4

 

PARALELOS ENTRE A PÁSCOA

E A COMEMORAÇÃO CRISTÃ

 

 

S

EMPRE QUE as Testemunhas de Jeová realizam sua celebração, o orador que preside inclui explicações para validar os procedimentos que serão seguidos. Ele diz à assistência por que a celebração está sendo feita naquela noite específica, por que é feita em base anual e diversos outros detalhes relacionados com a Bíblia e com a doutrina da organização. Tudo isso consta no esboço, cujo conteúdo está disponibilizado no Apêndice 01 deste folheto.

Conforme foi declarado na Introdução, no que se refere aos procedimentos que cada igreja segue, não há por que polemizar. Já que a própria Bíblia não chega a esse nível de discussão de detalhes técnicos, a questão de se determinar o que é “correto” ou “errado” depende muito da interpretação da liderança de cada grupo religioso. Por isso, não questionamos os procedimentos cerimoniais da organização Torre de Vigia, nem os de qualquer outra religião.[1]

O que se nota no caso dos líderes da Torre de Vigia, porém, é um padrão duplo de pensamento, mesmo neste assunto. Como assim?

Porque muito da argumentação que eles usam para definir os procedimentos que consideram como os “corretos”, baseia-se unicamente nos paralelos existentes entre a Páscoa judaica e a Comemoração da morte de Cristo. Mas o interessante é que só existe essa preocupação de seguir de perto o exemplo do que ocorria na Páscoa quando isso não compromete a doutrina da organização. Se, ao contrário, o paralelo contradizer algo que a organização defende, ele é simplesmente desconsiderado ou até deturpado.

Consideremos as similaridades costumeiramente apontadas nas publicações da Torre de Vigia:

  • A Páscoa judaica era celebrada anualmente, portanto, a única freqüência que se admite para a comemoração é também uma vez por ano. Não se dá margem a qualquer outra freqüência.
  • Os judeus celebravam no dia 14 de nisã do calendário deles. Hoje a organização faz esforço para determinar precisamente a data correspondente do nosso calendário. As publicações dão até explicações técnicas do procedimento que se segue para inferir a data com precisão. Como a Páscoa judaica era celebrada nesse dia, não se admite a celebração em outra data. Até mesmo se um dos “ungidos” não puder comparecer na noite da comemoração, é nos procedimentos que se seguiam na Páscoa judaica que a Torre de Vigia vai buscar uma solução.[2]
  • O pão não-fermentado e o vinho tinto puro estavam entre os alimentos usados na Páscoa. Sempre que o assunto da Comemoração é considerado, a organização insiste que os alimentos a serem usados também tenham essas características. No caso do vinho, por exemplo, as publicações às vezes chegam até a especificar quais são as marcas que possam conter alguma mistura, sendo, portanto, inapropriadas para o uso na celebração.

Mas estas são apenas questões referentes ao cerimonial. Como será mostrado a seguir, existem diversos outros pontos de contato muito mais importantes que a própria Bíblia estabelece entre as duas celebrações e que são aceitos sem qualquer questionamento pela Torre de Vigia. O aspecto contraditório disso é que, ao mesmo tempo em que a organização publica muita matéria enfatizando esses paralelos, quando se coloca a questão da participação geral nos alimentos simbólicos, ocorre uma surpreendente reversão. Nesse ponto, a organização passa a fazer todo o esforço para provar que uma das celebrações não é típica da outra!

Analisemos, como exemplo, uma resposta que foi dada num  momento em que essa questão surgiu. A matéria encontra-se na revista A Sentinela de 15 de fevereiro de 1985, páginas 17, 18:

A Páscoa e a Comemoração

6 Alguns sugeriram que o crescente número dos das “outras ovelhas” deviam tomar os emblemas. Raciocinam do seguinte modo: Visto que “a Lei tem uma sombra das boas coisas vindouras”, e visto que um dos requisitos da Lei era a guarda da Páscoa tanto pelos israelitas como pelos residentes forasteiros circuncisos, isto daria a entender que ambas as classes de pessoas semelhantes a ovelhas, no “um só rebanho” sob “um só pastor”, deviam tomar os emblemas da Comemoração. (Hebreus 10:1; João 10:16; Números 9:14) Isto suscita uma importante pergunta: Era a Páscoa tipo da Comemoração?

