As Testemunhas de Jeová e a Comemoração

 

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O "Novo Pacto" e Seus Participantes

A

TÉ AQUI estabelecemos biblicamente o seguinte: Quando instituiu a comemoração de sua morte, Jesus não relacionou o pão e o vinho com o “pacto para um reino” e sim com o “novo pacto”.

O que é um “pacto”? Basicamente é um acordo feito entre duas ou mais partes. Estas “partes” podem ser indivíduos ou grupos de pessoas e o acordo pode ser verbal ou escrito. Vários são os sinônimos de “pacto”. Além da palavra “acordo”, é costumeiro o uso das palavras “contrato” e “tratado”. Em várias traduções da Bíblia aparecem também as palavras “aliança” e “concerto”.

Independentemente da palavra que se use, o importante é que, quando um acordo é feito, ambas as partes impõem a si mesmas uma ou mais obrigações e ambas desfrutam de um ou mais benefícios decorrentes do acordo. É sempre assim, não importa qual seja a natureza do acordo. E não é diferente no caso dos “pactos” mencionados na Bíblia.

A bem da consistência, de todas as palavras com este mesmo significado, usaremos neste folheto a palavra “pacto”, uma vez que é a usada na Tradução do Novo Mundo, a versão oficial da organização Torre de Vigia. Assim, em lugar das expressões “novo concerto” ou “nova aliança”, que aparecem em outras versões bíblicas, usaremos sempre a expressão equivalente, “novo pacto”.

O que ensina a organização Torre de Vigia sobre este “novo pacto”? Entre as muitas referências existentes nas publicações, temos esta:

A Sentinela de 1º de fevereiro de 1998, página 19, parágrafo 3:

3 Para os 144.000, a bênção do pacto abraâmico é administrada por meio do novo pacto. Sendo participantes deste pacto, eles estão “debaixo de benignidade imerecida” e “debaixo de lei para com Cristo”. (Romanos 6:15; 1 Coríntios 9:21) Portanto, apenas os 144.000 membros do Israel de Deus têm corretamente participado dos emblemas durante a Comemoração da morte de Jesus, e foi somente com eles que Jesus fez o seu pacto para um Reino. (Lucas 22:19, 20, 29) Os membros da grande multidão não participam neste novo pacto. No entanto, estão associados com os do Israel de Deus e vivem com eles na “terra” deles. (Isaías 66:8) Por isso é razoável dizer que eles também estão debaixo da benignidade imerecida de Jeová e debaixo da lei para com Cristo. Embora não participem no novo pacto, são beneficiados por ele.

Portanto, de acordo com essa Sentinela, não é somente o “pacto para um reino” que se aplica apenas aos 144.000. Este é o caso do “novo pacto” também. Apenas os 144.000 são “participantes” dele. Todos os demais estão fora, sendo apenas “beneficiados”. E como Jesus fez uma conexão direta entre este “novo pacto” e o vinho da comemoração, isso ajuda a Torre de Vigia a manter o ensino de que apenas os 144.000 podem participar dos alimentos simbólicos usados nela.

Para começar, temos um problema de definição aqui. Conforme mostramos acima, todo e qualquer pacto exige necessariamente que ambas as partes assumam obrigações mútuas e colham benefícios decorrentes. Caso estas condições não sejam satisfeitas, o pacto simplesmente não existe. Se a Sentinela está dizendo que o “novo pacto” é feito apenas entre Deus e os 144.000, isso significa que apenas estes têm obrigações para com Deus, e seriam apenas eles os beneficiados. Uma vez que a “grande multidão” está fora do pacto, nenhuma pessoa desse grupo teria qualquer obrigação para com Deus e nem usufruiria de qualquer benefício. É contraditório, pois, o parágrafo dizer que a “grande multidão” está ‘sob a lei do Cristo’, ‘debaixo da benignidade imerecida de Jeová’, e na condição de ‘beneficiada’ pelo pacto. Tudo isso só seria verdade se a “grande multidão” fosse também participante do pacto.

Pelo que se nota, a organização Torre de Vigia parece ter elaborado um conceito diferente de “pacto”. Milhões de leitores que aceitam essa informação da Sentinela deixam de perceber que a essência da definição do termo está sendo desconsiderada. É impossível citar um único exemplo (bíblico ou não), em que uma pessoa (ou seus herdeiros e sucessores) tenha sido beneficiada por um pacto, sem ser participante dele.

Mas este aspecto semântico é só uma pequena parte do problema. Muito mais importante do que isso é a seguinte questão: Existe fundamento bíblico para a idéia de que só os 144.000 são participantes do “novo pacto”?

