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O ‘TESTEMUNHO DO ESPÍRITO’

 

 

E

M PRIMEIRO LUGAR, convém esclarecer o seguinte: o assunto que será discutido neste capítulo não tem qualquer relação com a comemoração da morte de Cristo. Tendo em vista o escopo deste folheto, nem haveria necessidade de analisarmos o conteúdo do capítulo 8 da carta de Paulo aos romanos. O pão e o vinho não são mencionados nele, nem sequer indiretamente.

Mas a organização Torre de Vigia estabelece uma conexão, e bem forte. Seus representantes usam certas declarações feitas por Paulo neste capítulo como argumentos favoráveis ao ensino da organização. E a grande maioria das Testemunhas de Jeová acaba aceitando esta explicação como uma das principais justificativas para a idéia de que somente o “restante ungido” pode participar do pão e do vinho.

Para introduzir a discussão, citemos um trecho da Sentinela de 1º de março de 1988. Há nesta revista uma autobiografia de um falecido membro do Corpo Governante das Testemunhas de Jeová. Num dos parágrafos da pág. 11, ele relatou:

“Começamos o nosso serviço de pioneiro antes de termos sido batizados, pois naquele tempo não se entendia claramente se aqueles que tinham esperança terrestre deviam ser batizados ou não. No entanto, depois que fui batizado, no Lago Vandercook, Michigan, em 24 de julho de 1932, ficou evidente que a minha esperança mudara para a de um ungido, confirmado pelo ‘testemunho do espírito’. — Romanos 8:16.”

Não há aqui a menor intenção de contestar a crença que esse membro do Corpo Governante acalentava. Se, num determinado momento de sua vida, ele passou a fixar o coração na vida celestial, isso é algo entre ele e Deus e não vemos motivo válido para alguém menosprezar isso.

O que chama a atenção nesse relato é que a razão apresentada por ele para essa mudança de esperança (de terrestre para celestial) foi ter recebido o ‘testemunho do espírito’, mencionado em Romanos 8:16.

Embora ele não tenha tratado disso no momento em que contou a história de sua vida, o fato é que a organização Torre de Vigia tem uma interpretação muito particular desse texto. E este homem, na condição de membro do Corpo Governante central da religião era, com certeza, um dos mentores da idéia. Qual é o ensino?

Observemos o que diz A Sentinela de 1º de abril de 1977, página 220:

Assim, são somente os que esperam compartilhar com Jesus de seu Reino celeste, e que também se acham no novo pacto, que devem participar da Refeição Noturna do Senhor, como também é chamada. — Luc. 12:32; Heb. 8:10-13; 1 Cor. 11:20.

Sobre estes que participam deles, lemos ainda mais: “O próprio espírito dá testemunho com o nosso espírito de que somos filhos de Deus. Então, se somos filhos, somos também herdeiros: deveras, herdeiros de Deus, mas co-herdeiros de Cristo, desde que soframos juntamente, para que também sejamos glorificados juntamente.” (Rom. 8:16, 17)

Tampouco este é um ensino antigo, que foi abandonado. Ele pode ser encontrado em publicações mais recentes. A Sentinela de 1º de abril de 1996, página 7, reafirma:

Alguns têm tomado os emblemas da Comemoração, embora mais tarde se dessem conta de que não deviam ter feito isso. Aqueles que legitimamente tomam os emblemas da Comemoração foram escolhidos por Deus e têm o testemunho do espírito de Deus neste sentido. (Romanos 8:15-17; 2 Coríntios 1:21, 22) Não é a decisão ou determinação pessoal deles que os torna dignos disso. Deus limitou o número dos que governarão com Cristo nos céus a 144.000, número relativamente pequeno em comparação com todos os beneficiados pelo resgate de Cristo. (Revelação [Apocalipse] 14:1, 3) A escolha começou nos dias de Jesus, de modo que hoje há apenas poucos participantes. E ao passo que a morte leva alguns, este número deve diminuir.

