PARTICIPANDO
COM
‘DIGNIDADE’
E ‘DISCERNIMENTO’
|
N |
A PRIMEIRA CARTA de Paulo
aos cristãos em Corinto, há algumas referências adicionais à celebração. Uma
vez que a Torre de Vigia apresenta um entendimento particular desses textos,
eles serão analisados neste capítulo.
Em 1 Coríntios 11: 27, 28, lemos:
“Quem comer o pão ou beber o copo do Senhor indignamente, será
culpado com respeito ao corpo e ao sangue do Senhor. Primeiro, aprove-se o
homem depois de escrutínio, e deste modo coma do pão e beba do copo.”
Em geral,
reconhece-se que esse ‘comer e beber indignamente’, refere-se à má atitude
do participante durante a celebração. Assim, o livro da Torre de Vigia
intitulado “Unidos na Adoração do Único Deus Verdadeiro”, capítulo 14,
parágrafo 12 (páginas 114 e 115) diz:
... O apóstolo Paulo escreveu conselho sério a cristãos de Corinto, na Grécia, no primeiro século, visto
que alguns deles deixaram de mostrar o devido apreço pela ocasião,
dizendo: “Quem comer o pão e beber o copo do Senhor indignamente, será culpado
com respeito ao corpo e ao sangue do Senhor.” O que os tornava ‘indignos’ como
participantes? Eles não se preparavam devidamente no coração e na mente.
Havia divisões na congregação. Alguns também entregavam-se
em excesso ao comer e ao beber antes da reunião. Tratavam a Refeição
Noturna do Senhor com indiferença. Não estavam em condições de discernir
o significado sério do pão e do vinho. — 1 Cor. 11:17-34.
Se a
liderança da Torre de Vigia se ativesse a estes pontos, não haveria o que
discutir. Acontece que o ensino não fica só nisso. A Sentinela de 15 de
março de 1991, página 21, acrescenta a seguinte idéia:
É Vital Fazer um
Exame Cuidadoso
Um ponto muito significativo foi apresentado pelo apóstolo Paulo
quando escreveu: “Quem comer o pão ou beber o copo do Senhor indignamente, será
culpado com respeito ao corpo e ao sangue do Senhor. Primeiro, aprove-se o
homem depois de escrutínio, e deste modo coma do pão e beba do copo. Pois, quem
come e bebe, come e bebe julgamento contra si mesmo, se não discernir o corpo.”
(1 Coríntios 11:27-29) Portanto,
o cristão batizado que em anos recentes começou a achar que recebeu a chamada
celestial deve dar cuidadosa consideração a esse assunto, com oração.
A Sentinela de 1º de abril de 1996, página 8, completa dizendo:
Se alguém, “depois de escrutínio”, descobrir que realmente
não devia ter tomado os emblemas, deve passar a refrear-se disso.
Estas
publicações, e muitas outras, associam ‘participar indignamente’ com a pessoa não
ter recebido a “chamada celestial”. Ensina-se que o “escrutínio” significa um
auto-exame que a pessoa deve fazer, para averiguar se de fato recebeu essa
chamada ou não. Se ela concluir que não, então não deve mais se servir dos
alimentos da celebração. A ordem da Sentinela é clara: A pessoa “deve
passar a refrear-se disso”.
O mais
curioso é que, embora esse acréscimo muitas vezes seja feito de forma um tanto
sutil e sem claro apoio bíblico, ele é que passa a ser a idéia dominante. É por
isso que qualquer um que perguntar a uma Testemunha de Jeová o que significa
“participação indigna” no pão e no vinho, invariavelmente ouvirá como resposta
que ‘é a pessoa participar sem ser do “restante ungido”.
O QUE ERA A ‘PARTICIPAÇÃO
INDIGNA’ E O “ESCRUTÍNIO”, REFERIDOS POR PAULO?