7 É verdade que certos aspectos da observância da Páscoa no Egito, sem dúvida, se cumpriram em Jesus. Paulo comparou Jesus ao cordeiro pascoal, dizendo: “Cristo, a nossa páscoa, já tem sido sacrificado.” (1 Coríntios 5:7) A aspersão do sangue do cordeiro pascoal sobre as ombreiras e as vergas das portas assegurava a libertação do primogênito em cada lar israelita. De maneira similar, é por meio da aspersão do sangue de Cristo que a “congregação dos primogênitos que foram alistados nos céus” recebe sua libertação ou seu “livramento por meio de resgate”. (Hebreus 12:23, 24; Efésios 1:3, 7) Além disso, não se devia quebrar nenhum osso do cordeiro pascoal, e isso também teve cumprimento em Cristo Jesus. (Êxodo 12:46; Salmo 34:20; João 19:36) Portanto, pode-se dizer que a Páscoa, em certos aspectos, era uma das muitas particularidades da Lei que fornecia “uma sombra das boas coisas vindouras”. Todas essas particularidades apontavam para Cristo Jesus, “o Cordeiro de Deus”. — João 1:29.

Embora reconheça os paralelos existentes, estes já são apresentados apenas como “certos aspectos”. A matéria da Sentinela até grifa esta expressão. E há um detalhe que é logo introduzido sutilmente, sem qualquer confirmação bíblica. É o seguinte:

Dá-se a entender que o sangue de Cristo foi ‘aspergido’ apenas em benefício dos “primogênitos alistados nos céus”. A Torre de Vigia entende que esses “primogênitos” referem-se apenas aos 144.000. Mesmo que isso fosse verdade, ainda não seria possível encontrarmos uma base bíblica para o que o parágrafo sugere. Os textos citados (Hebreus 12:23, 24 e Efésios 1:3, 7) não apóiam a idéia. A Bíblia ensina consistentemente que o sangue de Cristo foi ‘derramado’ em benefício de muitos, como resgate correspondente por todos, não só por alguns. Embora Hebreus 12: 23, 24 fale nesses “primogênitos alistados nos céus”, não diz em momento algum que o resgate beneficiaria apenas a eles.

Note-se que não há hesitação em apontar o paralelo entre as duas celebrações, principalmente porque esta particularidade referida no parágrafo anterior parece apoiar o ensino da organização. Como a palavra “primogênitos” aparece em ambos os casos e uma vez que a organização entende que os “primogênitos alistados nos céus” são apenas os 144.000, a comparação reflete a crença de que o “sangue do pacto” está vinculado primariamente com a herança celestial. Nesse ponto, o escritor da matéria parece esquecer as palavras de Mateus 26: 27, 28, já citadas, segundo as quais o ‘sangue do pacto haveria de ser derramado em benefício de muitos’. Este texto não diz qualquer palavra sobre vida celestial e sim, simplesmente sobre “perdão de pecados”.

Após ter reconhecido que todas estas particularidades da Páscoa (essenciais, devemos salientar) apontavam para o sacrifício de Cristo, a Sentinela procura estabelecer certas diferenças. O parágrafo 8 prossegue dizendo:

8 Não obstante, a Páscoa não era estritamente tipo da Refeição Noturna do Senhor. Por que não? Quando se instituiu a Páscoa no Egito, consumia-se a carne dum cordeiro assado, mas não se consumia nada do sangue do cordeiro pascoal. Em contraste, porém, quando Jesus instituiu a Comemoração de sua morte, ele mandou especificamente que os então presentes comessem sua carne e bebessem seu sangue, simbolizados pelo pão e pelo vinho. (Êxodo 12:7, 8; Mateus 26:27, 28) Neste aspecto muito importante — o sangue — a Páscoa não era tipo da Refeição Noturna do Senhor.