Mas, e quanto aos que não fazem parte dos 144.000? Não teriam eles também recebido esse ‘testemunho do espírito’ de Deus? Não, segundo a Torre de Vigia. Na edição de A Sentinela de 15 de outubro de 1999, páginas 13 e 14, o parágrafo 10 diz, entre outras coisas:

Será que então podemos imaginar que hoje seja diferente, quando a maioria dos verdadeiros cristãos não tem o testemunho do espírito de que eles sejam os “escolhidos de Deus, santos e amados”?

Não há margem para ambigüidade. O que as publicações dizem taxativamente é que ninguém além dos 144.000 recebeu o ‘testemunho do espírito’. Nem mesmo as demais Testemunhas de Jeová (que a organização entende serem os “verdadeiros cristãos”). Muito menos ainda os cristãos que estão fora da organização Torre de Vigia.

Todo ano, por volta da época da Comemoração das Testemunhas, os “ungidos” ficam em evidência, e surge considerável conversa a respeito deles. Sempre que alguém pergunta como é que um “ungido” sabe que é ungido, normalmente as Testemunhas citam o texto de Romanos 8:15-17 como resposta. É só natural que façam isso, pois, como vimos, as publicações da organização afirmam repetidamente que o conteúdo deste texto se aplica a eles, ungidos, e a ninguém mais.

O CONTEÚDO DE ROMANOS CAPÍTULO 8

É interessante fazer uma leitura atenta do capítulo inteiro. Sugerimos isso ao leitor. Por questão de espaço, não vamos transcrevê-lo na íntegra aqui, mas faremos uma consideração dos versículos mais pertinentes. O capítulo pode ser dividido assim:

·      Nos versículos de 1 a 17, Paulo traça um contraste entre os que “andam de acordo com a carne” e os que “andam de acordo com o espírito”, declarando no final que os que andam de acordo com o espírito são “filhos de Deus”, “herdeiros” e serão “glorificados”.

·      Nos versículos de 18 a 30, ele faz diversos comentários sobre a esperança dessa “glorificação” que está em reserva para os “filhos de Deus”.

·      Finalmente, nos versículos de 31 a 39, ele assegura que esses que têm o espírito são apoiados pelo próprio Deus e por Cristo. E nada pode separar esses “filhos de Deus” do amor que os dois têm por eles.

Note-se que é dentro desse contexto que se encontram as palavras de Paulo ditas nos versículos de 15 a 17. É óbvio que para se chegar a um correto entendimento delas, os versículos circundantes devem ser levados em consideração. Mas isso a organização Torre de Vigia jamais fez. E por uma razão muito simples: Esse contexto desautoriza completamente a interpretação de que os “filhos de Deus” são apenas os 144.000.

Consideremos nove declarações que Paulo faz antes do versículo 16 (os versículos estão entre parêntesis):

(01) “... os em união com Cristo Jesus não têm nenhuma condenação.

(02) “... a lei desse espírito que dá vida em união com Cristo Jesus libertou-te da lei do pecado e da morte.

(05) “... os que estão de acordo com a carne fixam as suas mentes nas coisas da carne, mas os que estão de acordo com o espírito, nas coisas do espírito.

(06) “... a mentalidade segundo a carne significa morte, mas a mentalidade segundo o espírito significa vida e paz

(07) “... a mentalidade segundo a carne significa inimizade com Deus

(08) “... os que estão em harmonia com a carne não podem agradar a Deus

(09) “... se alguém não tiver o espírito de Cristo, este não pertence a ele.

(13) “... se viverdes de acordo com a carne, certamente morrereis; mas, se pelo espírito entregardes à morte as práticas do corpo, vivereis.”

(14) “... todos os que são conduzidos pelo espírito de Deus, estes são filhos de Deus.

Tanto os evangelhos, quanto as cartas apostólicas fazem diversas referências a esta expressão “filhos de Deus”. Para citar mais um exemplo, em 1 João 3:10, lemos:

Os filhos de Deus e os filhos do Diabo evidenciam-se pelo seguinte fato: Todo aquele que não está praticando a justiça não se origina de Deus, nem aquele que não ama seu irmão.

