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A PRIMEIRA CELEBRAÇÃO

E O “PACTO PARA UM REINO”

 

 

Q

UANDO AS PUBLICAÇÕES da Torre de Vigia defendem o ensino de que somente alguns devem participar do pão e do vinho, muitas vezes dirigem a atenção dos leitores para os acontecimentos da última páscoa que Jesus celebrou na terra, momento em que instituiu a ceia comemorativa de sua morte. Examinemos o que dizem duas destas publicações:

Raciocínios à Base das Escrituras, página 88:

Quem deve participar do pão e do vinho?

Quem participou quando Jesus instituiu a Refeição Noturna do Senhor pouco antes de morrer? Onze seguidores fiéis aos quais Jesus disse: “Eu faço convosco um pacto, assim como meu Pai fez comigo um pacto, para um reino.” (Luc. 22:29) Todos eles eram pessoas que estavam sendo convidadas a participar com Cristo no seu Reino celestial. (João 14:2, 3) Todos os que participam hoje do pão e do vinho devem também ser pessoas a quem Cristo introduz nesse ‘pacto para um reino’.

A Sentinela de 15 de fevereiro de 1990, página 19:

16 Na noite em que Jesus instituiu a Refeição Noturna do Senhor, ele disse a seus apóstolos leais que ele lhes estava preparando um lugar no céu. (João 14:2, 3) Lembre-se, porém, que Jesus disse também que aqueles que tomassem do pão e do copo estariam em Seu Reino e se sentariam em tronos para julgar. Seriam estes apenas os apóstolos? Não, pois mais tarde o apóstolo João ficou sabendo que outros cristãos também venceriam e ‘se sentariam com Jesus em Seu trono’, e que juntos se tornariam ‘um reino e sacerdotes para governar sobre a terra’. (Revelação 3:21; 5:10) João foi informado também do número final de cristãos que são “comprados da terra” — 144.000. (Revelação 14:1-3) Visto ser este um grupo relativamente pequeno, um “pequeno rebanho” em comparação com todos os que adoraram a Deus ao longo das eras, é necessário discernimento especial na época da Comemoração. — Lucas 12:32.

Infelizmente milhões de pessoas aceitam estas declarações grifadas sem conferir o relato. Uma vez que, como base para estes ensinos, estas publicações chamam atenção para os eventos da primeira comemoração, vale a pena revermos o que ocorreu naquela ocasião. 

Antes, devemos frisar o seguinte: Nenhum cristão, crente na Bíblia, duvida que Jesus tenha feito um “pacto para um reino” com seus apóstolos fiéis. Lucas 22:29 afirma isso diretamente. Nem é questionável a idéia de que outros seriam incluídos neste mesmo “pacto”. A Bíblia também permite esta conclusão.

Mas será que Jesus relacionou o pão e o vinho da comemoração com esse “pacto para um reino”, como afirmam as duas publicações acima? Disse ele realmente que todos os que participassem do pão e do vinho estariam automaticamente incluídos nesse pacto e iriam para o céu?

EXAMINANDO ATENTAMENTE O RELATO

Embora haja quatro versões independentes do que ocorreu na noite da última páscoa, os evangelistas Mateus, Marcos e João dão mais ênfase ao que ocorreu após a instituição da nova celebração. Lucas é o único que especifica detalhadamente o que Jesus disse em ambas as celebrações. A consideração das palavras dele é vital para nosso entendimento. O relato encontra-se em Lucas 22:14-30. Recomendamos fortemente uma leitura na íntegra destes versículos. Eles podem ser divididos assim:

Versículos 14 a 18: Jesus comemora a Páscoa com os apóstolos;

Versículos 19 e 20: Jesus institui a comemoração de sua morte;

Versículos 21 a 27: Os apóstolos discutem e Jesus os repreende;

Versículos 28 a 30: Jesus faz com eles o “pacto para um reino”.

A leitura desse relato, por si só, já desautoriza o que a Sentinela disse acima. Jesus distribuiu o pão e o vinho aos seus apóstolos e mais tarde naquela noite, fez com eles o “pacto para um reino”. Mas ele não fez ligação deste “pacto para um reino” com a participação no pão e no vinho, e nem disse que os que participassem nesses alimentos estariam em seu reino celestial. As palavras dele, conforme constam em Lucas 22:20, foram:

“Do mesmo modo também o copo, depois de terem [tomado] a refeição noturna, dizendo: “Este copo significa o novo pacto em virtude do meu sangue, que há de ser derramado em vosso benefício.”