O que é ocorre aqui é um desvio sutil da questão, juntamente com omissão de fatos.

Desde o início, o que está em discussão, é se os que comparecem a ambas as celebrações devem participar dos alimentos ou não. Diante disso, quais são exatamente os símbolos usados, é qual é o uso específico que se faz deles são questões secundárias.

Na Bíblia, quando uma realidade tipifica outra, os paralelos devem obrigatoriamente existir, mas não se requer de modo algum que todos os detalhes sejam “estritamente” iguais. Se fosse assim, todos os paralelos que a Torre de Vigia aponta existirem na Bíblia deveriam seguir este padrão e não é isso que ocorre.

Se fizermos uma comparação, veremos que o sangue está presente nas duas celebrações, sim, e de maneira decisiva, fazendo a diferença entre a vida e a morte. No caso da primeira Páscoa, o sangue do cordeiro foi aspergido nas ombreiras das portas, o que significou salvação para os primogênitos dos israelitas. Analogamente, na comemoração, o sangue de Cristo, também significa salvação de muitas vidas. O ‘aspecto’ do sangue estava tão presente na Páscoa que ela era realmente chamada de “sacrifício da Páscoa” (veja Êxodo 12:26, 27). Nenhum israelita bebia o sangue do cordeiro pascoal, porque isso era proibido (e a Lei Mosaica manteve a proibição). No caso da Comemoração cristã, bebe-se o vinho, mas ele é apenas uma representação. Ninguém bebe literalmente o próprio sangue do Cordeiro Jesus Cristo.

Se a questão se resumisse aos próprios símbolos e seu uso, a Sentinela não deveria omitir que, mesmo o vinho, pode não ter sido usado quando a Páscoa judaica foi instituída, mas foi acrescentado à celebração posteriormente, e a organização está a par deste fato. Em algum momento, todos os judeus que compareciam à Páscoa começaram a usar copos de vinho como parte da celebração. Jesus não fez qualquer objeção a isso, e ainda introduziu este vinho como símbolo de seu próprio sangue salvador.

Portanto, no “aspecto muito importante” do sangue, o paralelo entre as duas celebrações é muito claro. O fato de que os judeus da antiguidade não bebiam o sangue do cordeiro não invalida de modo algum esse paralelo e nem constitui em si mesmo uma prova de que alguém deva deixar de participar na Comemoração hoje.

No parágrafo seguinte da Sentinela, a organização procura encontrar outro ponto de ataque. Vejamos:

9 Há algo mais que não deve ser despercebido. Jesus considerou com seus discípulos dois pactos relacionados, “o novo pacto” e ‘um pacto para um reino’. (Lucas 22:20, 28-30) Ambos os pactos tinham que ver com os participantes se tornarem compartilhadores com Cristo Jesus quais sacerdotes e reis. Mas em Israel, nenhum residente forasteiro circunciso jamais podia tornar-se sacerdote ou rei. Neste respeito, também, encontramos uma diferença entre a festividade da Páscoa, em Israel, e a Refeição Noturna do Senhor.

De novo a Sentinela se desvia da questão e omite fatos. Quem lê este parágrafo é induzido a pensar que existe uma diferença, onde, na realidade, não há diferença alguma! O que se faz é um jogo de palavras para levar milhões de pessoas a aceitar uma determinada doutrina.

Analisemos por partes. Primeiro afirma-se que:

Ambos os pactos tinham que ver com os participantes se tornarem compartilhadores com Cristo Jesus quais sacerdotes e reis.”