Este texto estabelece um nítido contraste entre quem é “filho de Deus” e quem é “filho do Diabo” e o apóstolo diz qual é a diferença. Os líderes da Torre de Vigia aceitam isso. Assim, em geral eles concordam que todo cristão verdadeiro é um “filho de Deus”.

Mas nem sempre. Para a expressão idêntica que aparece em Romanos capítulo 8, é aplicada outra definição. Referindo-se a esta, A Sentinela de 1º de junho de 1992, página 15, parágrafo 2, afirma:

Quem são esses “filhos de Deus”? São os irmãos de Jesus, ungidos com o espírito, que serão governantes com ele no Reino celestial. Os primeiros deles surgiram no primeiro século EC. Aceitaram a verdade libertadora ensinada por Jesus, e a partir de Pentecostes de 33 EC, participaram dos gloriosos privilégios mencionados por Pedro quando lhes escreveu: “Vós sois ‘raça escolhida, sacerdócio real, nação santa, povo para propriedade especial’.” — 1 Pedro 2:9a; João 8:32.

As demais Testemunhas de Jeová, que, segundo a organização, fazem parte de um grupo chamado “grande multidão” ou “outras ovelhas” não gozam dessa condição. A Sentinela de 15 de março de 1987, páginas 14 e 15, explica:

Que dizer daqueles que Jesus chamou de suas “outras ovelhas”? (João 10:16) Usufruem tal paz com Deus? Não como filhos de Deus, mas Colossenses 1:19, 20, os inclui como os beneficiados pela paz divina.

O problema é que esta idéia expressa nas Sentinelas acima, deixa todos os cristãos que não têm esperança celestial numa condição extremamente precária. Ora, se essas pessoas não são “filhos de Deus” no pleno sentido da palavra, então não são conduzidas pelo espírito de Deus e sim pela carne. Segundo dizem os versículos do capítulo 8 de Romanos que transcrevemos acima (e na mesma ordem), se alguém for conduzido pela carne, essa pessoa:

1.      Está separada de Cristo e sujeita à condenação;

2.      Está sujeita à lei do pecado e da morte;

3.      Tem a mente fixa nas coisas carnais;

4.      Está sujeita à morte;

5.      É inimiga de Deus;

6.      Não pode agradar a Deus;

7.      Não pertence a Cristo;

  1. Morrerá com certeza;

E mais ainda: Tendo em mente o que João disse, se essas pessoas não são “filhos de Deus”, então só poderiam estar no grupo dos “filhos do Diabo”! 

Será que devemos pensar que isto se aplica a todos os demais que não fazem parte dos 144.000?

Essa idéia espantosa é conseqüência de os líderes da Torre de Vigia atribuírem sua definição particular à expressão “filho de Deus”, referida em Romanos 8:15-17, com o único propósito de acomodar a doutrina organizacional. Dizem que somente os 144.000 são legitimamente “filhos de Deus”, para poderem dar base à idéia de que somente estes recebem o ‘testemunho do espírito’. Eles simplesmente não aceitam a definição dada por Paulo no versículo 14: “todos os que são conduzidos pelo espírito de Deus, estes são filhos de Deus.” Se estas pessoas “são conduzidas pelo espírito de Deus”, é só lógico que todas elas recebam o “testemunho” desse mesmo “espírito”, confirmando essa condição (Compare isso com o que diz Hebreus 11:5). O que Paulo diz no versículo 16 nada mais é que uma decorrência direta da definição que ele mesmo dá no versículo 14. E mais ainda: Esta definição está de pleno acordo com aquela dada por João (citada acima) e com todas as demais referências que a Bíblia faz a esta expressão. Em parte alguma a Bíblia associa o conceito de “filho de Deus” com “esperança celestial”.

