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‘COMER A CARNE E

BEBER O SANGUE DE CRISTO’

 

 

N

O EVANGELHO de João, capítulo 6, versículos 48 a 58, encontramos as seguintes palavras:

48 “Eu sou o pão da vida. 49 Vossos antepassados comeram o maná no ermo, e, não obstante, morreram. 50 Este é o pão que desce do céu, para que qualquer um possa comer dele e não morrer. 51 Eu sou o pão vivo que desceu do céu; se alguém comer deste pão, viverá para sempre; e, de fato, o pão que eu hei de dar é a minha carne a favor da vida do mundo.” 52 Portanto, os judeus começaram a contender entre si, dizendo: “Como pode este homem dar-nos sua carne para comer?” 53 Concordemente, Jesus disse-lhes: “Digo-vos em toda a verdade: A menos que comais a carne do Filho do homem e bebais o seu sangue, não tendes vida em vós mesmos. 54 Quem se alimenta de minha carne e bebe meu sangue tem vida eterna, e eu o hei de ressuscitar no último dia; 55 pois a minha carne é verdadeiro alimento, e o meu sangue é verdadeira bebida. 56 Quem se alimenta de minha carne e bebe meu sangue permanece em união comigo e eu em união com ele. 57 Assim como o Pai vivente me enviou e eu vivo por causa do Pai, também aquele que se alimenta de mim, sim, esse viverá por causa de mim. 58 Este é o pão que desceu do céu. Não é como quando os vossos antepassados comeram, e, não obstante, morreram. Quem se alimentar deste pão viverá para sempre.

Há uma interessante história relacionada com esta passagem, que ilustra muito bem os malabarismos que a organização Torre de Vigia faz muitas vezes, com o fim de sustentar suas doutrinas.

Anteriormente, as publicações da organização admitiam a idéia de que esse ‘comer a carne e beber o sangue de Cristo’ (conforme o versículo 53) tem paralelo com comer o pão e beber o vinho na Refeição Noturna do Senhor. Porém, uma vez que o ensino é que só os “ungidos” podem fazer isso, ensinava-se que o texto acima tinha aplicação apenas a eles. Dava-se muita ênfase à expressão “vida em vós mesmos”, como se isso significasse uma qualidade especial de vida que só os ungidos iriam possuir. Os líderes da Torre de Vigia simplesmente se recusavam a reconhecer que essa expressão não significa nada além de “vida eterna”, como o próprio Jesus torna claro logo no versículo seguinte (o 54), vida eterna esta que ele já havia dito estar disponível para “qualquer um” que comesse o “pão do céu” (conforme o versículo 50), uma referência a ele próprio.

Em outras palavras, por mais que o contexto tornasse claro que tanto a expressão ‘comer a carne e beber o sangue de Cristo’ quanto a expressão “vida em vós mesmos” têm aplicação a todos os cristãos, a Torre de Vigia não aceitava isso. Havia pessoas que questionavam fortemente o ensino, mas os líderes da organização eram inflexíveis. Eles queriam que ambas as expressões se aplicassem apenas aos “ungidos” e a ninguém mais.

Mas em 1986, eles finalmente mudaram de idéia. A Sentinela de 15 de fevereiro daquele ano oficializou isso no “estudo” e também na seção “Perguntas dos Leitores” (na página 30). Transcrevemos abaixo a pergunta e o início da resposta:

· Referia-se Jesus apenas aos cristãos ungidos quando disse, em João 6:53: “Digo-vos em toda a verdade: A menos que comais a carne do Filho do homem e bebais o seu sangue, não tendes vida em vós mesmos”?

Por muitos anos temos explicado que estas palavras se limitavam aos cristãos ungidos que serão levados ao céu para governar com Jesus Cristo. Contudo, um estudo adicional deste assunto recomenda uma aplicação mais ampla de João 6:53.

Curiosamente, no final dessa mesma “Pergunta dos Leitores”, a Sentinela diz que uma das razões da mudança foi que “maior peso foi dado, também, ao contexto imediato de João 6:53.” Ora, o “contexto imediato” (conforme transcrevemos no início deste capítulo) sempre estivera na Bíblia, e mostrava claramente que a aplicação do texto apenas aos “ungidos”, não podia estar certa. No entanto, o ensino errado foi mantido durante “muitos anos”, até que apareceu esse “estudo adicional”.