De acordo com
o ensino da Torre de Vigia a “escolha geral” dos 144.000, que vão para o céu,
começou com os apóstolos de Cristo e prosseguiu ao longo dos séculos,
terminando por volta do ano de 1935. Quer estes ensinos estejam certos, quer
não, permanece o fato de que eles crêem que todos os primitivos cristãos
esperavam ir para o céu.[1]
Mas isso gera
uma contradição: Se a esperança da pessoa era o que estava em questão, sendo o
fator determinante para ela ‘participar dignamente’ dos emblemas, que
necessidade tinha Paulo de escrever alguma coisa sobre ‘participação indigna’?
Se todos lá tinham “esperança celestial” e uma vez que Paulo não questionou
isso em momento algum, não havia entre eles qualquer diferença, ao ponto de
alguns serem “dignos” de participar e outros serem “indignos” de fazê-lo. As
palavras do apóstolo não teriam qualquer propósito.
Torna-se
evidente então que não era a esperança daquelas pessoas que estava
Na orientação que agora vou dar a vocês, eu não os elogio. Porque
as suas reuniões na igreja fazem mais mal do que bem. Em primeiro lugar me
contaram que há grupos de pessoas que estão brigando nas reuniões da igreja. Eu
acredito que em parte isso é verdade. Não há dúvida de que é preciso haver
divisões entre vocês para que apareçam os que estão certos. Quando vocês se
reúnem, não é a ceia do Senhor que vocês comem. Porque quando vão comer, cada
um se adianta para tomar a sua própria refeição. E assim, enquanto uns ficam
com fome, outros chegam até a ficar bêbados. Será que vocês não têm as suas
próprias casas onde podem comer e beber? Ou será que preferem desprezar a
Igreja de Deus e envergonhar os que são pobres? O que é que esperam que eu diga
a vocês? Querem que lhes dê parabéns? É claro que não vou fazer isso! (A
Bíblia na Linguagem de Hoje)
Qual era
então o objetivo do “escrutínio” que aqueles primitivos cristãos deveriam
fazer? Era para averiguar se tinham a “esperança celestial”? É claro que não,
pois, como vimos, ao iniciar sua repreensão, Paulo não disse uma palavra sobre
isso. Se ele estava chamando atenção para a atitude daqueles celebrantes,
só poderia ser isto o alvo do escrutínio. Cada um daqueles cristãos deveria avaliar
conscienciosamente sua própria atitude para com os alimentos da celebração
e, se fosse o caso, mudá-la para melhor, para poder continuar participando
desses alimentos.
A idéia da
Torre de Vigia sobre esse “escrutínio” ou auto-exame, põe a perder esse
objetivo. O resultado para milhões de pessoas é exatamente o oposto do
que deveria ser. Como a idéia da “esperança celestial” (limitada a um número
literal de 144.000) é introduzida arbitrária e desnecessariamente neste
assunto, isso confunde as Testemunhas e seus convidados. Com a mente dominada
pela questão da “esperança celestial”, quando os que comparecem à Comemoração
da Torre de Vigia fazem esse “escrutínio” de si mesmos, concluem que não são
“dignos” de participar do pão e do vinho. Em resultado disso, na quase
totalidade dos casos, o resultado do “escrutínio” é negativo! Mas não foi isso
o que Paulo disse. As palavras dele foram:
“Primeiro, aprove-se o homem depois de escrutínio, e deste
modo coma do pão e beba do copo.”
O auto-exame
era (e continua sendo) necessário no caso de todos os cristãos, mas o resultado
deveria ser sempre positivo. Em momento algum Paulo disse que aquelas
pessoas que estavam ‘participando indignamente’ deveriam ‘parar de
participar’ (como a liderança da Torre de Vigia ordena na Sentinela
citada acima).
‘DISCERNINDO O QUE NÓS
MESMOS SOMOS’
Em 1 Cor. 11:
29-31, lemos:
“Pois, quem come e bebe, come e bebe julgamento contra si mesmo,
se não discernir o corpo. É por isso que muitos entre
vós estão fracos e doentios, e não poucos estão dormindo [na morte].
Mas, se discerníssemos o que nós mesmos somos, não seríamos julgados.”