O que devemos aceitar: As palavras de Paulo, que estão de acordo com o contexto imediato e com o resto das Escrituras, ou a definição da organização Torre de Vigia, que provoca toda essa contradição?

Mas, e quanto ao que Paulo diz no versículo 17? As palavras são:

“Então, se somos filhos, somos também herdeiros: deveras, herdeiros de Deus, mas co-herdeiros de Cristo, desde que soframos juntamente, para que também sejamos glorificados juntamente.”

Qual é o significado disso? Devemos entender que todos os “filhos de Deus” mencionados aí são necessariamente pessoas que receberão um corpo espiritual e irão para o céu compartilharem o reino com Cristo? Esta importante questão será discutida nos próximos dois subtópicos.

‘HERDEIROS DE DEUS E CO-HERDEIROS DE CRISTO’

Consideremos a seguinte ilustração: Quando um pai de família vem a falecer, geralmente ele deixa uma herança para seus filhos. Em casos assim, o que acontece é uma partilha, ou seja, os bens dele são divididos entre seus herdeiros. Um desses herdeiros tomará posse de um ou mais bens, que serão a partir daí, sua propriedade particular. Outros filhos que ele porventura teve, também tomarão posse de outros bens, diferentes dos daquele filho. Mas o fato de estes filhos herdarem bens diferentes não altera em nada o fato de que todos eles são herdeiros do pai e co-herdeiros entre si.

Esse mesmo princípio pode ser aplicado à relação que existe entre Deus e Seus filhos. Quando se referiu aos “filhos de Deus”, Paulo aplicou a eles os termos “herdeiros” e “co-herdeiros”. Mas isso não significa obrigatoriamente que todos devam herdar a mesma coisa. Deus, como Pai, é quem decide qual parte da herança cabe a cada um, assim como um pai humano determinaria num testamento, escrito em vida.

A Bíblia deixa muito claro que Deus estabeleceu que Seu Filho, Jesus Cristo, haveria de ser rei celestial. Ninguém duvida também que outros humanos estão destinados a compartilhar esse reino com Cristo. Se são apenas 144.000, como ensina a Torre de Vigia, ou não, é outra questão, que não estamos discutindo aqui. O fato é que há humanos destinados a isso e ninguém melhor do que Deus para determinar quem e quantos são estes.

Mas a questão principal é: O que constitui a “herança”? Será que é apenas o “céu”? A Bíblia responde claramente a isso. Em 1 Coríntios 3:21-23, Paulo diz:

Por isso, ninguém se jacte dos homens; porque a vós pertencem todas as coisas, quer Paulo, quer Apolo, quer Cefas, quer o mundo, quer a vida, quer a morte, quer as coisas agora aqui, quer as coisas por vir, a vós pertencem todas as coisas; por sua vez, vós pertenceis a Cristo; Cristo, por sua vez, pertence a Deus.

Em Hebreus 1:2, Paulo mesmo confirma:

“... no fim destes dias nos falou por intermédio dum Filho, a quem designou herdeiro de todas as coisas e por meio de quem fez os sistemas de coisas.” 

Portanto, a herança de Deus inclui “todas as coisas”. Cristo foi designado herdeiro de tudo e os outros “filhos de Deus”, como co-herdeiros dele, compartilham de tudo, inclusive do “mundo”.

As Escrituras não dão base para a idéia de que a Terra será destruída e despovoada para sempre. Este belíssimo planeta, no qual o homem foi colocado originalmente, está incluído na “herança” que Deus tem em reserva para seus filhos.

É certo que, em sua quase totalidade, as Escrituras Cristãs (ou Novo Testamento) fazem referências a uma herança celestial. Mas a Terra não deixa de ser incluída. A conhecida passagem de Mateus 5:5, diz:

“Felizes os de temperamento brando, porque herdarão a terra.”