Bem, o velho ensino estava abandonado. Agora a organização estava admitindo que “comer a carne e beber o sangue de Cristo”, bem como a expressão “vida em vós mesmos”, tem aplicação geral a todos os cristãos verdadeiros. Mas será que as demais Testemunhas de Jeová, bem como os convidados, estavam agora livres para participar do pão e do vinho na comemoração?

Não, porque os líderes fizeram o seguinte: “Desconectaram” essas palavras de Cristo do contexto da comemoração (dando ênfase ao fato de que houve uma diferença de um ano entre os dois eventos) e passaram a admitir uma única explicação para elas.

Uma boa maneira de visualizar detalhadamente o que mudou é compararmos o que dizem as duas edições do livro Raciocínios à Base das Escrituras, nas páginas 88 e 89. Uma delas é anterior à mudança feita em 1986, e a outra é posterior. Apresentamos um quadro comparativo na página seguinte (os trechos que interessam em nossa discussão estão grifados em azul):


 

Raciocínios à Base das Escrituras

 (Edição de 1985)

Raciocínios à Base das Escrituras

(Edição de 1989)

Indica João 6:53, 54 que apenas os que participam realmente é que ganharão a vida eterna?

João 6:53, 54: “Jesus disse-lhes: ‘Digo-vos em toda a verdade: A menos que comais a carne do Filho do homem e bebais o seu sangue, não tendes vida em vós mesmos. Quem se alimenta de minha carne e bebe meu sangue tem vida eterna, e eu o hei de ressuscitar no último dia.’” (Este comer e beber seria obviamente em sentido simbólico, como na Refeição Noturna do Senhor; do contrário, aquele que assim fizesse estaria violando a lei de Deus que proíbe comer sangue. Veja Gênesis 9:4; Atos 15:28, 29.)

Note que os que assim participam do pão e do vinho emblemáticos são os que hão de ganhar a recompensa da vida somente por meio de uma ressurreição. Isto se dá porque precisam renunciar à sua vida humana para alcançarem a recompensa da vida celestial com Cristo. Mas, em outra ocasião, Jesus mostrou que outros que depositarem fé nele ‘nunca jamais morrerão’. (João 11:25, 26) Revelação 7:9, 10, 14 descreve esses últimos como pessoas que se beneficiaram do sangue do Cordeiro e que são poupadas com vida na terra através da grande tribulação.

Que significa ‘terem vida em si mesmos’, conforme João 6:53 o diz? Evidentemente significa muito mais do que simplesmente viver para sempre. A expressão no texto grego é similar àquela que se acha em João 5:26, onde se faz uma consideração sobre o poder de Jesus de ressuscitar os mortos. João 5:26, segundo vertido em NTI, reza: “Como o Pai é a fonte da vida, concedeu ao Filho o poder de dar a vida.” De modo que, aqueles a quem se concedeu ter ‘vida em si mesmos’, como Cristo, terão parte com ele em transmitir à humanidade os benefícios vitalizadores do sacrifício de resgate. – Rom. 6:23; 1 Cor. 15:45.

Indica João 6:53, 54 que apenas os que participam realmente é que ganharão a vida eterna?

João 6:53, 54: “Jesus disse-lhes: ‘Digo-vos em toda a verdade: A menos que comais a carne do Filho do homem e bebais o seu sangue, não tendes vida em vós mesmos. Quem se alimenta de minha carne e bebe meu sangue tem vida eterna, e eu o hei de ressuscitar no último dia.’” Este comer e beber teria obviamente de ser feito em sentido figurativo; do contrário, aquele que assim fizesse estaria violando a lei de Deus. (Gên. 9:4; Atos 15:28, 29) Mas, deve-se notar que a declaração de Jesus em João 6:53, 54 não foi feita com relação à inauguração da Refeição Noturna do Senhor. Ninguém que o ouviu tinha alguma idéia da comemoração com o pão e o vinho usados para representar a carne e o sangue de Cristo. Esse arranjo foi introduzido cerca de um ano depois, e o relato do apóstolo João sobre a Refeição Noturna do Senhor só começa mais de sete capítulos mais adiante (em João 14) no Evangelho que leva seu nome.

Assim, pois, como pode alguém ‘comer a carne do Filho do homem e beber o seu sangue’ em sentido figurativo a não ser por participar do pão e do vinho por ocasião da Comemoração? Repare que Jesus disse que os que assim comessem e bebessem teriam “vida eterna”. Antes, no versículo 40, ao explicar o que as pessoas precisam fazer para ter vida eterna, o que disse ele ser a vontade de seu Pai? Que “todo aquele que observa o Filho e exerce nele tenha vida eterna”. Portanto, é razoável que o ‘comer sua carne e beber seu sangue’ em sentido figurativo seja por se exercer no poder redentor da carne e do sangue de Jesus, dados em sacrifício. Exige-se que todos os que ganharão a plenitude da vida, quer nos céus com Cristo, quer no Paraíso terrestre, exerçam tal fé.