A própria Bíblia esclarece por que Jesus se referiu a esse pacto deste modo. Se ele falou em “novo pacto”, é porque existiu um pacto anterior. Esse anterior foi o pacto estabelecido entre Deus e os judeus da antiguidade. Uma análise da situação dos que estavam naquele pacto é muito esclarecedora.

O PACTO FEITO ENTRE DEUS E A NAÇÃO DE ISRAEL

Assim como o “novo pacto”, o anterior teve um mediador (Gálatas 3:19; Hebreus 8:6), e foi validado com sangue (Êxodo 24:8; Lucas 22:20). E quanto ao número de pessoas que faziam parte daquele pacto anterior? Moisés esclarece isso em Deuteronômio 5:1-3:

E Moisés passou a chamar todo o Israel e a dizer-lhes: “Ouve, ó Israel, os regulamentos e as decisões judiciais que hoje falo aos vossos ouvidos, e tendes de aprendê-los e cuidar em cumpri-los. Jeová, nosso Deus, concluiu conosco um pacto em Horebe. Não foi com os nossos antepassados que Jeová concluiu este pacto, mas conosco, todos os que hoje aqui estamos vivos.

De imediato, fica claro o seguinte: O pacto estava sendo celebrado entre Deus e todos os judeus. Todos os milhões de judeus ‘que estavam ali, vivos’ eram participantes. Mas quais seriam as vantagens deste pacto para eles? Êxodo 19:5, 6, responde:

E agora, se obedecerdes estritamente à minha voz e deveras guardardes meu pacto, então vos haveis de tornar minha propriedade especial dentre todos os [outros] povos, pois minha é toda a terra. E vós mesmos vos tornareis para mim um reino de sacerdotes e uma nação santa.’ Estas são as palavras que deves dizer aos filhos de Israel.”

Embora seja claro que estas palavras teriam aplicação em todas aquelas pessoas, a organização Torre de Vigia faz uma leitura bem diferente. Vejamos como se expressa A Sentinela de 1º de fevereiro de 1989, página 13:

18 Ao fazer o pacto temporário, Deus também mencionou o seguinte objetivo emocionante: “Se obedecerdes estritamente à minha voz e deveras guardardes meu pacto, então vos haveis de tornar minha propriedade especial. . . E vós mesmos vos tornareis para mim um reino de sacerdotes e uma nação santa.” (Êxodo 19:5, 6) Que perspectiva! Uma nação de reis-sacerdotes. Mas, como seria isso possível? Como a Lei mais tarde especificou, a tribo governante (Judá) e a tribo sacerdotal (Levi) receberam responsabilidades diferentes. (Gênesis 49:10; Êxodo 28:43; Números 3:5-13) Nenhum homem poderia ser tanto governante civil como sacerdote. Ainda assim, as palavras de Deus em Êxodo 19:5, 6 forneciam motivo para se crer que de alguma maneira não revelada, os que estavam no pacto da Lei teriam a oportunidade de prover os membros de “um reino de sacerdotes e uma nação santa”.

Observe, “de alguma maneira não revelada”. Com certeza não houve qualquer “revelação” que dê apoio a esta hipótese! O que este parágrafo da Sentinela declara, está em contradição direta com tudo o que os textos dizem.

Em primeiro lugar, Moisés não falou em “uma nação de reis-sacerdotes”. As palavras que ele usou foram “reino de sacerdotes e uma nação santa”. O que ele destacou foi o aspecto da pureza espiritual, e não propriamente a questão do poder régio. Os exemplos seguintes podem nos ajudar a entender o significado dessas palavras:

 Quando dizemos que “a Grécia foi um império de filósofos”, ou então “a Fenícia foi um reino de grandes navegadores”, o que estamos fazendo é destacar características marcantes desses povos. As palavras “reino” e “império” não são usadas aqui para destacar o sistema de governo que estas nações tinham e nem sugere que todos os cidadãos destas nações eram “reis” ou “imperadores”. Assim foi com esta expressão de Moisés. Ele não disse que todos aqueles judeus se tornariam “reis” ou “governantes civis”, caso obedecessem. Mas assegurou que Deus os consideraria como um “reino de sacerdotes” e uma “nação santa”.

Até mesmo a questão de saber quantos sacerdotes existiriam entre eles é irrelevante. Os mesmos exemplos acima elucidam isso. Dizer que a Grécia foi um “império de filósofos”, não significa que todos os gregos eram filósofos. E nem todos os fenícios foram “grandes navegadores”. Mas tais nações se destacaram nestas características. Da mesma maneira, se os judeus fossem fiéis ao pacto, eles se destacariam como um “reino de sacerdotes” e uma “nação santa” diante de Deus. 