Nada do que estamos dizendo aqui tem o objetivo de argumentar contra ou a favor da esperança de alguém, seja ela terrestre ou celestial. A idéia é simplesmente mostrar que a expressão “herdeiros” pode ser perfeitamente entendida em sentido amplo. Não há porque restringirmos estas palavras de Paulo em Romanos 8:17 a uma esperança celestial, até porque o próprio Paulo não particularizou dessa maneira. A questão do “onde” exatamente cada “filho de Deus” ficará é secundária. Mesmo que a vontade de Deus seja que determinados “filhos” vivam temporariamente na terra, isso não torna tais pessoas menos ‘herdeiras de Deus e co-herdeiras de Cristo’ do que aqueles que forem designados a viver no céu.

‘SOFRERMOS JUNTAMENTE E

SERMOS GLORIFICADOS JUNTAMENTE’

Em diversos casos em que o termos “glorificar” ou “glorificação” aparecem na Bíblia, a referência é ao tipo celestial. Mas é igualmente verdade que a Bíblia usa esses termos em sentidos bem diferentes deste. Em Provérbios 13:18, aparecem as seguintes palavras:

“Quem negligencia a disciplina [terá] pobreza e desonra, mas aquele que guarda a repreensão é o que é glorificado.”

Este texto simplesmente contrasta a ‘glorificação’ das pessoas que acatam a disciplina com a ‘desonra’ daqueles que não o fazem. 

Outros exemplos podem ser citados. Nos muitos textos em que aparece a expressão “glorificar a Deus” a referência é, sem dúvida a honrá-Lo ou reverenciá-Lo. Não poderia de modo algum significar Deus assumir um corpo superior ao que Ele já tem ou ir para um domínio superior àquele em que Ele já está.

Com respeito a Jesus, quando a Bíblia narra o episódio da ressurreição de Lázaro, lemos o seguinte em João 11:4:

Mas, quando Jesus o soube, disse: “Esta doença não tem a morte por seu objetivo, mas é para a glória de Deus, a fim de que o Filho de Deus seja glorificado por intermédio dela.

Aquela ressurreição não fez com que Jesus recebesse de imediato um corpo espiritual e fosse para o céu. Mas ele foi honrado; reconhecido pelo que fez. É esse o sentido básico que a palavra “glorificado” tem neste texto.

O termo “glória” é aplicado liberalmente na Bíblia tanto a seres humanos como a coisas inanimadas. Ela fala em “glória dos reis” (Provérbios 25:2), “glória do Líbano” (Isaías 35:2), “glória do homem” (1 Coríntios 11:7) ‘glória dos cabelos de uma mulher’ (1 Coríntios 11:15), ‘glória do sol, da lua e das estrelas’ (1 Coríntios 15:41), ‘glória do rosto de Moisés’ (2 Coríntios 3:7), etc. Isso mostra que essa palavra não tem um significado único.

Como dissemos, existem muitas ocorrências bíblicas ao termo “glória” com o sentido específico de glória celestial. Por exemplo, numa oração que fez a Deus, Jesus disse as seguintes palavras, registradas em João 17:5:

“... Pai, glorifica-me junto de ti com a glória que eu tive junto de ti antes de haver o mundo.”

Aqui só há margem para um entendimento. Certamente ele se referia ao tipo de glória que usufruía quando vivia no céu, estando numa elevada posição, como pessoa espiritual ‘junto de Deus’.

Acontece que na referência que Paulo faz à ‘glorificação’ dos “filhos de Deus” em Romanos 8:17 não se encontra uma particularização tão restrita assim. Ele simplesmente falou em os “herdeiros de Deus” ‘sofrerem juntamente e serem glorificados juntamente’. Se Paulo não restringiu o termo, esta ‘glorificação’ pode também ser entendida no sentido amplo, querendo dizer uma grande melhoria na condição de todos os “herdeiros de Deus”, mas não obrigatoriamente significando que todos têm de receber um corpo espiritual e ir para o céu.

Com que base pode alguém dizer que um corpo humano perfeito, semelhante ao que Adão e Eva tinham não é um corpo glorioso? Há total validade na idéia de que a perfeição física é uma situação infinitamente melhor do que aquela em que nos encontramos atualmente. Que razão temos então para não encarar este aperfeiçoamento como um tipo possível de “glorificação”?