 

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Ainda que, conforme esta ilustração da Torre de Vigia mostra, Jesus tenha mencionado este “reino” naquela noite, ele não associou essa herança celestial com o pão e o vinho nos quais aqueles homens haviam participado. Este foi um dos vários assuntos considerados na longa palestra que ele teve com seus apóstolos, no período posterior à celebração que fora instituída.

Ele falou sobre um ‘novo pacto em virtude do seu sangue’. No relato correspondente de Mateus 26:28 encontramos a expressão “sangue do pacto”. Naquele momento Jesus não disse qualquer palavra sobre “reino”. Só se ele tivesse usado a expressão “sangue do pacto para um reino” é que a idéia apresentada na Sentinela estaria além de questionamento. O máximo que se pode tirar do relato é que Jesus relacionou o pão e o vinho com este “novo pacto” e foi só num momento posterior (após as duas discussões entre os apóstolos) que ele fez o “pacto para um reino” com os que estavam presentes.

Apesar disso, a organização Torre de Vigia insiste que há uma conexão entre os alimentos e esse “pacto para um reino”, uma vez que, ao fazer o pacto, Jesus acrescentou as seguintes palavras que aparecem em Lucas 22:30:

“... a fim de que comais e bebais à minha mesa, no meu reino, e vos senteis em tronos para julgar as doze tribos de Israel.”

‘Assim’, ensinam os líderes da Torre de Vigia, ‘como os apóstolos haviam acabado de comer e beber na refeição, Jesus quis dizer que todos os que comem o pão e bebem o vinho estarão também nessa “refeição” à mesa dele, e ‘sentados em tronos’ no céu’. 

Embora para muitos esta idéia pareça bem convincente, ela é resultado de uma leitura parcial do relato. Quando tratam desse assunto, as publicações da Torre de Vigia só dão ênfase a estas palavras do versículo 30, mas não chamam a atenção dos leitores para o fato de que Jesus já tinha mencionado essa “refeição celestial” antes de instituir a celebração de sua morte. E ele a relacionou, não com esta celebração, e sim, com a Páscoa judaica.

Mais uma vez, o relato de Lucas capítulo 22, versículos 14 a 18 ajuda-nos a entender isso. Tratando da celebração da Páscoa, as palavras são:

Por fim, quando chegou a hora, recostou-se à mesa, e os apóstolos com ele. E ele lhes disse: “Desejei muito comer esta páscoa convosco antes de eu sofrer; pois, eu vos digo: Não a comerei de novo até que se cumpra no reino de Deus.” E, aceitando um copo, deu graças e disse: “Tomai isto e passai-o de um para outro entre vós; pois, eu vos digo: Doravante não beberei mais do produto da videira até que chegue o reino de Deus.

Note-se que ele falou isso em conexão com os alimentos da Páscoa. Até aí, ele ainda não havia introduzido a nova celebração. O que disse ele?

· Que ‘a Páscoa se cumprirá no reino de Deus’;

· Que ele ‘só voltará a comê-la e beber vinho no reino de Deus’.

Acrescente-se a isso o seguinte detalhe relevante: Ao passo que o relato torna evidente que Jesus comeu dos alimentos da Páscoa, torna claro também que ele não comeu o pão nem bebeu o vinho que usou para instituir a comemoração de sua morte. Recordemos as palavras do versículo 22: “Doravante não beberei mais do produto da videira até que chegue o reino de Deus”. Já que ele disse isso no momento da Páscoa, fica claro que ele não tomou o vinho que usou para instituir a nova celebração. Apenas distribuiu os alimentos aos apóstolos, mandando que comessem e bebessem.[1]

Se, de acordo com o ensino da Torre de Vigia, a participação no pão e no vinho significa que a pessoa estará naquela refeição simbólica no reino celestial, não teria sido lógico Jesus participar deles? Como poderia Jesus convidar outros para ‘comer e beber à sua mesa no seu reino’, e ele mesmo não participar da refeição? Ele não havia acabado de dizer que ‘comeria e beberia quando chegasse o reino de Deus’?

