INTRODUÇÃO

 

 

A

 COMEMORAÇÃO da morte sacrificial de Cristo com o uso dos símbolos do pão e do vinho é a única cerimônia religiosa ordenada especificamente no Novo Testamento. O próprio Jesus, na noite anterior à sua morte, instruiu seus seguidores a realizar regularmente este evento de enorme significado. Conforme a Bíblia indica, os primitivos cristãos acataram essa instrução. E no decorrer dos séculos desde então, tanto cristãos individuais como grupos religiosos organizados continuaram realizando esta celebração e isto é assim até hoje. Grandes e pequenas organizações religiosas fazem isso com regularidade.

Embora todas as organizações cristãs da atualidade tenham um entendimento semelhante quanto ao significado da celebração, há variações na maneira como a efetuam. Não se pode dizer, porém, que estas diferenças sejam profundas. Geralmente elas se referem a aspectos nos quais a própria Bíblia é omissa, tais como a freqüência da realização, o horário, o local e até certos detalhes da cerimônia em si.

A Igreja Católica Romana, por exemplo, já há séculos conclama seus fiéis a comparecerem aos seus templos (ou então a solenidades feitas ao ar livre), nos quais a celebração é realizada diariamente e todos os procedimentos relacionados com o chamado “sacramento da Eucaristia” são bem conhecidos. Não parece haver por parte desta igreja uma preocupação com horários específicos, uma vez que as missas podem ser feitas em momentos bem diferentes do dia.

Os grupos evangélicos diferenciam-se dos católicos no tocante à freqüência. Diversos deles entendem que a comemoração deve ser feita em base semanal. Já a maior denominação pentecostal, a Assembléia de Deus, realiza sua celebração mensalmente. E esta costuma ser também realizada nos templos usados para os cultos da igreja. Todos os fiéis participam do pão e do vinho usados, muito embora a liderança desta igreja não insista que o pão seja sem fermento e o vinho seja puro.

Outros grupos celebram com uma freqüência ainda menor. Os três principais grupos Adventistas e as Testemunhas de Jeová defendem que a comemoração deve ser feita anualmente. Este é também o caso de um bom número de organizações protestantes e evangélicas. Segundo estas ensinam, uma vez que Cristo instituiu a celebração no mesmo dia em que se celebrava a Páscoa judaica e como esta era uma celebração anual, então o sacrifício de Cristo deve igualmente ser comemorado apenas uma vez por ano. Além do mais, de acordo com a Bíblia, a Páscoa judaica era comemorada após o pôr-do-sol e num dia específico do ano, determinado astronomicamente. Como Jesus instituiu a celebração neste mesmo dia e horário, algumas destas organizações insistem na observância destes detalhes.

Cada grupo religioso preocupa-se em apresentar argumentação como base para os procedimentos particulares que segue. Embora não haja aqui a intenção de questionar qualquer destes procedimentos, devemos relembrar o fato simples de que a Bíblia não especifica nenhum deles de maneira clara. O que Cristo fez foi instruir seus seguidores a ‘persistirem’ em realizar o ato ‘em sua memória’, mas, nem nas palavras dele, nem nos escritos apostólicos posteriores, encontramos qualquer diretriz quanto a detalhes tais como “freqüência”, “local” e “horário”.

Com relação ao modo de celebrar, embora haja variações de igreja para igreja, pode-se dizer também que não existe diferença crucial. Todos os grupos fazem uso do pão e do vinho emblemáticos e todos entendem que estes têm ligação com o corpo e o sangue de Cristo, dados em sacrifício. Talvez a maior diferença neste caso seja entre o ensino católico romano e o dos demais grupos. De acordo com a doutrina católica, ocorre a “transubstanciação” no momento da celebração, isto é, o pão (chamado de “hóstia sagrada”) e o vinho tornam-se realmente o corpo e o sangue de Cristo. Esta idéia se reflete em detalhes do ritual católico. Os demais grupos religiosos discordam desse ensino e argumentam que, embora os símbolos devam ser tratados com respeito, eles nada mais são que uma representação da realidade, não ocorrendo, portanto, essa transformação milagrosa.

Diferenças à parte, o fato é que o conceito de participação comum está nitidamente presente nas cerimônias realizadas pela grande maioria dos grupos religiosos. Os diversos termos associados à celebração, tais como, “ceia do Senhor” e “comunhão cristã”, sugerem algo feito em grupo, com a participação de todos os presentes e com o objetivo de celebrar alegremente um evento da máxima importância para a família cristã.

Convite para a Comemoração de 2007

As Testemunhas de Jeová também aceitam que a cerimônia está relacionada primariamente com o sacrifício de Cristo, o qual abriu à humanidade a perspectiva de vida eterna. Assim como os demais grupos religiosos, elas se utilizam dos símbolos bíblicos do pão e do vinho e fazem todo o esforço de convidar o maior número possível de pessoas interessadas a comparecer aos seus templos (chamados de “Salões do Reino”) por ocasião do evento. Um detalhe que chama a atenção, porém, é que, diferente das demais igrejas, na celebração que elas realizam nem todos participam do pão e do vinho. Na realidade, qualquer convidado que for a uma celebração promovida pelas Testemunhas, notará imediatamente que, na grande maioria dos locais, nenhum dos presentes come o pão ou bebe o vinho. Estes símbolos apenas circulam de mão em mão dentro do recinto onde se realiza a reunião.

Alguns poderiam dizer que este procedimento pode ser colocado na mesma categoria dos mencionados acima, ou seja, como algo que não é tão crucial assim, sendo apenas uma modalidade particular da celebração que uma determinada igreja resolveu seguir.

Há, contudo, motivos válidos para examinarmos isso. Em primeiro lugar, para muitos cristãos, a questão da participação ou não nesses alimentos está numa categoria bem diferente das questões referentes a local, horário, etc. De acordo com estas pessoas, a participação é algo intrínseco à celebração; sem isso ela perde o sentido. E é justamente neste particular que as Testemunhas vão “na contramão” dos outros movimentos cristãos.

Mas não é só pelo fato de as Testemunhas procederem de modo contrário aos demais grupos que esta análise é importante. Na verdade, não foram elas que estabeleceram esse procedimento com base na leitura da Bíblia. Se fosse assim, toda Testemunha de Jeová saberia explicar facilmente por que não faz isso. Mas não é o que acontece. A grande maioria delas simplesmente veio a aceitar o que sua entidade controladora, a organização Torre de Vigia ensina sobre o assunto. É por isso que quando alguém de fora da organização pergunta a uma Testemunha por que os membros de sua religião evitam comer o pão e beber o vinho, dificilmente a Testemunha tentará dar uma resposta baseada unicamente na Bíblia. O mais provável é que ela dirija a atenção da pessoa para o que diz uma das publicações da organização que trata do assunto, ou mesmo encaminhe a pessoa para um ancião da igreja ou outro membro mais “qualificado” para responder. E mesmo esta outra pessoa certamente usará as explicações que aparecem nas publicações, para dar uma resposta autoritativa.

Veremos que existe todo um conjunto de ensinos por trás disso. E qualquer um que se ponha a examiná-lo, notará que a argumentação é bem diversificada. Com toda a certeza, os líderes da Torre de Vigia não consideram isso como um detalhe de somenos importância, pois defendem esses ensinos com freqüência e muito zelo.

Qual é então o fundamento doutrinário desse procedimento seguido na comemoração promovida pela Torre de Vigia, que faz com que as Testemunhas de Jeová se sintam proibidas de fazer algo que os membros das outras igrejas fazem com tanta naturalidade?

 

 

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