Outra coisa que a Sentinela afirma é que quando Deus disse isso, Ele tinha a idéia de tirar dentre aqueles judeus que estavam no pacto, os “membros” de um “reino de sacerdotes e uma nação santa”. Segundo o entendimento da organização, esse número de “membros” é literal, ou seja, 144.000 e são os mesmos que se diz que irão para o céu governar ao lado de Cristo. A Sentinela de 1º de setembro de 2000, confirma que é este mesmo o entendimento da organização sobre estas palavras de Moisés. Diz a revista, na página 21:

13 Os do Israel natural poderiam ter fornecido o pleno número dos que participariam com o Messias no seu Reino celestial como um reino de sacerdotes e uma nação santa. Mas eles não deram valor à sua preciosa herança. Apenas um restante de israelitas naturais aceitou o Messias quando este chegou. Em resultado disso, apenas um pequeno número deles foi incluído no predito reino de sacerdotes. O Reino foi tirado do Israel natural e ‘dado a uma nação que produz os seus frutos’. (Mateus 21:43)

É válido esse raciocínio? De forma alguma, e por diversos motivos.

Essa Sentinela condiciona o ‘fornecimento desse pleno número do reino de sacerdotes’ (144.000, segundo ensina a organização) com a ‘aceitação do Messias quando este chegou’. Mas não foi isso que Moisés disse. As palavras de Deuteronômio 5:1-3 são claras: “Ouve, ó Israel, os regulamentos e as decisões judiciais que hoje falo aos vossos ouvidos, e tendes de aprendê-los e cuidar em cumpri-los.” Moisés disse que a condição para aqueles judeus se tornarem um “reino de sacerdotes e uma nação santa” era a ‘obediência estrita’ àquele pacto que estava sendo celebrado e não a ‘aceitação do Messias’. O Messias só veio 1.500 anos depois.

Além do mais, quando a Sentinela fala em “predito reino de sacerdotes”, dá-se a entender que Moisés estava fazendo uma “predição” de algo futuro. Novamente não foi isso que ele disse. Ele falou em termos bem claros: “E vós mesmos vos tornareis para mim um reino de sacerdotes e uma nação santa.’” Isso significa simplesmente que, se aqueles judeus que estavam ouvindo as palavras dele se mantivessem fiéis ao pacto, tais palavras passariam a ter aplicação neles mesmos. Moisés não estava restringindo a aplicação dessas palavras a pessoas que viveriam no futuro. E nem estava sugerindo que tais palavras teriam aplicação a um número limitado de pessoas. Os milhões que estavam ali “vivos” naquele exato momento já seriam “um reino de sacerdotes e uma nação santa”. E enquanto elas (e seus descendentes) se mantivessem fiéis ao pacto, tais palavras continuariam valendo.

Além disso, a afirmação da Torre de Vigia, no sentido de que os judeus ‘não conseguiram completar’ nem sequer um número de 144.000 fiéis é altamente improvável. Por que dizemos isso?

Consideremos duas hipóteses:

Suponhamos que a Torre de Vigia estivesse certa quanto ao número de componentes desse “reino de sacerdotes” (segundo a organização entende esse termo), os quais, segundo eles, os judeus ‘poderiam ter fornecido’. Surgiria a seguinte pergunta: Será que durante esses 1.500 anos em que o pacto vigorou, e em meio a tantos milhões de judeus que viveram e morreram no decorrer desse tempo, o número de fiéis foi inferior a 144.000

Vamos ainda mais longe: Suponhamos que a Torre de Vigia estivesse certa nas duas idéias, a saber, (1) que ser parte do “reino de sacerdotes e nação santa” dependia da “aceitação do Messias” e (2) que pelo menos 144.000 pessoas deveriam aceitá-lo, para se completar o número de “membros” desse reino. Ainda assim surgiria uma pergunta semelhante à expressa no parágrafo acima. Qual?

A Sentinela diz que “apenas um restante de israelitas naturais aceitou o Messias quando este chegou. Em resultado disso, apenas um pequeno número deles foi incluído no predito reino de sacerdotes.” Ora, isto pode ser verdade no caso dos judeus que estavam vivos na época da chegada de Cristo. A maioria o rejeitou mesmo. Mas e os milhões e milhões de judeus que viveram e morreram nas gerações anteriores à chegada dele? Será que em meio a todas essas pessoas não teria havido nem 144.000 que aceitariam a Cristo? 