Para serem coerentes, portanto, os líderes da Torre de Vigia deveriam aplicar sua regra – e com ainda mais força – a todos os que participavam da Páscoa judaica. Pois Jesus disse que a Páscoa é que ‘se cumprirá no reino de Deus’ e os alimentos e o vinho dela é que serão ‘servidos’ lá. Ele não disse isso sobre a comemoração de sua morte e sobre o pão e o vinho usados nesta.

Será que devemos entender então que os milhões de judeus da antiguidade, que comiam os alimentos e bebiam o vinho da Páscoa, estarão também no reino celestial, ‘participando à mesa’ de Cristo? Para o esquema doutrinário da organização Torre de Vigia, essa simples idéia é inconcebível. Por isso eles só aplicam sua regra à participação nos alimentos da comemoração, mas não nos da Páscoa.

O motivo básico de o ensino da Torre de Vigia gerar estas questões, é que ele é especulativo, indo além do que o relato declara. Pois o fato simples é que, nem no caso da Páscoa judaica, nem no caso da celebração cristã a participação nos alimentos tem um significado além daquele que a Bíblia define. No decorrer daquelas celebrações, Jesus realmente falou em dois momentos sobre esse “banquete” no céu, mas ele não disse que todas as pessoas que participassem dos alimentos usados em ambas, estariam automaticamente convidadas. No primeiro momento, ele falou apenas de si mesmo como participante da “refeição” no céu. Depois, quando fez o “pacto para um reino” com seus apóstolos, declarou que eles também estariam lá, ‘comendo e bebendo à sua mesa’.

UMA QUESTÃO PERTINENTE: ESTEVE JUDAS ISCARIOTES PRESENTE NA PRIMEIRA CELEBRAÇÃO?

Há quem defenda que Judas estava presente no momento em que Jesus distribuiu o pão e o vinho, assim como há os que defendem o contrário, ou seja, que Judas deixou o local antes disso. Não há aqui o propósito de tentar determinar quem está certo nesta discussão e, aliás, nem há essa necessidade. Mesmo assim, na discussão que segue será mostrado por que isto é pertinente ao assunto tratado aqui.

A razão principal por que não podemos ser taxativos, é que nenhum dos quatro relatos evangélicos especifica o momento exato em que Judas Iscariotes deixou o local. Mateus e Marcos colocam a discussão sobre a traição, bem como o diálogo de Jesus com Judas em algum momento anterior à celebração (Mat 26:21-29; Mar 14:18-21), ao passo que Lucas coloca isto num momento posterior (Luc 22:19-23). E estes três evangelistas não fazem menção alguma à saída dele. João é o único que faz isso (João 13:21-30), mas ele não diz se Judas saiu antes ou depois da distribuição do pão e do vinho, até porque, diferente dos outros evangelistas, ele nem fala sobre essa distribuição em seu relato.

A liderança da Torre de Vigia defende que Judas saiu antes. Para tentar harmonizar esta idéia com o relato de Lucas, a publicação Estudo Perspicaz das Escrituras, Volume 2, página 618, oferece a seguinte explicação:

Judas deixou imediatamente o grupo. Uma comparação entre Mateus 26:20-29 e João 13:21-30 indica que ele partiu antes de Jesus instituir a celebração da Refeição Noturna do Senhor. A apresentação deste incidente por Lucas evidentemente não segue uma estrita ordem cronológica, porque Judas definitivamente já havia partido quando Cristo elogiou o grupo por ter ficado com ele; isto não se ajustaria a Judas, nem teria ele sido incluído no ‘pacto para um reino’. — Lu 22:19-30.

Todavia, essa comparação entre Mateus 26:20-29 e João 13:21-30 não dá qualquer indicação clara que Judas tenha saído antes da celebração. Como já foi declarado, os evangelistas Mateus, Marcos e Lucas nem sequer mencionam que ele deixou o grupo em algum momento. Além disso, a comparação das versões permite até a conclusão de que Jesus teria identificado quem seria o traidor mais de uma vez naquela noite (Compare Mateus 26:23 com João 13:26. Note que a identificação do traidor é feita de maneira diferente nos dois relatos.)   

Ademais, esta hipótese de que “Lucas não seguiu uma estrita ordem cronológica” não tem força alguma. Embora a publicação diga que isso é ‘evidente’, não se apresenta qualquer prova. Eles estão afirmando isso do evangelista que dá mais indicações de ter “pesquisado todas as coisas com exatidão” e ter apresentado os fatos relacionados com Cristo “em ordem lógica” (Luc 1:3). É bem mais provável que o metódico e detalhista Lucas, e não Mateus, tenha seguido uma estrita ordem cronológica em sua narrativa.

