciocinaram: “Na Comemoração
do ano passado [...] menos de um décimo
de 1 por cento — tomaram dos emblemas. De que benefício é, então,
essa celebração para os milhões de observadores? De grande benefício!”
Note
sua exclamação. Talvez esta mesma pergunta
tenha sido repetida em diversas ocasiões ao longo dos anos e como única
resposta tenham utilizado frases vigorosas como estas para convencer as
pessoas de que é muito útil assistir a essa Ceia como ‘observador’.
O
fato é que os próprios líderes se dão conta desse vazio, e têm de suplantá-lo
deste modo. Sabem muito bem que o seguidor de Cristo deve fazer uma proclamação
contínua de sua morte e deve mostrar o devido apreço por ela através da
participação no ‘corpo’ e no ‘sangue’ de Jesus, como uma evidente manifestação
da fé nesse sacrifício. Todo o resto são apenas palavras.
Este
ritual estéril que as Testemunhas de Jeová realizam
A
maneira peculiar de celebrar, explicar e aplicar as passagens bíblicas
relacionadas com a Ceia do Senhor por parte das Testemunhas de Jeová leva
a profundas incongruências e a situações absurdas.
Por exemplo: a chegada do momento
Isso
sem mencionar que as Testemunhas de Jeová caem novamente em contradições
ao ter de celebrar essa Ceia “até que ele chegue” e terem adiado essa
“chegada” em várias ocasiões, devido à falta de cumprimento de suas expectativas.
Na
realidade, os argumentos utilizados carecem de apoio bíblico e duvido
que os líderes das Testemunhas de Jeová não se dêem conta disso. Combinam
fatos com suposições, evidência bíblica com meras hipóteses. É claro que
a crença em uma doutrina que estabelece o que eles denominam como ‘a
maior celebração do ano para todos os verdadeiros cristãos’, certamente
deve contar com um fundamento mais sólido do que esse.
É
muito grave a afirmação feita
Depois
de uma afirmação sentenciosa assim, é incrível que a grande maioria das
Testemunhas não perceba a manipulação a que estão sendo submetidas. Esta
deplorável forma de raciocinar para minimizar as razões que podem levar
uma pessoa a desejar participar do corpo e do sangue de Jesus Cristo é
apenas uma pequena amostra do poder mental que pode exercer uma organização
sobre as possibilidades que todo humano tem de expressar livremente sua
fé.
Tudo
considerado, é razoável que muitas pessoas
cheguem à conclusão de pensar e dizer que ninguém tem direito de pôr limites
às formas e maneiras de recordar o que nosso Senhor Jesus Cristo fez por
todos nós.
O
‘comer e beber’ é a manifestação pública e visível da fé que essas pessoas
depositam na figura de Cristo, da mesma maneira que o batismo é a manifestação
tangível da dedicação delas a Deus. São elementos
gráficos e literais, que expressam a fé que um servo de Deus tem. E esta
é uma bela oportunidade de expressar essa fé em companhia de outros. Nada
tem que ver com a esperança ou o destino de cada um, e sim com nosso apreço.
Se apreciarmos o que Cristo fez por nós, devemos ‘comer’ e ‘beber’ dele,
depositando fé em seu sacrifício de resgate, independentemente de nosso
destino. Manifestamos isso pública e ostensivamente ‘comendo’ e ‘bebendo’
literalmente pão sem fermento e vinho tinto, pois ‘todas as
vezes’ que fizermos isso, estaremos proclamando a morte do Senhor. (1
Cor 11:25, 26.)
Não
podemos fazer menos do que continuar proclamando essa morte até que ele
chegue, e exclamar do mais profundo de nosso ser: “Amém! Vem,
Senhor Jesus”. (Rev. 22:20.)
[1] NOTA DO TRADUTOR:
Esse ensino foi abandonado pela organização em 2007. O ano de 1935
não é mais considerado como o momento em que o número de 144.000 eleitos
foi atingido. Todavia, permanece o fato de que a doutrina sobre a
“grande multidão”, como sendo um grupo terrestre, foi apresentada
pela primeira vez naquele ano.
[2] NOTA DO TRADUTOR:
Isto é assim, mesmo em edições recentes da TNM
[3] NOTA DO TRADUTOR:
Conforme já observamos, apesar de essa data de 1935 ter perdido o
significado “bíblico” que tinha antes, foi naquele ano que surgiu
a idéia de que a “grande multidão” é um grupo terrestre.