Sobre tais
palavras, o número de A Sentinela de 15 de fevereiro de 1990, página 19,
parágrafo 17, começa dizendo:
17 Paulo trouxe isso à atenção na sua carta aos coríntios,
numa época em que alguns apóstolos ainda viviam e
Novamente: Se
o ensino da Torre de Vigia se ativesse somente a estes pontos, não haveria o
que questionar, pois, nada do que se diz acima foge do contexto bíblico.
Infelizmente, mais uma vez, a Sentinela vai além. Os dois parágrafos
seguintes acrescentam:
18 O que aqueles cristãos tinham
de discernir e como? Primariamente, tinham de discernir no coração e na
mente a sua chamada para estar entre os 144.000 herdeiros da vida celestial.
Como discerniram eles isso, e devem muitos hoje crer
que sejam parte desse pequeno grupo que Deus vem selecionando desde os dias dos
apóstolos?
19 Realmente, apenas uma minoria bem pequena de cristãos
verdadeiros hoje discerne isso acerca de si mesmos. ... A vasta maioria
- sim, milhões de outros leais, cristãos abençoados que se reuniram - discerniram
que sua esperança válida é viver para sempre na terra.
Há um detalhe
curioso aqui: O escritor da Sentinela parece presumir que aqueles
cristãos estavam pensando num número literal de 144.000 e entendiam os assuntos
da mesma maneira que a organização entende hoje. Isso apesar de Paulo ter-lhes
enviado esta carta décadas antes de João receber a Revelação, onde esses
144.000 são mencionados pela primeira vez!
Mas, mesmo
que não tenha sido isso o que o escritor da Sentinela quis dizer, o fato
é que as palavras do apóstolo sobre ‘discernir o que somos’, são interpretadas
como significando o cristão discernir qual é o seu destino, a sua esperança.
Ele pode ou ‘discernir que recebeu a chamada celestial’ ou ‘discernir que vai
viver na terra’. O parágrafo 18 diz, inclusive, que foi “primariamente” este o
sentido das palavras de Paulo.
FOI MESMO ISSO O QUE PAULO
QUIS DIZER COM “DISCERNIR O CORPO” E ‘DISCERNIR O QUE SOMOS’?
Se prestarmos
detida atenção a tudo o que os três versículos dizem, temos condições de
entender o significado dessas duas frases. Vejamos:
1 Cor 11:29: “Pois, quem come e bebe,
come e bebe julgamento contra si mesmo, se não discernir o corpo.

O que traria
“julgamento” contra a pessoa? Seria ela ‘comer o pão e beber o vinho’? Dificilmente,
pois todos aqueles primitivos cristãos faziam isso. Paulo explica: o julgamento
adverso só viria se o cristão fizesse isso ‘sem discernir o corpo’, ou seja, se
encarasse aquele pão e vinho como simples alimentos, despercebendo
que eles estavam representando o corpo e o sangue de Cristo no momento da
celebração. A maneira como este mesmo texto é expresso na versão abaixo deixa
isso claro:
Se alguém comer do pão ou beber do cálice, sem reconhecer que
se trata do corpo do Senhor, come e bebe para o seu próprio castigo. (A
Bíblia na Linguagem de Hoje)
Ou seja,
aqueles cristãos não deveriam encarar a celebração como simplesmente uma
oportunidade de saciar sua fome em sentido físico. Foi por isso que
Paulo disse no versículo 34: “Se alguém tiver fome, coma em casa, para que
não vos reunais para julgamento”. Note-se que Paulo mais uma vez associa o
“julgamento” com a possibilidade de alguém usar os alimentos da celebração para
saciar a fome, despercebendo o verdadeiro significado
deles. Ele não diz nada além disso. Isto é uma
confirmação adicional de que o “julgamento contra si mesmo” (mencionado no
versículo 29) nada tem que ver com a “esperança celestial”.
1 Cor 11:30: É por isso que muitos entre
vós estão fracos e doentios, e não poucos estão dormindo [na morte].