A publicação acima reflete a confusão dos assuntos que os líderes da Torre de Vigia fazem. Como já enfatizamos, a distribuição do pão e do vinho, bem como a menção ao “novo pacto”, ocorreram num determinado momento. O ‘elogio’ de Cristo ao grupo, bem como o estabelecimento do “pacto para um reino” ocorreram num momento posterior.

Ter em mente esta seqüência de acontecimentos dá margem à conclusão de que Judas Iscariotes não estava mais presente quando Jesus elogiou os apóstolos e fez com eles o “pacto para um reino”. É mesmo difícil imaginar que Jesus celebrasse esse pacto com um homem que ele sabia que o estava traindo há algum tempo. (João 6:64). Mas isto não impede que Judas tenha estado presente quando Jesus distribuiu o pão e o vinho e tenha saído no intervalo de tempo entre essa distribuição e o momento em que Jesus fez o “pacto para um reino”. Se foi assim que ocorreu, então o relato de Lucas é que está realmente seguindo uma ordem cronológica exata. Embora não queiramos ser dogmáticos, isto é um argumento adicional em favor da idéia de que a participação no pão e no vinho nada teve que ver com o “pacto para um reino”, pois embora Judas Iscariotes possa ter participado dos alimentos, ele não foi incluído neste pacto

POR QUE O “PACTO PARA UM REINO” FOI CELEBRADO?

Esse ‘elogio’ que Jesus fez aos apóstolos esclarece o motivo básico disso. As palavras (registradas em Lucas 22:28,29) são:

 “No entanto, vós sois os que ficastes comigo nas minhas provações; e eu faço convosco um pacto, assim como meu Pai fez comigo um pacto, para um reino,

Portanto, a razão que Jesus apresentou para a concessão desse privilégio a eles foi, não o fato de terem participado do pão e do vinho (pois isso nem entrou na discussão), e sim o fato de aqueles homens ‘terem ficado com ele em suas provações’ (durante o período de seu ministério terrestre e até aquele momento).

Em contraste com isso, o trecho de Lucas 22: 19, 20 torna claro que o significado do pão e do vinho da celebração cristã relaciona-se unicamente ao corpo e ao sangue de Cristo, dados em sacrifício, para possibilitar o “perdão de pecados”. Jesus, como cumpridor da lei, comemorou a Páscoa e participou dos alimentos dela, mas não participou do pão e do vinho da celebração que instituiu. Já que ele não tinha pecados que precisassem ser perdoados, não haveria o menor sentido em ele simbolicamente comer o seu próprio corpo e beber seu próprio sangue.

Quem estabelece esta conexão forçada entre a participação na celebração e a herança do reino celestial são os líderes da Torre de Vigia. Isto é resultante de desconsiderarem o contexto do relato, extraindo um significado que não está lá. Como mostrado na Sentinela de 15 de fevereiro de 1990 (citada acima), eles chegam ao ponto de colocar indevidamente palavras na boca de Cristo, afirmando que ele “disse” algo nesse sentido, quando na verdade o próprio Jesus não fez qualquer ligação de uma coisa com a outra.

Como vimos, além desse “pacto para um reino”, Jesus fez referência a um “novo pacto”, e este sim foi relacionado com a celebração. Mas o que é este “novo pacto”? A quem se aplica? É fundamental examinarmos isso, pois a liderança da Torre de Vigia apresenta um ensino sobre este pacto, que afeta profundamente o entendimento das Testemunhas de Jeová sobre a participação nos alimentos da celebração.



[1] Este fato é reconhecido pela liderança da Torre de Vigia. Sua enciclopédia oficial, Estudo Perspicaz das Escrituras, Volume III, página 394, diz: “Não há evidência de que o próprio Jesus tenha comido o pão assim oferecido, ou bebido do copo durante esta refeição da Comemoração. O corpo e o sangue que ofereceu eram em benefício deles e para validar o novo pacto, mediante o qual os pecados deles foram removidos. (Je 31:31-34; He 8:10-12; 12:24) Jesus não tinha pecado algum. (He 7:26) Ele mediava o novo pacto entre Jeová Deus e os escolhidos quais associados de Cristo.”

 

 

 

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