O objetivo de toda essa consideração é mostrar que, com tais palavras “reino de sacerdotes e nação santa”, Moisés não poderia ter em mente um número específico de pessoas, como as publicações da Torre de Vigia sugerem. Por qualquer ângulo que possamos analisar tais palavras, torna-se claro que o pacto anterior foi estabelecido entre Deus e um número indeterminado de pessoas. Milhões delas estavam vivas no exato momento em que o pacto foi celebrado. Não há como afirmar que esse pacto anterior tinha aplicação a um pequeno número de indivíduos. 

A SITUAÇÃO SOB O “NOVO PACTO”

No início deste capítulo, citamos a Sentinela de 1º de fevereiro de 1998, página 19, parágrafo 3, onde se afirma que apenas os 144.000 são “participantes do novo pacto”. Um simples exame do que a Bíblia diz sobre este, porém, mostra-nos facilmente quão inválida é esta idéia.

Quando Paulo fez a sua consideração sobre o “novo pacto”, no livro de Hebreus, não se fez qualquer referência a um número fixo. As palavras dele, em Hebreus 8:7-12, foram:

Porque, se aquele primeiro pacto tivesse sido sem defeito, não se teria procurado lugar para um segundo; porque ele acha falta no povo quando diz: “‘Eis que vêm dias’, diz Jeová, ‘e eu concluirei um novo pacto com a casa de Israel e com a casa de Judá; não segundo o pacto que fiz com os seus antepassados no dia em que os tomei pela mão para os tirar da terra do Egito, porque não continuaram no meu pacto, de modo que parei de me importar com eles’, diz Jeová.”

“‘Pois, este é o pacto que celebrarei com a casa de Israel depois daqueles dias’, diz Jeová.Porei as minhas leis na sua mente e as escreverei nos seus corações. E eu me tornarei seu Deus e eles é que se tornarão meu povo.

“‘E de modo algum ensinará cada um ao seu concidadão e cada um ao seu irmão, dizendo: “Conhece a Jeová!” Porque todos me conhecerão, desde [o] menor até [o] maior deles. Porque serei misericordioso para com as suas ações injustas e de modo algum me lembrarei mais dos seus pecados.’”

É apenas e tão-somente isso que ele diz. Nada nessa discussão dá a idéia de um número fixo de pessoas e não se diz uma única palavra sobre “vida celestial”. Se isso se aplicasse apenas a um grupo de 144.000, seríamos forçados a concluir que apenas eles têm a lei de Deus ‘escrita nos corações’, apenas eles fazem parte do ‘povo de Deus’, somente eles ‘conhecem o verdadeiro Deus’ e apenas os pecados deles é que são perdoados por Deus.

Esta última declaração de Paulo quanto a ‘Deus não levar em conta os pecados’, faz lembrar aquilo que Cristo disse, quando celebrou esse “novo pacto”. Vejamos as palavras dele, conforme o relato de Mateus 26:27, 28:

Tomou também um copo, e, tendo dado graças, deu-lho, dizendo: “Bebei dele, todos vós; pois isto significa meu ‘sangue do pacto’, que há de ser derramado em benefício de muitos, para o perdão de pecados”.

Novamente, associa-se aqui o pacto não com alguns, e sim, com “muitos”. Não se faz uma limitação disso a um grupo específico de indivíduos.

Consideramos aqui as principais referências que as Escrituras fazem aos dois pactos. Da mesma maneira que o pacto anterior se aplicava a todos os judeus, sem limitação de número, em todos os casos em que o “novo pacto” é considerado na Bíblia, tal expressão é perfeitamente aplicável a todos os que têm fé em Cristo e acreditam firmemente no valor de seu sangue redentor. Os textos citados aqui são suficientes para mostrar que a idéia de que tais pactos foram celebrados apenas com um número determinado de pessoas não é um ensino bíblico.

Deus promete aplicar a todos os que estão neste “novo pacto” o valor do sangue de Cristo, derramado em sacrifício, perdoando-lhes os pecados e concedendo-lhes vida eterna.  E, em contrapartida, todos estes se obrigam perante Deus a depositar fé nesse sacrifício e viver de acordo com esta fé. À luz de tudo o que consideramos acima, não há, e nem deve haver distinção entre os cristãos no momento em que a comemoração é realizada. Uma vez que todos estão numa relação pactuada com Deus, por intermédio de Cristo, todos devem tomar parte nela.

 

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