Com certeza
Paulo não estava falando em ‘fraqueza’, ‘doença’ e ‘morte’ literais. Não
haveria o menor sentido em aquelas pessoas estarem
“fracas e doentias” e muitas delas até “mortas”, simplesmente por terem ‘comido
o pão e bebido o vinho’. A expressão “É por isso”, indica que esse versículo
complementa o que diz o anterior: Aqueles cristãos estavam fisicamente vivos,
mas estavam “fracos”, “doentios” e muitos outros
estavam “mortos” em sentido espiritual porque ‘não discerniam o corpo’
1 Cor 11:31: Mas, se discerníssemos o
que nós mesmos somos, não seríamos julgados.”
O que
conduziria a pessoa ao julgamento? Seria por ela achar que era “ungido”
sem ser realmente, como dá a entender a Torre de Vigia? Não, a frase do texto é
clara: O julgamento adverso só viria se a pessoa ‘não discernisse o que ela
mesma era’. Em outras palavras: O julgamento viria,
não devido à pessoa “discernir errado” e sim devido à pessoa ‘deixar de
discernir’.
O destino
daqueles cristãos não era o que estava
Para entender
isso, temos de pensar novamente nas palavras de Paulo ditas dois versículos
antes. Em 1 Cor 11:29, ele havia falado que se a
pessoa ‘não discernisse o corpo’, estaria sujeita ao julgamento. Esse
‘discernir o que somos’ referido por ele em 1 Cor 11:31
tem conexão direta com isso.
O que aqueles
cristãos ‘eram’? Logo no capítulo seguinte desta mesma carta aos coríntios, Paulo discutiu o assunto do “corpo de Cristo”.
Em certo momento da discussão, ele disse em 1 Cor 12:27:
“Ora, vós sois corpo de Cristo e membros
individualmente.”
A organização
Torre de Vigia, como sempre, afirma que esta expressão “corpo de Cristo”
aplica-se apenas aos 144.000. A Sentinela de 1º de fevereiro de 1992, página
14, na parte final do parágrafo 4, diz:
É privilégio das Testemunhas de Jeová ter no seu meio os
últimos dos membros do corpo de Cristo, batizados pelo espírito, que servem
como “escravo fiel e discreto” para prover alimento espiritual no tempo
apropriado.
Mas se lermos
a discussão que Paulo fez no capítulo 12 dessa primeira carta aos coríntios, não encontramos uma
única indicação de que essa expressão “corpo de Cristo” só pode ser aplicada a
um grupo específico. Ele simplesmente alista diversos dons que Deus pode
conceder a cada membro do “corpo” e defende o relacionamento harmonioso que
deve existir entre todos os membros da congregação cristã, assim como o que
existe entre os membros dum corpo humano. O ensino da Torre de Vigia faz
parecer que Deus concede dons espirituais apenas a um grupo de 144.000 pessoas
e que são apenas as pessoas desse grupo que devem ter relacionamento harmônico
entre si. As palavras de Paulo não apóiam isso de modo algum. Tudo o que ele
diz lá é aplicável a todos os verdadeiros cristãos. O leitor pode conferir
examinando esse capítulo da carta dele, na íntegra.
Dessa forma,
quando ele falou em “discernir o que somos”, era a isso que ele se referia. Em
sentido espiritual, todos os verdadeiros cristãos são membros do “corpo de
Cristo”. Deixar de discernir essa condição de membro e não agir como tal é que
sujeita o cristão ao julgamento adverso de Deus. Se o cristão discerne que é
membro do “corpo de Cristo” e está em harmonia com os demais membros, ele terá
plena condição de participar na comemoração ‘discernindo o corpo’. É isto que
significa participação no pão e no vinho com discernimento.
À base de
tudo o que foi discutido acima, podemos ver quão impróprio
é a organização Torre de Vigia fazer esses acréscimos às palavras de Paulo,
modificando radicalmente o entendimento do que ele disse em 1 Coríntios 11:27-
[1] Como um exemplo
dentre muitos, A Sentinela de 1º de março de 2004 afirma na página 10:
“No primeiro século EC, todo cristão tinha a esperança celestial.”