Outra idéia que dá base para este entendimento alternativo é a seguinte: Paulo falou em os herdeiros ‘sofrerem juntamente e serem glorificados juntamente’. É uma verdade bíblica que Cristo sofreu terríveis padecimentos às mãos de seus inimigos. Os sofrimentos pelos quais ele passou são bem conhecidos.

Mas, quando Paulo fala em ‘sofrermos juntamente’, será que devemos entender que todo cristão tem de passar pelo mesmo tipo de padecimento pelo qual Cristo passou, ou então que todos os cristãos sofram no mesmo grau? É óbvio que não. Existem as mais diversas formas de sofrimento que se possa imaginar, incluindo o sofrimento moral. E no decorrer do tempo, os cristãos estiveram sujeitos a todas estas. Muitos sofreram horrivelmente de maneira física, mas muitos enfrentaram sofrimentos de outras espécies. O ‘sofrer juntamente’, portanto, não significa sofrer com a mesma intensidade e nem que todas as pessoas envolvidas passem pelo mesmo tipo de sofrimento.

Estas idéias podem perfeitamente se ajustar à “glorificação”. Embora Paulo tenha usado a palavra “juntamente”, tal expressão não nos obriga a entender que todos os “filhos de Deus” tenham de ser “glorificados” no mesmo nível e da mesma maneira. O tipo pode variar de “filho” para “filho”, conforme a decisão final de Deus, o Pai.

Tal entendimento alternativo sobre a ‘glorificação’ pode ser também aplicado às palavras acompanhantes de Paulo no restante desse capítulo 8 (versículos 18 a 39). Examinemos dois últimos exemplos pertinentes, os quais, em uma primeira análise, pareceriam apoiar a idéia da Torre de Vigia (versículos entre parêntesis):

(23) “... esperamos seriamente a adoção como filhos, sermos livrados de nossos corpos por meio de resgate.

“Sermos livrados de nossos corpos” pode de fato significar uma mudança de um corpo físico para um espiritual, mas não necessariamente. Paulo acrescenta que isso ocorre “por meio de resgate”. O resgate se aplica a todos os que têm fé em Cristo. Portanto, um entendimento alternativo destas palavras é a pessoa ser soerguida à perfeição física, ‘livrando-se’ de um corpo imperfeito e de uma condição pecaminosa.

(29) “... aqueles a quem deu o seu primeiro reconhecimento, a [esses] também predeterminou que fossem modelados segundo a imagem de seu Filho, para que este fosse primogênito entre muitos irmãos.”

É claro que sermos ‘modelados segundo a imagem de Cristo’ pode envolver receber um corpo espiritual semelhante ao dele. Mas não necessariamente. Segundo a Bíblia, Adão foi criado “à imagem de Deus” (Gênesis 1:27), mas ele não recebeu um corpo igual ao de Deus. O que se concedeu ao homem foram atributos espirituais semelhantes aos de Deus. O que Paulo diz neste versículo 29 pode igualmente ser entendido em sentido espiritual.

E assim por diante. Quando examinamos todas as palavras do restante do capítulo, em nenhum caso é obrigatório que haja apenas uma interpretação. O leitor pode confirmar isso examinando com atenção o que dizem esses versículos.

Tudo considerado, podemos concluir que as palavras de Paulo neste capítulo 8 de sua carta aos romanos não dão qualquer base para estabelecer uma distinção arbitrária entre os cristãos, restringindo os termos “filhos de Deus”, “herdeiros de Deus”, “co-herdeiros de Cristo” ou ‘testemunho do espírito’ a apenas um grupo de 144.000, como faz a Torre de Vigia.

Muito pelo contrário, se o conteúdo do capítulo tivesse realmente algo que ver com a comemoração da morte de Cristo, ele poderia muito bem ser usado como mais um argumento a favor e não contra a participação geral de todos os cristãos no pão e no vinho.

 

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