 

 

Comparando-se os dois textos, vemos que aquele significado da expressão “vida em vós mesmos”, que a Torre de Vigia dizia ser tão ‘evidente’ (na edição de 1985), foi abandonado e esquecido. A Refeição Noturna do Senhor não servia mais como exemplo de participação simbólica no corpo e no sangue de Cristo. Em vez disso, a expressão ‘comer a carne e beber o sangue’ foi explicada como significando unicamente “exercer fé no poder redentor da carne e do sangue de Jesus, dados em sacrifício”.

Qual é o argumento que a Torre de Vigia usa agora para provar que o pão e o vinho da comemoração não têm qualquer relação com essa expressão? A edição de 1989 do livro diz que é porque “ninguém que o ouviu tinha alguma idéia da comemoração com o pão e o vinho usados para representar a carne e o sangue de Cristo. Esse arranjo foi introduzido cerca de um ano depois...”. Essa mesma idéia foi apresentada na Sentinela de 15 de fevereiro de 1986 (tanto no “estudo” oficial que mudou o ensino, como na seção Perguntas dos Leitores).

A ênfase nisso só serve para despistar! É claro que nenhuma daquelas pessoas sabia da comemoração. Por ficarem chocadas com o que Jesus disse e não terem paciência para aguardar a explicação, foram embora. Só ficaram com ele seus apóstolos. Mas os líderes da Torre de Vigia parecem esquecer que foi Jesus quem proferiu essas palavras sobre ‘comer sua carne e beber seu sangue’ e ele sabia muito bem o que iria fazer um ano depois. As palavras que ele usou quando instituiu a comemoração repetem literalmente aquelas mesmas idéias expressas um ano antes. O fato de seus ouvintes não saberem disso no momento em que Jesus falou, não prova que uma coisa não tem relação com a outra. O paralelo entre as palavras de Cristo registradas em João 6:53 e aquilo que ele disse por ocasião da comemoração é tão evidente que até a organização Torre de Vigia aceitava isso antes.

Há ainda outra “pista falsa”, lançada na Sentinela de 15 de fevereiro de 1986. Como justificativa adicional para a idéia de que participar dos alimentos da comemoração não tem relação com as palavras de João 6:53, a revista diz no parágrafo 17, da página 20:

“Tomar dos emblemas na Comemoração não concede vida eterna.”

É claro que não! Ninguém afirma que o ato de participar do pão e do vinho em si mesmo concede automaticamente a vida eterna. Todos concordam que a vida eterna é decorrente de se exercer fé no sacrifício de Cristo. As palavras da parte final do livro Raciocínios (edição de 1989), citadas acima, não acrescentam qualquer novidade ao que todos os cristãos sempre souberam.

Observa-se, porém, que, embora Jesus já tivesse falado (em João 6:40) sobre a necessidade de se exercer fé nele, depois ele passou a usar especificamente os verbos “comer” e “beber”, em conexão com sua carne e seu sangue. Se ele já tinha deixado bem claro que as pessoas deveriam exercer fé nele, que necessidade havia de acrescentar a idéia de ‘comer sua carne e beber seu sangue’, a qual pareceu tão repulsiva para aqueles ouvintes? Há realmente alguma razão válida para não vermos nisso um paralelo evidente com os alimentos simbólicos da comemoração? Será que essa nova explicação da Torre de Vigia impede que a participação no pão e no vinho possa ser vista como uma demonstração simbólica que todo cristão faz de sua fé no sacrifício de Cristo? Se eles concluem o assunto na nova edição do livro afirmando que “exige-se que todos os que ganharão a plenitude da vida, quer nos céus com Cristo, quer no Paraíso terrestre, exerçam tal fé,” então por que proíbem a maioria destas pessoas de demonstrar isso por participar nos símbolos do corpo e do sangue dele?

Vimos que, antes de 1986 a própria organização admitia que tal simbolismo é válido. Por que seus líderes agora resistem a isso? Por que fazem agora todo esse esforço para dissociar um contexto do outro?

A resposta é óbvia: Porque querem manter a todo custo o ensino sem base bíblica de que participar do pão e do vinho significa uma afirmação de “esperança celestial” e, portanto, só alguns podem participar, sendo proibidos todos os demais.

 

 

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