Ora, este é o ensino da organização! Não há um só texto bíblico que apóie a idéia de que o “novo pacto” tinha alguma coisa que ver com isso! O parágrafo não dá prova alguma. Apenas afirma. Daí, com a mente dos leitores convenientemente focalizada nisso, acrescentam-se estas duas frases:

“Mas em Israel, nenhum residente forasteiro circunciso jamais podia tornar-se sacerdote ou rei. Neste respeito, também, encontramos uma diferença entre a festividade da Páscoa, em Israel, e a Refeição Noturna do Senhor.”

E o escritor da matéria deixa de mencionar o seguinte: Nem mesmo a vasta maioria dos israelitas naturais podia tornar-se sacerdote ou rei. Segundo a Bíblia, tais privilégios só estavam disponíveis para a tribo de Levi e para a tribo de Judá, respectivamente. E a designação estava restrita a apenas uma família de cada tribo. No caso dos levitas, somente os descendentes de Arão podiam tornar-se sacerdotes. Na tribo de Judá, só os da descendência de Davi tinham direito legal ao trono.

Como esta informação enfraqueceria o argumento, é omitida na Sentinela. E uma vez que neste ponto a mente dos leitores foi desviada para a questão de quem podia ou não “se tornar sacerdote ou rei”, todos já esqueceram qual era o assunto em discussão. Isto os faz perder de vista estas duas verdades básicas que todo leitor da Bíblia conhece:

  • Os sacerdotes, os reis, os israelitas de todas as tribos, bem como todos os residentes forasteiros participavam da Páscoa. Nunca esteve em dúvida se alguém deveria ou não participar.
  • Essa participação nos alimentos servidos na Páscoa não tinha absolutamente nada que ver com a pessoa vir a se tornar sacerdote ou rei em Israel. O objetivo era comemorar a libertação do cativeiro no Egito.

Com base nessas “diferenças” apontadas nos parágrafos 8 e 9, o parágrafo 10, apresenta a “conclusão”:

10 Portanto, a que conclusão nos leva isso? O fato de que o residente forasteiro circunciso comia o pão não levedado, as ervas amargas e o cordeiro da Páscoa não determina hoje que os que são das “outras ovelhas” do Senhor e que estão presentes à Comemoração devam tomar o pão e o vinho.

Eis o que a matéria da Sentinela fez para chegar a essa conclusão:

  • Desviou-se da questão principal o tempo todo, transferindo a discussão para detalhes secundários;
  • Usou raciocínio circular, pois apresentou a doutrina da organização como se fosse uma verdade inquestionável e depois “acomodou” a informação bíblica a esta premissa;
  • Omitiu informações relevantes para o esclarecimento do assunto.

Se o raciocínio partisse de bases concretas, atendo-se apenas à informação bíblica, e reconhecendo o amplo paralelismo existente, as conclusões seriam as seguintes:

  • Nem a Páscoa judaica nem a Celebração cristã tem qualquer relação com sacerdócio ou realeza;
  • Ambas as cerimônias foram instituídas para comemorar a libertação dum jugo opressivo. No primeiro caso, a libertação do cativeiro numa terra estrangeira. No segundo caso, a libertação do pecado e da morte;
  • Em ambas as celebrações, todos os presentes foram instruídos a participar dos alimentos simbólicos servidos. Nunca alguém foi proibido de fazer isso.

A motivação por trás desse esforço que a organização faz para enfraquecer o paralelismo entre a Páscoa e a Comemoração, é inquestionavelmente o desejo de defender a todo custo uma doutrina religiosa particular. Como vimos acima, informações simples, conhecidas por todos os leitores da Bíblia, são suficientes para mostrar a falta de validade da argumentação que se usa em apoio dessas supostas “diferenças”.



[1] Esta terceira edição inclui um artigo de autoria do ex-ancião espanhol José Martín Pérez, o qual comenta a questão da freqüência da celebração. Esta matéria encontra-se no Apêndice 3.

[2] Veja A Sentinela de 15 de março de 1985, página 32

 

 

 

PASSAR PARA A PARTE 5
ou

IR PARA A LISTA DE ARTIGOS